porsinal  
ArtigosCategoriasArtigos Científicos
Rafaela Cota Silva
Rafaela Cota Silva
Intrprete de Lngua Gestual Portuguesa
SignWriting: um sistema de escrita das lnguas gestuais. Aplicao Lngua Gestual Portuguesa
0
Publicado em 2012
Exedra: Revista Cientfica, Nmero temtico - Portugus: Investigao e Ensino, pags. 390-401
Rafaela Cota Silva
  Artigo dispon�vel em vers�o PDF para utilizadores registados
Resumo

A lngua gestual a lngua natural da pessoa surda, sendo utilizada como forma de expresso e comunicao da comunidade surda de um determinado pas. Porm, de todo impossvel escrever estas lnguas atravs de um alfabeto comum como o da Lngua Portuguesa. Em 1974, nos Estados Unidos da Amrica, Valerie Sutton criou o SignWriting, um sistema de escrita das lnguas gestuais, contrariando assim a ideia de que as lnguas espao-visuais no poderiam ter uma representao grfica. O SignWriting apresenta uma escrita prpria, feita atravs de smbolos que expressam as configuraes de mo, a orientao da palma da mo, os movimentos, as marcas no-manuais e os pontos de articulao. Para o surgimento deste sistema foram fundamentais os estudos pioneiros de William Stokoe que reconheceram o estatuto lingustico das lnguas gestuais, atribuindo-lhes propriedades inerentes a uma lngua, nomeadamente a arbitrariedade e convencionalidade.

1. Introdução

Este trabalho diz respeito a uma dissertação, ainda em curso, no âmbito do mestrado em Comunicação Alternativa e Tecnologias de Apoio pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias de Lisboa.
Assim sendo, esta investigação tem como intuito propor a aplicação do SignWriting (SW), sistema de escrita das línguas gestuais já utilizado noutros países, à língua gestual portuguesa (LGP).

2. O estudo das línguas gestuais

A língua gestual é a língua usada por uma comunidade surda que pode ser constituída por pessoas surdas e por pessoas ouvintes conhecedoras e utilizadoras da língua. O seu surgimento e desenvolvimento acontece de forma espontânea no seio de cada comunidade, sendo por isso uma forma de comunicação natural. A língua gestual não é universal uma vez que é diretamente influenciada pela cultura onde está inserida, apresentando caraterísticas próprias e diferindo de país para país.

Desta forma, a língua gestual portuguesa é a língua utilizada por grande parte da comunidade surda portuguesa para comunicar, estando consagrada na Constituição da República Portuguesa desde 1997, enquanto instrumento de ensino, da seguinte forma: proteger e valorizar a língua gestual portuguesa, enquanto expressão cultural e instrumento de acesso à educação e da igualdade de oportunidades (Constituição da República, artigo 74º, ponto 2, alínea h).

Para o conceito de língua existem várias definições passíveis de serem consultadas, ainda que todas elas apresentem pontos em comum. Mateus & Villalva (2006), por exemplo, referem que língua identifica uma delimitação do espaço geográfico com respetivo sistema linguístico de comunicação entre pessoas e acrescentam ainda que esta reflete o conhecimento e o uso que cada indivíduo tem e faz da capacidade da linguagem que lhe é inerente enquanto parte da espécie humana. Por sua vez, Fernandes (2003) aborda este conceito como sendo um sistema abstrato de regras gramaticais. Faria, Pedro, Duarte & Gouveia (1996) definem língua como um sistema organizado de signos convencionais e arbitrários, isto é, um conjunto de sinais dotados de significado e significante, onde o primeiro diz respeito à imagem mental de um conceito e o segundo à representação gráfica, oral ou gestual desse mesmo conceito.

Nos últimos 40 anos vários linguistas começaram a demonstrar interesse pelas línguas gestuais (LGs), abrindo assim espaço para um novo campo de investigação com base no propósito de que as línguas orais e gestuais teriam de apresentar, simultaneamente, semelhanças e diferenças. Tal justificava-se pela necessidade de se comprovar que uma língua gestual também é uma língua que surge de forma natural no meio das pessoas que a utilizam para comunicar, o que já acontecia com a língua oral. Quadros & Karnopp (2004), afirmam que o que o linguista quer saber é se as línguas naturais, todas, possuem em comum algo que não pertença a outras sistemas de comunicação, humano ou não, de tal forma que seja correto aplicar cada uma dela a palavra ‘língua’, negando-se a aplicação deste termos a outros sistemas de comunicação (p. 24).

