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Mandy Harvey não ouve, mas sente a música nos pés descalços. E canta sem medo.
por porsinal     
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Segunda-feira, 01 de Janeiro de 2018 às 17:17:51
A cantora norte-americana Mandy Harvey perdeu a audição aos 18 anos — mas conseguiu ultrapassar os seus medos para voltar ao mundo da música. No sentido inverso, há projectos em Portugal que levam a música até à comunidade surda.

A música sempre fez parte da vida da norte-americana Mandy Harvey: cantava desde os quatro anos, cresceu a tocar guitarra com o seu pai e, mais tarde, começou a estudar educação musical na Universidade do Colorado. Mas, aos 18 anos, tudo mudou. Um dia acordou e percebeu que não conseguia ouvir, apesar de já antes ter algumas dificuldades. Isto porque Mandy sofre de uma doença degenerativa rara que afecta o tecido conjuntivo e, por causa disso, ficou surda. Esqueceu-se do que era ouvir a voz do pai, deixou de poder ouvir tudo o que era música para os seus ouvidos, sentiu-se isolada do mundo. E não foi fácil: “Cometi o erro de associar toda a minha identidade a um único sonho [a música] e, quando esse sonho morreu, senti-me basicamente como se tivesse morrido também”, contou a cantora à BBC.

Poderia ter sido o destino a ditar que a história de Harvey não ficaria por ali, e que voltaria a compor e a cantar – mesmo não ouvindo uma única palavra que sai dos seus lábios – mas ela garante que foi tudo força de vontade (que demorou a surgir) e muito, muito treino. A história de Mandy Harvey foi dada a conhecer ao mundo quando participou no concurso televisivo America’s Got Talent – e recebeu o botão dourado do temido jurado Simon Cowell – e desde então não parou de cantar, com uma vida nova, feliz e diferente pela frente. Doze anos depois de perder a audição, Mandy Harvey celebra 30 anos nesta terça-feira.

Mesmo sem ouvir, a cantora norte-americana (originária de Cincinatti, no Ohio) não desafina. “Este é um exemplo fantástico da nossa memória auditiva”, explica o otorrinolaringologista Artur Condé, que considera espantosa a forma como os surdos, sobretudo no caso da música, “conseguem utilizar a voz depois de terem tido e perdido contacto com a audição”. E lembra o caso histórico de Beethoven, que mesmo depois de perder a audição continuou a compor. “Mas, naturalmente, só pessoas com uma enormíssima capacidade e inclinação para a música o conseguem fazer”, acrescenta.

Mas como é que Mandy Harvey consegue saber se está a cantar dentro do tom? A cantora explica-o em várias entrevistas: fá-lo ao sentir o movimento do seu próprio corpo, a respiração, as vibrações no chão – razão pela qual actua descalça. “Quando nos falta um sentido destes, a visão é primordial; mas depois há outros sentidos como a recepção de vibrações que é muito forte por parte dos surdos”, refere Joana Conde e Sousa, professora de língua gestual portuguesa na Escola Superior de Educação de Coimbra (ESEC). Tendo crescido a ouvir e a estudar música, ajuda o conhecimento que Harvey tem da teoria e estrutura musical.

É também precisa confiança no seu próprio tom e “horas e horas e horas e horas” de treino, confessava a cantora no programa de televisão Today, com recurso a sintonizadores visuais (visual tuners, aplicações que permitem avaliar o timbre em tempo real) e a técnicas mais rudimentares, como falar para dentro de um balão. “Dá para sentir o movimento na garganta, de cima para baixo, e algumas notas sentem-se nas cavidades nasais, algumas ressoam no peito”, dizia Harvey na entrevista, falando duas línguas em simultâneo — a inglesa e a gestual.

O botão dourado

Foi quando participou no concurso televisivo America’s Got Talent em Junho de 2017 que a compositora começou a ganhar atenção mediática. O vídeo da sua primeira audição – a que foi já sem audição, descalça e de ukulele na mão, emocionando a plateia à chegada da sua voz – tornou-se viral e foi visto mais de 25 milhões de vezes no YouTube.

