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Gladis Perlin
Gladis Perlin
Professora e Investigadora
O ouvinte: o outro do outro surdo
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Publicado em 2003
Anais do II Seminrio Internacional Educao Intercultural, Gnero e Movimentos Sociais. Florianpolis: Fapeu-002
Gladis Perlin
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Resumo

Dependendo de quem define e de quem definido, as diferenas apresentam formas que no necessariamente representam o Ser nas formas autnticas daqueles que esto sendo definidos. Assim, vamos buscar definir o Outro(s) ouvinte(s) para o Outro(surdo). Percebese que o(s) ouvinte(s), muitas vezes, desconhece as representaes que o(s) surdo(s) tem do(s) prprio(s) ouvinte(s). A proposta caracteriza-se, portanto, no exerccio da inverso lgica identificando as nuances do Outro atravs dos discursos surdos. Para os surdos, este mundo se aventura entre o outro ouvinte, os outros surdos do colonialismo e o ser surdo no ps-colonialismo, momento em que se desenrola a causa sociocultural surda. prprio do ouvinte mover-se numa cultura que o limite oferea a condio de sua existncia individual.

O outro para os surdos

Focalizar a existencia do outro ouvinte se apresenta como estratégia nova diante da filosofia pós moderna, uma vez que o ouvinte também é o outro. Naturalmente, entre as diferentes supostas minorias, o modernismo, bastante presente, vai decaindo devido a crise dos fatores do colonialismo radicado a muitos séculos. A filosofia pós moderna e os estudos culturais tomam sua grande oportunidade histórica para a emergência das diferenças que secularmente nos brindam com constantes desvios e intercâmbios epistemológicos que se produzem entre os discursos e os diferentes movimentos culturais.

É “natural” aos surdos presenciar situações tocantes devido a rupturas da diferença do ser surdo e do ser ouvinte. Rupturas que tendem conter as estratégias de ser o outro na essência cultural. Rupturas que se compõem no ser o outro, no projeto da modernidade ou no projeto do outro anormal. Para ilustrar, pretendemos citar aqui, um fato constatado entre as narrativas surdas além de outros afinitos sempre presenciados e experienciados e que determina este “ser outro ouvinte” na sua superioridade estabelecida pela normalidade. “Em nosso grupo de surdos, o ouvinte que apoiava tinha mostrado anteriormente uma
bela, intensa, sincera e radical defesa em torno do ser surdo e de sua causa social . Noutro momento em que estávamos cercados pela maioria ouvinte, como por encanto, a defesa do ouvinte que estava ao nosso lado, tornou-se frágil, rompeu-se como se fora um delicado frasco, misturou-se a posição hegemônica dos ouvintes. Na sua intenção de ser aquele que dizia apoiar a nós surdos, de repente nos traiu e pegou o mesmo espírito colonizador do grupo ouvinte e não pode ficar do nosso lado como pretendia, prometia, e teimava desde sempre ficar” (trechos de narrativas de surdos). O que podemos identificar neste relato? A essencialidade cultural na qual se inclui o ouvinte e da qual ele teme ser excluído, a experiência da normalidade na qual ele é superior e se ela se diluir se exclui dessa superioridade. E, igualmente, a natural segurança epistêmica e o problema da invenção do outro a partir de si.

É próprio do outro ouvinte mover-se numa cultura que o limite e ofereça a condição de sua existência individual? O que faz com que o ouvinte se socorra desta especificidade de uma cultura particular ao considerar que qualquer que seja seu lugar na sociedade, todos aqueles que pertencem a essa cultura levam de alguma maneira sua marca e ele se espelhe nela?

Uma pergunta mais surge no enredo: Quem é este outro ouvinte? Para termos uma noção sobre este ouvinte que se instaura num processo teórico moderno, podemos considerar, pelo menos, duas facetas: a da experiência e a da essência.

Quanto à experiência, há uma designação de uma formatação do ser surdo, um passar a ser o outro surdo. Skliar (2002) em uma palestra 2 levantou uma discussão sobre a questão da experiência. Nós surdos nascemos num povo de ouvintes e nos transformamos em surdos. Na verdade tudo parte de uma reflexão geral sobre o que é que o termo “ser surdo” provoca. Ser surdo significa uma palavra que parece simplesmente se desenrolar. Então, parece que o que define o processo de ser surdo não é especificado por tempo de formação, de transformação, mas o ato de estar sendo surdo agora. Mas existe o ato de transformação que se desenrola continuamente a partir da experienciação do estar sendo surdo.

