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Cristina Gil
Cristina Gil
Investigadora/Docente no Ensino Superior
O Mythomoteur Surdo
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Publicado em 2019
In Lnguas de Sinais: Cultura Educao Identidade, organizador por Isabel Sofia Calvrio Correia, Pedro Balaus Custdio & Ronaldo Manasss Rodrigues Campos, p. 75-92. Lisboa: Ex-Libris.
Cristina Gil
  Artigo disponvel em verso PDF para utilizadores registados
Resumo

A origem gestual da linguagem humana levanta diversas questões, tais como considerar-se que as línguas gestuais não são exclusivas das comunidades Surdas 3. A existência de aldeias onde a maioria dos habitantes é ouvinte e em que o idioma mais usado é uma língua gestual (Kusters, 2010) faz-nos questionar até que ponto as línguas gestuais são exclusivas das pessoas Surdas ou das designadas comunidades Surdas. Pelo o que sabemos até ao momento, a Cultura Surda emerge das comunidades Surdas o que cria uma base que influencia a estrutura da identidade Surda no caso das pessoas Surdas utilizadoras de uma língua gestual. Holcomb define sete tipos de identidades Surdas e nem todas assentam em línguas gestuais e cultura Surda. Alguns indivíduos surdos escolhem viver as suas vidas à parte de outros Surdos, de línguas gestuais e Cultura Surda e outros são involuntariamente condenados ao isolamento devido a diversos factores ou são cativos, no sentido em que são proibidos de contactar com outros Surdos (Holcomb, 2012). Este artigo centra-se nas pessoas Surdas utilizadoras de uma língua gestual, que produzem, consumem e têm a consciência da Cultura Surda e que pertencem a uma comunidade Surda. Estes indivíduos Surdos no processo construtivo da sua identidade Surda são aqueles que inspiraram e foram inspirados pela tétrade Mythomoteur: Deaf World, Deaf Way, Deafhood e Deaf Gain 4 (Armstrong, 1982; Bauman & Murray, 2014; Erting, Johnson, Smith, & Snider, 1994; Ladd, 2003)

Todavia, as línguas gestuais não são exclusivas de pessoas com perda auditiva. Estes idiomas também são utilizados como línguas por ouvintes como veículo de expressão e comunicação, o que nos conduz a ponderar sobre o verdadeiro papel central da Cultura Surda. Este ponto de vista crítico leva-nos mais além, permitindo-nos questionar a sustentabilidade do binário mundo Surdo/Ouvinte, convidando-nos a um olhar mais aprofundado em torno da expansão de conceitos como Deafhood e Deaf Gain. Os ouvintes que gestuam referem muitas vezes as vantagens de ser um gestuante uma vez que acedem à riqueza da Cultura Surda em primeira mão. Os Surdos, por sua vez, buscam incessantemente um equilíbrio entre uma existência Surda plenamente bilingue, bimodal e bicultural. Esta demanda permanente pode transformar-se numa frustrante experiência de vida. Contudo, Deaf World, o Deaf Way, o Deafhood e o Deaf Gain são, inquestionavelmente, conceitos de empoderamento, tecendo laços supranacionais e inspirando uma concepção partilhada de interações dentro das comunidades Surdas. Assim, é importante pensar-se como estes conceitos podem interagir com Surdos e ouvintes e que impacto têm nas suas vidas. Este artigo pretende incidir sobre a tétrade Mythomoteur e como a disseminação destes elementos da Cultura Surda, sobretudo as línguas gestuais, que enriquecem a linguagem humana daqueles que escolhem levantar e mover as suas mãos para além do que aparentemente parece ser determinado pela perda auditiva.

“Quem quiser conhecer o Mundo deve deter-se nos pormenores”
Heráclito de Éfeso (535-475 aC.)