Com o mesmo intuito, Amaral, Coutinho & Martins (1994) sugerem que o estudo da adequação das propriedades estruturais das LGs aos critérios exigidos pelas línguas naturais é especialmente útil. Nesta medida, Chomsky (2002) refere que, contrariamente àquilo que se acreditava durante muitos anos, a faculdade da linguagem não está diretamente associada a modalidades sensoriais específicas. Assim, o mesmo autor acrescenta ainda que a língua gestual é estruturalmente muito semelhante à língua oral, bem como a forma de aquisição das mesmas.

Segundo Quadros (2006), o estudo linguístico da LGs partiu dos pressupostos já reconhecidos nas línguas orais e dos universais linguísticos das mesmas, obtidos através de estudos e análises feitos às línguas faladas, propondo-se a aplicação destes às línguas gestuais. Com efeito, duas propriedades comuns atribuídas às linguagens humanas que podem também ser encontradas nas línguas gestuais, nomeadamente na língua gestual portuguesa, são a arbitrariedade e a convencionalidade. A LGP é convencional na medida em que a configuração dos gestos obedece a normas definidas pela história e pela comunidade, o que significa que um falante 131 dessa língua não pode fazer alterações por vontade própria, pois faria com que se tornasse difícil de estabelecer a comunicação. A LGP é também arbitrária, isto porque não existe nos gestos uma relação direta entre a forma e o conceito, uma vez que vendo o gesto não é possível adivinhar o seu significado e vice-versa, sabendo o significado é impossível prever o gesto. Por exemplo, não há uma relação entre o gesto (ou palavra) “cão” e o animal que ele simboliza (Quadros & Karnopp, 2004, p. 26). 132

Desta forma, é possível afirmar que as línguas gestuais utilizadas por comunidades surdas de todo o mundo são efetivamente reconhecidas com o estatuto de línguas pois possuem vocabulários e regras específicas, não derivados da língua oral. Quadros & Karnopp (2004) reconhecem isto ao afirmar que a língua é um sistema padronizado de sinais/sons arbitrários, caracterizados pela estrutura dependente, criatividade, (…) e transmissão cultural (p. 28).

William Stokoe foi dos primeiros linguistas a dar atenção à estrutura das línguas espacio-visuais 133 e nos anos 60 iniciou um estudo centrado na American Sign Language (ASL), chegando à conclusão de que um gesto pode ser decomposto em unidades mínimas. Assim, Stokoe foi pioneiro na proposta de uma nomenclatura distinta para o ramo da linguística da língua gestual, tal como refere Correia (2009), considerando a mão enquanto elemento central da produção do gesto, este estudioso americano propôs que o estudo das unidades discretas da LGP se chamasse quirologia (do grego Khiros=mão) e as unidades significantes distintivas da LGP seriam designadas por queremas (p. 61).

Stokoe distinguiu três categorias de queremas: a configuração da mão, o local de articulação e o movimento, unidades que juntas determinam o significado global de um gesto, isto é, se alterarmos alguma delas o gesto obtido é diferente. Porém, os três queremas sugeridos tornavam-se insuficientes para uma distinção integral entre gestos.

Trabalhos subsequentes como os de Battison (1974, 1978), referido por Quadros & Karnopp (2004), e os de Liddell e Johnson (1989), mencionado por Amaral, Coutinho, & Martins (1994), vieram introduzir duas novas noções: a orientação da palma da mão e os aspetos não-manuais, completando assim o quadro querológico das línguas gestuais. Para Liddell e Johnson a orientação da mão é importante, pois determina a posição para a qual a palma da mão aponta aquando da execução de um gesto. Por sua vez, os aspetos não-manuais também constituem um traço importante já que representam toda a expressão a que se recorre durante a execução de um gesto (movimento da face, dos olhos, da cabeça ou do tronco). 134

Esta evolução social e linguística resultante das pesquisas atrás referidas culmina com as investigações de Chomsky (1995), mencionado por Quadros (sd) 135, que introduziram a noção de que o termo “articulatório”, até então aplicado unicamente às línguas orais, não era exclusivo das mesmas. Para Chomsky (1995), as línguas gestuais também albergam esta modalidade respeitante à expressão da faculdade da linguagem, não tendo obrigatoriamente de ser representadas através dos órgãos vocais.

