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Lodenir Becker Karnopp
Lodenir Becker Karnopp
Professora / Investigadora
Humor na literatura surda
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Publicado em 2014
Educar em Revista, Curitiba, Brasil, Edio Especial n. 2/2014, p.93-109
Lodenir Becker Karnopp
Carolina Hessel Silveira
  Artigo dispon�vel em vers�o PDF para utilizadores registados
Resumo

O artigo situa-se no contexto das atuais investigações no campo da educação de surdos, que, a partir de mudanças da legislação e do reconhecimento político da diferença linguística e cultural das comunidades surdas, vêm focalizando o estudo de produções culturais desses grupos. Seu objetivo é apresentar um recorte introdutório de estudo do humor em língua de sinais brasileira (Libras), especificamente a partir da análise de piadas que circulam nas comunidades surdas. Considerando a literatura como objeto estético e como construção intertextual, propõe-se a análise de uma piada circulante em Libras, em cinco versões diferentes. Conclui-se que o humor privilegia temas socialmente controversos e as diferentes versões da piada Leão Surdo aborda a diferença linguística e cultural, a inversão de olhares, através de cenas que apresentam as vantagens de ser surdo, a comunicação com ouvintes, bem como a língua de sinais como conhecimento determinante para o final (in)feliz da história. O inesperado acontece: o violinista é devorado, pois a técnica – musical e auditiva – empregada para fazer leões adormecerem não funciona com o leão surdo. No entanto, em uma das versões dessa piada, quando o violinista usa a língua de sinais, o leão surdo adormece e a vida do violinista é preservada, graças ao conhecimento da língua de sinais.

Sinais iniciais: contextualização do estudo

Nas últimas duas décadas, no Brasil, investigações na área de educação de surdos têm centrado suas análises principalmente nas políticas linguísticas e educacionais, tais como as propostas educacionais bilíngues implementadas na educação básica e superior. Especificamente, no âmbito da política linguística, podemos citar mudanças ocorridas na legislação através da oficialização da Língua Brasileira de Sinais (Libras), desencadeadas pela organização política e pelo fortalecimento da comunidade surda. Assim, a Lei nº 10.436/2002 reconhece a Língua Brasileira de Sinais como meio legal de comunicação e expressão, determinando que sejam garantidas formas institucionalizadas de apoiar seu uso e difusão, bem como a inclusão da disciplina de Libras como parte integrante do currículo nos cursos de formação de professores e de fonoaudiologia. Nos últimos anos, em especial a partir da publicação do Decreto 5.626/2005, ações promovidas por Instituições de Ensino Superior têm potencializado a formação de educadores bilíngues e intérpretes de Libras. Cabe destacar, como exemplo, os cursos de Graduação em Letras-Libras, na modalidade de ensino a distância, promovidos pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC/ MEC) desde o ano de 2006. A formação desses profissionais visa a garantir que, nas escolas, os surdos possam receber a educação básica em língua de sinais.

O reconhecimento político da diferença linguística e cultural das comunidades surdas, desencadeado por mudanças na legislação (Lei nº 10.436/2002 e Decreto 5.626/2005), possibilitou debates sobre a educação bilíngue numa dimensão política e não apenas linguística, problematizando a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2008). A tônica da discussão sobre a educação de surdos, a partir disso, marcou o reconhecimento político da surdez como diferença, provocando uma mudança epistemológica na forma como os surdos eram narrados e tratados: de deficientes auditivos para minoria linguística. Essa localização política embasou também propostas e ações sobre a educação bilíngue, já que, nessa perspectiva, a educação não envolve somente a escola ou a metodologia de ensino, mas considera a localização dos mecanismos e relações de poder e saber situados nas propostas educacionais. Com isso, os temas de discussão passam a ser também a legislação, as políticas educacionais e linguísticas, as representações dos surdos e da língua de sinais, a visibilidade da cultura surda, os mecanismos de controle que silenciam as diferenças, a negação das múltiplas identidades surdas, o percurso plural da comunidade surda, a aproximação entre escola e comunidade, a necessidade de projetos de formação de professores e de tradutores-intérpretes de línguas de sinais, entre outros. Neste contexto de debates, presenciamos também a valorização de poemas, anedotas, contos e narrativas produzidos em línguas de sinais. Neste sentido, a literatura surda começa a ser um tema investigado, descrito e analisado favorecendo a visibilidade das produções artístico-literárias em Libras, por exemplo, de narrativas e poemas sinalizados – disponibilizados em vídeos ou impressos – e que apresentam modos de ser surdo e marcas da cultura surda (KARNOPP, 2013).