O conceito de Mythomoteur foi proposto por Ramon d’Abadal y De Vinyals, desenvolvido por John Armstrong no livro Nations before Nationalism e, posteriormente, usado pelo simbolista étnico Anthony
D. Smith que o aplicou na sua obra The Ethnic Origins of Nations. A teoria do Mythomoteur também se relaciona com a teoria de Benedict Anderson das “comunidades imaginadas” pois também necessitam desta engrenagem conceptual. O termo em si refere-se aos mitos que funcionam como moteur, um motor que intensifica as relações de pertença a um grupo e firma a sua identidade, unidade e objetivos. As tradições e os mitos de um país são usados, normalmente, com propósitos de coesão nacional. No entanto, este conceito não tem de ser exclusivamente aplicado a nações, mas também encaixa em diversas etnicidades e comunidades. Estas comunidades assentam numa tradição cultural bem desenvolvida que pode assentar no folclore, no prestígio da língua, ou outras caraterísticas (Anderson, 1991; Armstrong, 1982; Smith, 1986).

O Mythomoteur Surdo sobre que se propõe refletir neste artigo é composto de vários constructos que têm surgido ao longo dos anos: Deaf World, Deaf Way, Deafhood e Deaf Gain (Bauman & Murray, 2014; Erting et al., 1994; Bauman & Murray, 2009; Ladd, 1994, 2003; Lane, Hoffmeister, & Bahan, 1996). Contudo, o Mythomoteur Surdo não é um sistema fechado, pois o que agora é apresentado como uma tétrade é expectável que se expanda para se transformar em pêntade ou héxade, e por aí adiante.

As línguas gestuais emergiram não apenas entre os Surdos, mas também entre os ouvintes. As comunidades com menos Surdos do que ouvintes usam línguas gestuais mesmo em contextos em que ambos os interlocutores são ouvintes. O exemplo mais notável é Martha’s Vineyard, uma ilha na costa de Nova Iorque onde existiu um elevado número de Surdos. Durante o início do século XVIII até meados do século XX a língua de contacto era a Língua Gestual de Martha’s Vineyard (Groce, 1985). Outros dois exemplos deste tipo de comunidades são a aldeia em Adamorobe, no Gana, onde a língua gestual é usada entre Surdos e ouvintes ( Branson, Miller, & Marsaja, 1999; Branson, Miller, Marsaja, & Negara, 1996; Kusters, 2010, 2014; Nyst, 2007; Nyst & Baker, 2003) e uma aldeia em Bali, Bengkala, onde a maioria das pessoas ouvintes usa língua gestual (De Vos, 2012). Estes exemplos abrem caminho para nos interrogarmos sobre se as línguas gestuais são um produto da surdez ou são intrínsecas ao ser humano. Uma outra questão é como a Cultura Surda e o Surdo como Mythomoteur estão a perpassar a esferas dos ouvintes e como estes constructos estão a permitir aos Surdos preservar as suas idiossincrasias, o seu património e, simultaneamente, permitindo-nos a nós, Surdos e ouvintes, viver e coexistir 5 melhor (Barthes, 2012)