O surdo trabalha sua transformação no sentido de Ser surdo, isto é a experiência que ele está vivendo que pode estar acontecendo de três diferentes formas:

  • A experiência de estar fazendo no ato de transformar-se, ou seja, faz-se experiências no contato com a essência que está no outro surdo. É um ato de ir construindo a identidade, ato que permite novamente colocar a descoberto as identidades nunca prontas, fragmentadas, em continua construção;
  • A experiência exportada no ato do surdo dar ao outro surdo a partir de sua experiência do estar sendo surdo com suas respectivas identidades relacionadas com a dependência, com a necessidade do outro igual;
  • A experiência de resistência ou fragmentação que acontece nas trocas com ouvintes.

Geralmente, admitir isto é discutir nossa própria experiência como surdos. Tem a ver com o pessoal, com a individualidade ou a experiência de quem vai assumir/assumiu o ser o outro surdo, mas não se diz nada sobre a experiência de quem é surdo nesse tempo dessa formação. Manifesta-se na formatação do programa vir a ser surdo. É a nossa experiência, a que vai aí dentro do programa do vir a ser surdo proposto pelo povo surdo que tem outra cara. É uma experiência criticada, justamente porque faz parte do conteúdo desse programa que a gente está vivendo e o ouvinte não admite. Retomamos então o problema do ouvintismo 3: a “experiência ouvinte é a única que vale”. Mas digamos que o problema da experiência do ser surdo é essa experiência: a experiência do ouvinte. A experiência vivida pensada pelo próprio surdo é maior, ela refere a respeito da experiência dos outros surdos que tem a ver com essa responsabilidade ética de um povo que a gente tem, que une com o outro.

Skliar (2000) sublinha ainda duas experiências: a Experiência Vivida e a Experiência Pensada. Considerando os surdos, a experiência que é só vivida seria a que o surdo vai vivendo no dia a dia. Por outro lado, a experiência que é só pensada se refere aos líderes, aos ativistas, aos militantes surdos, ao engajamento na cultura surda, que implicam as experiências vividas.

A experiência supõe uma metamorfose e não uma metástase em vista do ser. E uma metamorfose leva a estar sendo e ser. Assim, a experiência vivida é aquela da maioria dos surdos, a experiência pensada é a mais centrada nesta troca com o outro, neste ato de ser com a responsabilidade ético/cultural de um povo. Há muitos ouvintes que criticam esta atitude dos surdos líderes que na maioria das vezes assumem uma atitude em experienciação ao batalharem em significados para formar seu povo, sua cultura. Inerentemente os ouvintes criticam os surdos quanto à acusação de acomodação, algo que não é de hoje, mas que foram induzidos nos diferentes momentos históricos, igualmente entra em jogo a acusação de que a língua de sinais é pobre em expressividade e conteúdo.

Nesse sentido, pensar nos ouvintes a partir dos surdos, é pensar a experiência vivida e a experiência pensada pelos surdos diante e com os ouvintes. Os ouvintes chegaram e chegam a representar a tentativa de extermínio dos surdos. Ao se mencionar o ouvintismo como problema, estamos chamando a atenção para todas as experiências vividas e pensadas com os ouvintes, mesmo quando os surdos foram excluídos da tomada de decisões. Os ouvintes exterminadores são os que tentam acabar com a língua de sinais e com todos os tipos de manifestações culturais advindas dos grupos surdos. Ao longo da história, sempre tivemos tais experiências (os movimentos pelo oralismo; os programas de educação com base na língua falada; os avanços da medicina, tais como os atuais implantes cocleares). Há também outras experiências vividas e pensadas pelos ouvintes no convívio com os surdos, os ouvintes que se engajam nos movimentos políticos surdos, por exemplo.

Quanto à essência, Silva (2000) diz que o essencialismo é a tendência a caracterizar certos aspectos da vida social de um povo como tendo uma essência ou núcleo natural ou cultural fixo ou imutável. Hoje não se descarta o hibridismo cultural devido a presença da globalização e um essencialismo estratégico. Segundo Bhabha (1998), um essencialismo estratégico é necessário quando se trata de preservar a identidade de um povo contra um hibridismo cultural, uma diluição cultural face a globalização.

