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Cristina Gil
Cristina Gil
Intérprete de LGP/Investigadora
Deaf Way nos Estudos Culturais: a bandeira Surda da diversidade
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Publicado em 2019
Medi@ções. Revista Online da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Setúbal. Vol 7, n. 1, p. 4-17
Cristina Gil
Joana Morêdo Pereira
  Artigo disponível em versão PDF para utilizadores registados
Resumo

Este artigo aborda conceitos essenciais em Estudos Surdos ainda pouco disseminados em Portugal. Descreve o discurso dos membros das Comunidades Surdas ocidentais enquanto minorias linguísticas culturais e explicita os conteúdos dessa concepção 1 sobre o indivíduo Surdo. Referimos ainda a questão da Identidade Surda, tais como categorizações e processos apresentados na literatura especializada. Concluímos frisando a importância de se dar atenção aos discursos internos das Comunidades Surdas, e debatendo a perspectivação do traço ser Surdo como uma realidade médica ou étnica.

Contextualização teórica

Este artigo pretende reunir noções importantes no âmbito dos Estudos de Cultura e dos Estudos Surdos aplicadas às Comunidades Surdas ocidentais compostas por pessoas gestuantes 2. Referimo-nos a conceitos amplamente conhecidos no mundo académico internacional, cuja difusão é relevante no contexto português.

É nosso objetivo também propôr uma reflexão sobre a Cultura Surda, e o quão importante é saber explanar a sua essência de uma forma clara. Pretende-se consciencializar o leitor do poder que a propagação desta definição cultural detém num Portugal que, embora tendo já percorrido um longo e árduo caminho, ainda percepciona os indivíduos Surdos 3 maioritariamente sob a lente da deficiência e não da diversidade cultural.

Neste texto abordamos em detalhe o conceito das Identidades Surdas, fenómeno manifestado de variadas formas, dependendo da experiência e opção linguística e cultural de cada pessoa s/Surda.

O rótulo de portador de deficiência auditiva centra-se na perda auditiva, na falta, no distanciamento da norma, e tem as suas raízes na concepção médica da pessoa s/Surda. O epíteto de Povo Surdo 4 concebe o indivíduo e o grupo de uma perspectiva cultural, focando-se na mais-valia que constitui ser-se Surdo em qualquer sociedade humana. Por conseguinte, considera-se que ser-se Surdo é ser-se excepcional, é ser-se um digno representante de uma minoria linguístca e cultural. Nos objectos culturais produzidos pelas Comunidades Surdas (literatura, arte, e discursos) são recorrentes fortes manifestações de defesa da Cultura Surda. Os direitos linguísticos, as expressões artísticas, e o orgulho da pertença a um Povo Gestuante são discursos transnacionais comuns às Comunidades Surdas ocidentais (Batterbury, Ladd, & Gulliver, 2007).

1. O Poder da Cultura Surda

Ao longo das últimas décadas, os Estudos Surdos têm progressivamente abraçado uma análise das realidades das Comunidades Surdas sob o ângulo dos Estudos de Cultura, afastando-se, desta forma, cada vez mais das áreas académicas que se focam na concepção da surdez como patologia, como é o caso da medicina, audiologia e terapias várias. Portugal tem-se juntado a este fenómeno, com uma produção crescente de estudos em áreas que incidem sobre a Língua Gestual Portuguesa (LGP), nomeadamente no âmbito da Linguística, Tradução e Interpretação, Literatura, Ciências da Educação e Neurolinguística. No contexto de mestrados e doutoramentos, estão progressivamente a surgir trabalhos feitos por Surdos e ouvintes em universidades portuguesas e estrangeiras. Estes desenvolvimentos em investigação têm um impacto positivo na Comunidade Surda Portuguesa, visto que cada vez mais estudos são realizados em parceria com esta comunidade, seja por investigadores Surdos, seja por investigadores ouvintes aliados a estas minorias culturais. Desta forma, realça-se a representatividade da pessoa Surda e da sua voz na academia.

