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A língua gestual portuguesa esteve proibida, agora serve para cantar
por porsinal     
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Terça-feira, 25 de Setembro de 2012 às 03:12:41
Os surdos portugueses estiveram quase um século de mãos atadas, agora há um grupo que entrou para um coro para mostrar como se canta com gestos de Portugal. Esta também é a história de um maestro que embarcou numa aventura cheio de perguntas: “O que é a música para eles ? O que é que eles pensam que é a música ? Eles sentem vibrações, mas isso são 2% da percepção musical.”

É senso comum que a língua portuguesa tem origem no latim, o que poucos saberão é que a língua gestual portuguesa tem as suas raízes na Suécia. Durante cerca de um século foi uma língua proibida e secreta – nas escolas as mãos eram amarradas para que os alunos não as usassem –, mas renasceu na década de 1980. Chegou o tempo de ser usada também para cantar. No Coro da Universidade Católica Portuguesa (UCP) de Lisboa a música também se vê.

“Vejam este vídeo!” Em anexo ao email seguia um excerto da série norte-americana Glee, onde os membros do grupo musical do liceu viam pela primeira vez um coro de surdos a cantar com as mãos Imagine, tema de Jonh Lennon. A remetente do email era Ana Mineiro, coordenadora da Licenciatura em Língua Gestual Portuguesa do Instituto de Ciências da Saúde da UCP, o destinatário a directora do coro da instituição, Rita Almeida. A ideia era desafi ar alunos surdos a cantar com o coro.

“Como projecto de integração na vida académica seria normal que pudessem jogar râguebi, futebol... o coro era a última actividade em que pensaria”, admite Rita Almeida. E a primeira ideia que veio à cabeça perante tão diferente desafi o foi o de que não haveria grandes mudanças, seria o coro a cantar “e os alunos surdos a traduzirem”.

“A ideia não é essa de todo”, completa o maestro do coro Sérgio Peixoto, agora que já aprendeu, passado mais de um ano de o projecto Cantar com as Mãos se ter estreado em Dezembro de 2010, não por acaso com o Imagine, inspirado no vídeo da série Glee. Mas enquanto este tema cantado por dois coros de ouvintes de diferentes países é, mais variação menos variação, muito parecido, se virmos o tema “cantado” por surdos americanos e agora por surdos portugueses percebemos que os gestos são muito diferentes.

O verso com que arranca a canção é Imagine there’s no heaven, mas enquanto na língua gestual americana esta frase é dita com um amplo abrir de braços apontados para o céu, um enrolar das mãos e de novo um abrir de braços, o coro português de surdos di-lo com os dois indicadores a apontar para a cabeça e uma mão que afaga a outra e que é lançada em direcção ao céu. Estão a usar a Língua Gestual Portuguesa que é, a par do português e do mirandês, desde 1997, uma das línguas ofi ciais do país.

Língua clandestina

Nasceu em 1823, na primeira escola de surdos, na Casa Pia de Lisboa, tendo tido como primeiro educador um sueco que do seu país trouxe “o alfabeto manual”. E por isso “o substracto gestual é sueco”, explica Ana Mineiro, o que faz com que, contrariamente à língua falada, não tenha a ver com a Língua Brasileira de Sinais, que, por sua vez, tem raízes na língua gestual francesa.

Não há muito tempo a língua gestual portuguesa era proibida, uma interdição que, tal como aconteceu em muitos outros países, durou quase um século. Durante este longo período “as mãos eram amarradas para que os surdos não as usassem”, lembra. Era o resultado da adesão de Portugal a uma resolução do Congresso de Milão, uma conferência internacional de educadores de surdos em que os professores surdos não puderam votar, que em 1880 proibiu o uso da língua gestual nas escolas. “Pensava-se que a língua gestual prejudicava a aquisição da oralidade.” Mas o facto de estar proibida não impediu que fosse usada “de forma escondida e doméstica”, diz Ana Mineiro. Tornou-se desde então uma língua quase clandestina. A ideia de que a língua gestual era um obstáculo à aquisição da língua oral demonstrou “ser uma falsidade”, continua Ana Mineiro. “Desde a década de 1980 constatou-se que não prejudica a aquisição da oralidade, o gesto é precursor da palavra” e foi novamente autorizada. O renascimento desta língua – usada por cerca de 35 mil surdos em Portugal – tem perto de 30 anos.

É assim que para os coralistas portugueses “poderem expressar-se com a sua língua numa dimensão mais poética é um orgulho”. E mostra “que a língua gestual tem a potencialidade de outras línguas e dá o exemplo à sociedade que são paritárias”, explica Ana Mineiro.

Mas não é fácil. Sobretudo para o maestro, admite Sérgio Peixoto, e isso nota-se pelo facto de ter passado mais de um ano e ainda só terem duas músicas no reportório – além do Imagine, a outra é Eu sei, da cantora Sara Tavares.