A essência se refere a identidade. O surdo precisa da essência para dar referência aos significados que constituem sua cultura, sua naturalidade como um povo e os aspectos que tornam este povo diferente de outro povo. Os surdos enquanto povo surdo têm necessidade da essência cultural que identifica a diferença. Esta essência também se distingue quando falamos de identidade surda.

Os ouvintes, no afã da experiência ouvinte ser a que vale, buscam nos outros a possibilidade de expressão da essência ouvinte. Nesse processo há ouvintização, pois acredita-se ser o melhor. Esses ouvintes estão enganados quanto as experiências surdas. Assim, para esses ouvintes a lógica da civilização é a que impera, ou seja, onde a civilização é a fala, a escuta, a leitura. Nesse ponto, o ouvinte se converte num “colonizador” e diante do outro surdo coloca uma falta, uma deficiência, uma menoridade, uma menos valia social. Isso acontece em um mundo em que a escrita e o raciocínio que constitui o poder sobre as leis, identidades, representações, determinações são baseadas na fala. A partir disso, atribui-se ao outro surdo adjetivos degradantes, deprimentes, tais como: minoria lingüística 4, minorias, menos válidos por não ser iguais aos ouvintes, incapacitados, desabilitados, necessitados de “ter a fala como o ouvinte tem”.

Este modo de ser na experiência como outro ouvinte, na posição da sua alteridade cultural leva, também, a outros caminhos: (a) a diferença de ser: este ouvinte é o outro que experiencia a fala, a escuta, a leitura, a lógica de ser ouvinte e (b) a alteridade que este ouvinte não tem: ele é um “privado” de ter tentativas de sinais expressivos para tudo. Um privado de experiências visuais para tudo. Os outros ouvintes são os outros “não capacitados” para inventar uma língua de sinais na sua originalidade, de criar uma cultura exclusivamente visual.

Todos os mecanismos disciplinares de ser ouvinte contribuem para criar um perfil do ouvinte em suas conotações de normalidade. Em sua dimensão de normal, inspirado na concepção de Michel Foucault, como conseqüência do poder torna difícil entender o surdo com outros processos. A invenção do outro anormal está ligada a este processo da normalidade. Não é possível no mundo constituído pala normalidade admitir o anormal sem uma profunda crise devido aos conhecimentos ideológicos gerados por esta normalidade. A concepção deste primeiro estado do ouvinte é a idéia de ausência de audição, a idéia de selvagismo que pode advir da não utilização da fala, da leitura e da escrita na forma do ouvinte. Longe dela, ficam as concepções em contrário. Este ato remete ao outro uma parte do que reside nele próprio e daí a transferência de atribuir ao outro algo do que já é simbólico em si mesmo. Esta posição não introduz ainda a alteridade de ser o outro diferente.

A tarefa dos surdos é fazer visíveis os novos mecanismos de produção das diferenças em tempos de globalização. Nesse sentido, o desafio maior é uma descolonização das ciências quanto aos referentes.

A experiência de ser surdo remete a uma posição que, na realidade, é detentora de um desenvolvimento onde a vida é o espaço que se desenrola na sua realidade sem os problemas que os ouvintes lhe atribuem. As narrativas surdas prosseguem: este ser surdo, esta experiência de ser não tem aquilo de anormalidade que os ouvintes referem constantemente. O erro ouvinte está em colocar o problema na falta da audição e acreditar que a dependência do surdo da audição lhe coloca situações de anormalidade. Nós surdos sentimos que nada há em falta sendo o que somos.Estamos na civilização da língua de sinais, uma civilização que tem seus próprios valores e produção de significados que fazem a desmistificação da anormalidade ou deficiência.

A afirmação das diferenciações do outro ouvinte está continuadamente especificada através das narrativas dos surdos e é colocada como uma marca de diferenciações ainda mais perpetrantes no dia a dia. A atitude de diferenciar induz a colocar o outro na forma vazia de si. Diferenciar também implica numa situação de proximidade, de outro de coação, de eliminação do outro. O problema é de quem traduz os significados. O surdo e o ouvinte praticam o ato da diferenciação. Assim, o cotidiano dos surdos confronta diferentes tipos de ouvintes que procuram se aproximar dos surdos com objetivos de uma fabricação da própria posição.