Na análise que objetivamos empreender no presente artigo, deparamo-nos com produções de narrativas curtas – piadas/anedotas 2 – em línguas de sinais. Interessa-nos identificar os significados partilhados na comunidade surda, tendo como pista a análise do humor, produzido em língua de sinais. Neste sentido, relembramos a afirmação de Hall de que “A linguagem é o meio privilegiado através do qual damos sentido às coisas, através do qual o significado é produzido e através do qual há seu intercâmbio. Os significados só podem ser partilhados através de um acesso comum à linguagem. 3” (1997a, p. 1).
Interessa-nos estudar essa temática a partir do entendimento de que a representação é uma prática que produz cultura. De modo resumido, podemos dizer que esse conceito-ferramenta, a ser utilizado na presente análise, está vinculado ao campo dos Estudos Culturais (HALL, 2008; COSTA, 2000) e aos Estudos Surdos (LANE, 1992; LADD, 2003; SKLIAR, 1998), pois a representação, através da linguagem, é central para os processos através dos quais o significado é produzido.

Os Estudos Culturais (EC) e os Estudos Surdos (ES) têm influenciado significativamente as pesquisas nas áreas de Educação de Surdos, de modo particular nos últimos 20 anos, no Brasil. Eles têm inspirado diferentes investigações realizadas por grupos de pesquisa, tais como o Grupo Interinstitucional de Pesquisa em Educação de Surdos (GIPES). Os trabalhos produzidos por pesquisadores desse grupo estão unidos, algumas vezes, pelos autores em que se apoiam, pelos conceitos-ferramentas utilizados, pelo tipo de material investigado e/ou pelos procedimentos de investigação implementados. Mas, de forma ainda mais importante, eles/elas compartilham o processo de formular outras interrogações e inventar diferentes modos de descrição e análise.

[...] a certeza de que precisamos ser pesquisadores/as conectados/as com os desafios educacionais, culturais, sociais e políticos do nosso tempo. Um tempo que demanda de nós não apenas a compreensão do mundo em que vivemos, mas, sobretudo, a criação de instantes de suspensão dos sentidos já criados e a abertura de possibilidades de sua ressignificação. (MEYER; PARAÍSO, 2012, p. 21).

A partir do “circuito da cultura”, análises desenvolvidas no campo dos Estudos Culturais pretendem dar conta da complexidade que envolve os processos de produção, circulação e consumo dos objetos culturais. Nesse contexto, interessa aos investigadores desenvolver análises dos modos como um determinado objeto é representado, quais identidades são associadas a essas representações, como os artefatos são produzidos e consumidos e quais os mecanismos que regulam a sua distribuição e uso. Assim, o “circuito da cultura” envolve conceitos como representação, identidades, produção, consumo e regulação. Desse modo, trabalhamos com o conceito de representação na presente análise de anedotas em Libras.

É possível afirmar que a literatura surda e a literatura em língua de sinais não se caracterizam como “um campo passivo de mero registro ou de expressão de significados existentes” (HALL, 1997b, p. 47). Esses significados são construídos historicamente, principalmente por membros das comunidades surdas, inseridos em um campo discursivo do nosso tempo. A cultura determina formas de ver, de explicar e de compreender o mundo; ou seja, depende de que seus participantes interpretem de forma significativa o que esteja ocorrendo ao seu redor, e “entendam” o mundo de forma geral semelhante (HALL, 1997a).

Além disso, a “cultura é alimentada, criada, reproduzida, reforçada e, por vezes, subvertida, largamente, pelas narrativas com protagonistas pontuais, em circunstâncias e lugares datados” (SILVEIRA, 2005, p. 199).

Por traduzir o universo ficcional, linguístico e cultural de surdos, é no campo da literatura surda e da literatura em línguas de sinais que membros das comunidades surdas produzem e exercitam o humor, o prazer estético e a tradução cultural, oportunizando a circulação e o consumo da cultura surda. Assim é possível (re)constituir heranças histórico-culturais das comunidades surdas, testemunhando as práticas cotidianas e as ações da comunidade surda através de romances, fábulas, lendas, contos, poemas, piadas, crônicas, mitos, trova e de outras produções (MULLER; KARNOPP, 2012).