Maioria e minoria: das origens da linguagem às aldeias gestuais

A cultura minoritária versus civilização de massas é uma dicotomia social clássica. Tal como atesta Ortega y Gasset: “Society is always a dynamic unity of two component factors: minorities and masses. The minorities are individuals or groups of individuals which are specially qualified” (Ortega Y Gasset, 1930, p. 6-7). Se seguirmos esta linha de pensamento, esta é a dinâmica dos Surdos (minoria) e dos Ouvintes (massas), e o traço que faz dos Surdos especialmente qualificados neste caso são as línguas gestuais e tudo o que advém pelo facto de se usar uma língua de modalidade visuo-gestual, tridimensional e de se pertencer a uma Cultura Surda. Ortega y Gasset também afirma que “…these masses have at the same time shown themselves indocile to the minorities, they do not obey them, follow them, or respect them; on the contrary, they push them aside and supplant them.” (Ortega Y Gasset, 1930, p. 13). Nesta perspetiva há uma tradição da maioria de negar a diferença e a diversidade o que causa na minoria Surda sentimentos constantes de rejeição. Em algumas esferas, a profundidade do trauma a que a minoria Surda tem vindo a ser exposta ao longo de séculos continua a ressoar e a ressurgir em contextos em que os surdos/Surdos contactam com ouvintes em ambientes dominados por estes últimos. Uma reacção contra esta situação começa a tomar forma, tal como explanado por Woll e Ladd: “In the mid-1970s, growing awareness of the failure of Oralism, combined with the decolonization processes engendered by the liberal 1960s, enabled the beginnings of a Deaf resurgence.” (Woll & Ladd, 2011, p.11). A discussão sobre a divisão entre Surdos/ouvintes encontra muitas vezes paralelo nos discursos colonizadores, tal como Paddy Ladd (2003) que afirmou que os Surdos são uma minoria reprimida pelas maiorias ouvintes. Estas maiorias sempre almejaram corrigir a surdez ao invés de a aceitar enquanto traço distintivo que abriu caminho para o surgimento de línguas gestuais e Cultura Surda, um legado de um povo que enriquece a humanidade através da diversidade étnica e cultural. Ladd (2003) conclui assim que as comunidades Surdas têm sido colonizadas em diversos aspectos devido a uma História de contínua opressão. Esta opressão encaixa no paradigma aristotélico e no paradigma médico que deseja a qualquer custo transformar os surdos em ouvintes. Esta perspetiva centrada na perda auditiva e na reabilitação impossibilita a aceitação da diferença desrespeitando assim o que os Surdos têm a dizer de si mesmos. Nesta linha de pensamento, é possível verificar que hoje em dia algumas comunidades Surdas estão a enquadrar a definição da sua identidade enquanto uma identidade pós-colonial, tendo encontrado significados sobre si mesmos através de novas reflexões considerando o passado e o futuro das comunidades surdas, assim como as suas dinâmicas internas e externas com a maioria ouvinte, sendo que finalmente chegaram a uma rejeição consensual do rótulo de ‘Surdo-Mudo’ (Ladd, 2003; Lane, 1992). 

Simultaneamente, há contextos maioritariamente ouvintes em que a língua gestual prevalece acima das línguas orais, em que o audismo- a discriminação baseada na noção de que se é superior ao outro devido à capacidade de ouvir - não é um comportamento comum (Humphries, 1077). Para comprovar como as línguas gestuais podem ser naturais para os ouvintes é necessário levar em conta as teorias evolutivas da linguagem que reivindicam a origem da linguagem baseada numa modalidade gestual (Armstrong & Wilcox, 2007; Corballis, 2002).Tais teorias afirmam que com a emergência do espécie Homo, os hominídeos tornaram-se mais sofisticados, apresentando comportamentos mais elaborados e, consequentemente, com a necessidade de novas ferramentas de comunicação. Corballis, Armstrong & Wilcox (2002; 2007) defendem que neste estádio a linguagem era maioritariamente gestual tendo evoluído por forma a possibilitar a expressão de ideias mais complexas, o que justificou o aparecimento de elementos gramaticais simples. Os mesmos autores também se baseiam na investigação em aquisição da linguagem, lembrando que os bebés ouvintes usam gestos antes de conseguirem articular vocalmente e que nós adultos tendemos a usar gestos enanto falamos para clarificar a mensagem ou para enfatizar algum aspecto (Armstrong & Wilcox, 2007; Corballis, 2002). Da mesma forma, no campo da linguística podemos referir a prevalência de gestos paralinguísticos que designam os gestos muitas vezes utilizados para clarificar o discurso oral e que entendemos devido ao nosso enquadramento cultural (Eve Sweetser, 2008; Kok, 2016). Num escopo mais alargado, a teoria de Merlin Donald reforça estas reivindicações afirmando que a linguagem natural evoluiu a partir de uma mente mimética, o que significa que a linguagem permite representação simbólica e, partindo desta premissa, permite criar mitos (Donald, 1993). Esta criação de mitos é uma forma de conferir coesão à comunidade funcionando como um motor, como um mythomoteur.

