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Isabel Sofia Correia
Isabel Sofia Correia
Professora e Investigadora
O parmetro movimento em Lngua de Sinais Portuguesa
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Publicado em 2020
DEDICA. Revista de Educao e Humanidades, 17, 41-56
Isabel Sofia Correia
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Resumo

Este artigo pretende descrever o parâmetro movimento em Língua de Sinais portuguesa. Começamos por tratar questões terminológicas relativamente à designação “Língua de Sinais portuguesa” para em seguida, a partir de um ponto de vista descritivo, sintetizar os valores do parâmetro movimento, enquanto unidade mínima, na Língua de Sinais portuguesa. Em primeiro lugar, consideramo-lo enquanto querema e as suas concretizações querológicas; em segundo lugar, consideramos esse parâmetro como morfema em nomes e como morfema derivacional na formação de nomes e verbos. Também o perspetivamos como morfema com traços semânticos peculiares no sistema pronominal - pronomes pessoais - na Língua de Sinais portuguesa e nos argumentos do verbo. Servimo-nos de dados de outras línguas de sinais para sustentar a nossa síntese descritiva deste parâmetro na Língua de Sinais portuguesa.

Nota Prévia: Língua de Sinais portuguesa

O título deste artigo poderá suscitar algumas dúvidas terminológicas, pois, até ao momento, a designação em português que refere o sistema linguístico visuo-espacial da comunidade surda portuguesa é ‘língua gestual portuguesa’. Todavia, defendemos em artigo recente (Correia & Custódio, 2019) que este termo não será adequado para nomear o idioma em apreço. Esta hipótese assenta em razões históricas uma vez que, aquando da vinda do primeiro professor de surdos a Portugal, Per Aaron Borg, o termo utilizado era sinais:

«Nestas ocasiões repete hum dos Alumnos o formulario de huma bella e mui bem composta oração; elle decorre por meio de signaes todo o ritual; pelos seus gestos e pela devota attenção dos mais se vê claramente que todos sentem e percebem o que se refere» (Gazeta de Lisboa, nº8, 9-01-1824, p. 30, sublinhado pelos autores).

Tal terminologia manteve-se durante várias décadas do século XX, desconhecendo nós a razão por que se terá optado por distinta metodologia e o momento em que tal terá ocorrido (Correia & Custódio, 2019, no prelo). Todavia, não são apenas fundamentos históricos que nos levam a sugerir voltar ao uso do termo ‘sinais’ para designar a língua da comunidade surda portuguesa. As outras línguas românicas optam pelo vocábulo ‘sinais’ para nomear os idiomas das respetivas comunidades surdas (Correia & Custódio, 2019):

Espanha Lengua de Signos española (LSE)
(Fundación CNSE)
Catalunha LLengua de Signes Catalana (LSC)
(Fundación CNSE & Portal de la Llengua de Signes Catalana)
Itália Lingua Italiana dei Segni (LIS)
(ENS: Ente Nazionnale dei Sordi)
França Langue de Signes Française
Roménia Limbajul Semnelor Romanesc i
(Asociatia Nationala a Surzilor)
Portugal Língua Gestual portuguesa
(Federação portuguesa das
Associações de Surdos)

Tabela 1. Designações das línguas gestuais/ sinais em línguas românicas

Observe-se, também, a clássica definição de Umberto Eco:

“(...) tem-se um signo quando por convenção preliminar qualquer sinal é instituído por um Código como significado” (Eco,1978, p.162).

Desta forma, e adaptando também o conceito saussureano de signo biface, significado e significante, facilmente verificamos que os sinais apresentam um conceito mental, motivado pela cultura da comunidade, e uma imagem visuo-espacial, ou seja, o código que representa o conceito semântico mencionado.

Assim, se observarmos o sinal (POLÍCIA)  2, verifica-se que é composto pela combinação de diversas unidades mínimas indivisíveis que codificam o significado.

