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Gémeas surdas de 1 ano passam por cirurgia inédita em São Paulo
por porsinal     
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Quarta-feira, 03 de Julho de 2019 às 17:15:22
As meninas, de um ano e três meses, tem surdez total nos dois ouvidos. Foram submetidas, em São Paulo, a uma cirurgia de implante coclear para que tenham a possibilidade de ouvir.

As pequenas Luiza e Clara nasceram prematuras extremas, com apenas 25 semanas de gestação, ambas com baixo peso — Luíza com 690g e Clara, com 795g. Foram longos 4 meses numa unidade de cuidados intensivos neonatal, onde enfrentaram uma infecção generalizada. No entanto, as complicações não pararam por aí. O teste da orelhinha ainda revelou que haviam problemas com a audição das meninas: as duas tinham surdez profunda bilateral.

No entanto, segundo o otorrinolaringologista Jamal Azzam, não foi possível descobrir se já nasceram com a condição. "Foi muito tempo de UCI e uma série de procedimentos e medicamentos potencialmente lesivos para a audição. Pode ser que não tenham nascido assim. Não há antecedentes genéticos na família e não houve nenhum tipo de intercorrência na gestação ou no parto, que foi normal", explica.

Aos 9 meses de idade, as gémeas receberam os primeiros aparelhos de amplificação sonora convencionais. Mas em decorrência do grau profundo da perda auditiva, Luíza e Clara não conseguiam ouvir os sons. Agora, com 1 ano e três meses, as duas foram submetidas a um procedimento inédito no Brasil. No domingo (dia 30), elas passaram por um implante coclear, na capital paulista. "As cirurgias em crianças pequenas são comuns hoje em dia. O que é inédito nesse procedimento é a cirurgia em ambos os ouvidos de irmãs gémeas com apenas um ano e três meses de idade. Ela costuma ser rápida mas, neste caso, durou três horas e meia pelo fato de as meninas serem bebés e as cirurgias serem bilaterais", explica o otorrinolaringologista.

Segundo o especialista, o implante coclear começou a ser realizado no Brasil no início dos anos 80, mas com resultados ainda muito pobres. "Agora, nos últimos cinco anos, tem ocorrido uma diferença extrema com o avanço da tecnologia. Então, os resultados têm sido muito melhores, gerando uma inserção social — do ponto de vista auditivo — completa. Ou seja, uma criança que nasce surda e faz o implante, pode ter uma vida social praticamente normal", explica.

O procedimento consiste num aparelho eletrónico digital de alta complexidade tecnológica, utilizado para restaurar a função auditiva nos pacientes portadores de surdez sensorioneural severa a profunda. É como se ele substituísse a função do ouvido. O dispositivo possui um componente interno, que é implantado cirurgicamente, e um externo, fixado no crânio, atrás da orelha, que capta os sons e os transmite aos eléctrodos que substituem a função das células lesadas. "O eléctrodo que estamos a usar é inovador, pois ele preserva o que chamamos de audição residual. Isto é, mesmo que os exames indiquem perda total de audição, ainda é possível que restem algumas células vivas. Então, esse eléctrodo não lesa essas células", completa Jamal.

Geralmente, o implante coclear é realizado a partir dos 6 meses de idade, mas o otorrino explica que o mais comum é a partir de 1 ano, pois, antes, é preciso seguir todo um protocolo exigido pela Agência Nacional de Saúde (ANS), no sentido de testar outras alternativas, como aparelhos auditivos convencionais. Apesar da espera, o especialista afirma que é fundamental a realização do procedimento o quanto antes. "Os primeiros 3 anos são importantes para a formação de todas as conexões cerebrais relacionadas a audição. E audição não é só comunicação, ela também está relacionada a emoção", diz.

No caso das gêmeas, foi usado um processador sonoro retroauricular fabricado por uma empresa dinamarquesa. Ele tem apenas nove gramas e o tamanho equivalente ao de um fósforo. Apesar da cirurgia já ter acontecido, as meninas ainda não estão a ouvir. "Apenas a cerca daqui um mês é que o dispositivo será ativado, pois é preciso aguardar o processo de cicatrização, já que se trata de uma cirurgia muito grande. A partir daí, elas poderão ouvir com nitidez pela primeira vez, iniciando o processo de aprendizado e diferenciação dos sons", diz.

As meninas tiveram alta na segunda-feira (dia 1) e, segundo a família, pouco tempo depoisjá estavam a brincar em casa. "Quanto aos cuidados, o componente externo deve ser sempre retirado durante o banho e ao fazer desportos coletivos. Também não recomendo a prática de desportos de contato, como boxe. Em relação ao aparelho, não existe nenhuma previsão de troca. O que existe é a atualização do software do processor, que é o componente externo", explica. "O resultado é muito próximo ao de pessoas com audição normal. Mas o tipo de audição é um pouco diferente. Adultos que perderam a audição e foram submetidos ao implante relatam que é outro tipo de som, mas que rapidamente se adaptam e acabam convivendo bem", diz.

O médico explica também que Luíza e Clara estão em um momento fundamental, em que o cérebro desenvolve várias habilidades. "Por meio do ouvido biônico — como também é conhecido o implante —, acompanhamento profissional adequado e uma família participativa, espera-se que elas alcancem um progresso rápido e efetivo da audição e das habilidades de comunicação, podendo igualar-se ao de crianças ouvintes da mesma idade", garante o especialista.

A cirurgia e os aparelhos do implante coclear das gémas foram fornecidos pelo plano de saúde da família. Vale ressaltar, que a lei prevê que todos os pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) tenham direito a esta reabilitação auditiva de forma gratuita. "Além disso, o teste da orelhinha é obrigatório por lei em todas as maternidade públicas e privadas. Ocorre que, no Brasil, somente 30% das crianças fazem, muitas vezes, por falta de estrutura das manternidades ou falta de informação. Por isso, eu chamo a atenção das gestantes para que exijam esse exame antes da alta do bebê. É gratuito e quanto antes detectado, melhor o prognóstico", finaliza o especialista.

O Implante Coclear já ajudou mais de 400 mil pessoas no mundo a ouvirem — sete mil só no Brasil.

Fonte: Globo G1

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