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Flvia Machado
Flvia Machado
Professora e Tradutora Intrprete de Libras/Portugus
Contribuies da Lingustica Cognitiva nos processos de traduo e interpretao de Libras/portugus: itens polissmicos para conceitos abstratos de CRTICO
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Publicado em 2012
III Congresso Brasileiro de Pesquisas em Traduo e Interpretao da Lngua Brasileira de Sinais, Universidade Federal de Santa Catarina
Flvia Machado
  Artigo dispon�vel em vers�o PDF para utilizadores registados
Resumo

Estudos sobre os processos de categorizao humana, com base no Realismo Corpreo, tm elucidado fenmenos relativos influncia de modelos cognitivos e culturais sobre o modo como categorias conceptuais se estruturam e atuam no processo de fazer sentido das experincias biossocioculturais em situaes variadas de interao comunicacional (e.g. LAKOFF, 1987; LAKOFF; JOHNSON, 1999). Dessa maneira, a prtica do tradutor-intrprete de Libras envolve vrias competncias e, entre elas, algumas especficas que podem ser compreendidas e desenvolvidas a partir das contribuies da Lingustica Cognitiva. A investigao aqui apresentada configura-se como um estudo emprico em situao controlada, utilizando recursos de filmagem, com transcries do sistema ELAN. Neste estudo, de natureza experimental, investiga-se o conceito abstrato CRTICO nos processos tradutrios de lngua portuguesa-Libras-lngua portuguesa escrita entre grupos de TILS e Surdos do RS e SC. Objetiva-se identificar os processos lingusticocognitivos nas atividades de traduo e interpretao de Libras/Portugus. Utilizam-se, para a traduo, microtextos especialmente elaborados para tal propsito, suficientemente contextualizados para garantir sua coerncia pragmtica. Os procedimentos metodolgicos seguem seis etapas, divididas em duas verses. Na primeira verso, o TILS no tem conhecimento prvio do microtexto e, na segunda verso, o TILS tem conhecimento prvio deste microtexto. Essa investigao visa levantar hipteses e evidncias empricas que possam contribuir para o aperfeioamento da competncia e habilidade dos tradutores-intrpretes de Libras/portugus nos processos de compreenso e elaborao das construes que expressam conceitos abstratos, que possuem correspondentes lexicais/gramaticais na LP, mas no, necessariamente, em Libras. Os conceitos abstratos so problemticos tanto para os TILS como para os sujeitos Surdos, dada a variedade de escolhas lexemticas para os itens lexicais de 'crtico'. Os resultados revelam que a performance dos tradutores-intrpretes mais adequada na segunda verso, uma vez que o conhecimento prvio do texto permite mais referncias sobre as escolhas feitas no ato tradutrio. Isso demonstra que, nos sentidos espontneos de interpretao simultnea, o TILS obriga-se a fazer escolhas mais rpidas e imediatas que, nem sempre, expressam o sentido intencionado no discurso fonte. O resultado da investigao serve para reforar a necessidade da continuidade de aperfeioamento desses profissionais, alm de alert-los quanto aos problemas da interpretao e traduo dos conceitos abstratos.

Introdução

A presente proposta visa analisar o processo de interpretação-tradução de conceitos abstratos de
língua portuguesa para Libras, por parte de TILS, de Libras para Libras e de Libras para língua
portuguesa (LP) escrita por parte de sujeitos surdos. O objetivo da pesquisa é o de analisar as
particularidades lexicais e semânticas dos conceitos abstratos da LP nos processos tradutórios da
língua de sinais (LS). A pesquisa, de caráter empírico, em situação controlada, envolve sujeitos oriundos de duas regiões do Sul – RS e SC, com a participação de seis tradutores intérpretes graduando e graduados, que atuam com acadêmicos universitários surdos do ensino superior. O processo de pesquisa implica em: identificar os processos cognitivos da LS através da ação mediada do tradutor intérprete; transcrever a LS para a LP, usando o software ELAN; verificar, através da análise linguístico-cognitiva, as competências necessárias para a tradução bilíngue do tradutor intérprete da LS e LP; analisar as disposições da prática regional do ato tradutório na mediação do intérprete da LS; identificar aspectos interlinguísticos intervenientes na ação do tradutor intérprete da LS e da língua portuguesa e na interpretação apresentada em Libras pelo sujeito surdo; avaliar a competência pragmática nos processos de compreensão e interpretação da intenção comunicativa do locutor, que mantém a lógica de seu discurso, e a competência semântica a partir das marcas linguísticas do discurso do locutor e do interlocutor, ao elaborarem construções que expressem conceitos abstratos que possuem correspondentes lexicais na língua portuguesa, mas não, necessariamente, em Libras.