No início do processo o maestro não intervém. Os cerca de 15 elementos surdos reúnem-se em torno da letra da canção, e não da pauta, e traduzem-na para gestos, mas este trabalho está longe de ser apenas dizer o texto. Para que se perceba, a coralista surda Cláudia Dias, professora de Língua Gestual Portuguesa, de 36 anos, explica o que seria “falar no mesmo tom de voz – seria entediante”, diz com a ajuda da intérprete Joana Pereira. O que lhes é pedido é que o cantem com as mãos e isso é algo diferente. É imprimir beleza ao gesto, ter preocupações estéticas, ser-se poético. “Muita da informação está na expressão facial, no movimento do corpo.” Enquanto as línguas orais vivem de sequências, uma palavra a seguir às outras, as línguas visuais vivem do espaço. Há o chamado “espaço sintáctico”, uma espécie de quadrado invisível à frente de cada pessoa onde a comunicação se desenrola e que também é feita por mudanças na colocação do corpo na sua relação com os objectos e as pessoas à nossa volta, explica Joana.

Os primeiros versos da canção de Sara Tavares são Se eu voar sem pensar onde vou. A forma de cantar visualmente esta frase é algo como “eu penso, eu sou, eu ando por aí, sem saber o meu caminho. Isto tudo são dois gestos bonitos com uma expressão muito intensa”, explica Joana Pereira. E, tal como no canto, há pessoas que têm mais jeito do que outras. Em jeito de explicação do que é ter jeito para cantar por gestos interpreta Joana Pereira: “Quando olhar e fi car arrepiada, é isso.”

Passada a música para música gestual, começam então os ensaios com o maestro, que tem de fazer um trabalho de ligação entre a música e gesto. “Tento compreender se [os gestos] cabem na música, se têm tempo na linguagem musical, se têm princípio, meio e fim. A ligação do gesto à música tem de ser coerente artística e esteticamente.” A tarefa é morosa, admite Peixoto. “Os ensaios demoram o dobro e o triplo do tempo do coro normal, mesmo com intérprete há difi culdades de comunicação”, admite.

Na sala de ensaios é visível que continuam a ser dois mundos separados. Está-se a minutos de entrar para uma actuação com os elementos surdos do coro e o maestro dá as últimas instruções. “Ouçam...”, diz. Os elementos surdos do coro continuam a falar entre si gestualmente. A seguir, o maestro chama o coro para entrar em palco, “vamos”, mas os elementos surdos estão entretidos, até que Cláudia Dias se vira e é ela a apontar para a porta de entrada em interrogação. Acabam por entrar todos ao mesmo tempo.

Depois de anos a ter de “ir atrás dos ouvintes”, Cláudia diz: “Aqui tenho o meu espaço. Quem vier é bem-vindo.”

Limitações da comunicação

No fi nal do concerto o maestro abeira-se das coralistas surdas e diz-lhes “bravo” fazendo o gesto das palmas, rodando os pulsos com as palmas das duas mãos abertas, e tenta explicar-lhes, juntando-lhe outros gestos improvisados, que “o concerto correu bem, melhor do que a vez anterior”. Para uma conversa mais elaborada seria preciso que estivesse presente a intérprete Joana.

“Quando não está a intérprete, a comunicação é mais básica”, reconhece Cláudia. E há malentendidos. No final de um dos concertos o maestro apresentou o coro e os seus elementos como “surdos-mudos” e não percebeu a ira que tomou conta de um dos elementos surdos. Havia “uma pessoa muito revoltada”. Sérgio Peixoto não percebeu o que tinha feito de mal. Agora já sabe.

“Está a ouvir a minha voz”, traduz a intérprete, e a coralista surda Helena Carmo, de 44 anos, diz uma palavra. “Eu não sou muda, tenho a capacidade de falar. A oralidade é uma opção.” Na comunidade surda dizer que alguém é “surdo-mudo” é uma gaff e gravíssima, até porque a língua gestual inclui alguma emissão de sons.

Admitindo as limitações da comunicação, o maestro chegou à conclusão de que tem mesmo de aprender língua gestual portuguesa. “Tenho de fazer mais, tenho de ir ao encontro da língua deles.” “É um universo fechado o dos surdos” e ele sabe que vai demorar anos a ser fl uente, mas pensa que é inevitável.

Pode ser que nessa altura tenha resposta para algumas das muitas perguntas que se foram avolumando desde o início do projecto. “O que é a música para os surdos ? O que é que eles pensam que é a música ? Não é palpável. Eles sentem vibrações, mas isso são 2% da percepção musical.”

Helena, professora de Língua Gestual da Associação Portuguesa de Surdos, diz com ar singelo: “Toda a gente tem a música dentro de si. Toda a gente tem capacidade musical. Eu sempre gostei de música.” Na sua opinião, este projecto “é um caminho para que as pessoas percebam como a música pode ser entendida sem sons”.

Fonte: Jornal Público (texto de Catarina Gomes, fotografia de Pedro Cunha)

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