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Angela Russo
Angela Russo
Pedagoga Educao Infantil
Intrprete de Lngua Brasileira de Sinais: Uma posio discursiva em construo
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Publicado em 2010
Anais do IX Encontro do Crculo de Estudos Lingusticos do Sul - CELSUL, Palhoa, SC
Angela Russo
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Resumo

trata-se de uma pesquisa que pretende analisar os discursos do ILS em atividades de formao e em atividade profissional como ILS, tomando conceitos da Anlise de Discurso e buscando tambm subsdios no dilogo com pesquisas inscritas na rea dos Estudos da Traduo. As anlises realizadas foram dirigidas a mostrar efeitos de sentidos que configuram a constituio da posio discursiva do ILS, partindo das formulaes discursivas dos ILS.

1. Introdução

A formação dos ILS em nosso país ainda carece de muito estudo e pesquisa para que possa se destacar como uma formação de qualidade. Temos diversas modalidades de cursos oferecidos: pequenos cursos, oficinas, cursos de extensão, curso superior de tecnólogo , entre outros, mas que ainda não dão conta de toda a demanda de nosso país. A promoção de cada um desses cursos é feita de acordo com as necessidades e as condições locais, não sendo, na maioria das vezes, cursos institucionalizados.

Isso também se deve ao fato de que a “formação” dos intérpretes de língua de sinais no Brasil vive um momento de transição, tanto em seu caráter estrutural como prático. Novas legislações acerca deste tema, como o Decreto Federal 5626/05, que regulamenta a língua brasileira de sinais vem orientando a elaboração dos projetos de implementação de cursos de formação universitária para os intérpretes. Nesta direção, mais recentemente tivemos o lançamento do curso de bacharelado de ILS na área de Letras, como o Letras Libras na modalidade a distância, oferecido pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, abarcando 15 pólos em todo o país, inclusive em nosso Estado, com um pólo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Portanto, esta pesquisa se realiza nesse momento de transição histórica da área, o qual representa sua legitimação oficial no campo da educação, onde passou a figurar como uma área específica.

Desde o primeiro curso como formadora de ILS em 2002, venho acumulando experiências nessa área. Refiro-me à minha própria experiência que considero aqui um possível depoimento sobre o modo como a área está se estabelecendo. Participei de cursos de formação de ILS em vários estados do Brasil, de diferentes modalidades.

Com base nessas experiências, por outro lado, venho observando o quanto ainda temos que considerar quando pensamos na formação de ILS. Destacando alguns desses aspectos cito: a aproximação com as discussões que acontecem entre os ILS em suas práticas cotidianas, resgatando seus fazeres e saberes; a consideração desses saberes quando se pensar na elaboração das propostas de curso de ILS; a atenção aos resultados das pesquisas já realizadas dentro e fora de nosso país e que podem contribuir significativamente com nossas demandas, além da aproximação com os pesquisadores surdos, no Brasil e no mundo todo, já que estes contribuem, tanto com seus pontos de vista como estudiosos e acadêmicos, quanto com suas considerações como usuários do trabalho dos ILS.

Retomando a minha prática como formadora de ILS, destaco que nas disciplinas que tenho ministrado em alguns cursos de formação de intérprete, voltadas principalmente para as técnicas de interpretação da língua de sinais para a língua oral e vice-versa, costumo desenvolver a prática de solicitar aos alunos a escrita diária de suas impressões sobre seu próprio processo de aprendizagem, buscando relacioná-lo com as atividades propostas pela disciplina, com suas experiências com a Libras, bem como com as suas práticas de interpretação vivenciadas antes de ingressarem no curso. Poderíamos dizer que se trata de uma auto-avaliação contextualizada, que tem também como propósito avaliar constantemente minha prática como formadora de ILS. Por meio desta prática, posso ter o retorno dos alunos quanto ao que o curso proposto apresenta de novo para eles e se o mesmo atende as suas expectativas.

Todo esse rico material escrito das auto-avaliações, acumulado durante mais de cinco anos e que estava até então adormecido, foi finalmente despertado para fazer parte do corpus desta pesquisa de Mestrado, representada nesta dissertação. Com base nesse corpus, pretendo enfocar a interpretação em Libras na perspectiva do discurso do sujeito-intérprete dessa língua de sinais, participante de um curso de formação específica, do qual o módulo prático foi ministrado por mim.