Com o propósito de analisar anedotas em Libras, no presente texto, deparamo-nos com a tarefa de traduzir os textos e o humor produzido em sinais para a língua portuguesa. Neste caminho investigativo, como pesquisadores, temos o desafio de analisar quem traduz a quem e através de quais significados políticos. Diante desse (e outros) desafios, desenvolvemos nossas pesquisas no campo dos EC e dos ES considerando que “a metodologia deve ser construída no processo de investigação e de acordo com as necessidades colocadas pelo objeto de pesquisa e pelas perguntas formuladas.” (MEYER; PARAÍSO, 2012, p. 15). Assim, entendemos metodologia como um modo de olhar, de perguntar, de discutir informações; enfim, “como uma certa forma de interrogação e um conjunto de estratégias analíticas de descrição” (MEYER; PARAÍSO, 2012, p. 16).

Sinais em desenvolvimento: algumas pesquisas e produções literárias em Libras

A palavra literatura sempre é difícil definir, e muitos conceitos já foram apresentados. Lajolo (2001, p. 11) afirma que perguntas como “o que é literatura?” são “perguntas permanentes” com “respostas provisórias”. O desafio para o presente trabalho é apresentar “respostas provisórias” para a forma como vem se constituindo a literatura surda e a literatura em língua de sinais, em pesquisas e em materiais produzidos por surdos e/ou em línguas de sinais. De modo resumido, buscamos discutir o conceito de literatura surda/literatura em línguas de sinais, a partir das contribuições de estudos anteriores sobre essa temática, bem como através da análise de produções literárias em sinais.

Nas décadas de 1980-90, a literatura surda circulava de modo mais presencial e nos encontros entre os surdos. Espaços como associações de surdos, escolas de surdos e eventos da área contavam com apresentações teatrais e/ou com surdos contadores de histórias, e havia poucos ouvintes que participavam (SILVEIRA, 2013). As produções literárias em Libras começaram a circular de modo mais frequente a partir de 2000. O avanço tecnológico nos últimos anos facilitou o uso de equipamentos portáteis (como máquinas digitais ou filmadoras), bem como a divulgação e circulação de vídeos em Libras, agilizando assim o registro de piadas, poesias, contos... sobre/de/para surdos. A questão das formas de registro das histórias é um aspecto importante a considerar para a análise da literatura surda, porque é diferente do caso da literatura escrita utilizada em culturas letradas.

Os artistas surdos Nelson Pimenta e Rosani Suzin promoveram a divulgação da literatura surda em vídeo 4, em oficinas e eventos, no final dos anos 1990. Em seguida, outros surdos ficaram conhecidos como contadores de histórias, artistas e poetas, através de vídeos postados em Libras no YouTube. Além disso, participantes da disciplina de Literatura Surda, no curso de Graduação em Letras-Libras (a partir de 2006), construíram narrativas e poemas, potencializando a(s) cultura(s) surda(s) e constituindo fonte de pesquisa. Destacamos ainda materiais em Libras produzidos pelo Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES); LSB Vídeo; LIBRAS Rosani Suzin e pela Editora Arara Azul, entre outros materiais.

Trabalhos acadêmicos sobre a literatura surda e a literatura em língua de sinais começaram a surgir em torno do ano de 2000, como por exemplo os de Silveira (2000); Karnopp (2006); Rosa (2006). Investigações em Programas de Pós-Graduação em Educação, como as dissertações de mestrado de Mourão (2011), Rosa (2011), Schallenberger (2010) e Muller (2012), trouxeram contribuições para a área de estudos da literatura surda. Além disso, localizamos a apresentação de trabalhos em eventos nas áreas de educação e linguística.

As respostas “provisórias” para a noção de literatura surda podem ser encontradas em Karnopp (2010) e Strobel (2009). Vejamos:

A expressão “literatura surda” é utilizada no presente texto para histórias que têm a língua de sinais, a identidade e a cultura surda presentes na narrativa. Literatura surda é a produção de textos literários em sinais, que traduz a experiência visual, que entende a surdez como presença de algo e não como falta, que possibilita outras representações de surdos e que considera as pessoas surdas como um grupo linguístico e cultural diferente (KARNOPP, 2010, p. 161).