O conceito de Cultura Surda legitima uma visão da pessoa Surda como indivíduo completo e desconstrói a já obsoleta concepção enquanto coitadinho, anormal, e inferior, que ainda habita o imaginário de muitas pessoas ouvintes no nosso país que nunca tiveram contacto com esta comunidade. Difundir a ideia de Cultura Surda é um poderoso acto de afirmação política quanto ao estatuto de minoria cultural e linguística desta comunidade. Torna-se então imperativo saber expôr o que é a Cultura Surda, pois fazê-lo de forma clara permite abrir uma janela na mente de todos, possibilitando a compreensão, aceitação e valorização dos Povos Surdos enquanto parte da diversidade biocultural humana.

No seu quotidiano, é comum as pessoas Surdas afirmarem que sentem, nos seus hábitos e experiências, que têm uma cultura própria. É usual a referência à LGP e às dinâmicas em comunidade como factores de bem-estar, plenitude e orgulho de pertença. O complicado é, muitas vezes, explicar em poucas palavras de que trata a Cultura Surda, ao interlocutor externo à comunidade. Aqui, o argumento de sentir não é suficiente para derrubar os frequentes preconceitos e a falta de informação da parte daqueles que duvidam das capacidades das pessoas Surdas.

Como podemos ultrapassar os obstáculos que surgem devido a esta incompreensão? Propomos uma forma simples de descrever o conceito. Imaginemos um recipiente onde colocamos tudo o que as Comunidades Surdas criaram ao longo da sua história partilhada. Dentro dele colocamos as línguas gestuais, os contributos de pessoas Surdas na pintura, na arquitectura, na escultura, nas narrativas literárias, na poesia, no humor, entre muitas outras áreas. Colocamos também, neste receptáculo conceptual, a História destas comunidades oprimidas cujas línguas foram banidas por mais de 100 anos, as suas lutas políticas 5, e as personalidades Surdas que se destacaram nas mais diversas áreas, como a educação, a liderança, o movimento associativo, ou a investigação. Deste universo consta tudo o que as pessoas Surdas sentem que as distingue das pessoas ouvintes: comportamentos, valores, formas específicas de saudação, as típicas longas despedidas, o discurso visualmente orientado e sem rodeios em LGP, a importância da luminosidade na comunicação, a relevância do toque físico na interacção, as celebrações e efemérides Surdas, os frequentes encontros nacionais e internacionais. Contemplemos agora o riquíssimo conteúdo desta ideia composta por elementos partilhados – eis a Cultura Surda. Sintetizando, a Cultura Surda são então os hábitos, os comportamentos e os valores que os membros das Comunidades Surdas manifestam, assim como a sua História comum (Lane, 1992; Ladd, 2003; Holcomb, 2013). A riqueza específica da Cultura Surda surge da existência das línguas gestuais e de todas as formas de interacção e representação que delas emergem.

Vygotsky, nos seus ensaios sobre cultura e linguística, debruçou-se sobre a ideia da língua de cada povo como produto cultural. Sendo um conjunto articulado de símbolos, a língua funciona como mediador entre o que pensamos e a realidade que nos é externa, pelo que construímos a interpretação da nossa experiência através da língua materna (Bruner, 1991; Vygotsky, 2007). Assim sendo, as línguas gestuais definem uma percepção da realidade própria dos indivíduos que as utilizam, e essa forma de experienciar o mundo surge depois reflectida na arte e literatura que nasce destas minorias culturais (Rutherford, 1993). Assim sendo, a Cultura Surda não é apenas um repositório de elementos, mas é também uma lente através da qual a pessoa Surda percepciona o mundo, sentindo-o e interpretando-o de acordo com os valores da sua comunidade (Ladd, 2003; Lane, Pillard, & Hedberg, 2011).

