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Ana Claudia Camargo
Ana Claudia Camargo
Especialista em Traduo/Interpretao e Ensino de Libras
Traduo interlingual - Anlise dos procedimentos tcnicos de traduo de lngua portuguesa para libras do CD-ROM as aventuras de pinquio
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Publicado em 2010
II Congresso Brasileiro de Pesquisas em Traduo e Interpretao da Lngua de Sinais
Ana Claudia Camargo
Elizabeth Figueira
Magaly de Lourdes Serpa Monteiro Dedino
Mnica Conforto Gargalaka
  Artigo dispon�vel em vers�o PDF para utilizadores registados
Resumo

A tradução envolve a relação entre diferentes códigos, culturas e intenções. Diante da escassez de estudos sobre os procedimentos de tradução da literatura em língua portuguesa para libras, o presente trabalho tem como finalidade analisar os procedimentos técnicos de tradução usados pelo tradutor Nelson Pimenta durante a tradução para Libras do texto “As aventuras de Pinóquio” da Coleção Clássicos da Literatura em Libras, adaptado da obra de Carlo Lorenzini e apresentado em CD-ROM que acompanha a publicação. A análise foi realizada mediante escolha de frases aleatórias à luz dos estudos dos procedimentos de tradução/interpretação descritos por Barbosa (2004) identificando as escolhas dos procedimentos, aplicabilidade e possibilidades de uso numa tradução interlingual.

Introdução

A tradução interlingual envolve a atividade humana realizada através de estratégias mentais empregadas na tarefa de transferir significados de um código lingüístico para outro. Essas estratégias são denominadas também de procedimentos técnicos de tradução. Segundo Heloisa Gonçalves Barbosa, em seu livro “Procedimentos Técnicos da Tradução” (2004) há treze categorias de procedimentos, são eles: tradução palavra por palavra ou literal, transposição, modulação, equivalência, omissão e explicitação, adaptação, compensação, reconstrução de períodos, melhorias, explicação e decalque e acréscimo.

Apresentaremos uma síntese conceitual de cada procedimento indicado anteriormente. A tradução palavra por palavra segue a mesma ordem sintática, a tradução literal se diferencia um pouco, pois há uma adequação morfossintática. Na transposição há a mudança de categoria gramatical do léxico usado pelo tradutor. Na modulação há um respeito à forma como as línguas interpretam o real e na equivalência buscam-se os constituintes funcionalmente análogos. O procedimento de omissão vs explicitação é dependente da característica gramatical de cada língua, sendo em algumas necessário explicitar ou omitir algum elemento. A reconstrução em períodos é a característica própria de cada língua de reorganizar e dividir as informações em maiores ou menores períodos. Melhorias são ações do tradutor no sentido de não repetir o erro do original e a transferência ocorre quando se mantém a expressão da língua original. Na explicação o tradutor usa como uma nota de rodapé e no procedimento de adaptação há uma adequação à cultura da língua alvo. O tradutor na sua atuação profissional precisa estar consciente das diferenças lingüísticas e das possibilidades de uso desses procedimentos.

Quais e como se aplicam esses procedimentos numa tradução da língua portuguesa para uma narrativa em Libras? Qual é o efeito das escolhas dos procedimentos na interpretação? Quais são os recursos utilizados da gramática de Libras que contribuem para entendimento do texto em português?

A análise da tradução feita por Nelson Pimenta no CD_ROM as aventuras de Pinóquio possibilita a identificação dos procedimentos técnicos de tradução da língua portuguesa para língua de Sinais Brasileira. Devido a divergência de modalidade e estilo entre o texto em língua portuguesa e Libras o tradutor fez adaptações sócio-culturais e lingüísticas que exigiram além dos procedimentos técnicos, recursos da gramática de Libras como incorporação de personagens, uso dos espaços mentais descritos por Moreira (2007) e expressões não manuais que contribuem de forma significativa para a descrição do cenário e percepção de elementos não textuais presentes no texto que dificilmente seriam percebidos numa tradução literal.

Método

O material foi analisado através de glosas possibilitando estabelecer relação entre o texto em português, a imagem da sinalização em libras e sua transcrição. O que proporcionou uma ampla reflexão sobre as possibilidades de tradução e os procedimentos que melhor servem a uma tradução interlingual. A análise teve como suporte teórico os estudos de Barbosa (2004), com a complementação de Aubert (1994), Felipe (1998) e Moreira (2007).