Strobel sinaliza que a literatura surda:

[...] traduz a memória das vivências surdas através das várias gerações dos povos surdos. A literatura se multiplica em diferentes gêneros: poesia, história de surdos, piadas, literatura infantil, clássicos, fábulas, contos, romances, lendas e outras manifestações culturais. (STROBEL, 2009, p. 61)

Sutton-Spence (2013) aborda três formas de produção de literatura sobre surdos e/ou literatura em língua de sinais: (i) literatura escrita sobre surdos dentro do cânone de literatura escrita; (ii) literatura escrita por surdos com alguns deles culturalmente surdos; (iii) literatura em línguas de sinais quase sempre produzida por surdos. Segundo ela, a literatura surda se apresenta de modo recorrente como: (i) muito visual; (ii) centra-se na linguagem estética; (iii) carrega elementos que nos fazem aprender a partir das coisas ditas e (iv) carrega elementos que nos fazem aprender a partir da forma como as coisas são ditas. A partir dessas considerações, podemos dizer que a literatura surda é produzida em língua de sinais, mas nem toda literatura em sinais é identificada como literatura surda. Existem manifestações culturais dos surdos que apresentam singularidades, marcadas pela experiência visual, pelo modo como a língua de sinais é produzida e pelos significados construídos.

Além disso, ao considerarmos as contribuições de pesquisadores no campo da literatura como Culler (1999), destacamos alguns aspectos presentes na literatura surda e na literatura em língua de sinais, como por exemplo a literatura como objeto estético. Apesar da vinculação estreita com estudos de representação, o campo dos Estudos Culturais tem evitado sistematicamente a discussão de temas ligados a questões de estética, “por entender que esse conceito está, historicamente, ligado às dicotomias alta e baixa cultura, cultura do colonizado e do colonizador, como também lhes tem conferido legitimação teórica e epistemológica ao longo do tempo” (KIRCHOF; BONIN, 2013, p. 1071).

No entanto, ao considerarmos a literatura surda como objeto estético, estamos posicionando as formas humorísticas, poéticas e a colocação da linguagem em um plano diferenciado de uso. Essa colocação da linguagem em um plano diferenciado de uso evidencia sua literariedade, sobretudo na organização da língua de sinais, que a torna diferente dos sinais usados para outros fins, por exemplo, para fornecer informações. Na literatura surda, o uso da língua de sinais frequentemente é marcado por sinais poéticos, rimas sinalizadas, neologismos, classificadores. Esses sinais chamam a atenção dos surdos – é a linguagem literária (RUTHERFORD, 1983).

Outro ponto importante é o da construção intertextual, pois, como vamos ver, existem muitas obras surdas que transformam, adaptam e fazem retornar partes de outras obras. Assim, consideramos literatura como construção intertextual, no sentido de que uma obra existe em meio a outros textos, ou outras línguas/linguagens, através de suas relações com eles. Nessa perspectiva, relembramos a afirmação de Barthes (apud CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2004, p. 289):

Todo texto é um intertexto; outros estão presentes nele, em níveis variáveis, sob formas mais ou menos reconhecíveis [...] O intertexto é um campo geral de fórmulas anônimas, cuja origem raramente é recuperável, de citações inconscientes ou automáticas, feitas sem aspas (1973).

As perguntas permanecem, as respostas continuam provisórias... entretanto, trazemos outras perguntas, uma certa forma de interrogação e um conjunto de estratégias analíticas de descrição para a análise de piadas e anedotas em Libras. Na análise das diferentes versões do Leão Surdo, percebemos essa intertextualidade, através dos textos contados e recontados nas comunidades surdas, analisados na seguinte seção.

Sinais do humor

Alguns estudiosos já se interessaram por piadas e anedotas surdas. No livro Deaf Culture Our Way: Anecdotes from the Deaf Community, os autores 5 (HOLCOMB et al., 1994) apresentam um total de 111 piadas e anedotas trazidas por surdos nos Estados Unidos. Eles explicam o conteúdo do livro:

As piadas a seguir passaram por gerações de surdos e são amplamente conhecidas entre indivíduos da comunidade surda dos EUA. Geralmente estão entre as primeiras a serem compartilhadas com recém-chegados à comunidade surda. Enquanto pode haver muitas versões quanto contadores, as seguintes histórias são apresentadas em suas formas básicas. (1994, p. 3). 6

Rutherford (1983, p. 310) se propõe a analisar piadas surdas e entende as piadas dentro do folclore: “Meu estudo desse texto [a piada] foi baseado na crença de que, por meio de análise do folclore de uma comunidade, é possível encontrar um reflexo de sua cultura [...]”.