São frequentes os debates entre membros da Comunidade Surda quanto à dúvida da sua cultura ser nacional ou transnacional. Não existe apenas uma resposta correcta para esta questão. Por um lado, a Cultura Surda é um fenómeno nacional na medida em que um determinado país inclui uma série de características que a minoria Surda partilha com toda a população. Referimo-nos a elementos tais como a gastronomia, as festividades, ou, no caso português, o conceito de saudade, por exemplo. Esta permeabilidade parcial é comum em situações em que diferentes grupos culturais partilham um mesmo espaço geográfico (Boyer, 2001). Por outro lado, é comum as pessoas Surdas de diferentes países sentirem uma grande afinidade entre si, por vezes até mais forte do que com os seus conterrâneos ouvintes. Assim sendo, a Cultura Surda é também um fenómeno transnacional, abarcando um sentimento de pertença a uma irmandade mundial que partilha não só a modalidade linguística vísuo-espacial como experiências de vida. Chamamos a esta forma específica de vivenciar o mundo e que transcende as fronteiras nacionais Deaf Way (Erting et al., 1994). O Deaf Way é parte integrante da construção da Identidade Surda, quer seja em cada indivíduo quer a nível colectivo, e existe independentemente de fidelidades e fenómenos religiosos, nacionalistas ou políticos. Este fenómeno transnacional tem origem nos banquetes realizados em Paris no final do século XIX, em honra do Abade de L’Épée (fundador da primeira escola pública de Surdos), que serviam de local de encontro a uma elite Surda internacional erudita, para debates ontológicos e epistemológicos sobre a Cultura Surda (Quartararo, 2008).

Por último, também na linha de pensamento da noção de Cultura Surda é importante apresentar o conceito de Deaf Gain: a valorização da pessoa Surda, das línguas gestuais e dos seus contributos nas mais diversas áreas (Bauman & Murray, 2014). Este conceito foi criado por forma a explicitar a riqueza que a existência das pessoas Surdas traz à Humanidade, enfatizando de novo uma percepção positiva do ser-se Surdo.

2. Os caminhos das Identidades Surdas

Uma forma muito simples de se definir Identidade Surda é referila como um processo contínuo e dinâmico de identificação com a Cultura Surda (Holcomb, 2013), seja na acepção nacional ou no sentido do Deaf Way.

De uma forma geral, a formação da identidade inicia-se quando o indivíduo se começa a definir como destacado dos demais, o que a princípio ocorre em relação à figura dos pais. É quando a criança olha para si mesma no reflexo do espelho, e não apenas para a figura do outro, que podemos dizer que começa a formar-se um esboço de individualidade (Rochat, 2003). Erikson destaca a adolescência como período marcante em que os processos de formação de identidade se intensificam. É a altura em que nos começamos a questionar: Quem sou eu? O que me define? Que papéis posso desempenhar agora e no futuro? Qual é o objetivo da minha existência? Erikson (1968) argumenta que a identidade não é apenas um fenómeno individual, mas também um produto da interacção com o ambiente social em que estamos imersos. A identidade define como nos vemos, como interagimos com os outros e a forma como os outros nos vêem. A construção da identidade é essencial no desenvolvimento de todos nós, pois confere ao indivíduo um sentido de conforto por estar onde está e como está, e dá ainda uma noção de rumo à nossa existência (Erikson, 1968).