2. O intérprete de língua de sinais

A designação intérprete de língua de sinais, destaca o intérprete, apontado na Análise de Discurso, à noção de interpretação. Quanto à área dos Estudos da Tradução, indica a denominação da atuação do profissional intérprete – interpretar, implicando o sentido de “ato tradutório”.

A transversalidade destes sentidos acerca do intérprete e da interpretação e, neste caso, a interpretação em Língua de Sinais, também produz neste momento de reflexão para a pesquisa alguns sentidos que emergem deste mundo entre línguas de modalidades diferentes - sinalizadas e oralizadas, em que a visualidade simultânea de gestos, expressões, movimentos, toques (pontos de articulação) próprios da Língua de Sinais, devem ser interpretadas para a Língua Portuguesa, ou vice-versa, em um discurso linear, consecutivo, em que um termo depende do outro, como em um fio, o fio de discurso. Um mundo de línguas em que, historicamente, uma delas foi julgada, ou melhor, pré-julgada, sendo necessário provar seu status de língua, como se empenhou o linguista Stokoe, nos anos 60, tornando-se um autor principal e fundamental nesta árdua tarefa de “provar” para os especialistas que as línguas de sinais eram línguas, assim como todas as demais línguas de modalidade oral e escrita.

O intérprete de língua de sinais é um profissional que surgiu das necessidades de uma comunidade específica- a comunidade surda – mas que aos poucos foi, e vem, se estruturando em todos os países devido a sua organização, bem como pela participação ativa na luta pelos direitos das pessoas surdas de fazerem parte, de fato, do mundo. Um movimento que, atualmente, nos permite ver sob um novo olhar que os “clientes” dos intérpretes não são mais apenas os surdos, mas a sociedade como um todo, o governo, as escolas, os hospitais, as empresas, o comércio, o pai, a mãe, os filhos, extravasando assim as fronteiras do assistencialismo pregado durante muito tempo.

Muitos estudos sobre o assistencialismo na educação dos surdos já foram publicados, e este não é o foco do trabalho, entretanto é necessário que registremos, mesmo que brevemente, a vinculação do início do trabalho dos ILS ao assistencialismo, voltado para uma prática, para uma ação de ajuda. Neste sentido, retomo algumas reflexões de Lane (1992) acerca da visão histórica que os nomeados “especialistas” ouvintes, e aqui talvez possamos também incluir os intérpretes, tinham, e infelizmente muitos ainda têm, em relação ao atendimento aos surdos. Uma visão focada na “benevolência”, no “assistencialismo”, no “paternalismo”, marcado por estereótipos acerca dos sujeitos surdos.:

(...) o paternalismo dos ouvintes começa com uma percepção deformada porque sobrepõe a sua imagem de um mundo conhecido dos ouvintes ao mundo desconhecido dos surdos: de igual modo, o paternalismo dos ouvintes encara a sua tarefa como de “civilizar”: devolver os surdos à sociedade. E o paternalismo dos ouvintes não consegue entender a estrutura e os valores da sociedade surda. (LANE, 1992, p.48)

Como já foi dito, os ILS surgiram dentro das comunidades surdas, eram sim conhecedores, ainda que não nativos, da sociedade surda. Entretanto, o que podemos relacionar com o que Lane nos traz é o fato de sua prática inicial ter um cunho mais assistencial, de estar sempre pronto a ajudar sem, necessariamente, estar articulado com as questões políticas e de direitos dos surdos, sem ter, parafraseando Kyle e Woll (1985), uma “atitude” surda.

Desta forma, percebe-se uma nova posição da profissão de ILS que ultrapassa uma visão assistencialista, participando de outro espaço, de outra referência voltada a um envolvimento político, social e cultural com as comunidades de surdos. Ou seja, não se trata mais de uma relação de cuidar do outro, de estar a postos para qualquer situação, mas sim de reconhecer estes sujeitos em sua diferença.