As piadas e anedotas fazem parte da abordagem do humor. Morgado (2011a) explica que humor em línguas gestuais 7 parece apresentar sempre as mesmas características, seja qual for o país. No entanto, para compreender o sentido ou as sutilezas humorísticas nas línguas de sinais, é necessário ser fluente na língua.

Para Morgado, podem-se diferenciar cinco formas de humor em línguas de sinais. A primeira viria das imitações de pessoas, animais, filmes e objetos. O segundo tipo abrange “brincadeiras com as configurações do alfabeto ou dos números, em que o contador pode criar uma história a partir delas” (p. 54). O terceiro tipo são “brincadeiras com o movimento”, em que os sinais produzidos realizam movimentos que remetem à piada/anedota que está sendo contada. O quarto tipo envolve “brincadeiras com temas tabu, como sexo ou cocô”, que são também muito frequentes entre os ouvintes. A autora afirma que “estas produções não são produzidas em contextos formais, mas são antes preferidas em convívios informais, em grupos pequenos [...]” (p. 54). O quinto tipo inclui “anedotas que vão passando de mão em mão e de país para país, entre os surdos” (p. 55). A autora considera as possibilidades de comunicação atualmente, através da internet, bem como os encontros de surdos, nos quais sempre existe um momento de contar anedotas. Podemos observar a circulação de algumas piadas no Brasil e também em outros países – Estados Unidos, Portugal e França – especialmente aquelas que são clássicas na comunidade surda, tais como: “King Kong; A lua de mel; O leão surdo; [...]” (MORGADO 2011b, p. 166).

Sinais analíticos: O Leão Surdo 8

Considerando os aspectos citados anteriormente – literatura como objeto estético e literatura como construção intertextual – propomos analisar uma mesma piada em Libras, intitulada Leão Surdo e contada em cinco versões diferentes. Além disso, pretendemos analisar quais especificidades da língua de sinais são aproveitadas para dar maior força expressiva às piadas, como artefatos da cultura surda.
Leão Surdo foi uma piada citada por Morgado (2011b) como clássica na comunidade surda, e tem uma forma básica conhecida. Assim como outras piadas surdas, o desfecho se relaciona com o próprio fato de um personagem ser surdo. Foram encontradas inicialmente versões dessa piada em quatro materiais (em DVD) e em um vídeo disponível no YouTube.

Uma incursão por sites da internet mostrou também que se trata de uma piada bastante conhecida internacionalmente, como se pode ver por vídeos postados no YouTube, em que, por exemplo, um surdo americano conta uma versão sobre o leão surdo 9 e uma surda indiana conta uma piada 10 semelhante. Apesar da considerável distância geográfica de origem, os surdos de diferentes comunidades conhecem essa piada. Outra versão da piada, encontramos em um livro de original escrito em francês, que foi traduzido para o português com o título “Surdos, 100 Piadas” (RENARD; LAPALU, 2009). É importante chamar a atenção por ser uma piada escrita, como a que reproduzimos na página seguinte, e mesmo as outras transcrições não trazem a riqueza de uma piada sinalizada.

Em um primeiro levantamento feito sobre as ocorrências, em Libras, da piada Leão Surdo, foram identificadas versões semelhantes referindo-se a um animal de grande porte (touro). Foram encontrados quatro materiais, sendo que um deles apresentava duas versões. As versões encontradas e analisadas, no presente estudo, foram:

Versão A: DVD PIADAS EM LIBRAS, produzido por Sandro dos S. Pereira (2009).
Versões B e C: DVD PIADAS EM LIBRAS com 20 piadas, com duas versões sobre o Leão Surdo, produzido pela Feneis-SP, com atuação de atores diferentes (2011).
Versão D: Vídeo postado no YouTube 11, com o ator Germano Dutra (2008), que apresenta a versão do touro surdo.
Versão E: Vídeo didático usado no ensino de Libras na Unintese, produzido por Cláudio Mourão (2011), com a versão do touro surdo.