Foram escolhidas frases aleatórias onde se observou quais procedimentos técnicos da tradução descritos por Barbosa são utilizados e acrescentados à análise os estudos teóricos sobre a gramática de Libras. As frases foram dividas em partes significativas, porque na língua de sinais há marcações não manuais e simultaneidade que são fundamentais para o entendimento do texto, onde o tradutor por vezes deve expandir usando mais recursos ou comprimir os sinais para garantir fidelidade semântica ao texto original. Dessa forma a análise segue o seguinte modelo de apresentação:

Texto em língua portuguesa.
Imagens da produção em língua de sinais brasileira.
Glosa: transcrição da libras para a língua portuguesa.

Discussão

A primeira cena analisada é precedida pelo desejo de Gepeto ter um filho. Ele olha para o boneco de madeira e diz: “serás meu filho”.
A frase analisada é “Naquela noite uma fada visitou a oficina de Gepeto”.
A frase foi dividida em três partes:
Naquela noite / uma fada visitou / a oficina de Gepeto.
A escolha dessa divisão se justifica porque na análise da tradução para Libras percebe-se que o tradutor faz uma reconstrução de período da mesma. Segue a ordem: naquela noite – a oficina de Gepeto - visitou uma fada. Essa escolha deve-se ao fato da necessidade de construir um cenário que possibilite o acesso à “mágica” da cena. Algo extraordinário aconteceria. O tradutor também usa o procedimento de acréscimo (explicitação) na descrição da cena através do uso de sinais que não constavam do texto original em Português.

Primeira parte (figura 1)

Na primeira sentença o tradutor acrescenta a informação que a noite estava muito estrelada através dos sinais ESTRELA@-VÁRIAS-NO-CÉU detalhando uma visualização do cenário. Levanta a cabeça e direciona o olhar indicando o espaço, como se estivesse olhando o céu de uma janela conferindo estética poética à narrativa usando a repetição, simetria e equilíbrio como descreve Quadros (2006) em seu artigo. Através desse recurso o tradutor conseguiu manter-se fiel a mensagem original através do processo de modulação (trazer a informação do texto original considerando o modo como as línguas interpretam a experiência do real, no caso dos surdos a importância da construção visual do cenário).

Na segunda e terceira sentenças é que ocorre a reconstrução do período. O tradutor continua olhando o céu de onde uma estrela vem se aproximando até a oficina de Gepeto para somente depois acrescentar a informação que essa estrela é uma fada.

Segunda parte (figura 2)

No processo de construção da glosa em Libras observou-se a diferença de estrutura entre ambas as línguas. Na tradução surge uma série de sinais descritivos que não estão presentes no texto original, mas são essenciais para o entendimento do mesmo. Aqui o tradutor usou vários procedimentos como equivalência, adaptação, omissão e explicação e compensação como descrito abaixo:

O tradutor optou por continuar a narrativa usando o espaço real que já havia demarcado para indicar o movimento da estrela até a oficina nota-se o uso da expressão facial para demonstrar a surpresa e encantamento do movimento. O movimento sibilante dos dedos chamou atenção pela adaptação que o tradutor fez de uma modulação de voz que ocorreria caso a história estivesse sendo lida. Schreiber (1998) define a adaptação como adequação à cultura de chegada com manutenção de equivalência situativa. Assim, as possíveis modulações de voz numa situação de contação de história para ouvintes seriam supridas por esses movimentos repetitivos, na contação de história para crianças surdas.

O tradutor faz o movimento da aproximação da luz da estrela, mas não revela no primeiro momento que se trata de uma fada, nesse caso o tradutor faz uma omissão de conteúdo do texto original. Conforme a luz se aproxima há uma ênfase na expressão facial que gera expectativa no receptor, há possibilidade dessa omissão ser proposital. Há também uma omissão do léxico. A palavra visitou não aparece na tradução e foi substituída pelo movimento direcionado do céu até a oficina.

Terceira parte (figura 3)

Na terceira sentença o tradutor troca o enfoque do personagem (estrela/fada) para o lugar, segundo espaço real de sinalização, dando início a explicação de onde está, usando para isso os sinais LUGAR-AQUI-TRABALHAR-GEPETO-CONSERTAR-COISAS que estaria traduzindo a frase “a oficina de Gepeto”. Ele interrompe a descrição e indica o espaço com apontamento (aqui), como se fizesse um parêntese na narração.