Sobre a relação dos ILS com a comunidade surda, Russo (2008) resgata a contribuição dos estudos de Cokely (2005) no que diz respeito a um novo movimento, o deslocamento de posição (shifting positionality) dos ILS nos Estados Unidos durante o processo histórico da organização institucional da categoria. Segundo o autor, como reflexo da nova organização dos ILS, principalmente após a fundação do Registry of Interpreters for the Deaf (RID) e da posterior criação de suas certificações, houve uma mudança na então posição dos ILS como parte da comunidade surda, para uma posição de prestadores de serviços para a comunidade. Um afastamento provocado por muitos aspectos como a não participação efetiva dos novos ILS na comunidade surda, distanciando-se assim da língua e de seu uso, como acontecia na época em que os ILS surgiam dentro da comunidade surda.

Atualmente, é comum termos relatos de surdos brasileiros, em visita aos Estados Unidos, contando experiências de surdos que se utilizam do serviço público de interpretação em língua de sinais; o intérprete chega ao local, se apresenta para o cliente surdo, sem necessariamente conhecê-lo previamente, faz o seu serviço e, ao término, se retira sem haver, muitas vezes, uma conversa ou comentário sobre a situação. Em nosso país, este tipo de relação entre os intérpretes e os surdos dificilmente acontece, já que ainda somos um grupo pequeno e conhecido entre a comunidade surda, além do fato de que muitos dos alunos dos cursos de intérprete mantêm contato com algum membro da comunidade surda.

Cabe novamente ressaltar que o enunciado comunidade surda não deve ser entendido, nesta pesquisa, em um sentido restrito, limitado e localizado que o termo possa sugerir. Trazemos a comunidade, como destacamos anteriormente, através das reflexões de Bauman (2003), sendo um lugar de compartilhamentos, um “objeto” de desejo de pertencimento, onde há uma sensação de segurança, uma ilusória sensação de aconchego, de uma “real” tensão entre seus membros.

Complementando a noção de cultura, o lingüista surdo britânico Paddy Ladd (2003. apud Quadros e Suton-Spence, 2006) nos apresenta como deafhood, traduzido pelas autoras como raízes surdas. Sendo assim, o intérprete de Língua de Sinais deve estar imerso nesta comunidade cultural surda, reconhecendo suas peculiaridades, sua cultura, sua língua:

Não é suficiente [o intérprete] conhecer a Língua Brasileira de Sinais para poder atuar eficazmente na escola com o aluno Surdo. É também necessário conhecer a Cultura Surda através da participação e vivência na comunidade Surda, aceitação da diferença e paciência para inteirar-se nela. (VILHALVA, 2007)

Entretanto, devemos nos questionar até quando poderemos dar conta de que todos os intérpretes de língua de sinais surgirão e nascerão dentro da comunidade surda, ou ainda, até quando poderemos manter esta, muitas vezes, íntima relação dos intérpretes com a comunidade surda. Haverá um dia em que uma criança, ou um adolescente, irá responder, ao ser perguntado: “o que você vai ser quando crescer?”. – Vou ser intérprete de língua de sinais. Caso isto ocorra, como iremos manter este sentido de que todos os ILS nascem dentro da comunidade surda? Ou, ainda, que os ILS devam ter esta íntima relação com a comunidade surda? E mais. Como os curso de formação de intérpretes de Língua de Sinais reconhecem esta especificidade, trazendo para dentro do planejamento e elaboração dos mesmos este aspecto do pertencimento na e da comunidade surda?

A maior sistematização profissional do intérprete implicará um movimento de universalização que demandará inevitavelmente certo afastamento de uma dada comunidade local, contudo sem perda da necessária vinculação estreita do intérprete à cultura surda representada, por exemplo, na língua brasileira de sinais - LIBRAS, entendida assim como uma espécie de denominador comum que representa, de modo inclusivo, as múltiplas variedades lingüísticas com suas diferenças, peculiaridades, similitudes, condizentes com as comunidades que as usam.