Esta construção é um processo dinâmico que se prolonga por toda a nossa vida, e não é algo que existe exclusivamente dentro de nós: “A identidade, na sua concepção sociológica, é a ponte que preenche o espaço entre o “dentro” e o “fora” – entre o mundo pessoal e o público” (Hall, 1992, p.597). Desta forma, este processo dinâmico vai-se desenvolvendo ao longo da vida do indivíduo em dois sentidos: o da Identificação e Atribuição (Jenkins, 2008). A Identificação é um fenómeno psicológico que ocorre quando vemos algo com o qual sentimos uma conexão: um aspecto ou característica que nos faz sentir identificados com o que presenciamos. Pode tratar-se de uma peça de roupa que é do nosso agrado, uma forma de comunicar que é parecida com a nossa, uma ideia com que concordamos, ou uma experiência pela qual já passámos. De cada vez que nos identificamos com algo, trazemo-lo para dentro de nós e juntamo-lo à definição de quem somos. Os processos de identificação são fulcrais no desenvolvimento da empatia - a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro (Jenkins, 2008). Enquanto a identificação se foca no Eu, que vê fora de Mim algo que capta porque Me define, a Atribuição é um processo com uma orientação externa. Atribuímos aos outros qualidades, características, defeitos, e quando o fazemos estamos a expressar as diferenças entre nós e essas pessoas. Exprimir estas diferenças é outra forma de construirmos e mostrarmos quem somos, desta feita pela via do contraste: Eu não sou aquilo.

No que diz respeito em específico à Identidade Surda, coloca-se a questão desta ser produto da surdez - condição audiológica - ou da língua gestual. Debate-se também se a Identidade Surda constitui uma realidade homogénea ou heterogénea. A dificuldade em responder a estas perguntas reside na ideia de que a identidade é uma noção escorregadia, mutável e abstracta. Para além disso, a nossa identidade não é algo que definimos sozinhos, mas em conjunto com os outros. Desta forma, acabamos por participar quer na definição da nossa identidade quer na definição da identidade dos demais, de cada vez que reagimos a um comportamento de outra pessoa ou interagimos com ela. Por exemplo, grande parte das pessoas ouvintes sem contacto com a comunidade Surda tendem a atribuir às pessoas Surdas determinados traços de identidade. Exemplos destas características atribuídas podem ser: isolados, sem língua, vivem num mundo triste de silêncio, encontram-se privados de contacto e informação e vivem numa comunidade (ou isolados) sem música, arte ou história. Estas concepções não são correspondentes à forma como as pessoas Surdas se vêem a si próprias e às suas experiências. De cada vez que o indivíduo Surdo reage a estas ideias e as rebate está, por oposição, a definir e a construir a sua identidade.

Em termos de identidade colectiva, poderemos afirmar que a dinâmica dos poderes em sociedade é constituída por tensões entre as massas e as minorias, que são sempre grupos sociais que têm algo de excepcional (Ortega y Gasset, 1930). No caso das Comunidades Surdas, a sua evidente excepcionalidade são as línguas gestuais, sistemas linguísticos estruturados que funcionam numa modalidade vísuo-espacial, e todos os produtos que delas resultam.

3. O desenvolvimento da Identidade Surda: Estágios e tipologias

Sendo a adolescência um período crucial na definição de quem somos, no qual experimentamos papéis contrastantes numa busca incessante de uma roupagem identitária que nos sirva (Kroger, 2004). No caso dos adolescentes Surdos, para além de todos os factores sociais e psicológicos comuns na adolescência, existem as questões da surdez, da língua gestual e da Cultura Surda. O adolescente Surdo anseia definir quem é na comunidade maioritária e na comunidade Surda. Consideremos o jovem filho de pais Surdos, que nasceu e cresceu no seio da Cultura Surda. A sua vida é construída de base com as dinâmicas da Comunidade Surda e a aquisição de uma língua gestual ocorreu no berço. Neste caso, a identidade é construída de uma forma mais fluída, pois os símbolos da Cultura Surda estiveram sempre presentes na vida do indivíduo (Lane, Hoffmeister e Bahan, 1996). Enquanto filho de pais Surdos é potencialmente poupado à turbulência pela qual passam os filhos de pais ouvintes, pois tem já uma percepção muito positiva de si mesmo, aceitando-se mais facilmente como é. Com isto não queremos dizer que a adolescência de um filho de pais Surdos é pouco agitada, pelo contrário, terá de lidar com todos os processos identitários à semelhança de qualquer outro jovem. É apenas poupado ao debate interno sobre onde posicionar-se perante a dicotomia cultural Surdo/ouvinte, tendendo a aceitar-se dentro da sua cultura e a construir relações relevantes e satisfatórias.