A LGP apresenta uma estrutura sintática que é disposta espacialmente de forma tão complexa como as línguas orais. Para se analisar a sintaxe de uma língua gestual, onde se estuda a organização das palavras e das frases, há que não esquecer que os gestos, articulados em modo visuo-espacial, requerem sempre o estabelecimento de um local onde, a partir daí, é possível estabelecer relações gramaticais através de diferentes formas. Assim, a ordem das palavras numa estrutura gramatical típica da língua portuguesa é, predominantemente, ditada por sujeito-verbo-objeto (SVO), como ilustra a frase: Eu vou para casa. Apesar de esta ser a estrutura dominante, as línguas são flexíveis e podem existir variações da ordem das palavras, o que não compromete o significado da frase. O mesmo se passa com as línguas gestuais, que por serem idiomas que utilizam referentes espaciais podem apresentar alguma flexibilidade na ordem sintática, consoante o discurso do sujeito. Na LGP e segundo Amaral, Coutinho & Martins (1994) a ordem que parece mais frequente é a O-S-V (p. 124), ou seja, referindo-nos ao exemplo anterior, a frase seria produzida gestualmente com a seguinte ordem, casa eu vou.

3. A escrita das línguas gestuais

As línguas gestuais, por possuírem todas as caraterísticas descritas anteriormente, são merecedoras de uma representação escrita que não seja apenas uma tradução daquilo que é produzido. Assim, segundo Costa (sd), os surdos precisam escrever nas suas línguas de sinais 136 (…) como os ouvintes o fazem utilizando os diferentes alfabetos inventados para as diversas línguas orais. Todos sabem a importância da invenção da escrita para o desenvolvimento da cultura da humanidade. Os surdos e as comunidades surdas também precisam dar esse salto (Costa In Stumpf, sd, p. 3). 137

Nesta lógica, torna-se essencial existir um registo da língua que não seja apenas fotográfico, isto é, através de imagens. Todavia, é de todo impossível escrever estas línguas através de um alfabeto comum uma vez que, como já dissemos, as línguas gestuais se regem por parâmetros específicos e se concretizam numa modalidade não oral. Assim, a correspondência fonema – grafema, típica dos sistemas alfabéticos, é impraticável. Por isso mesmo, as línguas gestuais necessitam de um sistema de escrita que seja aceite, que permita codificar os gestos das línguas gestuais e, por último, que sirva como base de transcrição da língua, contrariando assim a ideia de que a língua gestual é ágrafa.

A representação escrita das LGs passa, indubitavelmente, pela escrita direta dos gestos através da codificação gráfica dos elementos que constituem um gesto. Esta representação feita com símbolos permitirá uma leitura direta por parte do emissor, e possibilitará ter a noção visual da forma de produção do gesto. A escrita da língua gestual assume-se como um aspeto fundamental na vida da pessoa surda, pois tal como afirma Stumpf (2002), citada por Delpretto & Fortes (2010), nós, surdos, precisamos de uma escrita que represente os sinais visuais-espaciais com os quais nos comunicamos, não podemos aprender bem uma escrita que reproduz os sons que não conseguimos ouvir. 138

Constatamos que a possibilidade de uma forma escrita para as línguas gestuais poderá representar um marco importante na medida em que permite o armazenamento da língua e posterior acesso à mesma e, evidentemente, a possibilidade de averiguar a evolução da própria língua. A escrita, que se assume como sendo vital, começou por surgir devido a necessidades económicas nomeadamente para registo de trocas comerciais. Ora os surdos estão inseridos numa sociedade que se regem por uma escrita que permite esta fixação. O que é importante é percebermos que hoje, a escrita, é, também e sobretudo expressão e afirmação sociocultural. Por isso ela deve ser um instrumento de divulgação e fixação, não de fatores económicos, mas da língua gestual.