Além disso, há a necessidade de entendermos ainda que o intérprete, em sua ação cotidiana, não pode deixar de ser visto como um sujeito que produz sentidos, que manifesta uma posição enunciativa em construção, no exercício da interpretação (profissão). Sendo assim, ele também é um sujeito interpretante (discursivo), com sua singularidade, com suas escolhas, com suas interpretações (discursivas), filiadas a uma memória do dizer social sobre quem é o intérprete (constituição da profissão). Uma memória profissional ainda não amalgamada em nossa sociedade.

3. O corpus da pesquisa

O corpus desta pesquisa foi constituído a partir das auto-avaliações diárias, produzidas por 26 alunos de um curso de formação de intérpretes de Libras, realizado em uma cidade do estado do Rio Grande do Sul. O curso em questão foi dividido em três módulos de quarenta horas aula cada: Língua de Sinais direcionada para a interpretação, Lingüística Aplicada à Interpretação em Língua de Sinais e Técnicas de Interpretação em Língua de Sinais. Esse curso foi promovido pela Associação de Surdos local em parceria com a Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos – FENEIS, através do escritório regional do RS. Entre os alunos do curso estavam: professores de surdos de dois municípios, pessoas que já atuavam como intérprete e que não tinham formação formalizada, bem como familiares de surdos interessados em ser intérprete de língua de sinais. As auto-avaliações aqui analisadas referemse às quarenta horas aula do módulo de Técnicas de Interpretação, que foi elaborado e ministrado conjuntamente por mim e uma colega, no ano de 2004.

As aulas desse módulo foram de cunho prático e laboratorial, em que os alunos vivenciaram, além de diversas dinâmicas, simulações de interpretação da Língua de Sinais para a Língua Portuguesa e vice-versa. Ou seja, situações de simulação de falas em diversos contextos (educacional, conferência, encontro informal, etc.), em uma das línguas, para que os alunos interpretem para a outra.

Essas interpretações foram filmadas e logo após analisadas, identificando aspectos relevantes da interpretação, tanto positivos como negativos. Os comentários e sugestões originaram-se tanto das professoras quanto dos alunos, sendo discutidos os tópicos relevantes levantados a partir de alguns fragmentos das filmagens, que geraram dúvidas, que apontaram escolhas lexicais adequadas e coerentes, que evidenciaram alguns equívocos ou ainda que demonstraram qualquer momento da interpretação que pudesse provocar uma discussão pertinente.

Há um importante aspecto a destacar com referência a esses momentos de análise – a crítica construtiva. Desde a primeira análise foi sempre ressaltado para os alunos que o objetivo das mesmas é que o grupo, como um todo, pudesse aproveitar as dicas, sugestões e críticas, independentemente de quem seja, naquele momento, o sujeito analisado. É necessário deixar muito claro esse aspecto, pois estamos lidando com a imagem de cada um dos alunos e devemos ter o máximo de cuidado para que os mesmos não se sintam “inferiorizados” devido às críticas.

Como foi dito anteriormente, além dessas simulações, também foram realizadas diversas dinâmicas que tinham por objetivo desenvolver habilidades de competência tradutória como: memória de curto prazo, agilidade mental, uso de classificadores, improvisação, expressão facial e corporal, entre outros.

Tanto as simulações quanto as diferentes dinâmicas foram planejadas para o módulo, conjuntamente, entre as duas professoras, fato esse muito importante para o andamento das aulas, já que havia uma troca significativa de idéias durante o processo de elaboração das atividades a serem propostas. Foi observada uma sintonia muito boa entre ambas durante as aulas, muito provavelmente por causa desse preparo prévio e conjunto durante a etapa do planejamento. Cabe lembrar que as duas professoras atuavam na mesma turma e ao mesmo tempo.

Ao término de cada dia do módulo em questão, era solicitada aos alunos a escrita de uma auto-avaliação, em que eles deveriam descrever sua percepção do seu processo de aprendizagem daquele dia, ressaltando o que foi realmente significativo e o que eles acreditavam que poderia ser melhorado nas aulas. Enfim, a auto-avaliação tinha como propósito principal o retorno, aos professores, do modo como os alunos estavam se sentindo nas aulas e o que poderiam adaptar do planejamento das aulas para contemplar algumas das expectativas levantadas. A identificação na auto-avaliação era opcional, ficando a critério de cada um esta decisão.