Queremas ou fonemas: ainda a terminologia

No pronto prévio apresentámos a nossa proposta para designar as línguas visuo-espaciais seguindo a terminologia já usada na Europa e Brasil. Porém, várias designações que se relacionam com o estudo das línguas de sinais ainda não são consistentes, o que é natural devido, por um lado, ao facto de estas línguas apenas há umas décadas terem merecido a atenção dos linguistas, e, por outro lado, ao devir científico que se apresenta conforme a base teórica em que se inscreve a investigação. Assim, pela nossa parte, não usamos neste artigo a terminologia fonemas, seguindo a proposta de Stokoe (2005):

«CHEREME, that set of positions, configurations, or motions which function identically in the language; the structure point of sign language (analogous to ‘phoneme’).
CHEROLOGY, the structure, and its analysis, of the isolates or units of the phenomenon level of the sign language of the deaf» (Stokoe, 2005, p. 33).

O querema movimento na Língua de Sinais portuguesa

Tal como sucede em outras línguas de sinais, o querema movimento é parte constituinte do sinal, todavia esta unidade assume contornos complexos uma vez que pode ser entendida enquanto parte hierarquicamente dependente do querema configuração de mão; núcleo silábico; morfema gramatical; morfema derivacional e marcador de argumentos verbais. Nesta breve exposição, iremos deter-nos nestes aspectos procurando descrever sucintamente os valores quero-morfológicos desta unidade na Língua de Sinais Portuguesa. Acrescentamos que tomamos como ponto de comparação a American Sign Language (ASL) e a Langue des Signes Française (LSF) pelo facto de a primeira ser aquela que mais estudos tem conhecido e a segunda, para além de ter considerável investigação, foi aquela com que se iniciou a educação formal de surdos, em França, no século XVIII podendo, por isso, ter vários pontos de contacto com outras línguas de sinais europeias 3. Descrevemos apenas as categorias gramaticais em que a unidade mínima Movimento tem valor gramatical produtivo e pertinente.

O querema movimento e a sua dependência do querema configuração de mão

William Stokoe, a quem já amplamente aludimos, foi dos primeiros linguistas a identificar e estudar as unidades mínimas das línguas de sinais. Na sua investigação, considerou a existência de três parâmetros: a localização da mão (LM); o movimento da mão (MM) e a configuração de mão (CM). Hoje em dia, reconhece-se a existência de outros dois queremas, a orientação de mão (OM) e a expressão não-manual (ENM) (Battison, 1974, 1978), porém, o reconhecimento das cinco unidades como parâmetros autónomos divide os especialistas. Battison (1978) considerou a OM um parâmetro autónomo pois este traço tinha propriedades contrastivas, ou seja, a mudança de OM originava pares mínimos. Contudo, Sandler & Lillo Martin (2006) defendem que o cariz contrastivo deste parâmetro não é suficiente para que se considere OM como uma categoria não dependente de CM:

«In fact, there is independent phonological motivation for the idea that orientation is a phonological subcategory of hand configuration (...) the evidence consists of the behavior of orientation under assimilation. In ASL compounds, orientation alone may assimilate without the fingers and their position, but if the fingers and their position assimilate, then orientation is not independent- it must assimilate as well» (Sandler & Lillo Martin, 2006, p. 156).

As autoras acrescentam ainda que os dedos, as juntas dos dedos e a palma da mão são articuladores que pertencem a um articulador maior, a mão, logo, OM será um parâmetro dependente.

No que concerne ENM as autoras citadas e também Quadros e Karnopp (2004) consideram-no enquanto parâmetro suprassegmental, categoria em que também já refletimos em estudo anterior (Correia, 2009) ou morfema com valor adverbial e adjetival, (Sandler & Lillo Martin, 2006, pp. 112 e seguintes). Esta unidade assume particular interesse e complexidade na LSP uma vez que assume propriedades morfémicas, como a de negação, marcador aspectual nos verbos, entre outras, mas é, também, constituinte do sinal sem valor gramatical, provavelmente por razões etimológicas. Tendo em conta o âmbito deste breve artigo, não descreveremos ENM com acuidade deixando essa análise para estudo posterior.