Assim, a memória deixaria de ser a única responsável por reter toda a informação relativa às mudanças e progressos que acontecem com os gestos, podendo estes fatos permanecer no tempo e atravessar espaços longínquos. Todavia, deparamo-nos com um impedimento no que concerne à evolução deste sistema: o preconceito social e cultural. Pereira & Fronza (sd) salientam que esse preconceito não é exclusivo das pessoas surdas, mas acompanha qualquer grupo linguístico que possua menos prestígio diante da sociedade majoritária e, de modo especial, aqueles que não possuem linguagem escrita. 139

A escrita de uma língua concede-lhe um novo patamar pois admite que se coloque no papel os pensamentos de uma comunidade e que haja reflexão sobre a própria forma de expressão e produção da língua. Ao registar-se e, consequentemente, arquivar-se a língua dá-se a oportunidade de a tradição e herança culturais serem transmitidas de geração em geração e, para além disso, não podemos esquecer o relevo que este registo pode ter ao nível da educação e do ensino formal da língua, podendo funcionar como uma alavanca no processo de alfabetização das crianças surdas.

Em países que já utilizam um sistema de escrita da língua gestual correspondente verifica-se que existe o receio de que as crianças surdas ao terem acesso ao registo gráfico da sua língua natural, deixem de dar valor e de utilizar a língua escrita da comunidade ouvinte, neste caso a língua portuguesa (LP). No entanto, a estratégia passa por promover o ensino da modalidade escrita da Libras 140, favorecendo assim a preservação e compreensão do idioma. (…) Quando o usuário de Libras aprende a ler e escrever neste idioma abrem-se novas possibilidades. A modalidade escrita da Libras também favorece o trabalho pedagógico do docente para atuar num ensino bilingue tendo a Libras como o idioma primário, propiciando um ambiente educacional onde o discente pode compreender e pensar seu idioma com uma estrutura gramatical o que facilitará posteriormente a aquisição de um segundo idioma, como no caso dos Surdos o Português. 141

A existência de um sistema de escrita das LGs e o acesso da pessoa surda ao mesmo não fará, a nosso ver, que a LP seja negligenciada, muito pelo contrário. Segundo Pereira & Fronza (sd) o fato de se permitir a atribuição deste poder à comunidade surda fará com que, consequentemente, surjam novas e melhores condições de alfabetização do aluno surdo. Tendo este adquirido uma boa estrutura linguística e sendo um leitor proficiente da sua língua poderá transpor para o português as estratégias de leitura e escrita utilizadas na língua gestual.
Uma grande parte das pessoas surdas portuguesas apresenta dificuldades na escrita do português, provavelmente pela forma como ocorreu o ensino aprendizagem do mesmo e, adicionalmente, pelas diferenças estruturais a nível da sintaxe da LGP e da LP, a que já aludimos. Com efeito, a pessoa surda processa o seu pensamento em língua gestual e, quando faz a tradução para o português escrito transforma os gestos isolados em palavras com significado próximo. No entanto, como as duas línguas apresentam gramáticas distintas, ocorrem erros de harmonização na língua portuguesa, ou seja, a coerência e a coesão textual de um texto de uma pessoa surda que não possui uma boa estrutura gramatical de ambas as línguas ficam prejudicadas (Delpretto & Fortes, 2010). Assim, um dos objetivos da representação escrita das línguas gestuais passa pelo apoio que esta poderá trazer na aquisição de uma segunda língua dado que seria mais um recurso importante para a aprendizagem do português escrito. A este propósito Delpretto & Fortes (2010) referem que o aprendizado das duas línguas deve e precisa representar, então, ‘uma troca’, no sentido de ‘complementação’ da importância das línguas atualmente.

A escrita da língua gestual não fará com que a forma de comunicação utilizada pelas pessoas surdas fique comprometida, pois a expressão e pensamento da comunidade manter-se-ão intactos. É natural que se verifique algum receio sobre o desconhecido e sobre algo que ainda não existe ou está institucionalizado. Todavia, esta evolução faz com que passemos a olhar para as LGs como línguas que, de fato, apresentam uma modalidade de expressão distinta da oral, mas não atribuindo a esse aspeto um automático fator de inferiorização ou menosprezo. Só desta forma se poderá promover o enaltecimento efetivo da língua gestual junto das comunidades ouvintes e a valorização da pessoa surda enquanto cidadão com direitos linguísticos próprios.