Estas perspetivas sobre a origem da linguagem permitem-nos compreender melhor o fenómeno que se observa em micro-comunidades tais como as que acimas mencionámos, ou seja, Martha’s Vineyard, Adamorobe ou Bengkala, entre outras em que ouvintes usam línguas gestuais como sistema de comunicação devido ao que aprenderam pelo convívio geracional com comunidades surdas. Nestas comunidades, os surdos existem, visto que há surdez hereditária, mas os ganhos auditivos não ditam o uso da língua; todavia, a desigualdade permanece uma vez que pessoas Surdas continuam a não ter igualdade de oportunidades tais como ter posições de destaque no governo local (Nyst, 2016). No caso dos Adamorobe, a lei proíbe o casamento entre pessoas surdas desde 1975 (Kusters, 2012), assentando num ideal de eugenia que se assemelha ao proposto por Alexander Graham Bell em 1884 no The Memoir upon the formation of a deaf variety of the Human race (Bell, 1884). Este livro, tal como esta lei, consistem, de forma mais ou menos velada, numa tentativa de acabar com a surdez erradicando pessoas surdas através de métodos eugénicos. 

Bell explica por que a proibição do casamento entre indivíduos surdos é importante, como eles não se devem reproduzir e sugere até esterilização obrigatória por lei para os surdos. Estas propostas forma aprovadas em alguns estados americanos no século XIX e continua a ser uma realidade para os que vivem em Adamorobe nos nossos dias. Em Adamorobe há 3500 habitantes e apenas 45 são surdos (Kusters, 2015). 

Em Bengkala ou Desa Kolok, a expressão balinesa para ‘aldeia dos surdos’ tanto surdos como ouvintes gestuam Kata Kolok o que significa ‘conversa dos surdos’. De Vos sublinha que uma dinâmica social gera as condições favoráveis para a aquisição natural de uma língua gestual entre ouvintes (De Vos, 2012). Nestes trabalhos, estes ambientes são normalmente designados de aldeias de surdos ou aldeias de língua gestual em estudos sobre as línguas gestuais (Zeshan, 2006), mas neste artigo, prefere-se usar o termo aldeias gestuais, como mencionado em parágrafo acima, pois o que se pretende enfatizar é o uso de uma língua gestual e não a condição auditiva. Estra abordagem aproxima-se da de Woll e Ladd, definida no seu artigo Deaf Communities, mais concretamente na secção Case Studies of “Signing Communities” (Wool &Ladd, 2011). O principal enfoque neste trabalho é que ouvintes e surdos usam uma língua gestual para se expressarem, ambos têm acesso a esta língua e têm o sentimento de partilhar algo, uma vez que a sua língua veicula a sua cultura.

O Mythomoteur Surdo: uma tétrade conceptual

Tal como já dissemos previamente, o Mythomoteur é um mecanismo conceptual que se refere a um “mito” como sendo uma história, um poema, uma ideia ou ideal que se apresenta como um moteur (motor) para consolidar o sentimento de pertença de um grupo étnico. Conceitos como Deaf World, Deaf Way, Deafhood e Deaf Gain são claros exemplos desta definição, como veremos abaixo.

O que une as pessoas Surdas não é apenas a falta de audição mas sobretudo a língua que partilham. As comunidades Surdas são um fenómeno mundial nutrido pela existência das línguas gestuais e, permitiram a formação de tradições, como folclore 6, poesia, anedotas, e outras formas de elementos culturalmente vibrantes. A maioria das pessoas Surdas reúnem-se nas suas esferas (espaços Surdos/Deaf Spaces) tais como escolas de Surdos, associações de Surdos, igrejas de Surdos e organizações de Surdos que têm a sua própria dinâmica e que têm sido designados sob a égide de um denominador comum desde o princípio dos Estudos Surdos, o de Deaf World (Lane, Harlan et al., 1996). É tradicionalmente aceite que o Deaf World coexiste com o mundo em que a maioria ouvinte vive, mas este último não está consciente da existência do outro mundo. Actualmente, as pessoas Surdas estão a alcançar diferentes espaços sociais dos quais estavam privados no passado devido a desigualdades de oportunidades no campo educacional e profissional. Numa era em que a igualdade de oportunidades está ao alcance das pessoas Surdas, tendo em conta as diversas áreas a que os Surdos estão a movimentar-se e considerando igualmente os diferentes tipos de identidades Surdas (Holcomb, 2012) estamos no presente a assistir a uma desconstrução do significado de Deaf World. 