Esta investigação caracteriza-se como um estudo empírico em ambiente controlado, ao mesmo tempo que se serve do que a literatura teórica e aplicada disponibiliza sobre os aspectos linguísticos e cognitivos (de linguagem em uso) do referido sistema de comunicação.

Para a transcrição e análise do corpus obtido do processo utilizará o ELAN – Eudico Language Annotator – que é um software de transcrição de vídeo e áudio de LS – destacando-se trilhas e glosas com ênfase nas particularidades lexicais dos conceitos abstratos da semântica, no ato da tradução e interpretação Libras.

Com essa análise visa-se responder às seguintes questões: (1) Como se dá a tradução de conceitos abstratos para Libras? (2) Como as escolhas no ato de interpretar e traduzir conceitos abstratos afeta a interpretação do sujeito surdo? Das respostas (1) e (2), que competências e habilidades os TILS devem desenvolver para tornar mais eficaz sua atividade?

Para o estudo proposto, examinam-se aspectos da LS e sua estrutura. Segundo Quadros (1997, p.119), “as língua de sinais [sic] envolve movimentos que podem parecer sem sentido para muitos”, mas que, para os surdos, “significam a possibilidade de organizar idéias, estruturar pensamentos e manifestar o significado da vida [...]”. Dessa forma, os sujeitos surdos poderão estabelecer uma forma de comunicação mediante a aquisição da LS. Como as línguas orais, a LS se constitui distintamente conforme suas culturas nacionais, permitindo a construção natural das identidades culturais que as comunidades surdas estabelecem. Os pesquisadores diagnosticaram “que uma língua de sinais não é transparentemente inteligível por surdos monolíngues de outra língua de sinais” (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 32), isto é: cada região tem a sua língua construída culturalmente.

Sabe-se que a LS exerce forte influência sobre a construção da identidade surda. Entre os membros da comunidade existe a consciência de que o sinal deve evocar a ideia ou representar um significado cultural em sua comunidade. A língua traz a marca da identidade de seus falantes e representa elemento fundamental de coesão na construção intersubjetiva de traços identitários. Nesse sentido, a Libras tem um papel fundamental na comunidade surda, como uma comunidade linguística. Segundo Gumperz (1984, p. 269) “a comunidade linguística é todo aglomerado humano caracterizado por uma integração regular e frequente por meio de um conjunto de signos verbais compartilhado por todos os indivíduos desse aglomerado, distinto de outros aglomerados semelhantes por causa de diferenças no uso na linguagem”.

Assim, há uma gama de variedades linguísticas na Libras. O usuário dessas variedades compreende os significados de cada sinal, de forma a contextualizar o que a comunidade surda manifesta em sua cultura. Já uma língua oficial é uma entre as variedades linguísticas de uma nação. Segundo Heredia (1989, p. 179), “numa comunidade linguística seus membros têm em comum ao menos uma variedade de língua e também normas de uso correto, uma comunicação intensiva entre eles, repertórios verbais ligados a papeis e unificados por normas, enfim, uma integração simbólica no interior do grupo ou do subgrupo de referência”.

Essas normas constituem um sistema de convenções que se representam por “glosas com palavras do português nas transcrições” (QUADROS; KARNOPP, 2004, p. 37-8). No sistema de transcrição da LS, em alguns casos, é utilizada uma notação: quando são “antecedidos de um asterisco, a sentença ou o sinal é agramatical, ou seja, não é possível de ser gerada/o na língua de sinais[...]”, sendo representados de uma forma simplificada na Libras.

As autoras, ressaltam que “o movimento, a mudança da expressão facial e a mudança na direção do olhar” dificultam a precisão da transcrição. Por isso, criaram-se convenções específicas para a Libras associadas ao uso das expressões, configurações de mãos, movimentos e orientações das mãos na tentativa de identificar a glosa de sinal manual que possuíam traços semelhantes. A construção das sentenças possui regras próprias, seguindo representações mentais das percepções visual e espacial.