Esse material, a princípio, seria o todo do corpus de minha análise nesta pesquisa, entretanto, em conversa com minha orientadora, decidimos que poderíamos complementá-lo, propondo para os sujeitos que participaram como discentes do curso a escrita de narrativas de experiências significativas de interpretação (positiva ou negativa). Este novo contato com os discentes seguiu um critério, ou seja, foram apenas contatados aqueles estudantes que assumiram a profissão de intérpretes de Libras após o curso e que, atualmente, estão atuando em diferentes locais como escolas, universidades e outros. Esse contato aconteceu de maneira digital, através de um e-mail, enviado àqueles que se enquadravam no critério de seleção determinado.

Essa estratégia foi utilizada para que o corpus fosse representativo da categoria dos intérpretes, já que, além de termos o discurso desses intérpretes na época de sua formação, poderíamos também contar com o discurso representado no relato de sua experiência como profissional atuante. Do total de sujeitos que participaram do curso, tivemos o retorno de cinco deles (1 homem e 4 mulheres), em que cada um trouxe suas experiências profissionais representadas pelas narrativas enviadas. Cabe lembrar que todos estes cinco sujeitos atuam profissionalmente como intérprete, mesmo sendo, muitas das narrativas apresentadas, relatos de experiências antes de participarem do curso em questão.

Sendo assim, todas aquelas auto-avaliações pertencentes aos alunos que, após o curso, nunca atuaram como intérpretes (como foi o caso da maioria dos professores de um dos municípios que na época procuraram o curso para, prioritariamente, aperfeiçoarem sua proficiência em Libras) e aquelas dos intérpretes que não enviaram suas narrativas foram descartadas do corpus da pesquisa.

4. Análise: efeitos de sentido

Na análise do corpus alguns efeitos de sentido foram evidenciados: o saber sobre a língua, o saber fazer uma interpretação, constatação da diversidade de saberes, deve-se estar dentro: pertencer a comunidade, os sentidos do sentir, o intérprete e as fronteiras de sua ação, novos campos de atuação do ILS, a importância das tarefas de interpretação. Destacaremos nesta produção um destes efeitos de sentido – os sentidos do sentir. Nesta análise, como podemos observar, o verbo sentir é bastante presente nos discursos dos intérpretes.

(Sujeito E) Sinto que vou perder o vício;
(Sujeito L) Sinto que estou crescendo a cada dia;
(Sujeito L)Me senti uma inútil;
(Sujeito T) Senti menos inibida;
(Sujeito L – narrativa profissional) Me senti mais aliviada;

No dicionário (Ferreira, 2000, p. 631), o verbete sentir traz como definição perceber por meio de qualquer órgão dos sentidos; experimentar (sensação física ou moral); ser sensível a; pressentir, melindrar-se com; ter consciência de; experimentar; reconhecer-se.

No corpus analisado, além da palavra sentir, explicitada nesses recortes, outras ainda nos remetem ao sentir, como sentimento de: medo, alívio, angústia, vergonha, e ao estado em que se encontra: nervoso, tenso na situação de formação e no próprio exercício profissional como ILS. Estas marcas denotam o quanto o corpo é estésico, pulsa, sente, clama e o quanto os intérpretes de língua de sinais são tocados por esta estesia, por este sensível, já que no seu cotidiano profissional a exposição direta do corpo o publiciza à medida que realiza a sua ação de interpretar. Esse fato dá a liberdade, não só a seus usuários mais diretos - os surdos, quanto às demais pessoas - aquelas que apenas os observam com um olhar comum de curiosidade, de os avaliarem, analisando o que, daquilo que é sinalizado, é possível de se entender, mesmo para quem não sabe a língua de sinais.