No que diz respeito ao processo de construção, existem estágios típicos no desenvolvimento de uma identidade s/Surda: Confusão; Frustração/Ira/Culpa; Exploração; Identificação/Rejeição; Ambivalência; Aceitação (Erting, 1994). Não é obrigatório que o jovem s/Surdo passe por todas estas fases, e estas não têm de ocorrer forçosamente na ordem apresentada. A construção de uma identidade s/Surda é para muitos um processo moroso e atribulado. Viver com duas modalidades linguísticas e barreiras de comunicação, gerir as diferenças culturais e o preconceito, enfrentar os problemas de acessibilidade, e lidar com toda a carga emocional que estas questões comportam, coloca dificuldades no percurso de construção de uma identidade pessoal e social saudável.

Relativamente às categorias de identidade, Surdo e surdo são as definições mais abrangentes. No entanto, para além desta dicotomia, outros autores destacam um variado leque de identidades que podemos encontrar entre os membros das Comunidades Surdas do mundo ocidental, com origem na diversidade de percursos que caracterizam os membros do Povo Gestuante num determinado país.

Um dos académicos que definiu um leque de categorias de Identidades Surdas foi Thomas K. Holcomb, um conhecido estudioso Surdo americano que conhece profundamente a comunidade Surda americana e mundial. No seu aclamado livro Uma Introdução à Cultura Surda Americana 6, Holcomb define sete categorias de Identidade Surda, explicando que:

“As pessoas surdas não são todas iguais. Algumas pessoas surdas debatem-se com o que significa ser surdo ao longo de toda a sua vida. Outras pessoas surdas ganham precocemente um sentido muito forte de identidade. Algumas pessoas surdas relacionam-se mais com pessoas ouvintes. Outras, porém, preferem ter pouco ou nada a ver com as pessoas ouvintes. Algumas pessoas surdas gestuam, outras não. Algumas usam próteses auditivas, e outras não. Algumas têm implantes cocleares ou desejam tê-los. Outros rejeitam-nos veementemente. Alguns utilizam a oralidade regularmente, outros recusam de todo utilizar a sua voz” (Holcomb, 2013, p. 63).7

As sete categorias definidas por este autor são: Identidade Bicultural Equilibrada, Identidade Bicultural com Dominância Surda, Identidade Bicultural com Dominância Ouvinte, Identidade Culturalmente Separada, Identidade Culturalmente Isolada, Identidade Culturalmente Marginal e Identidade Culturalmente Cativa.

Na Identidade Bicultural Equilibrada encontramos aqueles que se sentem confortáveis em ambos os mundos – Surdo ou ouvinte. Embora não seja obrigatório, este tipo de identidade muitas vezes inclui fluência na expressão oral e gestual, o que motiva uma sensação de conforto comunicacional quer junto de pessoas Surdas quer de ouvintes. É o tipo de identidade considerada mais difícil de encontrar porque requer que a pessoa não tenha qualquer ressentimento para com o mundo ouvinte, mesmo tendo eventualmente passado por episódios que implicaram sofrimento e, por vezes, trauma, na sua vida. Esta identidade requer um profundo conhecimento e compreensão de ambos os mundos e uma capacidade enorme de flexibilidade para se saber movimentar alternadamente num e noutro.

Quando falamos da Identidade Bicultural com Dominância Surda referimo-nos à identidade daqueles que, embora sejam capazes de se movimentarem em ambos os mundos, preferem estar com pessoas gestuantes, sejam elas Surdas ou ouvintes. Trata-se dos membros das Comunidades Surdas que procuram ter a sua língua gestual presente de forma contínua nas suas vidas. Estas pessoas militam pelo estatuto da língua gestual e o direito à mesma. Como tal, ensinam a língua gestual aos colegas de trabalho, aos vizinhos, e a todas as pessoas com quem têm contacto regular. Usualmente, estes indivíduos convocam intérpretes em diversos contextos, assinalam publicamente e sempre que possível a necessidade da sua contratação e, quando não é possível dispor de interpretação, utilizam a leitura da fala, a oralidade e a escrita para comunicar.