Quem é este outro ouvinte? O ouvinte representa a lógica da civilização em que há fala, há escuta, há leitura e há a parte de domínio do mundo real, a escrita, o raciocínio que constitui o poder sobre as leis, identidades, representações, determinações. O outro ouvinte, na posição da alteridade surda cultural também evidencia a diferença de ser: este ouvinte é o outro que experiencia a fala, a escuta, a leitura, a lógica de ser ouvinte e a alteridade que este ouvinte não tem, ele é um “privado” de ter tentativas de sinais expressivos para tudo. Um privado de experiências visuais para tudo. Os outros ouvintes são os outros “não capacitados” para inventar uma língua de sinais na sua originalidade, de criar uma cultura exclusivamente visual.

A seguir, apresentamos algumas das representações do outro ouvinte que pudemos identificar nas experiências vividas pelos surdos.

Primeiro 5, existe o ouvinte que não entende nada dos surdos, não entende nada de língua de sinais, o qual os surdos referem nas narrativas dessa forma, entre outras: Não adianta para nós, eles não entendem nada de surdos explicamos tudo e eles voltam com mesma idéia sempre. O que leva a esta indiferença? Impera o que podemos citar como “ignoração” do outro, como transformar o outro em “ausência”. Essa forma de “sedimentação” ouvinte não consegue ouvir além de si e de seu mundo, de sua normalidade, não consegue ouvir a alteridade do outro surdo. As narrativas surdas seguem de outras formas: em nossos cursos de formação de professores acontece, depois de horas e horas de aula, depois de meses sob forte esquema de representação da diferença surda, de aulas de língua de sinais com professores surdos, alguns ouvintes nos vomitam de novo: "deficiência”, “deficiente auditivo”, “surdo-mudo” ou indagando se são válidos certos aspectos da cultura surda, como por exemplo a escrita de sinais... nada aprenderam de sinais que foram ensinados, deixando os instrutores surdos indignados. Não aprendem dos surdos, não entendem o que é ser surdo, mesmo ao aprenderem alguns sinais com os próprios surdos.

Nas narrativas surdas, temos também aquele ouvinte que convive com surdos, mas que nem sequer se preocupa em dominar a língua de sinais, sua necessidade é transmitir de si sua reprentação, como aquele que quer a todo custo trazer o surdo para sua religião, sua música, sua língua, sua oralidade. Algumas narrativas citam que os surdos se sentem ir aos arrastões... que não são capazes de discernir a tempo porque é melhor assim que nada...

Há uma preocupação por parte desses ouvintes em convencer os surdos de que suas experiências ouvintes são fundamentais para os surdos. O que é importante, o que é bom, o que representa sucesso, o que se entende por desenvolvimento está diretamente associado ao ser ouvinte. Assim, os surdos devem ser ouvintes. As experiências mais exdrúxulas para os surdos desse tipo de colonialismo estão relacionadas com a música. Há experiência mais auditiva do que curtir uma música? Claro que há ouvintes que querem ensinar música, mas tão entranhadamente que querem ensinar só música e para isto sabem alguns sinais... E aprendem estes sinais para ensinar só isto. E como o surdo não tem escolha, tem este tempinho, esta atenção do ouvinte e de tal forma que a transforma em lazer... Aceita e vai...(trecho de narrativas de surdos). Esses ouvintes podem até ser bons conhecedores da língua de sinais utilizando-a como meio para persuasão dos surdos para o que eles acreditam ser o melhor. Nesse sentido, identificam-se ouvintes fazendo uso da língua de sinais para convencer os surdos de sua inferioridade diante do que se compreende ser o melhor, ou seja, o modelo ouvinte.

Há a diferenciação do outro ouvinte que a partir de conceitos feitos pelos surdos introduzem algumas mudanças, porém percebe-se a continuidade da sedimentação com base na oposição normalidade-anormalidade. As narrativas surdas a este respeito identificam o problema da idéia do outro surdo: Estes professores só querem diploma para ter em mãos 50% de aumento. Não dá, deve-se exigir a mudança, o estudo, a captação da idéia; estes ouvintes são uma acomodação... Ou ainda os surdos narram: Há ouvintes que aprendem alguns sinais e ficam apenas nisto, não evoluem, não aprofundam o conhecimento da língua. Os ouvintes indiferentes são aqueles que desconhecem os surdos.