Acompanhada da sua intérprete de língua gestual, a cantora deu voz à canção que ela mesma compôs, chamada Try — uma canção sobre a sua luta contra a depressão depois de deixar de ouvir, que pretende encorajar os outros a não desistirem. “Não acho que vás precisar de uma tradutora para isto”, disse o jurado Simon Cowell. E, depois de uma ovação em pé por parte da plateia e do júri, carregou no botão dourado, que garantia automaticamente à cantora surda um lugar entre os finalistas do programa. Terminou em quarto lugar naquela que foi a 12.ª edição do programa; a vencedora foi a ventriloquista de 12 anos Darci Lynne.

O facto de ter sido Simon Cowell a carregar no botão foi importante: “Ele ouve verdadeiramente a minha voz; ouve a música. Não me deu um voto por pena, e é isso que torna tudo muito importante, porque os surdos conseguem fazer qualquer coisa. Não preciso de piedade”, contou Harvey em entrevista à Elle. “Quero ser vista como música, porque é isso que sou. Acontece que sou surda”, acrescentou ainda.

A verdade é que Mandy Harvey não quer ser julgada pela sua doença ou por ter perdido a audição – reconhece que a sua vida é diferente, mas isso não significa que devam ter pena dela; a pena, diz, “é um monstro”. “Eu não sou uma história; sou uma pessoa, e a minha paixão é a música”, reafirmou à rádio NPR.

“O meu maior medo sempre foi perder a audição”

Mandy não ouvia bem, mas ia compensando com a leitura de lábios e aparelhos de audição. Perdeu a audição por completo em cerca de nove meses: “Não foi acordar um dia e não ouvir”; acordou um dia e apercebeu-se do quão mau estava o seu estado auditivo. Saiu da universidade e entrou em depressão, enquanto via os seus sonhos de compor, cantar e ensinar despedaçarem-se um a um.

Tudo aconteceu numa altura de “muita medicação, muita cirurgia, muito stress”. A doença genética de que sofre Mandy Harvey “causa perturbações a nível de todas as estruturas do corpo que têm tecido conjuntivo” e faz com que haja também uma “grande incidência de surdez nestes doentes”, diz o médico Artur Condé, presidente do colégio de otorrino da Ordem dos Médicos — uma surdez “difícil de recuperar quer com próteses auditivas, quer com intervenções cirúrgicas”.

A compositora sempre viu a música como a “expressão da alma”, a sua forma de comunicar. “Demorou muito até me aperceber que o meu mundo continuava belo, só que diferente”, admitiu, no programa Today. “O meu maior medo sempre foi perder a audição. E isso aconteceu. Depois de passar pelo meu maior medo, qual era o pior que podia acontecer? O medo já não me punha para trás”.

Foi o seu pai, com quem cantava e tocava guitarra desde pequena, que a incentivou a voltar a cantar, mais de um ano depois de ficar sem ouvir. Não acreditou que conseguiria, fê-lo quase para provar que não conseguiria, mas acabou por acertar grande parte das notas. Com a partitura musical da canção Come Home dos OneRepublic nas mãos, Mandy cantou cada nota individualmente, e começava de novo sempre que o sintonizador visual não mostrava uma luz verde de aprovação. Passaram dez horas até que conseguisse cantar tudo dentro do tom. Surpreendida, enviou o clip de som para a sua antiga mentora vocal que a encorajou a continuar, tal como fez a sua família.

Apesar do nervosismo, passou a cantar em clubes de jazz. Até hoje, lançou três álbuns: Smile (2009), After You’ve Gone (2010) e All of Me (2014) e ainda o EP Merry Little Christmas (2013); em Setembro deste ano lançou também o livro Sensing the Rhythm - Finding My Voice in a World Without Sound (algo como Sentir o Ritmo – Encontrar a minha Voz num Mundo sem Som, numa tradução livre), em que conta a sua aventura pelo mundo da música depois de deixar de ouvir. E agora não tem dúvidas: “Eu sou feliz. Sou feliz com a pessoa que sou. Sou feliz com a minha vida”.

Ameaças de morte

Depois de perder a audição, a compositora tomou também a decisão de aprender American Sign Language (ASL, a língua gestual americana), que lhe “abriu um mundo” em termos de comunicação. “A minha voz é mais para as outras pessoas”, reconhecia Harvey em entrevista à Elle, “mas se cantar e gesticular ao mesmo tempo, sinto-me mais ligada à música, porque consigo ver o que estou a dizer”. Em actuações mais recentes, vê-se Mandy Harvey a cantar enquanto fala em American Sign Language com as mãos – e só não o faz se estiver a tocar ukulele.

