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Esta televisão é para surdos que se querem fazer ouvir
por porsinal     
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Terça-feira, 04 de Dezembro de 2012 às 20:01:25
A SurdoTv nasceu há três anos para preencher as falhas no acesso dos surdos à informação. (Reportagem do jornal Público)

Uma pequena câmara de vídeo digital, um tripé, um computador portátil e pouco mais. O equipamento cabe todo no saco azul de plástico que Hélder Duarte traz ao ombro. As mãos estão livres para falar com o resto da equipa da SurdoTv – o director-geral da televisão, uma jornalista, e o editor de imagem.

Em comum, têm a surdez mas não só. São voluntários nesta que é a única televisão online portuguesa feita por surdos e para surdos. O Jornal Público foi acompanhá-los num dia de reportagem.

Num canto do anfiteatro da Universidade Lusófona, em Lisboa, Fernando Padeiro despe a camisola de director-geral da SurdoTv e assume o posto de operador de câmara. Monta o tripé, instala a máquina, ajusta a imagem. Hélder Duarte, o director de informação, sobe ao palco onde vão discursar os convidados do V Congresso Nacional de Surdos e faz os testes de imagem: abre os braços, inclina-se para a direita, depois para a esquerda. Os oradores – quase todos surdos – tem de “caber” no quadrado que Fernando desenha no ar com as mãos. É este o espaço das palavras em língua gestual: uma espécie de quadrado invisível onde o discurso ganha forma.

A parede cinzenta e branca, com uma cortina cor-de-laranja, levanta problemas. Alexandra Ramos, uma das intérpretes de língua gestual portuguesa (LGP) que vai traduzir os oradores – e que serviu de intérprete ao PÚBLICO durante esta reportagem –, explica: “O campo visual dos surdos não pode ter muitas cores, para evitar que se distraiam.” As intérpretes têm de usar roupa de cor neutra, de preferência escura. Até os ramos de flores são proibidos. A poluição visual é ruído para quem ouve com os olhos.

Na parede ao fundo do anfiteatro, é fixado o tecido verde que serve de pano de fundo ao espaço de entrevistas. É ali que Susana Amaral, a jornalista de serviço, há-de entrevistar os convidados, em LGP. Na mesa junto ao palco, Hélder Duarte e Pedro Miguel Silva, o editor de imagem, preparam os computadores. O congresso começa à hora marcada, em silêncio. Nem parece que está quase uma centena de pessoas na sala.

Notícias à medida

Desde 2009 que a equipa da SurdoTv trabalha quase sem recursos humanos e materiais, para informar os surdos sobre o que se passa no país, no mundo (através da International Sign, uma língua gestual internacional) e na sua própria comunidade. A programação não é diária, depende da actualidade. O telejornal, designado “Notícias Destaque”, dura meia hora e é normalmente emitido de três em três meses, a menos que haja um acontecimento importante de última hora. Nesse intervalo, são emitidos outros blocos informativos, alguns temáticos. Eventos como o congresso realizado na Universidade Lusófona, a 16 e 17 de Novembro, organizados pelas associações de surdos, têm cobertura garantida.“Falamos do que se passa na política, na sociedade, na comunidade surda”, explica o director de informação. “Lemos os jornais, procuramos na Internet, e destacamos os temas mais importantes para os surdos”, acrescenta. É como um fato feito por medida. Por exemplo, numa notícia sobre as taxas moderadoras na saúde, são abordadas especialmente as condições em que os utentes com incapacidade igual ou superior a 60% podem pedir isenção do pagamento.

É como ter um canal temático”, afirma Josélia Neves, professora do Instituto Politécnico de Leiria e especialista em tradução audiovisual e legendagem para surdos. Mesmo que os canais de televisão nacionais generalistas fornecessem todos os conteúdos adaptados aos deficientes auditivos – o que ainda não acontece – a SurdoTv continuaria a fazer sentido, considera. “É uma televisão orientada para uma minoria, respeitando todas as contingências da LGP. O amadorismo faz com que não haja filtros ou interesses e isso é magnífico”, diz a especialista. E vaticina: “Daqui por uns anos, estará ali a história da surdez em Portugal.