Neste artigo não defendemos que o conceito de Deaf World pertence a uma realidade diferente daquela do mundo ouvinte, pois acreditamos que o Deaf World não assenta num discurso segregador, mas uma categorização de espaços específicos e da forma como nos movemos nestes espaços Surdos, tal como Gulliver defende na sua área de saber- Geografias Surdas (Gulliver & Kitzel, 2014). Quando nos referimos ao Deaf World estamos a designar um grupo de pessoas, numa perspectiva transnacional que não estão adstritas aos seus países, mas que se reúnem em torno da suas experiências comuns, na sua cultura Surda partilhada, com objetivos similares nas organizações de Surdos e, também, referimo-nos a uma atmosfera que assenta numa língua gestual enriquecida pela Cultura Surda. Michele Friedner (2016), por exemplo, no seu artigo Understanding and Not-understanding: What do Epistemologies and Ontologies do in Deaf Worlds? usa este conceito concluindo que “when understanding happens, epistemologies and ontologies create deaf worlds. Not understanding fractures deaf worlds.” (Friedner, 2016 p.199). O Deaf World relaciona-se com uma perspectiva Surda que tem estreitas conexões com o conceito de Deaf Way que explanaremos mais adiante. Numa tentativa de justificar a complexidade das dinâmicas supranacionais do Deaf World podemos dar como exemplo a rede formada por laços imaginários que unem as pessoas Surdas. Inúmeros indivíduos surdos/Surdos têm histórias de vida similares e experiências baseadas no facto de serem surdos o que moldou a sua existência acima de tudo. (Lane, Pillard, & Hedberg, 2011; Lane, Harlan et al., 1996). Esta partilha imaginária de uma existência pode ser facilmente comprovada se observarmos uma conversa entre dois indivíduos Surdos de lados opostos do globo, tagarelando sobre a sua experiência na escola ou nos jantares festivos de família. Esta conexão, e o facto de utilizarem uma língua gestual, reconhecendo elementos da Cultura Surda e tendo laços imaginários não faz dos indivíduos Surdos pertencentes a diversas comunidades Surdas no mundo seres homogéneos. Há que considerar não apenas a cultura nacional intrínseca a cada um, mas também podemos considerar vários tipos de Identidades Surdas como Holcomb notou:

“Deaf people are not alike. Some deaf people struggle with what it means to be deaf throughout their lives. Other deaf people have a strong sense of identity early on. Some deaf people associate more with hearing people. Yet others prefer to have as little to do with hearing people as possible. Some deaf people sign, and others don’t. Some wear hearing aids, and others don’t. Some have cochlear implants or want them. Others shun them completely. Some use their speech regularly, and others decline to use their voice at all.” (Holcomb, 2012, p. 63)

Quando perspectivamos surdos/Surdos referimo-nos a diversas formas de comunicação possíveis, várias experiências e visões da vida e o que significa ser surdo/Surdo para cada um deles. Neste artigo, para descrever o conceito de Mythomoteur, detemo-nos no grupo de pessoas que utiliza uma língua gestual, que são membros de uma comunidade Surda e que frequentam associações de Surdos e outras organizações de Surdos: estes são exemplo do Deaf Way.