O querema MM é considerado autónomo e não hierarquicamente dependente caso se trate de movimento de direcção no espaço (path movement): “the main kinds of movement found in lexical signs are path movement and internal movement. The latter can be broken down into handshape change and orientation change” (Sandler & Lillo Martin, 2006, p. 197). Pela citação conclui-se que o movimento de dedos, pulso, braço e antebraço 4 mantém, como OM, uma relação de dependência com CM ainda que seja uma unidade discreta e com propriedades contrastivas como acontece no par mínimo PEIXE/TERÇA-FEIRA 5. Esta perspetiva é também defendida por diversos autores como Quadros & Karnopp (2004), Mak & Tang (2012) e Kuhn (2015) distinguindo-se movimento interno e movimento direccional sendo que “um sinal pode apresentar somente um movimento de direcção (path), somente um movimento local [interno] ou a combinação simultânea entre ambos” (Quadros & Karnopp, 2004, p. 56) 6.

O movimento de mão como Núcleo de Sílaba

O MM direcional possui vários valores nas línguas de sinais. Um deles, estudado por Sandler & Lillo Martin (2006) é o de núcleo de sílaba no modelo Localização-Movimento-Localização ou Pausa- Movimento-Pausa. Apesar de as línguas de sinais serem de modalidade visuoespacial, e considerando a existência de um grau de sequencialidade, que acima mencionámos, nos sinais estes podem organizar-se segundo pausas e movimentos, ou seja, apresentando uma estrutura sequencial. Sandler & Lillo Martin (2006), partindo da definição de sílaba proposta por Brentari (1998, apud. Sandler & Lillo Martin, 2006, p. 218) afirmam que

“the number of path movements determines the number of syllables. (...) Only if movements occur in a sequence can we count more than one syllable”.

Assim, o MM que descrevemos na secção supra não se deve confundir com o que agora apresentamos.

Se tomarmos como exemplo o sinal (DESCULPA) 7 vemos que é constituído por L (localização)- M (movimento) e L (localização), ou seja tem uma sílaba de acordo com o proposto por Sandler e Lillo Martin (2006) e será assim a maioria dos vocábulos das línguas de sinais:

“saying that LML is canonical means that, althought there are many signs with internal movement only, the typical sign has a path movement” (Sandler & Lillo Martin, 2006, p. 221).

Não podemos afirmar que a LSP apresenta este tipo de sinais em maioria face aos de movimento interno, seria preciso um estudo exaustivo para podermos adiantar hipóteses. Contudo, o nosso propósito nesta secção foi apenas o de apresentar mais um dos valores atribuídos a este querema, também visível e aplicável na LSP. Não é nosso objetivo problematizar, como fazem as autoras

acima citadas, se o MM será o “equivalente” à vogal nas línguas orais 8. Todavia, concluímos esta secção com uma afirmação de Meadow & Brentari (2017, s.p) que sintetiza o valor de MM enquanto unidade discreta nas Línguas de sinais:

«(…) syllables are meaningless parts of words, based on vowels in speech—e.g., the stem character [kæ.ɹək.tɝ] has three syllables, each marked here by a period. Recall that sign languages syllables are determined by the number of movements—e.g., CLOSE-WINDOW (...) has one movement and is therefore one syllable; WINDOW has two movements and is therefore disyllabic)».

O movimento como morfema gramatical na Língua de Sinais Portuguesa

Nas secções anteriores, baseando-nos em investigação de outras línguas de sinais, apresentámos exemplos de valores do MM que se concretizam na LSP, nomeadamente o de unidade discreta com cariz contrastivo e o de unidade silábica. Nestas secções perspetivaremos o movimento enquanto morfema, ou seja “unidade mínima com função na gramática da língua, ou seja, com função gramatical” (Rio-Torto et al., 2013, p. 43). Pode parecer paradoxal designar o movimento enquanto afixo preso, tendo em conta quer o significado conceptual da palavra “movimento”, quer a dificuldade em particularizar afixos numa língua que prima pela simultaneidade e não pela sequencialidade das unidades. Assim, preferimos usar o termo marcador gramatical ou marcador derivacional pois é mais genérico e coloca menos questões conceptuais.