4. SignWriting

Os linguistas por todo o mundo têm vindo a demonstrar interesse no estudo das línguas gestuais, nomeadamente na descrição da forma, conteúdo e organização do discurso. Costa (sd), referindo-se a estes linguistas afirma que os mesmos escrevem sobre a língua de sinais, mas quase nunca o fazem usando uma língua de sinais para isso. Os formalismos e notações que eles utilizam nessas ocasiões, não são expressões ‘de’ alguma língua de sinais, são expressões que retratam aspectos dessas línguas, são expressões ‘sobre’ essas línguas”. (Costa In Stumpf, sd, p. 3)

A escrita da língua gestual pode aumentar as possibilidades de investigações e estudos acerca das LGs e o acesso da pessoa surda à forma escrita, renegando para segundo plano a aversão que é muitas vezes notória. Stumpf (2005), citando Capovilla (2001) sustenta esta ideia ao afirmar que a solução proposta para resolver as dificuldades de leitura da coletividade dos cidadãos Surdos, tornando-os capazes e ler habilmente qualquer texto, consiste em fazer com que a decodificação desses texto produza diretamente os sinais lexicais da língua materna com que eles pensam e se comunicam, (…) do mesmo modo, a solução fundamental para resolver as dificuldades da escrita da coletividade dos Surdos, permitindo que eles sejam capazes de escrever habilmente qualquer ideia, consiste em fazer com que os sinais lexicais da língua materna, com que eles pensam e se comunicam sejam conversíveis diretamente em texto (...) Mas tudo isso só é possível pela substituição do código alfabético que mapeia diretamente a fala, por um outro código que mapeie diretamente o sinal” (pp. 46 - 47).

O SignWriting (SW), sistema de escrita visual direta de gestos, foi criado por Valerie Sutton e pertence ao Sistema de Escrita e Notação de Movimentos Sutton 142. Este abrange um variado leque de notações de movimentos que não passam só pelos humanos, estando dividido em cinco grupos, a saber: 1) DanceWriting que regista coreografias de danças; 2) SignWriting que regista línguas gestuais; 3) MimeWriting que regista mímica e pantomima; 4) SportsWriting que regista ginástica, patinagem no gelo e karaté; e, por último, 5) ScienceWriting que regista fisioterapia, movimentos das crianças autistas, linguagem corporal e movimentos de animais. (Capovilla &Raphael., 2001, p. 56)

Valerie Sutton era uma bailarina e o primeiro sistema que inventou foi o dancewriting que lhe permitia escrever os movimentos da dança. Este sistema despertou a curiosidade de alguns dinamarqueses que estavam, no momento, a realizar investigações com o intuito de descobrirem uma forma de escrita da língua gestual. Assim, em 1974 a Universidade de Copenhaga convida Valerie Sutton a adaptar à língua gestual o sistema até então desenvolvido. Começa assim a desenvolver-se um sistema que teria por base os cinco pressupostos querológicos 143 que compõem um gesto: configuração da mão, movimento, pontos de articulação do gesto, localização, orientação da palma da mão e componente não manual ou expressão facial. Quando Valerie regressa aos Estados Unidos da América inicia o contato com a comunidade surda e surge o Deaf Action Commitee (DAC), uma organização sem fins lucrativos com sede em La Jolla, na Califórnia (Pereira & Fronza, sd). Hoje em dia, o DAC mantém-se sob a direção de Sutton e continua a efetuar pesquisas nesta área no sentido de aprimorar ao máximo o sistema.

O sistema SignWriting possibilita a transcrição das unidades mínimas que constituem as línguas gestuais, os queremas, facultando uma descrição detalhada destes e o registo das diferentes combinações que resultam em gestos com significados distintos. Por outras palavras, o SW é considerado um sistema de escrita pois garante a fixação de forma simples e direta do gesto, podendo ser perceptível por uma grande parte da comunidade surda e que, representando uma língua visual, passa forçosamente, por possuir caraterísticas querológicas. Assim, este sistema pretende ser uma forma prática para a escrita dos gestos que torna possível a comunicação escrita rápida e inequívoca entre os falantes de língua gestual (Capovilla & Raphael, 2001).