O termo Deaf Way tornou-se conhecido devido a um Encontro que teve lugar em Washington D.C. na Universidade Gallaudet em 1989. Foi uma reunião de cerca de 6000 pessoas, de vários países que resultou numa publicação de 150 artigos, usada até hoje por académicos que se situam no campo dos Estudos Surdos. Estes especialistas descrevem o termo sob múltiplas perspetivas, em diversas áreas e diferentes campos do saber. O Deaf Way é um modo de ser, de percecionar, reagir, de pensar tendo por base uma mente Surda que encontra semelhanças em todo o mundo. O Deaf Way assenta nesses elementos e é tecido por e apoiado em epistemologias Surdas. Tal como Jenkins descreve: a “three- dimensional experiential materiality to supra-local ethnic groups” (Jenkins, 2008, p. 11). O imaginário partilhado a que já aludimos conecta estes indivíduos e outras idiossincrasias do Deaf World que emergem em encontros internacionais tais como conferências organizadas pela Federação Mundial de Surdos, os Surdolímpicos e muitos outros. O Deaf Way é um laço para o coletivo Surdo e uma plataforma importante para a construção da identidade individual que não se diferencia muito apesar da religião, nacionalidade, politica ou outro aspecto.

O Deafhood é um conceito célebre que designa o sentimento de pertença, de orgulho da identidade
Surda, da língua e da herança Surda. É descrito enquanto processo, uma viagem de busca interior até à definição de um ser culturalmente Surdo. O termo foi cunhado por Paddy Ladd que descreve o Deafhood no seu livro Understanding Deaf Culture: In Search of Deafhood como um processo constante de busca de identidade e de construção da mesma (Ladd, 2003). Este conceito foi criado num contexto britânico mas foi largamente difundido por todos os Surdos no mundo. Dez anos depois da publicação do livro de Paddy Ladd, Kusters e De Meulder publicaram um artigo que visa o entendimento do Deafhood pois é um conceito muito complexo e aberto que se adapta a vários campos, como conceito de empoderamento, enquanto recusa e oposição ao colonialismo sob a égide da surdez, como traço identitário ou sentimento, entre vários (Kusters & Meulder, 2013).

Por ultimo, o Deaf Gain é um conceito proposto por H-Dirksen L. Bauman e Joseph Murray que têm vindo a escrever já há vários anos sobre o lado positivo de ser Surdo. Há um testemunho desconcertante no início do livro que ilustra o conceito de Deaf Gain na perfeição:

“Aaron Williamson began to lose his hearing at the age of seven. Having spent the rest of his childhood in visits to audiologists, he now wonders. “Why had all the doctors told me that I was losing my hearing, and not a single one told me that I was gaining my deafness?” (Bauman & Murray, 2014, p. xv).

O Deaf Gain é o culminar da evolução de um paradigma que tem vindo morosamente a mudar a perspectiva “from an overarching framework of normalcy to one of diversity” (Bauman & Murray, 2014, p. xv). A idade das trevas de uma ênfase centrada no diagnóstico, na terapia, na reabilitação e na proibição das línguas gestuais está, esperamos, a acabar e começa a perecer em alguns prismas na maioria dos países ocidentais. O conceito de Deaf Gain requer um conhecimento transdisciplinar para que se possa compreender até onde pode chegar, em conjunto com os Estudos Surdos, nomeadamente nas áreas da neurociência, linguística, antropologia, história, arte, artes performativas, arquitectura, estudos culturais, entre outros.