A subclasse repetição/reduplicação de MM como marcador morfológico de plural

Um dos valores que MM apresenta nas Línguas de Sinais é o de marcador de plural de nomes concretos contáveis:

«(…) nominal signs that are produced in neutral space rather than on the body are systematically reduplicated by displacement (...) Signs that are body anchored (...) are pluralized non-morphologically by adding numbers or quantifiers (...) constructions involving nominal classifiers can always take morphological (reduplicative) pluralization» (Sandler & Lillo Martin, 2006, p. 50).

A marcação morfológica de plural pela reduplicação do MM também foi identificada para a LSP: “a repetição do movimento é um processo morfológico também usado para a pluralização na LGP (Coutinho et al, 1994, p. 91). De facto, consultando o spreadthesign 9, um dicionário de línguas de sinais on-line, verifica- se que a marcação de plural no sinal CRIANÇA 10 se concretiza pela reduplicação do movimento.

Assim, o MM funciona como um marcador gramatical de número, mais concretamente a subclasse repetição. Esta particularidade é transversal a várias línguas de sinais como se pode observar nos links que consultámos e que colocamos nas referências deste artigo.

Adição/Reduplicação de MM como morfema derivacional

Para além de marcador gramatical, MM também se revela produtivo enquanto morfema derivacional, nomeadamente em nominalização e verbalização. Quadros & Karnopp (2004) e Souza Ferreira & Oliveira Ferreira (2016) verificam que na Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) verbos dão origem a nomes 11 pela alteração do MM:

«Seguindo a proposta de Supalla e Newport (1978) para a ASL, observa-se que a língua de sinais brasileira pode derivar nomes de verbos pela mudança no tipo de movimento. O movimento dos nomes repete e encurta o movimento dos verbos» (Quadros & Karnopp, 2004, pp. 96-97).

Esta observação também é aplicada à LSP como já referiram Amaral et al (1994) e Nascimento & Correia (2011):

“Há pares de gestos de verbos e nomes que só diferem entre si no que respeita ao movimento, podendo, assim, ser considerados como derivados” (Amaral et al, 1994, p.10).

O que é interessante notar é que enquanto para a LIBRAS e a ASL o Movimento é reduzido para originar um verbo, como podemos ver em Nascimento & Correia (2011, p. 76): “SENTAR (gesto com um único movimento, sem reduplicação) a partir do gesto CADEIRA (gesto reduplicado) em LSB”, para a LSP o movimento é reduplicado na formação do verbo, TELEFONAR, por exemplo, como é visível nas figuras abaixo:

Figura 2. Telefone/telefonar. Informante Amílcar Furtado. Arquivo da autora

Este tipo de processo morfológico - adição ou reduplicação de MM para formar verbos - é particularmente visível em verbos denominais ditos instrumentais ou performativos:

Verbos instrumentais: verbos que denotam a afetação do SN objeto, realizada por meio de/com o auxílio da entidade designada pela base derivacional, que é, nestes casos, interpretada como ‘instrumento’ (pincelar, apunhalar, esporear, varejar, esfaquear, etc.).

Verbos performativos: verbos que denotam um evento no qual o sujeito realiza uma ação/evento ou cria um objeto (objeto efetuado) designado pela base derivacional (guerrear, festejar, frutificar, etc.). O que caracteriza esta classe de verbos é que os eventos ou objetos produzidos não têm existência antes da realização do evento denotado pelo verbo derivado. (Pereira, 2009, p. 19, sublinhado nosso).

Tal como reconhecem Quadros & Karnopp (2004), é complexo identificar se estamos perante nomes deverbais ou verbos denominais sobretudo porque, nos casos em apreço, o instrumento ou o objeto têm intima relação com a ação. Contudo, o que pretendemos descrever nesta secção é que, à semelhança de outras línguas de sinais, o MM na LSP apresenta-se também como um morfema produtivo na formação de novos sinais, nomeadamente verbos.