O SW assume-se como um sistema gráfico que ainda é recente e que pode originar algumas dúvidas dada a inexistência de uma convencionalidade no que concerne à língua, em concreto à LGP. Capovilla & Raphael (2001) referem que quando as convenções ortográficas de uma língua já estão consolidadas, o trabalho de leitura e escrita é imensamente facilitado e as ambiguidades são muito reduzidas (p. 2). Todavia, quando a investigação em torno de uma língua é, de certa forma, recente, as convenções acabam por não estar totalmente definidas e estabelecidas, o que, para Capovilla & Rapahel (2001) pode gerar discussões sobre qual a melhor forma de produzir e representar determinado gesto. Para os mesmos autores, estas discussões tornam-se mais frequentes quando a tentativa de escrita da língua está a dar os primeiros passos, como é o nosso caso. Assim, tendo em conta a ausência de convencionalidade na LGP o que pretendemos, daqui em diante, é apresentar as diretrizes gerais provenientes do sistema de escrita SW, e ilustrar a aplicação dessas mesmas diretrizes à escrita da língua gestual portuguesa.

5. Aplicação prática do SignWriting

Aquando da produção de um discurso em língua gestual é possível identificar duas perspetivas: a do recetor e do emissor. Assim, a primeira diz respeito ao que é observado por alguém que não está a produzir, mas apenas a visualizar as mãos de alguém que se encontra a gestualizar; por sua vez, a segunda representa aquilo que o próprio gestuante produz e vê. Neste sistema a escrita dos gestos pode ser feita segundo as duas perspetivas, no entanto a forma estandardizada para as publicações em SignWriting é a perspetiva do emissor, sendo a do recetor utilizada ocasionalmente na transcrição de gesto a partir de um vídeo ou quando há necessidade de se fazer um registo rápido que acompanhe o discurso (Sutton, 2002).

Conforme a perspetiva do emissor quando este vê a palma da mão enquanto produz um gesto o símbolo será branco. Quando o emissor visualiza a parte de trás da própria mão, o dorso, o símbolo será preto. Por sua vez, quando o emissor gestualiza e perceciona o lado da mão, o símbolo será dividido em duas metades, uma branca e outra preta (Figura 1), 144 isto é, a cor determina a orientação da palma da mão.

No que toca às formas da mão, o SW assenta em três configurações básicas: a mão fechada, a mão circular e a mão aberta (Figura 2). Todos os outros símbolos que representam as configurações correspondem a variações destes três (Stumpf, 2005).

O SW utiliza inúmeras configurações de mão, sendo todas elas originadas por variação das três básicas apresentadas anteriormente 145, nomeadamente através da adição de linhas aos símbolos básicos, faz-se a representação dos dedos da mão (Figura 3).

No SW existem seis formas para representar o contacto dos símbolos (Figura 4). Esse contacto pode ser de uma mão com a outra, da mão com corpo ou da mão com a cabeça.

O tocar é escrito com um asterisco e acontece quando uma mão tem um contacto gentil com alguma parte do corpo; o agarrar é escrito com uma cruz e é utilizado quando a mão agarra nalguma parte do corpo ou numa peça de roupa; o tocar entre é escrito com um asterisco entre duas linhas verticais e é utilizado quando existe um toque entre duas partes do corpo, habitualmente entre os dedos; o bater é escrito com um cardinal e é utilizado quando a mão toca numa zona com força; o escovar é escrito através de um círculo com um ponto preto no meio e é utilizado em contacto com movimento que desliza para fora da superfície; por último, o esfregar é escrito através de um símbolo espiral e é utilizado num contacto com movimento mas que se mantém na superfície (Sutton, 2002).

Os movimentos podem ser classificados em movimentos das mãos ou dos dedos. Para Valerie Sutton, ambos se processam num espaço de sinalização que corresponde à área onde se executam os gestos, isto é, a distância que o braço consegue alcançar em frente, cima e baixo. Este espaço divide-se em dois planos que apresentam representações distintas: o plano paralelo à parede, onde os movimentos são para cima e para baixo sendo a representação feita com setas de duplo traço (Figura 5), e o plano paralelo ao chão, em que os movimentos são efetuados para a frente e para trás e a representação é feita com setas simples, só com um traço (Figura 6).

As componentes não-manuais são também expressas no sistema SW. Estas podem ser as expressões faciais ou a posição do tronco 146. A expressão facial é baseada no símbolo da face e a partir daí criam-se variações para diferentes representações: sobrancelhas, boca, dentes, bochechas (Figura 7).