A Identidade Bicultural com Dominância Ouvinte é a identidade daqueles que se relacionam com pessoas Surdas mas que, por alguma razão, são mais participativos em contextos de interacção com pessoas ouvintes. Muitas vezes este contacto limitado com as pessoas Surdas deriva de barreiras geográficas, já que as pessoas com esta identidade, por viverem longe de locais de convívio Surdo ou porque a sua vida os levou por um caminho com mais interacção ouvinte, não passam muito tempo na Comunidade Surda. Por exemplo, a escolha de uma carreira profissional, ou uma actividade de lazer onde simplesmente não existem outras pessoas Surdas, faz com que o contacto com pessoas ouvintes seja maior. Estas pessoas não rejeitam nem contestam a Comunidade Surda per se, mas fazem as suas escolhas e a sua vida de forma autónoma, sem se regerem pelas tendências desta comunidade, razão pela qual muitas vezes habitam e frequentam espaços habitados por pessoas ouvintes.

Ao referirmo-nos à Identidade Culturalmente Separada falamos da identidade de pessoas Surdas que têm, propositadamente, um contacto mínimo com pessoas ouvintes. Assim o desejam devido a traumas e situações de opressão pelas quais passaram ao longo da sua vida. São indivíduos que se sentem saturados e marcados por situações de falta de entendimento, falta de comunicação e falta de informação e, assim sendo, evitam o contacto com pessoas ouvintes. Se as pessoas ouvintes com quem lidam não fazem um esforço para aprender a sua língua gestual, esta pessoa evita-os, por vezes até no caso de membros da sua família. Poderíamos encontrar no seu pensamento a seguinte ideia: Se os outros não fazem um esforço para aprender a gestuar, então é porque não valorizam a minha companhia nem a mim como pessoa. As pessoas que têm este tipo de identidade, no seu quotidiano, encontram-se principalmente em contextos de interacção Surda (igrejas Surdas, associações, locais de trabalho com predominância Surda). Normalmente, estes indivíduos celebram casamentos com Surdos e têm predominantemente ou quase exclusivamente, amigos Surdos.

A Identidade Culturalmente Marginal é a identidade de pessoas que, por um lado, se sentem desconfortáveis na Comunidade Surda mas, por outro, também não se sentem plenamente à vontade entre as pessoas ouvintes. São pessoas que vivem entre os dois grupos, sem se aliarem a nenhum. Estes indivíduos, normalmente, não são proficientes nem na oralidade nem na língua gestual do seu país. E embora não suceda em todos os casos, é comum as crianças e adultos com implantes cocleares inserirem-se nesta categoria.

Temos ainda a Identidade Culturalmente Isolada, que é a identidade de quem prefere estar longe da Comunidade Surda. Muitos pais ouvintes educam os seus filhos surdos transmitindo-lhes a ideia de que falar bem oralmente e recusar a língua gestual é garantia de entrada e assimilação completa no mundo ouvinte. Esta identidade é baseada numa distorção do que a surdez realmente é e do que a Comunidade Surda representa.

Finalmente, existe a Identidade Culturalmente Cativa, que é a identidade de pessoas que crescem sem saber que existe uma Comunidade Surda. Podem ter sido proibidos pelas suas famílias de entabular contacto com pessoas Surdas, ou nunca terem encontrado alguém Surdo no local onde residem. Muitos não têm conhecimento da existência das línguas gestuais ou de contextos especializados de/e para s/Surdos, tais como escolas de s/Surdos e o movimento associativo. Hoje em dia, é cada vez mais raro encontrar pessoas surdas com este tipo de identidade, no entanto ela ainda existe, em especial em zonas rurais mais recônditas.