Direção de MM como marcador pronominal e argumental

Até ao momento, procurámos descrever e aplicar à LSP a reduplicação/adição de movimento como morfema afeto a nomes e a verbos. Nesta secção, constatamos que, como acontece em outras línguas de sinais, visível na webgrafia que apresentamos, a direcção e a amplitude MM marca o sistema pronominal forte ou, em nomenclatura mais tradicional, os pronomes pessoais forma de sujeito na LSP:

Figura 3. Eu/tu/nós Informante Amílcar Furtado. Arquivo da autora

Como se constata, a direcção do movimento e o arco- fechado ou aberto que executa - determina cada um dos pronomes pessoais. Todavia, este parâmetro evidencia vários traços semânticos e culturais, combinados com o uso do espaço, que denotam que EU será o emissor da mensagem; TU o que está na frente; ELE/A não pertencente em primeira instância ao discurso; NÓS engloba o emissor; VÓS marca, pela amplitude de MM o plural, ou seja, como afirma Kuhn “ plural individuals can be (...) sets of points” (Kuhn, 2015, p.30) e ELES/AS constitui-se plural pela reduplicação do movimento que se verifica no singular correspondente ELE/A.

A direção de MM quando agregada a verbos indica também o seu argumento, sendo especialmente produtiva em verbos transitivos indiretos e ditransitivos como AVISAR/RESPONDER 12, entre outros.

Figura 4. Avisar-Me/ Avisar-vos. Informante Amílcar Furtado. Arquivo da autora

Como se verifica, a direção e amplitude de MM, tal como nos pronomes pessoais, indica o argumento do verbo.

Esta subclasse de MM, direção e amplitude, é especialmente produtiva em sinais que têm como ponto de articulação o corpo ao contrário do que sucede para a subclasse reduplicação de MM. No nosso entender, tal deve-se por um lado a questões etimológicas dos sinais e, por outro lado, a restrições e condicionamentos fisiológicos de uma língua de carácter visuo- espacial.

É curioso também notar que esta subclasse tem implícitos traços semânticos, o que não se verifica na reduplicação enquanto morfema produtivo na criação de verbos, uma vez que dependendo da língua a adição de movimento origina nomes ou verbos. Para além disso, como estamos a constatar num estudo em curso, a maior ou menor amplitude de MM em arco marca também o pretérito, num movimento para trás do emissor, e o futuro, num movimento para a frente do emissor, em expressões temporais que se podem traduzir como “Há muito tempo” e, respetivamente, “daqui a muito tempo”. O facto de se executar para trás ou para a frente, tem, a nosso ver, implicações semânticas e culturais, tal como se verificou na breve descrição que fizemos para os pronomes pessoais e os argumentos verbais.

Discussão

O parâmetro MM na Língua de Sinais Portuguesa constitui- se como uma unidade mínima discreta como propriedades querológicas e morfológicas. O facto de as línguas de sinais serem

simultâneas não implica que não se subdividam em unidades menores que contribuem quer para a formação e léxico, quer para a atribuição de propriedades morfossintáticas aos sinais como se vê na tabela síntese abaixo:

Movimento: querema. Unidade querológica - parte integrante obrigatória dos Sinais;
- unidade relevante para o contraste de pares mínimos
- constituinte de sílaba
Movimento: morfema gramatical: reduplicação plural dos nomes
Movimento: morfema derivacional: Adição/repetição de movimento Verbos denominais
[+ performativos] [+instrumentais]
Movimento: morfema/PN [+orientação] [+arco] [+loc.] marcação de Pessoa singular e plural nos pronomes pessoais forma de sujeito/fortes.
Movimento: morfema/argumento verbal [+orientação] [+loc] marcação de OI em verbos ditransitivos