A aquisição de um sistema linguístico supõe a organização/reorganização de todos os processos mentais do sujeito. Como afirmam Quadros (1997) e Góes (2002), a linguagem constitui-se em instrumento fundamental para o conhecimento humano, e com isso o homem pode superar o limite da experiência sensorial, individual, e formular generalizações ou categorias. Pode-se dizer que, sem a linguagem, o homem não terá formado o pensamento abstrato. A linguagem, na sua forma estruturada de língua, apresenta-se, assim, como fator de formação da consciência, permitindo pelo menos três mudanças essenciais à criatividade consciente do homem: ser capaz de duplicar o mundo perceptível, assegurar o processo de abstração e generalização, e ser veículo fundamental de transição e informação (BERNARDINO, 2000; BRITO, 1995).

Conceitos como FRUTA, MESA, LIVRO envolvem processos de categorização que são resultado da interação de nossa percepção, conhecimentos socioculturais e situacionais (de uso). Embora pareçam menos problemáticos, eles implicam, em sua construção e uso, em uma série de operações cognitivas e acordos com a comunidade de fala. Outros conceitos como VIOLÊNCIA, LIBERDADE, AMOR, VIDA, JUSTIÇA (cf. FELTES, 2007) são mais complexos em sua construção e aplicações a contextos de fala, pois são afetados pela natureza das instituições sociais, jurídicas, religiosas, entre outras, as quais variam sobremaneira de cultura para cultura e de subcultura para subcultura em uma mesma comunidade. São considerados abstratos à medida que implicam mais operações de abstração, em que crenças e valores introduzem não apenas maior variação, mas também mais negociações de sentido em eventos de fala.

Seguindo a proposta da Teoria dos Modelos Cognitivos Idealizados - TMC (LAKOFF, 1987), conceitos e categorias têm sua estrutura motivada por modelos cognitivos e culturais. Estes são construções que organizam o pensamento através das relações humanas e culturais, porque temos o corpo que temos e interagimos no mundo de modo a compartilhar certas experiências. Como construtos, são idealizados porque não “representam” o mundo de forma objetiva, são relativamente estáveis, mas sujeitos à variação em função da dinâmica das relações socioculturais historicamente determinadas. Ou seja, “[o]s modelos, portanto, são o resultado da atividade humana, cognitivoexperiencialmente determinada, são resultado da capacidade de categorização humana”(FELTES, 2007, p. 89).

As categorias conceptuais, por sua vez, ao inscreverem-se na língua tornam-se categorias linguísticas, de modo que, conforme Delbecque (2008, p. 35) “a comunidade “tradu-las” em signos linguísticos. Uma visão mais abrangente da língua como sistema de signos ultrapassa o tipo de ligação entre a forma e o significado de um signo linguístico”.

Essa interligação é mais complexa quando se examinam conceitos abstratos. Mais ainda quando se colocam em contato sistemas linguísticos, por processos tradutórios. Isso porque se as categorias linguísticas de um sistema e outro estão afetas aos processos de conceptualização/categorização cognitiva e socioculturalmente orientados e, ainda, pela hipótese Sapir-Whorf, sistemas linguísticos influenciam a forma como o “mundo” é organizado, há que se colocar em relevo as negociações que têm lugar quando sujeitos que têm Libras como L1 são introduzidos num universo de significações que parte da LP, reorganizando-as de acordo com as categorias conceptuais e linguísticas dessa L1.

Segundo a semântica experiencialista, que é o fundamento da TMCI: “[o] significado não é uma coisa; ele envolve o que é significativo para nós. Nada é significativo em si mesmo. A significatividade deriva da experiência da atuação como um ser de um certo tipo em um ambiente de um certo tipo.” (LAKOFF, 1987, apud FELTES, 2007, p. 126). Nos estudos sobre a significação, destaca-se o fenômeno da polissemia: um item lexical pode ter vários significados.

Silva (2006, p. 26) esclarece que “[a] polissemia é o fenômeno típico, a estruturação principal da dimensão semasiológica das palavras, isto é, a dimensão que parte da componente formal da palavra ou, em termos de Saussure, do significante para os sentidos e referentes que podem estar associados a essa forma e, logo, a essa palavra ou item lexical.”