Os símbolos utilizados no SW são internacionais pelo que podem ser usados para representar gestos de qualquer língua gestual do mundo, sendo que cada língua os adapta à sua própria estrutura (Stumpf, 2005), de modo que se torna possível a aplicabilidade deste sistema à LGP.

6. Conclusão

O SignWriting permite que os surdos se deparem com duas formas diferentes de escrita, sendo uma delas a da sua língua natural e isso poderá proporcionar uma mudança de atitude face à linguagem escrita e acabar com a aversão que os surdos sentem por escrever. Assim, cremos que o SW atribui valor à escrita pois não é apenas o fato de o surdo não receber informação auditiva que interfere na sua escrita, mas sim a falta de sentido que este lhe confere. Passando a língua gestual a ser participante ativo no processo de elaboração da escrita, acreditamos que este terá muito mais significado e que, por isso, o SW poderá assumir a responsabilidade de estruturar o discurso da criança surda. Consequentemente, a interiorização do sistema SW facilitará todo o processo de aprendizagem da LP, pois segundo Stumpf (2011) a criança transfere para sua nova língua o sistema de significados que já possui na sua própria língua e quando ela aprende a ver a sua língua como um sistema específico entre muitos, passa a conceber seus fenômenos dentro de categorias mais gerias e isso leva à consciência das operações linguísticas. (p. 31)

Além de tudo isto, consideramos que o fato de se aceitar o SignWriting como representação escrita da língua gestual e utilizá-lo no ensino das crianças e jovens surdos representa mais um passo evolutivo para a comunidade surda, pois tal como refere Sim-Sim (2005), na história da Humanidade (…) o conhecimento e uso da linguagem escrita representa uma importante porta de acesso à mediação da informação e, consequentemente, ao poder. O domínio da linguagem escrita, o qual já se revelou determinante na evolução de grupos sociais (…) permite-nos o usufruto do conhecimento resultante da evolução do pensamento humano (…) (p. 22)

Em suma, a escrita da língua gestual, além de potenciar a aquisição da língua gestual e fornecer uma base estruturada para a aprendizagem do português escrito como língua segunda, permite que fique registado para gerações futuras a história e a memória de uma comunidade, isto é, fomenta o acesso à verdadeira cultura dos surdos pois não havendo um registo escrito daquilo que é gestualizado pode fazer com que se percam informações ou que surjam interpretações erróneas.

Notas

131 Entenda-se o termo falante como associado à pessoa que põe em uso uma língua quer seja sonora ou gestual, não estando este termo diretamente relacionado com a língua oral.
132 Segundo Quadros & Karnopp (2004), é possível encontrar nas línguas gestuais alguma iconicidade que confere aos gestos um grau de transparência, permitindo que o significado seja facilmente apreendido. Os gestos icónicos têm relação com a forma do referente que representam, porém, muitas vezes, essa relação de semelhança é contextual e apenas pode ser descodificada numa frase ou percebida por gestuantes da LGP. Assim, não se trata de mímica ou reprodução do real, mas sim de interpretação da realidade que, numa língua que se serve do espaço tridimensional, pode manter relações de proximidade com o referente que designa. Todavia, essa relação tende a esbater-se com o evoluir do gesto e com a velocidade de elocução.
133 Línguas onde a informação é produzida pelas mãos e recebida pelos olhos.
134 Na LGP a expressão facial pode ser parte integrante de um gesto quando surge como um parâmetro fundamental que determina sentidos diferentes e que é imprescindível para a compreensão global do sentido do gesto, ou suprassegmental quando se relaciona com a entoação ou com a emoção que o utilizador pretende atribuir ao seu discurso.
136 O mesmo que línguas gestuais.
137 Stumpf, M. (sd). Lições sobre o SignWritin - Um sistema de escrita para língua de sinais. Consultado em fevereiro de 2012, http://www.signwriting.org/archive/docs5/sw0472-BR-Licoes-SignWriting.pdf.
138 Delpretto, B., Fortes, L. (2010). A aplicabilidade social do signwriting. Consultado em fevereiro de 2012, http://www.partes.com.br/educacao/signwriting.asp.
139 Pereira, M., Fronza, C. (sd). Sistema signwriting como uma possibilidade na alfabetização de pessoas surdas. Consultado em fevereiro de 2012, http://www.celsul.org.br/Encontros/07/dir2/3.pdf.
140 Língua de Sinais Brasileira.
141 Citação textual sem informação sobre autor e data. Consultado em fevereiro de 2012, http://www.culturasurda.com.br/sw.html.
142 Do inglês Sutton Movement Writing & Shorthand.
143 Segundo Fernandes (2003), a fonologia das línguas gestuais é representada pela querologia, ciência que estuda o movimento da mão e dos dedos, sendo as unidades mínimas distintivas denominadas por queremas.
144 Sutton, V. (2002). Lessons in Signwriting. La Jolla: The Deaf Action Committee for Signwriting. Consultado em março de 2012, http://www.signwriting.org/lessons/lessons.html.
145 Segundo Amaral, Coutinho & Martins (1994), na LGP, é possível contabilizar 52 configurações de mão.
146 Escolheram-se mostrar algumas a título exemplificativo.