O fato de o ILS estar sempre em evidência durante o ato de interpretação,seja sobre um palco em uma conferência, seja em uma sala de aula diante dos olhares dos demais estudantes e docentes, seja em um tribunal, na janela de interpretação da televisão, tudo nos remete a um ato de exposição visual análogo à visibilidade que tem o artista que sobe ao palco, um artista que para nós é o ILS. Metaforizando a ação do ILS ao ato cênico de interpretar temos alguns aspectos envolvidos como: o nervosismo, o medo, as angústias e a timidez do artista (o sujeito ILS e sua constituição), a sua movimentação em cena (o uso da língua de sinais com suas expressões), o script (o assunto a ser interpretado), o ato cênico (a interpretação), o palco (local da interpretação), entre outros. Ao abrir das cortinas, as luzes dos holofotes são acesas (da avaliação do outro surdo e ouvinte) e inicia o espetáculo. E o artista, o ILS, assume a cena diante do brilho ofuscante dos holofotes. E é neste cenário que a estesia se materializa.

Sobre a estesia, Duarte (2003) retoma inicialmente o quanto nós, humanos, mantivemos nossa cultura, alicerçada sobre a dicotomia mente e corpo, um pensamento puramente cartesiano. Para o autor, o campo das artes tem muito a contribuir com as demais, visto que para a arte, o sensível é fonte de inspiração e de saber, é um lugar em que a estesia é vivenciada, não apenas como um saber moderno, mas como conhecimento, como intelecto. Portanto, diz Duarte, que necessitamos que a educação se volte à formação de um sujeito sensível, articulado com a cultura humana, e que desenvolva e refine seus sentidos. Conforme o autor:

Necessita-se primordialmente de um sujeito antes de tudo sensível, aberto às particularidades do mundo que possui à sua volta, o qual, sem dúvida nenhuma, deve ser articulado à humana cultura planetária (...) parece constituir, pois, o grande desafio da educação contemporânea. (DUARTE, 2003, p. 172)

Neste sentido, resgatando a marca sentir produzida pelos intérpretes, podemos fazer uma aproximação da estesia - entendendo-a como um estar aberto ao sensível, a atuação dos intérpretes. Assim, quando os intérpretes, tanto em seu momento de formação quanto em sua prática profissional, enunciam o sentir, podemos analisar que é como se seus corpos estivessem falando. O sensível, tocado pela vergonha, pelo medo, pelo estar tenso e por outros sentidos, é explicitado, manifestado discursivamente, possivelmente como um pedido de socorro, diante desse tipo de desejo que é a interpretação em língua de sinais. Pois bem, ele não deixa de ser, como a maioria, um sujeito constituído pelo pensamento cartesiano, em que no trabalho a mente está sempre em primeiro plano, mas que, em se tratando da interpretação em língua de sinais, esta teoria falece e o corpo é chamado e na maioria das vezes, obrigado a assumir este primeiro plano. Daí a necessidade de sermos educados para o sensível, para este novo lugar de dizer, em que tanto a mente quanto o corpo se integram, se complementam, se sustentam, oportunizando este outro olhar. O significante da língua de sinais, na qual se insere o ILS, é o gesto, a expressão facial (rosto, olhos e boca), privilegia, pois o corpo.Significantes corporais que se aliam a significados, compondo signos cujo sentido está na dependência de condições de produção.

Haroche (2008), discorrendo sobre a condição do sensível, também apresenta algumas reflexões sobre a maneira de olhar. Inicialmente ressalta que, com o crescimento do modo mecânico a que estamos hoje submetidos, que ela denomina como reprodução mecânica, vem se produzindo um efeito sobre o olhar, sobre nossa incapacidade de olhar e também de ver e de sentir.

As maneiras de olhar remetem a importantes questões sociais e políticas das sociedades democráticas individualistas, bem como à necessidade de atenção, consideração, respeito, reconhecimento e dignidade. Todas elas são maneiras de nomear e designar a necessidade de uma maior atenção às dimensões não visíveis da pessoa, que se acompanham de um direito ao olhar visando à proteção da integridade mais íntima de cada um. (HAROCHE, 2008, p.145)

A autora aborda ainda o declínio do indivíduo que hoje está imerso em uma sociedade líquida, no que tange aos sentimentos, à vivência destes e também na incapacidade de tratarmos deles e com eles. Para ela há um desengajamento, um descompromisso com as sensações que vêm influenciando profundamente as relações entre a percepção, a consciência, a reflexão e os sentimentos dos sujeitos, tocando os seus limites e colocando em xeque até mesmo sua própria capacidade de sentir.