Figura 5. Tabela síntese

Constatou-se, também, que este comportamento de MM é comum a outras línguas de sinais o que revela a organização comum de línguas de modalidade visuo-espacial. Este artigo pretendeu ser uma breve síntese do valor de MM na LSP, estando ainda muito por estudar em relação a este parâmetro, nomeadamente a sua produtividade enquanto morfema Aspectual em verbos, a relação do morfema ENM com MM enquanto unidades morfológicas que se combinam para conferir significado gramatical e sentido semântico, e os valores prosódicos de MM ao nível da frase. Porém, pretendemos

Confirmar na LSP os valores de uma unidade mínima com valor gramatical que em outras línguas de sinais já foi objeto de estudo. Foi nossa intenção sintetizar e confirmar os valores de MM a fim de contribuir para a descrição de uma língua que ainda carece de estudos linguísticos. Para além disso, pelos diversos valores desta unidade aqui enunciados, confirma-se que a língua de sinais portuguesa é um idioma natural, constituído por signos linguísticos que se subdividem em unidades que, combinadas entre si, formam representações (significantes) de múltiplos conceitos (significados).

Notas

i Limbajul Mimico Gestual (LMG) é outra designação que encontrámos para o idioma romeno. Nos documentos que consultámos LMG surge como um sinónimo de LSR. Consultámos pessoa surda nascida na Roménia, que ainda tem família nesse país, Alin Stephan Melciu, a quem agradecemos o testemunho, que referiu que LSR era a designação correta. LMG tem um cariz discriminatório devido ao uso do termo “mimico”. Nos diversos documentos em que se emprega LMG encontrámos a palavra semnele, signo, que se refere aos sinais/signos da língua da comunidade surda. Alguns destes documentos são oficiais, nomeadamente o Plano Estratégico Nacional para a Inclusão de Pessoas com Deficiência, alojado no sítio da Associação Nacional de Surdos. Para mais informação, consulte-se, por exemplo, . http://www.mmuncii.ro/j33/index.php/ro/transparenta/proiecte-in-dezbatere/3191-2014- 02-12-strategie-http://www.mmuncii.ro/j33/index.php/ro/transparenta/proiecte-in- dezbatere/3191-2014-02-12-strategie-dppd. É necessária uma investigação mais apurada para compreender o porquê desta hesitação terminológica, nomeadamente entender os fundamentos de ambas as propostas e se têm diferenciações de uso em contextos distintos.
2 Signwriting representando o sinal ‘polícia’. Agradecemos a Rafaela Silva a escrita dos sinais ao longo deste artigo. Este sinal, polícia, pode ser consultado no dicionário on-line disponível em www.spreadthesign.com
3 Sobre a educação de surdos e o seu percurso em França veja-se Carvalho (2013).
4 Para uma representação dos vários tipos de movimento na Língua de Sinais portuguesa consulte-se Silva (2012), cap. 1.
5 O par está disponível em vídeo em www.spreadthesign.com.
6 Um exemplo de movimento interno-dedilhar- é visível no sinal Cores; um exemplo de movimento direcional é visível, por exemplo, no sinal, Dar. Ambos podem ser consultados em www.spreadthesign.com.
7 O sinal DESCULPA está disponível em www.spreadthesign.com
8 É interessante constatar e que já é visível desde os clássicos estudos de Laura Pettito sobre Aquisição de Línguas de sinais, nos anos 80, é que o Movimento e a Configuração de Mão são as primeiras unidades a serem adquiridas pelas crianças surdas sendo esta a sua fase de balbucio num par semelhante ao de Consoante/Vogal nas crianças ouvintes que adquirem uma língua oral.
9 Vídeos disponíveis em https://www.spreadthesign.com/pt.pt/search/ nos itens “vestido de criança” e “Quantas crianças vêm?”
10 Usamos maiúsculas para a tradução de sinais para língua portuguesa
11 As autoras referem que o processo de derivação pode ser nomes em verbos ou vice-versa.
12 O sinal RESPONDER pode ser consultado em www.spreadthesign.com. A sua forma “RESPONDE-ME “ está disponível no item “frases”.

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