Para eles, os surdos são “anormais”. Vigora a dicotomia, no sentido de Foucault, da normalidade-anormalidade. Esses ouvintes são aqueles que quando envolvidos com surdos estão por outras razões que não estejam relacionadas com as perspectivas surdas. O estão por estar. Neste caso, estão por ter ganhos profissionais com isso, mas o que não implica em conhecer o Outro surdo, mas sim em manterem sua condição dentro da dicotomia em que se inscreve uma percepção dos surdos equivocada com base na anormalidade. Para os surdos, estes ouvintes são os mais complicados de discutir e refletir sobre o Ser surdo, pois a visão do surdo está diretamente associada com incapacidade, incompetência, impossibilidade dentro de uma concepção determinista da condição do ser com base na normalidade ouvinte.

Tem, também, aqueles ouvintes ‘simpatizantes’ aos surdos, que geralmente são poucos e que também se constituem de diferentes formas. Entre eles estão aqueles que, simpatizando com os surdos tentam aprender um pouco a língua de sinais para se comunicar com os surdos, tipo aquele que sabe fazer alguns sinais. Estes ouvintes estão por toda parte, são ouvintes especiais. Consideram o surdo como o “outro que está aí”. As narrativas surdas seguem: Gosto de ir lá naquela loja, porque tem aquela pessoa que sabe um pouco de língua de sinais e se comunica comigo.

Há também aqueles outros que simpatizam com os surdos e se impõem, pois se acham melhores que eles. As narrativas prosseguem: mas estes ouvintes fazem pelos surdos, fazem tudo, tem quem luta com objetivo de se promover, não importa se é o surdo que está do lado deles, puxam os surdos: conseqüência surdos acomodados, leis que não combinam. Estes são aqueles que nós surdos podemos dizer que não são dos nossos, querem se promover, precisa muito cuidado pois são assim mesmo.

Há ainda aqueles outros ouvintes que fazem “caridade”. Abrem espaço para os surdos, mas não incentivam os surdos a pensar, pois continuam sendo o centro, os fazedores de tudo.

Por fim, mas sem encerrar outras possibilidades, há aqueles outros ouvintes que admitem a alteridade, a diferença de "ser surdo". Junto a estes, os surdos estão alcançando uma maior tolerância e encontram mais espaço para a produção simbólica da cultura surda e possibilidades maiores para continuar sua distinção social como surdos. Além de narrar e defender a alteridade surda, também entram na causa social surda incentivando os surdos para a política da diferença e a conquista do seu espaço cultural, ou seja, espaço de novo 6 desenvolvimento cultural. As narrativas surdas prosseguem a respeito deles: são aqueles que nós surdos podemos dizer são dos nossos, tem nossa confiança, nosso respeito. Os ouvintes filhos de pais surdos, bem como os irmãos, os pais parecem pertencer a última relação pois compartilham muito da experiência visual dos surdos. No caso dos filhos de pais surdos, eles compartilham as experiências visuais dentro dos grupos surdos de berço, ou seja, vivem os encontros surdo-surdo com suas manifestações culturais mais profundas. Adquirem a língua de sinais como língua materna. Vale considerar que mesmo assim, esses ouvintes, assim como alguns surdos, podem ser indiferentes pelas características do colonialismo que os ouvintes lhes infundiram, outros fazem um trânsito de aceitação entre as duas formas de manifestações culturais (ouvinte e surda). Outros ainda, entram na política surda e são tidos como continuadores do movimento surdo. Resta ver que os ouvintes filhos de pais surdos podem transitar entre as diferentes categorias considendo-se suas experiências individuais e as experiências de seus próprios pais surdos.

Reflexões inquietantes - movimentos para a diferença

Chegando o momento de concluir, olhando o outro ouvinte, nos encontramos assim diante da insignificante minoria de “outros ouvintes” aceitarem as narrativas, a situação e as características da causa social surda. Nossa posição é a de assumir uma atitude crítica. Estamos dizendo que em relação aos surdos, estes não são menos amigos da maioria “outros ouvintes” por criticá-los em certos procedimentos. Na verdade, os surdos vivem com os ouvintes, fazem intercâmbio de conhecimento com eles e não negam isso. No entanto, percebemos que os surdos passam a ser alvo de críticas ao assumirem uma postura surda, pois é mais prático ao outro ouvinte continuar este domínio de superioridade enquanto “o outro ouvinte normal”; é mais prático continuar com os surdos na ignorância, favorecer a ecravidão, os interesses pessoais...