Bauman (2005) também reforça esse desengajamento da contemporaneidade, o que ele também vai chamar de “novo distanciamento”.Um distanciamento daqueles que não se importam de ficar sós, desde que os que pensam diferente permaneçam em seus lugares, que não venham importuná-los. Como conseqüência, um movimento de enfraquecimento das comunidades, dos sindicatos, ocasionando um “eclipse das comunidades”.

Há cada vez menos estímulos para deter a desintegração dos laços humanos e para procurar meios de unir de novo o que foi rompido. A sina de indivíduos que lutam em solidão pode ser dolorosa e pouco atraente, mas firmes compromissos a atuar em conjunto parecem prometer mais perdas do que ganhos. Pode-se descobrir que as jangadas são feitas de mata-borrão só depois que a chance de salvação já tiver sido perdida. (BAUMAN, 2005, p.48)

Portanto, nos remetendo aos discursos dos intérpretes, podemos observar o quanto o sentido de sentir emerge deste lugar invisível no campo das sensações, do interdiscurso do sensível (se é que podemos assim dizer), deste “já-sentido”, desta marca sensível que nos constitui e que é carregada de dizeres outros que nos impedem, a cada momento, de refletir sobre o sentir.

E o que isto tudo nos faz pensar? Que os intérpretes, pelo fato de enunciarem o sentir estariam rompendo a frágil fronteira entre a imobilidade do pensamento contemporâneo e o desejo incessante de, ainda vivo em algum lugar da memória do dizer, de se fazerem ouvir, ver, tocar, cheirar e sentir? O que este efeito de sentido pode dizer sobre a constituição discursiva dos intérpretes e de suas práticas? Poderíamos articular este efeito com a importância destes profissionais estarem constantemente analisando e avaliando sua ação interpretativa, já que esta é prática rotineira também nos laboratórios de interpretação propostos pelos cursos de intérpretes? E se for isto, como os cursos de formação de intérpretes poderiam aproveitar melhor este desejo de sentir dos alunos?

O aparecimento de formulações em que foi constante a menção ao modo como os participantes do curso se sentiram parece mostrar também que eles foram tocados pelo curso, sensivelmente. Essa seria uma dentre as especificidades condizentes com cursos de formação de interpretação.

5. Sinalização final

Por fim, mas não um fim permanente, acreditamos que as reflexões que esta pesquisa possibilitou justificam o investimento que lhe foi dedicado. É uma pesquisa que acontece em um momento de transição e de novos acontecimentos acerca da organização dos intérpretes de língua de sinais por todo o país, em que a cada dia novas associações estaduais estão sendo fundadas com o objetivo de lutar pela regulamentação da profissão entre outras bandeiras; em que a Federação Brasileira dos Profissionais Intérpretes e Guias Intérpretes de Língua de Sinais – FEBRAPILS já é uma realidade; em que se instauram cursos superiores de formação de intérpretes de língua de sinais; e em que muitos ILS estão se envolvendo em pesquisas que tematizam a interpretação em língua de sinais.

Portanto, seguindo o sentido de pertencer à comunidade surda e as questões levantadas anteriormente, podemos sugerir, a partir das análises do corpus, que os novos cursos de interpretação – de formação do Intérprete de Língua de Sinais - possam garantir, dentro de sua filosofia e grade curricular, modos de concretizar uma efetiva aproximação dos alunos com a comunidade surda, sem a necessidade de pertencerem previamente a ela. Nesta perspectiva, poderemos oportunizar uma maior relação entre os alunos - futuros intérpretes, com os sujeitos surdos e a língua de sinais.

Os efeitos de sentidos identificados na análise realizada, tais como: a diversidade de espaços de atuação dos ILS; os sentidos do sentir envolvidos no ato cênico de interpretar; as especificidades da interpretação no âmbito escolar; as inquietações quanto ao saber as línguas envolvidas na interpretação e quanto ao saber fazer uma boa interpretação; a constatação da diversidade de saberes e a importância das tarefas de interpretação caracterizam a posição discursiva do sujeito intérprete de língua de sinais que estamos formando. Tendo em vista a crescente demanda de formação de intérpretes referida, considera-se que essa análise aponta ao vasto leque que se abre para pensarmos nos caminhos a trilhar, no sentido de promover a formação inicial, continuada e em serviço dos intérpretes de língua de sinais.