Para Taylor (2002, p. 471) “[u]ma língua sem polissemia seria útil apenas num mundo sem variação ou inovação, em que os falantes não tivessem de responder a novas experiências nem encontrar símbolos para novas conceptualizações.” Assim, o autor enfatiza a LC como uma das linhas a se debruçar sobre os estudos da polissemia, com o propósito de encontrar, nos níveis mais gerais ou de abstração, os sentidos de ocorrências polissêmicas que se representam na mente do sujeito, no uso de expressões linguísticas. Conforme Silva (2006, p. 55), a “A polissemia é foco de atenção também nos muitos estudos de semanticistas cognitivistas sobre metáforas e metonímias conceptuais, integração conceptual (“blending”), protótipos, enquadramentos (“frames”) semânticos, redes (“networks”) semânticas”.

Silva (2006) resume a abordagem da LC/Semântica Cognitiva para a polissemia como relacionada à categorização prototípica, estabelecendo diferentes graus de representações mentais entre as conceptualizações intuitiva e analítica. Constrói-se uma rede de sentidos que se interligam por diferentes tipos de relações. Com as palavras do autor:

Método

A interpretação consiste em encontrar 'pistas' de significados implícitos, em atentar para a polissemia dos itens lexicais que expressam conceitos abstratos e em determinar, em cada enunciado, o que expressam em função do contexto linguístico-situacional. Além disso, há uma capacidade individual de estruturar conhecimentos, uma habilidade própria de organizar as experiências cognitivas. Bernardino (2000, p. 66) ressalta que “a linguística cognitiva tem-se dedicado ultimamente [...] [a] produção linguística com relação aos aspectos processuais ou representações mentais da mente”.

Quando o tradutor intérprete de Libras e LP se depara com a tarefa de sinalizar conceitos abstratos pode surgir uma variedade de problemas, tais como: (a) para certos conceitos lexicalizados em LP não há sinais equivalentes em Libras; e (b) há a dependência estrita a contextos específicos em que o TILS atua como, por exemplo: jurídicos, clínicos, pedagógicos e entre outros. Assim, numa tradução, encontram-se conceitos abstratos que recebem diferentes interpretações, como é o caso de REFLETIR, cujo significado depende dos contextos de uso.

A pesquisa caracteriza-se como estudo empírico por meio de um experimento em situação controlada, com projeto aprovado por Comitê de Ética. Como não se trata de testar métodos de tradução, mas de verificar quais são os recursos explorados na tradução, por tradutores-intérpretes proficientes, de textos originalmente elaborados em LP para o sistema da Libras numa situação de comunicação com surdos, não se lança mão de grupo de controle e grupo experimental, nem de etapas pré e pós-teste. As etapas do procedimento empírico são as seguintes:

(1) Elaboração de textos pragmaticamente contextualizados: envolveu a construção de um conjunto de textos contextualizados com condições mínimas, necessárias e suficientes, para que fossem compreendidos pelo tradutor-intérprete, interpretados e, então, traduzidos para Libras. Em sua constituição semântico-lexical há conceitos abstratos (em rede polissêmica) que possuem, em LP, um lexema estabelecido. O sentido do lexema varia em cada contexto linguístico imediato. Os conceitos CRÍTICO (‘crítico’) foi o candidato para o experimento.

(2) Seleção dos sujeitos participantes do experimento: participaram do experimento dois grupos de tradutores-intérpretes de Libras, proficientes, graduandos ou graduados em nível acadêmico superior, habilitados conforme a legislação 5.6.26 de 20 de dezembro de 2005, sendo, cada grupo, provenientes de regiões diferentes: RS/Caxias do Sul e SC/Florianópolis. Os sujeitos surdos, em número de seis, têm como L1 Libras e, como L2, LP (modalidade escrita) e são provenientes, como os TILS, das regiões referidas. Todos são graduandos ou graduados em nível acadêmico superior.

(3) Condução do procedimento de tradução: os procedimentos foram executados em seis etapas durante o experimento. Primeira versão: os TILS e os surdos não tiveram o conhecimento prévio do microtexto: (1ª) Em uma 1ª versão os TILS realizaram a interpretação dos textos elaborados em sintaxe da LP para a sintaxe da Libras. (2ª) O sujeito surdo, ao final de cada interpretação, expressou em Libras o que compreendeu da interpretação do ILS. (3ª) O sujeito surdo, em seguida, expressou em modalidade escrita da LP o que compreendeu da interpretação. Segunda versão: os TILS tiveram acesso da modalidade escrita do microtexto: (4ª) Em uma 2ª versão os TILS realizaram novamente a interpretação dos textos elaborados em sintaxe da LP para a sintaxe de Libras. (5ª) O sujeito surdo, ao final de cada interpretação, expressou em Libras o que compreendeu da interpretação do ILS. (6ª) O sujeito surdo, em seguida, expressou em modalidade escrita da LP o que compreendeu da interpretação.