Desculpem se sou levada pela lógica de minha vida de pesquisadora a ultrapassar estes limites que eu mesma havia estabelecido em nome de uma idéia de objetividade. Na verdade o que, percebi, era uma forma de estar na onda da superioridade do outro ouvinte. Mas preciso agora de uma forma de censura. Ultrapassar esses limites significa tirar o saber para fora da “cidade dos sábios ouvintes” e colocá-lo a serviço das lutas sociais surdas como fazem outras categorias, outras culturas, alguns contra o neoliberalismo, outros contra estas sérias técnicas de exploração. Eu me recuso a escolha da oralização, da partilha do conhecimento concebida como “submissão às leis culturais dos ouvintes” e entro na defesa das culturas surdas. Ao fazer essa recusa. Defendo a construção de um movimento social surdo local, unido a construção de um movimento sociocultural surdo internacional, no espírito daquele que está sendo construído a nível mundial. Deixo um legado importante e uma convocação veemente aos intelectuais para que deixem a “cidade do saber” e passem a enfrentar significantes, força, poder e fúria do mundo surdo na luta pela diferença cultural. (Gladis Perlin, para este artigo)

É preciso inverter e verter momentos sócio-escolares, em que os surdos possam entrar em contato com sua pordução cultural. As produções culturais que rondam no dia a dia, como por exemplo, os meios de comunicação, que estão cada vez mais submetidos a uma lógica do outro ouvinte, inimiga do jeito, da verdade e dos significados que devem compor o outro surdo. Diante disto, ao surdo resta a ignorância de sua condição de ser outro diferente, o que não lhe facilita o domínio do conhecimento de sua situação e diferença, do seu ser outro. O que torna os surdos escravos dos ouvintes, favorece as atitudes déspotas que se aproveitam da ignorância alheia explorando-a. A principal chave para o surdo entrar no processo de discussão social de sua diferença, de seu ser outro é o conhecimento. È preciso unir para afastar as diferenças gritantes entre os surdos, isto é, por um lado, aqueles poucos que estão nos domínios do conhecimento de sua diferença e que lutam em torno da possibilidade destas diferenças, por outro lado, aqueles que estão sob domínios déspotas.

O outro ouvinte, entre os outros ouvintes, precisa ser denunciado pelos surdos. Os surdos precisam ocupar seus espaços nas tribunas e expressarem suas formas de ser cultura, de ser língua, de ser conhecimento. O reconhecimento dessa diferença, entre outras tantas existentes, implicará em uma Pedagogia da Diferença com outros, outros e tantos outros.

Notas

2 Skliar palestra proferida na semana acadêmica da UFRGS (2002).
3 Conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o surdo está obrigado a olhar-se e a narrar-se como se fosse ouvinte (Skliar, 1998)
4 Ao nosso ver, o adjetivo de “minorias lingüísticas” é aviltante, pois desqualifica nossa língua de sinais, rebaixa-a, assim como os outros adjetivos e a coloca em condição inferior, não na condição de riqueza e diferença... Essa denominação será sempre um transtorno e variavelmente indicativa de esforço para a inclusão.
5 Este ‘primeiro’ não indica que haja uma hierarquia entre as representações apresentadas, uma vez que muitas vezes elas se misturam e se cruzam.
6 Os tempos atuais têm facilitado que o povo surdo acompanhe o progresso e construa também a civilização unida à causa social surda. Esta civilização surda mudou desde a morte de L’Epée, quando os surdos começaram a organizar-se na resistência cultural. Hoje esta resistência é contra a globalização lingüística e cultural e para a posição como surdos.

Bibliografia

Bhabha, Homi K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.

Silva, Tomaz T. Teoria cultural e educação, um vocabuilário critíco.Belo Horizonte: Autêntica, 2000

Skliar, Carlos B. A Surdez: um olhar sobre as diferenças. Editora Mediação. Porto Alegre.1998.

Skliar, Carlos B.Palestra proferida na semana acadêmica da UFRGS, 2002

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