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Quando a música se faz com um Tremor "por dentro"
por porsinal     
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Quinta-feira, 22 de Março de 2018 às 18:52:45
Maria de Jesus Lima é surda profunda e chegada aos 43 anos nunca pensou poder tocar um instrumento, muito menos em conjunto com outras pessoas. Mas quando aconteceu, no passado dia 4 de março, naquele que foi o primeiro momento do projeto Som Sim Zero, foi "perfeito" e de ficar com 'pele de galinha'.

"Nunca imaginei, nem em pequena, poder sentir o que senti...Foi arrepiante", deu conta Maria de Jesus a este jornal, que - sendo traduzida gestualmente pela diretora técnica da Associação de Surdos da Ilha de São Miguel (ASISM), Isabel Castro e Silva -, fazia o balanço da sua participação no laboratório que marcou o arranque do projeto artístico.

Som Sim Zero, recorde-se, integra o programa do festival Tremor, que se realiza em São Miguel de 20 a 24 de março, e é uma inciativa do coletivo ondamarela que está a ser construída com elementos da ASISM, outros interessados e músicos açorianos. A experiência cuida, assim, de explorar o som, trabalhar as diferentes particularidades dos participantes e do espaço, e de criar algo singular que possa perdurar na memória do festival e da comunidade micaelense.

Para cumprir com esse objetivo, lá estão Maria de Jesus e João Oliveira, também surdo profundo. Uma com o reco-reco e o outro com o bombo, vão tratando de se preparar para a performance de sábado, a ter lugar no Auditório Luís de Camões, pelas 17h00.

"Nós vamos praticar nos próximos dias e esperamos no dia 24 poder proporcionar um bom espectáculo...Vamos ver o que vai acontecer", afirmou João, manifestando o desejo de que, naquela tarde, a sala esteja composta, não só por ouvintes, mas também por surdos.

A música, explicaram-nos, não se lhes entra como aos ouvintes. Chega-lhes "pelo chão", "pela vibração" até poder ser sentida "e se conseguir 'ouvir' por dentro".

Por essa razão, a inclusão de instrumentos de percussão está a ser tão mais pertinente e adequada: "sente-se o dobro da vibração...Com violinos ou flautas seria bem mais complicado", sinalizou Maria de Jesus.

Portanto, é como se Maria de Jesus e João Oliveira – tal como os outros surdos que participam na atividade – estivessem a "vibrar por simpatia" e, ao tocarem os respetivos instrumentos, a contribuir para ela (diz-se vibrar por simpatia quando uma ou mais cordas são tangidas ou dedilhadas e uma outra vibra, ressoa, como consequência dessa ação).

Entretanto, quem também vibra com a iniciativa, mas está igualmente encarregue de afinar esse "grande instrumento inclusivo", é Ricardo Baptista, Ana Bragança - co-fundadores da ondamarela - e também Samuel Coelho – convidado do coletivo de artistas.

Para tal, fundiram-se línguas (gestual e verbal) e criou-se quase como um novo código de comunicação, que, além da utilidade para a condução dos ensaios, já permitiu deixar um ponto assente: todos os quantos "estiverem presentes na sala fazem parte da banda", indicou Ricardo Baptista.

O objetivo é um pouco o de "fazer repensar o papel do cidadão num acto cultural como o Tremor", declarou o responsável, convicto de que é com ações como a do Som Sim Zero que se "avança no sentido de perceber convenientemente que todos temos um lugar na produção artística e é só convocando a todos que saímos dos clichés".

Como defendeu Ricardo, "se só trabalharmos com uma elite ou com um grupo especializado de pessoas vamos ter os mesmos produtos e resultados".

Por agora, fica o desejo - talvez utópico - que, depois do dia 24 de março, fique o legado do trabalho desenvolvido. No fundo, "que fique, pelo menos, na cabeça de cada um dos nossos participantes a ideia de que naquele momento puderam fazer parte, criar, ou co-criar uma coisa que vai ser única e irrepetível", prosseguiu, sublinhando o seguinte: "o som que nós fizermos ali em cima de palco será um som que nunca foi produzido no universo".

Por essa razão, a diretora técnica da ASISM aplaude a iniciativa, esperançada de que esta possa fazer eco junto de outras instituições e agentes, despertando neles a vontade de contribuirem para o diluir das fronteiras da diferenciação.

"Eu acho que é essencial que existam mais iniciativas destas, sempre pensando que as atividades podem ser mais inclusivas e a sociedade pode estar mais sensibilizada para a diferença", advogou Isabel Castro e Silva, também psicóloga na associação.

Entende a profissional que são oportunidades como as do Som Sim Zero que, "dadas em simultâneo e adaptadas", colocam os surdos "em pé de igualdade com qualquer qualquer pessoa ouvinte".

Por outro lado, Isabel Castro e Silva saúda o facto de o projeto permitir "dar mais visibilidade à comunidade surda e à própria associação". As portas fechadas são menos do que as que existiam no passado, mas atividades do género são sempre bem-vindas.

"Pode ser em qualquer oportunidade e local, porque a Associação está disponível para tudo: ajudar e participar", frisou.

Fonte: Açoriano Oriental (fotografia de Carlos Brum Melo)

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