Em três anos, 120 mil pessoas acederam ao site, segundo Fernando Padeiro. Mas os espectadores desta televisão têm de saber LGP para perceber os conteúdos. “Não temos material nem dinheiro para pagar a quem possa fazer a introdução do som, ou a legendagem”, lamenta o director-geral da SurdoTv.

O trabalho que fazem é “completamente voluntário”, explica Fernando Padeiro, que fundou o projecto com a irmã, Alda Padeiro, e Walter Matos. Hélder Duarte juntou-se-lhes pouco depois. A empresa Missão Descobrir – Comunicação em Língua Gestual, que presta serviços de interpretação em LGP e na qual são todos sócios, fornece o único apoio financeiro da SurdoTv.

Ler como uma criança de nove anos

Cada painel de oradores demora poucos minutos em cima do palco. O discurso é simples, os surdos não usam as mesmas regras de construção frásica dos ouvintes. “E tal como há ouvintes que falam mal, também há surdos que gesticulam de forma ‘estranha’. Mas o intérprete não pode alterar nada do que ele diz”, explica Alexandra Ramos, filha de pais surdos. Enquanto as intérpretes traduzem os convidados da sessão, Fernando Padeiro vai enchendo cartões de memória gravados sem som. Troca de painel, troca de cartão.

Pedro Miguel Silva, no portátil, recebe os cartões e os vídeos começam a tomar forma através de um simples programa de edição. É ele o criativo da equipa. Aos 45 anos, não lhe faltam histórias para contar. É o único drag queen surdo no país, orgulha-se de ter partilhado palcos com caras famosas da sociedade portuguesa, desde cantores a actores. Mas também é maquilhador profissional, já foi actor de cinema, trabalhou em design e deu aulas a surdos.

Nenhum dos elementos da SurdoTv tem formação em jornalismo, nem mesmo o director de informação. Hélder Duarte tem 47 anos, estudou artes gráficas e tem um curso superior de professor de LGP. Nasceu surdo e tem a LGP como primeira língua, o português escrito como segunda. Daí que, à semelhança da maior parte das pessoas surdas, tenha dificuldades em escrever e em ler português. O nível de leitura de um adulto com surdez é equiparável ao de uma criança com nove anos.

Apesar das falhas na acessibilidade, a televisão é para os surdos um dos principais meios para obter informação. No estudo que Josélia Neves realizou em 2003 e que envolveu 153 pessoas surdas de todo o país, 75% dos inquiridos dizia ter dificuldade em ler português escrito, mas todos viam quatro horas de televisão por dia durante a semana e 5h30 ao fim-de-semana – mais televisão do que a média nacional, que ronda as 3h30.

Os noticiários são os programas mais vistos pelos surdos, seguidos dos filmes, novelas e programas de desporto. Actualmente, o único noticiário da televisão nacional com tradução para LGP é o da RTP2, emitido às 22h. “Mas as respostas às questões dos surdos são muito poucas, e às vezes há falhas”, lamenta Hélder Duarte, que foi o rosto da luta pela introdução do sistema de teletexto e legendagem de intérpretes de LGP na televisão nacional, enquanto presidente da Associação Portuguesa de Surdos, de 1995 a 1999. Defende que o trabalho de interpretação deveria ser feito em conjunto, entre surdos e ouvintes, para evitar as falhas de que fala.

Nos restantes noticiários, existe legendagem automática (feita pelo computador e apresentada ao ritmo da fala), um método que Josélia Neves diz estar longe do ideal. “O que a televisão portuguesa está a oferecer a este nível é categoricamente insuficiente, tanto em qualidade como em quantidade”, refere a docente. Tendo em conta as dificuldades de leitura dos surdos, “está-se a desperdiçar o que poderia ser uma arma pedagógica para melhorarem as suas competências”, critica.

Em 2010, uma tese de Mestrado em Tradução e Serviços Linguísticos da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, de Lisbeth Ferreira, analisou a programação ao longo de um dia nos quatro canais de televisão generalista. Concluiu-se que 79,6% da programação era completamente inacessível a deficientes auditivos. A mesma investigadora constatou também que na SIC e na TVI os programas com mais horas de legendagem eram novelas, brasileiras e nacionais.

Em relação ao número de horas de programação traduzida em LGP, Josélia Neves admite que Portugal está até “à frente da maioria das televisões europeias”. Porém, “é preocupante que os programas traduzidos sejam sobretudo os de entretenimento, fora do horário nobre”. Outro problema é o tamanho da janela no canto do ecrã, onde aparece o intérprete.