Estas sete categorias teorizadas por Thomas K. Holcomb tratam-se de identidades que sempre existiram ao longo da História dos Surdos e que permanecem até hoje. Frisamos que uma pessoa não tem de estar afecta a uma só tipologia ao longo da sua vida, podendo na realidade transitar entre os diferentes tipos. É possível até, em determinados momentos, ter-se duas identidades dentro de si, como vectores que puxam em diferentes direcções (Hall, 1992). Quem trabalha e convive com pessoas Surdas terá já testemunhado esta realidade junto de amigos, colegas e alunos.

Embora todas as identidades sejam legítimas e devam ser respeitadas, um estudo de Weinberg e Sterritt em 1986 frisa que as pessoas Surdas que assumem um posicionamento identitário mais bicultural, relacionando-se com interlocutores Surdos e ouvintes, alcançam melhores resultados na sua vida social, pessoal e profissional. Estes autores dizem também que as pessoas surdas que se relacionam exclusivamente com ouvintes têm menos sucesso nestas áreas. Em 1996, Glickman concluiu também que, na pessoa Surda, uma maior autoestima está correlacionada com a existência de uma identidade bicultural, pois o indivíduo que compreende profundamente quer a Cultura Surda quer a cultura maioritária detém uma grande bagagem de informação o que favorece, por conseguinte, uma flexibilidade cultural acrescida.

Reflexões finais

Ao longo deste artigo, enfatizámos a importância de conhecer e saber explicar o que é a Cultura Surda. O sentimento de que ela existe é verdadeiro e importante mas, por uma questão de afirmação cultural e política, urge saber esclarecer o conceito a qualquer interlocutor com quem nos deparemos. Esta definição é um instrumento importantíssimo na luta pelos direitos civis do Povo Surdo, bem como no seu reconhecimento público como minoria cultural e linguística em Portugal.

Percebemos que, nas Comunidades Surdas ocidentais, onde a heterogeneidade é um traço importante, não existe uma Identidade Surda monolítica, mas sim um mosaico diversificado. Da mesma forma, não existe uma identidade melhor ou pior, um caminho certo ou errado. As pessoas s/Surdas passam por experiências diferentes e podem ao longo do seu percurso atravessar identidades diferentes.

Não obstante, reconhece-se que o biculturalismo é uma identidade que confere à pessoa Surda informação importante sobre o mundo que a rodeia, quanto à minoria Surda e à maioria ouvinte, gerando uma maior capacidade de resiliência, flexibilidade e um acrescido sentido de conforto intercultural. Este tipo de identidade não significa que a pessoa Surda se sinta plenamente incluída na comunidade maioritária, o que frequentemente não sucede. O que acontece é que uma pessoa Surda com identidade bicultural valoriza a Cultura Surda assim como a sua cultura nacional. Estando informada sobre os variadíssimos aspectos de ambas as comunidades, torna-se potencialmente livre de preconceitos quer para com s/Surdos quer para com ouvintes.

Não cremos que se possa extrapolar e dizer que o biculturalismo é a identidade mais saudável, pois todos os percursos são legítimos e incluem tanto momentos de alegria como de sofrimento. No entanto, é importante ressalvar que alguns tipos de identidade Surda comportam traumas e sofrimentos mais intensos do que outros. Ao longo da História, elementos da maioria ouvinte têm persistido na senda de curar ou reabilitar a surdez, encarando este traço como um defeito que urge corrigir e até erradicar. Porém, ao considerarmos os Povos Surdos ou Povos Gestuantes como minorias culturais, é importante repensar a orientação destas acções da comunidade maioritária. A liberdade individual de escolha de cada pessoa quanto ao seu próprio corpo é soberana, mas a eliminação do traço ser Surdo implica a obliteração de povos minoritários e de línguas únicas. Os autores Lane, Pillard e Hedberg (2011) avançam com um nova noção no seu livro People of the Eye: Deaf Ethnicity and Ancestry, a de que ser Surdo é um traço biocultural transmitido ao longo do tempo, ou seja, uma etnia. A Etnia Surda definida em detalhe nesta obra situa-se então, no ângulo de análise em Estudos Pós-Coloniais, num enquadramento teórico típico quanto à opressão de minorias, sendo que a eliminação das mesmas se insere no conceito de genocídio (Lane et al., 2011).