(4) Registro do processo descrito: o experimento foi filmado utilizando-se três câmeras digitais, sendo: uma com ângulo direcionado para o surdo; outra, com ângulo direcionado para o TILS, e a terceira capturando a imagem dos interlocutores simultaneamente.

(5) Transcrições de LP e Libras: dentre os softwares disponíveis, escolhemos para esta pesquisa o ELAN que permite “inserir vocabulário controlado, tipos lingüísticos [e] trilhas de transcrição”. Essas anotações permitem que sejam geradas trilhas de acordo com as próprias anotações e os tempos dos vídeos. Assim, “[t]odas as trilhas são indicadas na linha do tempo e no visor interlinear, mas três destas trilhas podem ser indicadas adicionalmente no visor do subtítulo (QUADROS; PIZZIO, 2009, p. 25).

No sistema de transcrição da Libras, é necessário adicionar 'trilhas' que definem os atributos com que se irá trabalhar. Nesta pesquisa focalizam-se os sinais empregados pelos TILS para expressar os conceitos abstratos a partir dos microtextos elaborados e aqueles empregados pelos sujeitos surdos em sua compreensão expressada em Libras. A linha das glosas foi seguida pelos sinais regionais do RS e de SC, visando à comparação das variedades linguísticas que há na Libras. Registram-se em trilhas as informações das particularidades lexicais na expressão de conceitos abstratos. Isso permite uma sistematização dos registros e das análises naquilo que é objeto de investigação.

A partir da transcrição, realizaram-se as etapas seguintes TRANSCRIÇÃO DA LIBRAS: consta em registros selecionados em cada trilha – (1) interpretação das glosas, (2) as ocorrências de expressões não-manuais e (3) os conceitos abstratos utilizados nos microtextos. ANÁLISE DOS DADOS COLETADOS: a partir dos registros, é realizada a análise do processo de interpretação dos TILS e de compreensão pelos sujeitos surdos.

Resultados

Tendo como base o microtexto para os procedimentos, apresenta-se a síntese dos resultados do experimento. Observa-se que, para cada conceito abstrato, expresso linguisticamente no microtexto, tem-se os seguintes significados para cada ocorrência de ‘crítico’: CRÍTICO1v.i. Refletir/pensar - reflita antes de decidir; CRÍTICO2 - s.f. Opinião - modo de ver, pensar, deliberar, parecer e outros; CRÍTICO3 v.t. Observar/avaliar/reclamar – cumprir, respeitar, obedecer, examinar, analisar, verificar e outros; CRÍTICO4s.f. Opinião - segue os mesmos significados do conceito CRÍTICO2; CRÍTICO5adj. Incômodo - que causa mal-estar, que causa inquietação, importuno, que causa dificuldade, embaraço, estorvo. As escolhas de tradução a partir da interpretação do microtexto de cada TILS, em cada etapa (1ª e 2ª versões), assim como o resultado da interpretação do sujeito surdo, expressa em Libras.

Numa análise ainda parcial, verifica-se que conceitos abstratos são, de fato, problemáticos tanto para os TILS como para os sujeitos surdos, dada a variedade de escolhas de sinalização, que procuram encontrar sinônimos aproximados ou paráfrases para que o significado de ‘crítico’ em LP seja passível de entendimento por parte do sujeito surdo. Essas escolhas ora se ajustam, em algum grau, ao significado contextual, ora se distanciam, em cada versão. Porém, para o sujeito surdo, a expressão da compreensão ainda se revela altamente complexa devido a fatores ainda a serem investigados.

Bibliografia

DELBECQUE, Nicole. Linguística cognitiva: compreender como funciona a linguagem. Lisboa: Instituto Piaget, 2008.

FELTES, Heloísa P. de M. Semântica cognitiva: ilhas, pontes e teias. Porto Alegre: Edipucrs, 2007.

LAKOFF, George. Women, fire, and dangerous things: what categories reveal about the mind. Chicago: The University of Chicago Press, 1987.

LAKOFF, George; JOHNSON, Mark. Philosophy in the flesh: the embodied mind and its challenge to Western thought. New York: Basic Books, 1999.

SAPIR, Edward. Selected writings of Edward Sapir in language, culture and personality. David Mandelbaum (Ed.) Berkeley: University of California Press, 1958.

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