Não há meio de tirarmos o pequeno ‘caixote’ da nossa televisão e de darmos uma maior dimensão ao intérprete”, critica Josélia Neves. A solução pode estar nas novas tecnologias. “Com a televisão digital é fácil sobrepor imagens, ou minimizar o ecrã e pôr a janela do intérprete em tamanho maior”, explica.

Mina de ouro: audiodescrição

As televisões generalistas estão desde 2003 sujeitas a um protocolo, alterado em 2005, que define a “quota” de programas acessíveis aos surdos. Este documento obriga SIC e TVI a emitirem um mínimo de 2h30 por semana de programação “de actualidade informativa, educativa, cultural, recreativa ou religiosa” com tradução em LGP, e pelo menos cinco horas semanais de programas de ficção ou documentários com legendagem em teletexto. A RTP ficou comprometida com o dobro das horas.

“De um modo geral os operadores cumprem as obrigações com que se comprometeram”, garante Sérgio Gomes da Silva, do Gabinete para os Meios de Comunicação Social. No entanto, admite, “é necessário aumentar de forma significativa o número de horas de emissão que é acompanhada por legendagem e LGP”.

Essa seria a função do Plano Plurianual de Obrigações em Matéria de Acessibilidades aos Conteúdos Televisivos, que entrou em vigor em 2009 mas foi suspenso. A SIC e a TVI impugnaram judicialmente o documento, alegadamente devidos aos custos elevados que implicaria a sua aplicação, e o tribunal deu-lhes razão. Actualmente, “a ERC [Entidade Reguladora para a Comunicação Social] está a trabalhar na preparação do próximo plano plurianual, que também dará um importante contributo para a melhoria da situação neste domínio”, acredita Gomes da Silva.

Enquanto isso, os surdos continuam a pagar a taxa audiovisual, no valor de 2,39 euros por mês. “Deviam pagar pelo menos metade, ou um terço”, reclama Josélia Neves. “Não ouvem rádio nem televisão. Resta-lhes um terço da comunicação, e descontextualizada.

A investigadora critica a atitude dos canais privados de televisão e vai mais longe: “Quem faz comunicação no nosso país ainda não se apercebeu que a audiodescrição pode ser uma mina de ouro.” Não há números concretos, mas estima-se que 15% da população mundial tem uma deficiência e que 10% da população deficiente é surda. Os Censos 2011 não permitem apurar com certeza o número de pessoas com deficiência em Portugal, mas indicam que 13% dos portugueses têm dificuldade em ouvir. Ou seja, cerca de 1,4 milhões de pessoas.

A legendagem correcta dos programas pode ser “uma mais-valia geradora de receitas, se lhe for retirado o cunho da deficiência”, considera Josélia Neves. Não são só os surdos que beneficiam com a legendagem – as pessoas disléxicas, os estrangeiros, ou mesmo os utentes de um centro de saúde ou de um centro comercial, por exemplo, onde as televisões estão normalmente sem som ou o ruído é tanto que não permite ouvir.

Também no caso da SurdoTv, a legendagem implica custos que a empresa não tem como suportar. “Nem todos os surdos sabem LGP, já tivemos reclamações”, reconhece o director-geral, que espera conseguir resolver o problema em breve. Tal como espera conseguir montar um estúdio “com todo o material, divisões e secções próprias” para a SurdoTv, que actualmente partilha a sede com a empresa Missão Descobrir, no centro de Lisboa.

É num simples escritório com estantes, uma secretária, uma parede verde (que às vezes serve de fundo para as gravações) e uma pequena cama ao canto, que a SurdoTv ganha forma. É lá que se fazem as últimas edições das peças e se inserem no site, com uma pequena e simples descrição em texto. Sobre o V Congresso Nacional de Surdos, foram colocadas 16 reportagens em vídeo. Se a SurdoTv não fosse media partner (o único) do evento, provavelmente poucos iriam ouvir falar dele. Em gestos rápidos e quase teatrais, Hélder Duarte descreve o sentimento: “É como se vivêssemos numa ilha.

Fonte: Público (Marisa Soares e Vítor Hugo Costa)

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