Na voz dos membros das Comunidades Surdas ocidentais, ser-se Surdo é ser representante da diversidade étnica e cultural humana. A Cultura Surda e os produtos que dela emergem são património do Povo Surdo e acrescentam riqueza à Humanidade. As crianças e jovens Surdos têm o direito a construir identidades saudáveis e a serem felizes (Ladd 2003). Basta apenas olhar para a pessoa Surda, ver o que ela tem a dizer sobre si mesma e aceitar os rumos que a comunidade Surda deseja trilhar.

Notas

1 Este artigo foi escrito ao abrigo do anterior Acordo Ortográfico.
2 O verbo gestuar é utilizado em Estudos Surdos para nos referirmos a falantes de uma ou mais línguas gestuais. As palavras gestuar e gestuante diferem de gesticular, termo mais abrangente que se refere à utilização generalizada de gestos não línguísticos (i .e. gestos que acompanham as línguas orais, ou utilização de mímica).
3 Surdo (com maiúscula) e surdo (com minúscula) tratam-se de termos que se têm vindo a utilizar em Estudos Surdos desde a década de 1970 (Ladd, 2003). O termo Surdo refere-se a uma pessoa que gestua no seu dia a dia, que se sente parte da Comunidade Surda, consome/produz Cultura Surda e se vê de forma positiva como representante da diversidade humana; surdo refere-se a alguém que se identifica mais com a comunidade ouvinte, que utiliza predominantemente a oralidade para comunicar e não uma língua gestual, não se sentindo parte da Comunidade Surda. A grafia surdo é também utilizada quando nos referimos à surdez em termos médicos, ou seja, quando falamos da diferença auditiva da pessoa Surda/surda (Woodward, 1972). Esta terminologia tem sido adoptada por forma a esclarecer a preferência linguística dos indivíduos, bem como a sua pertença cultural, sendo igualmente uma nomenclatura de cariz político usada no sentido da obtenção de Direitos Surdos. Porém, nos últimos anos, vimos surgir uma corrente dentro dos Estudos Surdos que considera esta divisão estratégica como não representando adequadamente a heterogeneidade de percursos das pessoas s/Surdas (Kusters, De Meulder, & O’Brien, 2017), que variam em etnicidades, percursos escolares e familiares, línguas utilizadas, e outras minorias internas.
4 Referência a um termo cunhado por Batterbury, Ladd, & Gulliver em 2007 (Sign Language Peoples). Neste artigo utilizam-se alternadamente duas expressões (Povo Surdo e Povo Gestuante) como aproximação semântica ao conceito referido em Língua Portuguesa.
5 As lutas políticas para o reconhecimento legal das línguas gestuais são fenómenos transversais às Comunidades Surdas ocidentais. Em Portugal, a formação da Comissão para o Reconhecimento e Protecção da Língua Gestual Portuguesa, em 1995, desempenhou um papel activista fulcral, que culminou na consagração da Língua Gestual Portuguesa na quarta revisão constitucional da república portuguesa (Quarta Revisão Constitucional da República Portuguesa, 1997).
6 Tradução das autoras. No original, Introduction to American Deaf Culture
7 Tradução das autoras. No original: “Deaf people are not alike. Some deaf people struggle with what it means to be deaf throughout their lives. Other deaf people have a strong sense of identity early on. Some deaf people associate more with hearing people. Yet others prefer to have as little to do with hearing people as possible. Some deaf people sign, and others don’t. Some wear hearing aids, and others don’t. Some have cochlear implants or want them. Others shun them completely. Some use their speech regularly, and others decline to use their voice atall” (Holcomb, 2013, p.

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