É possível identificar algumas modificações em cada versão. Para fazer uma comparação mais precisa das cinco versões, podemos visualizar um quadro de síntese com os seguintes elementos: material (vídeo, internet ou texto escrito); personagem animal (tipo de animal e quantidade); personagem humano (ouvintes/surdos/adultos/crianças?); cenário da ação; instrumento musical ou fonte sonora; desfecho.

Fonte: RENARD, Marc; LAPALU, Yves. Surdos, 100 Piadas! Lisboa, Editora Surd´Universo, 2009, p. 8.

Versão Fonte Vídeo Personagem Cenário Instrumento Desfecho
Animal Humano
A Sandro Pereira
DVD Piadas em Libras
DVD Leão 2 violinistas e 1 menino Zoológico Violino Violinista e menino morrem.
B Celso Badin
DVD FENEIS – SP
DVD Leão 2 turistas (surdo e ouvinte) e 1 guia Pampa Safári (África) Canto Turista ouvinte morre; turista surdo escapou.
C Moryse Saruta
DVD FENEIS – SP
DVD Leão 1 escravo
violinista
Coliseu
(Roma- Itália)
Violino Violinista
sinalizou; leão
adormeceu.
D Germano Dutra
YouTube
Youtube Touro 1 toureiro
violinista
Arena (Espanha) Violino Toureiro caiu.
E Cacau Mourão
Vídeo Unintese
DVD Touro 1 toureiro
violinista
Arena (Espanha) Violino Toureiro voou para fora da Arena, o público tirando fotos.

Quadro 1 – Versões da piada Leão Surdo

Numa primeira comparação, vemos que as versões A e B têm um final trágico com o leão devorando pessoas, enquanto outras versões apresentam outros desfechos aparentemente mais conciliadores. Em duas delas – D e E – o final envolve o toureiro que caiu e outro toureiro sendo arremessado para fora, o que é mais condizente com o animal (touro), que não devora pessoas. Em outra versão, C, o violinista apresenta uma música em Libras, agradando o leão.

Quatro piadas usam o instrumento violino como fonte de música agradável, e uma piada somente utiliza a referência ao canto. Observa-se ainda uma variedade de lugares de ambientação: temos, como locais da ação, o zoológico (local urbano onde regularmente se podem encontrar leões), a África, através de um safári; Coliseu (Roma – Itália) e, nas duas últimas piadas, apresenta-se o mesmo local: uma arena ou campo de touros, na Espanha. Das cinco versões apresentadas, em duas delas o animal é o touro, condizente com toda a sua ambientação: uma tourada, um protagonista toureiro, um campo de touradas. Nas demais, trata-se do animal que tradicionalmente tem sido visto como um símbolo de ferocidade: o leão. Em todas as versões, o desfecho da piada se relaciona com o próprio fato de o animal ser surdo.

Também observamos o fato de que em uma versão (C) o fato de saber Libras livra o personagem da morte e, portanto, saber uma Língua de Sinais foi uma grande vantagem. Em todas as outras versões, fica claro que se o personagem soubesse uma língua de sinais, teria sobrevivido!

Em síntese, duas versões correspondem à versão mais corrente na comunidade surda: apresentam um violinista (ou dois) que acalma leões ouvintes com sua música, até que um leão – que é surdo – não se sensibiliza e acontece um final trágico.

Podemos também analisar esta anedota com base na classificação que Morgado (2011a) faz das fontes do humor surdo, conforme mencionamos inicialmente. Assim, o Leão Surdo se encaixaria nas “Anedotas que vão passando de mão em mão e de país para país, entre os surdos”. Essas anedotas, conforme a autora, apresentam as (des)vantagens de ser surdo, a comunicação com ouvintes, os aparelhos auditivos, a acessibilidade tecnológica, a língua de sinais, os intérpretes de línguas de sinais, etc.

Assim, em todos os vídeos podemos ver uma ênfase maior na expressão, os sinais apresentam intensidade no movimento, repetições, exagerando e mimetizando características dos personagens e das ações (dentes dos leões, juba do leão esvoaçante quando ele corre, corda do violino arrebentando por causa da velocidade do violinista tocar ou do ataque do leão...). Os movimentos que narram as ações do leão ou do touro são velozes, e as expressões faciais são tensas; enquanto o movimento relacionado à música produzida pelo violino apresenta movimentos mais suaves e lentos, com expressões faciais mais serenas. Além disso, observamos que o local onde são produzidos os sinais – no espaço neutro, em frente ao corpo – posicionam, de um lado, o leão e, de outro lado, o violino, sendo que o leão vai se aproximando do violinista gradativamente até o desfecho da história.