Sabemos que os sentidos evidenciados no processo de análise do corpus estabelecido nesta pesquisa, sob o referencial teórico-analítico da Análise de Discurso, foram produzidos conforme a interpretação da analista, a partir de sua experiência; acentua-se assim o caráter de que os mesmos não se esgotam e não são fixos. E também pondera-se que esses sentidos foram constituídos num dado momento histórico, em que uma condição de produção específica - e determinante - a elaboração de uma dissertação de mestrado – se apresentou.

A análise de discurso não pretende se instituir em especialista da interpretação, dominando “o” sentido dos textos, mas somente construir procedimentos expondo o olhar-leitor a níveis opacos à ação estratégica de um sujeito... a questão crucial é construir interpretações sem jamais neutralizá-las nem no “não-importa-o-quê” de um discurso sobre o discurso, nem em um espaço lógico estabilizado com pretensão universal. PÊCHEUX (Leite, apud Gregolin e Baronas, 2007, p103)

A articulação pretendida entre a teoria que sustenta a pesquisa - Análise de Discurso - com os estudos da tradução e da interpretação foi uma tarefa árdua e desafiadora. Buscar uma aproximação sem a pretensão de homogeneizar as diferenças entre as áreas mereceu uma atenção constante, um olhar cuidadoso e delicado. As noções sobre o quanto somos assujeitados, sobre a opacidade da língua e o fato de que enunciamos no imbricamento entre o interdiscurso e o intradiscurso, que o que se supõe ser de verdade é apenas um efeito de sentido aberto à deriva para tantos outros sentidos tornaram-se desestabilizadores de uma articulação pretendida inicialmente; os pontos de tangenciamento escapavam, atestando que o desejo da pesquisadora de dar conta de todos os sentidos é ilusório.

À diversidade das condições supostas com essa inscrição: é a dificuldade – com a qual é preciso um dia se confrontar – de um campo de pesquisas que vai da referência explícita e produtiva à linguística, até tudo o que toca as disciplinas de interpretação: logo a ordem da língua e da discursividade, a da “linguagem”, a da “significância” (Barthes), do simbólico e da simbolização... (PÊCHEUX, 2007, p.50)

Além disso, temos clareza de que ainda é necessário novas imersões, tanto neste quanto em outros corpus, no sentido de identificar novas inquietações acerca da constituição discursiva dos intérpretes de língua de sinais.

Outra sinalização que destacamos, refere-se à área na qual a formação dos ILS se constituirá: Letras; Pedagogia; Linguística Aplicada; Tradução. Notamos, no decorrer da pesquisa que há um atravessamento dessas áreas nesse novo e vasto campo de atuação profissional denominado como interpretação em língua de sinais. Entretanto, ressaltamos que, independentemente da área de filiação sugerida, as demais também se farão presentes. Não da forma que se apresentam em suas áreas de origem, mas sim, apontando as noções que se cruzam e se imbricam ao campo da interpretação em língua de sinais.

Portanto, dar a palavra àqueles que vivenciam ou já vivenciaram os cursos de ILS se torna imprescindível para que possamos identificar, em seus discursos, sentidos que estão sendo produzidos por estes sujeitos que protagonizam este momento, tateante e de transição, que a profissão, intérprete de Libras, atualmente atravessa. Momentos onde, da experiência desses profissionais, muitos acontecimentos estão emergindo no seu cotidiano rico em diversidade, nas suas relações com seus pares, produzindo sentidos capazes de se deslocarem para a memória discursiva coletiva dessa área, que passa também a se afirmar na memória social mais ampla. Destacou-se o sentido dado ao funcionamento da memória, ou seja, uma memória que mobiliza os sentidos que já estão lá, mas que quando da retomada sempre produzem um novo enunciado. E é nesse movimento dinâmico que esta pesquisa se encontra, um movimento de mãos, de corpos, de gestos, de expressões e de dizeres que estão produzindo sentidos e que pretendemos interpretá-los.

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