Depois da explicação, o tradutor retoma o personagem fada utilizando um recurso muito interessante: ele comprime as mãos fechadas em “A” palma a palma (chama atenção para forma pela direção e intensidade do olhar - morfismo) em seguida abre com os dedos sibilantes demonstrando a materialização da fada, um recurso frequentemente usado em poesias visuais, esse procedimento é chamado de compensação (Barbosa, 2004).

As expressões e direção do olhar são um ponto que merece destaque nessa análise. Expressões faciais e corporais podem complementar os itens lexicais estabelecendo contexto (Felipe, 1998). A ênfase do olhar nas mãos faz um recorte no cenário que poderia ser traduzido como uma entonação maior de um momento crítico no texto original (a aparição da fada). Os olhos estão fixos nas mãos durante todo o processo de transformação, até a incorporação do tradutor na fada, fazendo o movimento de sua varinha. Essa incorporação do personagem é o que Moreira (2007) chama de uso do espaço sub-rogado, também é verificado que há manutenção dos espaços anteriormente determinados.

A equivalência aparece em todo o processo de tradução da segunda e terceira sentenças quando são substituídos os termos de português por sinais e expressões que apesar de não existirem na língua original garantem equivalência de sentido.

Após a incorporação da fada pelo tradutor, ele faz a digitação F-A-D-A identificando-a e finalizando a frase olhando para a varinha, voltando o foco de atenção ao objeto mágico. Só o direcionamento do olhar para a varinha acrescenta informações para complementar a mensagem garantindo sua beleza plástica e o lúdico da história.

Resultado

As escolhas dos procedimentos de tradução foram acertadas, o tradutor conseguiu transmitir a mensagem de forma satisfatória com riqueza de detalhes. Foi possível visualizar o cenário onde ocorreram os fatos, a posição dos personagens e seus movimentos através da definição clara dos espaços e da incorporação feita por ele. Conseguiu passar elementos não textuais (emoção, suspense, surpresa, satisfação, etc.) através das adaptações feitas e dos recursos não manuais utilizados, não houve desvio que comprometesse o conteúdo da mensagem. A fidelidade da mensagem não se refere apenas à tradução do conteúdo léxico da mensagem. A tradução interlingual refere-se, também, a intenção comunicativa e não apenas aos procedimentos e técnicas, segundo Aubert (1994) numa tradução o tradutor deve adequar a técnica às expectativas, necessidades e possibilidades dos receptores finais, no caso a priori, crianças surdas. Com esses destaques analisados do trecho recortado, fica exemplificado quais e como são utilizados alguns procedimentos técnicos da tradução da língua portuguesa para a língua brasileira de sinais.

Nelson Pimenta conseguiu através dos recursos utilizados da gramática da Libras enriquecer a interpretação. As adaptações feitas por ele “sonorizaram” a história, garantindo acesso à beleza da história e do universo imaginário infantil.

Bibliografia

ALBRES, Neiva de Aquino. NEVES, Sylvia Lia Grespan. De sinal em sinal: comunicação em LIBRAS para aperfeiçoamento de componentes curriculares, São Paulo. Feneis, 2008.

ALBRES, Neiva de Aquino Cadernos de estudos da disciplina Teoria e Prática da tradução e interpretação de Lingua de Sinais, FAAG, 2010.

AUBERT, Francis Henrik. As infidelidades da tradução: servidões e autonomia do tradutor. Campinas- SP, editora da Unicamp, 1994.

BARBOSA, Heloisa Gonçalves. Procedimentos técnicos da tradução: uma nova Proposta, editora Pontes, 2004.

COLLODI, Carlo, As aventuras de Pinóquio. Coleção Clássicos da Literatura em LIBRAS/Português - Volume III Tradução de Ana Regina Campelo e Nelson Pimenta. Rio de Janeiro, Editora Arara Azul, 2003.

FELIPE, Tanya Amara, artigo. O Signo Gestual-Visual e sua Estrutura Frasal na LSCB em, http://letrasdigitaisufpe.blogspot.com

MOREIRA, Renata Lucia. Uma descrição da dêixis de pessoa na língua de sinais brasileira (LSB): Pronomes pessoais e verbos indicadores. Relatório de pesquisa para qualificação em linguística. Pós-graduação em Semiótica e Linguística geral. Faculdade de Filosofia, Ciências, Letras e Ciências humanas. São Paulo: USP 2006.

QUADROS, Ronice Muller, artigo: “Poesias em língua de sinais: traços da identidade surda”, Estudos surdos I, editora Arara Azul, 2006.

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