Conforme Bergson (1980), existem vários tipos de processos que nos fazem rir. Um desses processos é o exagero. “O exagero é cômico quando é prolongado e sobretudo quando é prolongado e sistemático” (p. 67). No caso das piadas em Libras sinalizadas e daquelas que analisamos, em especial, parece que este é um processo central.

Observamos, ainda, que as piadas surdas têm vários aspectos em comum com piadas de ouvintes e com características das histórias e anedotas populares. Assim, os estudiosos de anedotas e piadas dizem que toda a piada tem que ter um final inesperado e isso se observa na piada estudada. Ainda sobre Leão Surdo – é uma piada acumulativa, frequente na cultura popular, em que se repete uma situação com alguma mudança e que vai criando cada vez mais uma expectativa para saber o que vai acontecer.

Sinais (quase) finais

Leão Surdo, piada que circula em diferentes versões em Libras e em outras línguas de sinais, apresenta algumas formas empregadas em outros tipos de piadas, tendo como base uma exploração mais sofisticada da linguagem humorística e a manipulação de sinais mais exagerados e expressivos, que desencadeia um final inesperado, quer pela situação, quer pela personagem.

Mas, em virtude do que se afirmou anteriormente sobre os temas prediletos de piadas que circulam em línguas de sinais em comunidades surdas, a surpresa do que é apresentado no desfecho tem nas piadas de surdos um papel recorrente, com o fator surpresa e a quebra de expectativas. Nas piadas que examinamos, esperamos ter apresentado evidências empíricas de que o humor na literatura surda não é um humor banal, simples de ser tratado do ponto de vista discursivo. Um dos ensinamentos que se pode extrair das piadas apresentadas é que não existe leitor sem textos, o que deveria parecer óbvio, mas parece que não é, para uma parcela bastante grande de pessoas, que veem os textos como entidades independentes e autônomas. Os textos analisados podem até permitir mais de uma leitura, mas frequentemente impõem só uma e geralmente impedem uma leitura qualquer. Assim, concluímos que se tematiza, na piada Leão Surdo, a diferença linguística e cultural, a inversão dos olhares, através de cenas que apresentam as vantagens de ser surdo, a comunicação com ouvintes, bem como a língua de sinais como conhecimento determinante para o desfecho da história. O inesperado acontece: o violinista é devorado, pois a técnica empregada para fazer leões adormecerem não funciona com o Leão Surdo. No entanto, na versão C, quando o violinista sinalizou, o leão surdo adormeceu. Assim, o violinista se salvou, graças ao conhecimento que tinha da língua de sinais. Nessa direção, relembramos a afirmação de Possenti (1998) de que as piadas versam “sobre temas que são socialmente controversos. [...] Assim, as piadas são uma espécie de sintoma, já que, tipicamente, são relativas a domínios discursivos ‘quentes’” (p. 25). A piada Leão Surdo apresenta as vantagens de conhecer a língua de sinais, como uma forma de preservação da(s) vida(s). Na inversão de olhares referida na piada do leão, percebemos um outro lado da “surdez”, veiculando discursos não explicitados correntemente, ou pelo menos, discursos pouco oficiais, tais como as vantagens de ser surdo e o seu valor cultural.

Notas

2 Embora alguns estudos apresentem diferenças entre piada e anedota, no presente texto, usamos esses termos como sinônimos.
3 Tradução nossa.
4 DVD “Literatura em LSB”, vol.1, Nelson Pimenta, LSB Vídeo, Rio de Janeiro, 1999; DVD “LIBRAS”, vol. 03, Rosani Suzin, Curitiba, 2001.
5 Os autores, Roy K. Holcomb, Samuel K. Holcomb e Thomas K. Holcomb, são surdos, um pai e dois filhos, que registraram as piadas surdas contadas pela comunidade surda durante anos nos Estados Unidos. Esta obra é um registro importante sobre piadas surdas antes da tecnologia avançada.
6 Tradução de Iuri Abreu.
7 Em Portugal, se emprega a expressão línguas gestuais; no Brasil se diz língua de sinais.
8 Retomamos, nesta seção, materiais utilizados por uma das autoras deste artigo, em Proposta de Tese (SILVEIRA, 2013).

Bibliografia

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