O conceito de Deaf Gain pode ser desconstruído em dimensões teóricas específicas. A primeira dimensão do Deaf Gain é o Deaf Benefit, que é a ideia de que a surdez pode trazer benefícios a um nível individual, por exemplo, maior acuidade visual que caracteriza surdos congénitos (Bavelier et al., 2000; Neville & Lawson, 1987; Neville, Schmidt, & Kutas, 1983). O Deaf Gain não pretende afirmar que a surdez é melhor que a audição, mas estabelece assertivamente a premissa de que ser ouvinte não é melhor do que ser surdo. Esta ideia conduz-nos a não propalar a necessidade de se tornar surdo nem ouvinte, mas a abraçar e defender quem somos e o que somos, questionando as razões pelas quais uma pessoa surda haveria de querer ser ouvinte, como o paradigma médico nos tem feito acreditar. Querer ouvir é algo que nem todas as pessoas surdas almejam. Alguns deles nem têm oportunidade de escolha pois são sujeitos a uma intervenção cirúrgica, a do implante coclear, enquanto crianças. Para além disso, como parte do Deaf Gain, devemos considerar a dimensão específica do contributo dos Surdos que é, em síntese, como os Surdos enriquecem a humanidade, não apenas pela perspectiva visual que trazem para a sociedade através das línguas gestuais e dos seus produtos culturais. Alguns exemplos destes artefactos são a literatura Surda, a arte Surda, o humor Surdo, ou seja, a cultura de Ser-se Surdo em geral. Deaf Ahead é outra das dimensões do Deaf Gain. Este conceito acompanha a inovação, o pensamento crítico que estão na vanguarda dos contributos ou benefícios e que culminam na criação, por Surdos, de algo inexistente. Alguns exemplos são Wladislav Zeitlin (Surdo) o inventor de tecnologia crucial para a criação da televisão, Vicent Cerf (Surdo), um dos pais da internet (em conjunto com Bob Kahn - ouvinte) e, o afamado, Thomas Alva Edison, proclamado como o “maior inventor americano” e que foi responsável por uma das mais importantes invenções, a lâmpada.

A criação de escolas de Surdos em alguns países foi particularmente decisiva para as comunidades Surdas uma vez que reuniu as crianças e adultos Surdos num espaço comum, uma comunidade educativa que estabelece as bases para “the development of a larger collective Deaf identity, and indeed of a network of national and international Deaf communities” (Ladd, 2003:109). Para além disso, a criação e a dinâmica das associações de Surdos aumentou a rede de contactos entre as pessoas Surdas. Quer o conceito de Deafhood quer o de Deaf Gain parecem expandir-se sem cessar, reinventando-se pelo debate da academia e do público em geral. Estes dois conceitos são a base de workshops e outras iniciativas o que empodera as comunidades Surdas bem como enriquece a maioria ouvinte (Kusters & Meulder, 2013).

Conclusão

Este artigo foi escrito sob o quadro dos Estudos Culturais e pretende ser uma reflexão sobre conceitos teóricos, reunindo-os com o propósito de espoletar o pensamento crítico, em particular para nós, dentro da nossa comunidade Surda, nos Estudos Surdos e na academia.

O Deafhood e o Deaf Gain são resultados concisos da Deaf Resurgence tal como afirmam Woll e Ladd no seu artigo sobre comunidades Surdas (Woll & Ladd, 2011) e ainda estão a moldar-se no paradigma actual dos Estudos Surdos que enfatiza aspetos positivos que advêm do facto de se ser Surdo, tais como ter uma língua gestual, pertencer a uma comunidade Surda e partilhar e contribuir para o enriquecimento da Cultura Surda. Os Discursos 7 que permitem a percepção da identidade Surda individual - seja através dos pares Surdos ou pelos olhos dos ouvintes - veio a culminar na nossa percepção do próprio conceito de Deafhood. 

O Deafhood é, tal como as identidades são, uma performance. Os caminhos pelos quais esta performace pode alcançar o seu auge será uma identidade Surda equilibrada que entende o individuo Surdo como um ser completo e capaz, empoderado pela consciência do Deaf Gain. O argumento apontado por algumas teorias de que poderá ter havido signos gestuais/gestos na nossa génese poderá talvez mostrar o caminho que podemos potenciar e enriquecer a vida de todos nós se aprendermos uma língua gestual? Serão as línguas gestuais intrínsecas ao ser humano, para além de questões audiológicas? Tendo em linha de conta o conhecimento e a maturidade epistemológica que atingimos no campo dos Estudos Surdos nas últimas décadas, chegou a altura de a sociedade aceitar que a pessoa Surda não é uma versão falhada e incompleta de uma pessoa ouvinte, mas existe enquanto individuo Surdo pleno e válido.