Bibliografia

Amaral, M., Coutinho, A., & Martins, M. (1994). Para uma gramática da Língua Gestual Portuguesa. Lisboa: Editora Caminho.

Capovilla, F., Raphael, W. (2001). Dicionário enciclopédico ilustrado trilíngue da língua de sinais brasileira. (Vol. 1). São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo.

Centro Educacional Cultura Surda. Consultado em fevereiro de 2012, http://www.culturasurda.com.br/sw.html.

Chomsky, N. (2002). Novos horizontes no estudo da linguagem e da mente. São Paulo: Editora Unesp.

Constituição da República Portuguesa. Capítulo III: Direitos e deveres culturais. Artigo 74º Ensino, ponto 2, alínea h.

Correia, I. (2009). “O parâmetro expressão na Língua Gestual Portuguesa: unidade suprassegmental”. Exedra. Consultado em janeiro de 2012, http://www.exedrajournal.com/docs/01/57-68.pdf.

Delpretto, B., Fortes, L. (2010). A aplicabilidade social do signwriting. Consultado em fevereiro de 2012, http://www.partes.com.br/educacao/signwriting.asp.

Faria, I., Pedro, E., Duarte, I. & Gouveia, C. (1996). Introdução à Linguística Geral e Portuguesa. Lisboa: Editora Caminho.

Fernandes, E. (2003). Linguagem e surdez. Porto Alegre: Artmed Editora.

Mateus, M., Villalva, A. (2006). O essencial sobre linguística. Lisboa: Editora Caminho.

Pereira, M., Fronza, C. (sd). Sistema signwriting como uma possibilidade na alfabetização de pessoas surdas. Consultado em fevereiro de 2012, http://www.celsul.org.br/Encontros/07/dir2/3.pdf.

Quadros, R. (sd). Língua Brasileira de Sinais. Consultado em fevereiro de 2012, http://www.ronice.cce.prof.ufsc.br/index_arquivos/Page5 68.htm.

Quadros, R. (2006). Efeitos de modalidade de língua: as línguas de sinais. Educação Temática Digital, Campinas, v. 7, n. 2, 168-178. Consultado em março de 2012, http://www.slideshare.net/asustecnologia/modalidade-em-lingua-de-sinais.

Quadros, R., & Karnopp, L. (2004). Língua de sinais brasileira: Estudos linguísticos. Porto Alegre: Artmed Editora.

Stumpf, M. (sd). Lições sobre o SignWriting - Um sistema de escrita para língua de sinais. Consultado em fevereiro de 2012, http://www.signwriting.org/archive/docs5/sw0472-BR-Licoes-SignWriting.pdf.

Stumpf, M. (2005). Aprendizagem de escrita de língua de sinais pelo sistema signwriting: línguas de sinais no papel e no computador. Tese apresentada ao Programa de Pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul para obtenção do título de Doutor, orientada por Antônio Carlos Costa. Porto Alegre.

Stumpf, M. (2011). Escrita das línguas gestuais. Lisboa: Universidade Católica Editora.

Sutton, V. (2002). Lessons in Signwriting. La Jolla: The Deaf Action Committee for Signwriting. Consultado em março de 2012, http://www.signwriting.org/lessons/lessons.html.

Coment�rios

Outros Artigos deste Autor