Em Novembro, a BBC noticiava que a cantora recebeu ameaças de morte por cantar, acusando-a de dar destaque a uma actividade dos “ouvintes”, por promover o “oralismo” – a prática de ensinar os surdos a usar a língua falada e a leitura de lábios em vez das línguas gestuais. Conta que chegou a receber cartas com “palavras fortes” e ameaças de morte. “Recebi muitas reacções negativas por parte de algumas pessoas na comunidade porque estava a promover o oralismo” — prática que foi banida há quase 140 anos nos Estados Unidos –, depreciando a comunidade surda após anos de opressão. Não era essa a sua intenção e, no fundo, a cantora sente que não se encaixa em nenhum dos dois mundos, como se estivesse sempre “no meio”.

Já a professora Joana Conde e Sousa define o trabalho da cantora como “magnífico”: “é aliar duas coisas boas que é a música e a língua gestual”. Além disso, “o trabalho que ela faz é muito importante porque chega a um maior número de pessoas: chega a quem sabe língua gestual mas também a ouvintes. É fantástico”.

E música para os surdos?

Mandy canta para um público ouvinte (ainda que também gesticule enquanto canta) mas do outro lado do espectro está a adaptação da música para a comunidade surda — porque há diferentes formas de “ouvir” uma canção.

Ao adaptar concertos e canções para a comunidade surda com o intuito de manter a mensagem original, não basta traduzir a letra. Há que ter cuidado com duplas interpretações, e há também um jogo com as luzes utilizadas, com a roupa escolhida (incluindo a cor, para que as mãos sejam bem visíveis), com o cenário, com a coreografia, com as vibrações sentidas através do chão.

Isto “para que o ritmo e a coordenação do que está a ser dito e interpretado aconteça, para que fique harmonioso”, explica a intérprete Joana Conde e Sousa, que já integrou vários projectos de interpretação de concertos para surdos. “O concerto não é apenas um concerto, é a transmissão de emoções através da música, e isso tem de ser preparado”.

É o que fazem os MusicSign – um grupo de Coimbra constituído pelos intérpretes de língua gestual Rafaela Silva e Pedro Oliveira – que adaptam êxitos musicais para que também a comunidade surda possa desfrutar. “Tentamos que toda a envolvência jogue com aquilo que é a canção, tentamos integrar todos os elementos da canção original”, explica Rafaela Silva. O objectivo é que os vídeos, publicados numa página do Facebook, sejam um retrato fiel “da mensagem transmitida na música”. Na rede social, vêem-se canções como All I Want for Christmas is You, O Amor é Assim ou algumas mais recentes como Cheap Thrills — e até mesmo Amar pelos Dois, de Salvador Sobral.

Tudo começou com uma “brincadeira” em 2015. Os dois amigos e colegas de trabalho fizeram um dueto em língua gestual, “uma filmagem muito amadora”, e foram as mensagens de apoio e as reacções positivas (sobretudo da comunidade surda mas não só) que os motivaram a continuar. “E o nosso dia-a-dia é a língua gestual”, justificam ainda Rafaela e Pedro.

A intérprete de língua gestual Joana Conde e Sousa acredita que a comunidade surda enfrenta ainda muitas barreiras diárias, sobretudo no que diz respeito à comunicação: como quando querem ir ao posto médico e não existe um intérprete de língua gestual ou quando querem fazer um telefonema e não conseguem — mas acredita que essas barreiras “existem no desconhecimento” e seriam fáceis de resolver.

A verdade é que a sociedade maioritária não teria qualquer dificuldade em aprender língua gestual, como acontece em países desenvolvidos, como na Escandinávia, em que a língua gestual existe nas escolas de forma opcional”, refere. “As barreiras estão em todo o lado mas existem porque, na verdade, nunca ninguém pensou ao contrário”, conclui a professora de língua gestual portuguesa na ESEC. Como nota o Guardian, o próprio vídeo da audição de Mandy Harvey acabava por ser discriminatório: o público ouvinte conseguia perceber tudo, mas a comunidade surda não tinha acesso de forma contínua à tradução da intérprete de língua gestual.

Fonte: Público

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