“Roland Barthes recounts a scene viewed from his window. He sees a mother walking along with her small son; the boy is holding one of her hands, while she pushes an empty stroller out in front of them with the other. What strikes Barthes about the mother and son – strikes him enough, that is, to make a note of both what he saw and the date (December 1, 1976) – is their manner of walking “together”: “She walks at her own pace, imperturbably; the child, meanwhile, is being pulled, dragged along, is being forced to keep running, like an animal… She walks at her own pace, unaware of the fact that her son’s rhythm is different. And she’s his mother!” How to walk together (how to live together) in such a way that recognizes and respects individual rhythms?” (Barthes, 2012: xxvii).

Neste pensamento bartesiano, encontramos uma ideia complexa mas muito útil, ou seja, o conceito de idioritmia. Para sintetizar, este conceito defende o ritmo específico e individual com que vivemos, todavia, como facilmente se calcula, esta ideia leva-nos à problemática da tolerância, de como na realidade vivemos actualmente. A este respeito deixamos esta indagação para futuros estudos: Haverá uma vontade conjunta da minoria e da maioria para que vivam em conjunto aceitando as suas idioritmias face à forma de estar? (Barthes, 2012). Estará a maioria ouvinte capaz e com desejo de reconhecer e aceitar o quanto podem aprender com um Mythomoteur Surdo? As decisões conjunturais, nomeadamente leis e políticas para a inclusão vão ao encontro dos desejos das comunidades Surdas e obedecem aos princípios do Deaf Gain? Em que medida o Mythomoteur potencia os Surdos a assumirem o controlo sobre as suas vidas? Até que ponto um melhor entendimento sobre estes conceitos pode melhorar as dinâmicas de interacção entre Surdos e ouvintes? Como podem estes conceitos ser usados para criar plataformas de entendimento mútuo, bem como para justificar a necessidade de espaços para as manifestações culturas dos Surdos que devem ser disseminadas nos ambientes em que a maioria ouvinte prevalece? O respeito para com os Direitos dos Surdos não deve ser encarado como mero propósito inclusivo. Na última década, a inclusão provou ser, em vários aspectos, um dissolvente da Cultura Surda e devido a isso, num esforço de ressurgimento 8, os seus estandartes são aqueles que constituem o Myhtomoteur Surdo. A tétrade leva as pessoas Surdas de volta às suas raízes, preservando o seu património. As comunidades Surdas estão conscientes que têm um contributo válido para a sociedade como agentes activos seja através de artistas Surdos, actores Surdos, jornalistas Surdos, entre vários exemplos. O desrespeito pelo lugar dos Surdos na sociedade não apenas diminui o seu papel como mina o impacto das suas contribuições válidas. É desta forma que o Mythomoteur Surdo pode espoletar mudanças sociais. As pessoas Surdas encontram-se hoje, mais do que nunca, com vontade de partilhar a sua riqueza com os ouvintes que estejam predispostos a ver, lado a lado the people of the eye (Veditz, 1913).

Notas

3 A maiúscula ‘S’ e a minúscula ‘s’ usada nos Estudos Surdos são termos distintos deste 1970. Assim,
neste artigo seguirmos essa dicotomia: a minúscula emprega-se quando ser-se surdo é percecionado através do mundo ouvinte - perspetiva médica, a pessoa surda não usa língua gestual nem se sente integrada na comunidade Surda. O Surdo, por outro lado, não só se sente pare da comunidade Surda como também utiliza uma língua gestual sentindo a língua e a Cultura Surda de forma positiva (Padden & Humphries, 1988).
4 Os conceitos apresentados serão explicados no decorrer do capítulo. A opção por manter a terminologia em Estudos Surdos em inglês decorre da densidade conceptual que estes termos contêm que apenas a tradução literal dos mesmos não conseguiria condensar a carga conceptual que os mesmos simbolizam.
5 A autora refere-se aqui ao conceito e desafio de living together desenvolvido por Roland Barthes, e mais explorado na conclusão deste capítulo.
6 Folclore definido como um conjunto de crenças, costumes, e histórias de uma comunidade transmitido de geração em geração por tradição, neste caso, visual – em língua gestual.
7 Discurso é capitalizado para se referir à utilização Foucauldiana no termo.
8 Duplo significado com a já referida Deaf Resurgence.

Bibliografia

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