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Cinema para surdos? H um estdio a tratar disso em Portugal
por porsinal     
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Quinta-feira, 07 de Maio de 2020 às 19:34:37
Surdo desde os dois anos, Z Lus Rebel fundou um estdio independente, a GestoFilmes, onde se produzem filmes com legendas e lngua gestual. "Um surdo capaz de tudo, menos ouvir", diz

Zé Luís Rebel descobriu a magia do cinema aos sete anos. O momento marcou-o tão profundamente que traz a memória consigo até hoje. Relata-a de uma forma vívida, ao ponto de sentirmos que estávamos lá com ele, de volta aos anos 90 e à casa dos avós.

De um momento para outro, algo me intrigou”. Percebeu que “o momento só se produz uma única vez”. A imagem do avô a encaixar as últimas peças no puzzle e da avó a pousar o lanche na mesa ficaram-lhe gravadas na retina. Quis congelar o momento, eternizá-lo num frame, trazê-lo para o mundo das coisas concretas e às quais podemos sempre regressar. Porque “instantes depois já não é aquele momento em que o avô está a colocar as peças e a avó a colocar o lanche”, explica. “O tempo deslocou-se e o momento não se repetiu da forma que eu queria voltar a ver”.

Essa tarde foi um ponto de viragem, diz o agora realizador e responsável pelo estúdio de cinema independente GestoFilmes. "Alguma coisa mexeu comigo. Como voltar atrás no tempo e remexer? É impossível". A vontade de juntar os dois cenários, o avô na sala a construir o puzzle e a avó na cozinha a preparar o lanche, e de encontrar o ponto em que as histórias se interligam, moveu-o durante anos. "Como era um miúdo, não sabia nada de cinema e ignorava que já tinham descoberto a montagem há cem anos. Encontrei uma forma de juntar as cenas na câmara de filmar do meu pai". Queria os avós juntos, era essa a ideia, e a partir daí "foi só seguir numa aprendizagem crescente".

Cresceu a ver filmes na televisão. Analisava as legendas, as expressões faciais e corporais. Quando teve o seu primeiro computador com acesso à Internet, começou a pesquisar a sério sobre cinema. "Os filmes são como aulas de cinema", diz. Quantos mais via, mais queria ver. Apaixonou-se por Steven Spielberg. Mergulhou em Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock, François Truffaut, Georges Méliès, Takashi Miike e tantos outros. Os filmes preferidos são muitos, impossíveis de nomear, mas os primeiros que lhe ocorrem são Forrest Gump e Blade Runner: Perigo Iminente.

No secundário, quis entrar para um curso de Cine-vídeo da Escola Artística Soares dos Reis, mas foi "impedido", pelo que teve de escolher outro curso antes que as candidaturas fechassem. A situação repetiu-se quando quis entrar em Cinema na Escola Superior Artística do Porto.

Entretanto, escolheu frequentar a Licenciatura em Tecnologias de Comunicação Multimédia (vertente de Audiovisual) no Instituto Univer­sitário da Maia (ISMAI), onde finalmente encontrou um estabelecimen­to de ensino superior que o aceitou de braços abertos. Ao longo dos anos, os obstáculos foram uma constante.

E houve, claro, o espírito de "vendedor ambulante", de alguém "que anda em todo o lado e nunca desiste".

Recorda que fez muitos desvios à conta de preconceitos e que teve de os enfrentar para regressar ao percurso que sempre quis seguir. "Sempre me desviei do meu caminho e tive de correr atrás para o encontrar e não voltar a perdê-lo; tive de segurá-lo, voltar a pôr-me nele, de novo e de novo".

Depois da faculdade, andou a bater às portas, mas não conseguiu oportunidades. "Imaginei que, tendo alguma coisa para mostrar, as pessoas poderiam ver e poderiam reparar" - e assim nasceu a GestoFilmes Studios, a produtora independente que fundou, e que está sediada no Pólo das Indústrias Criativas da UPTec (Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto). Desde 2011, dá seguimento aos seus projectos maioritariamente sozinho; não tem uma equipa, mas coma com "a ajuda de pessoas que já fizeram parte e colaboraram". Foi até Viena, trabalhou uns tempos na plataforma de notícias Gebardenwelt.tv, e regressou a Portugal. Já realizou vários documentários e curtas-metragens, entre os quais se contam títulos como Hemilton, Registo Inédito ou O Nome Gestual, mas o verdadeiro sonho é chegar às longas. Sente dificuldade na escrita de argumentos porque se perde na procrastinação, apesar de admitir que "isso é normal para quem escreve muito e tem imaginação fértil". "E claro, também nunca tive apoio financeiro", acrescenta. "Ainda estou no caminho, apesar de já durar quase uma década". A pandemia está a provocar uma grave crise no sector cultural, admite realizador, mas apenas a nível económico e social, porque "a criatividade é infinita". O processo em si não mudou: demora sempre bastante tempo a acabar um argumento, e para o efeito já era seu hábito, mesmo antes do confinamento obrigatório, fechar-se em casa ou na UPTec um ou dois meses a escrever. A grande diferença está, claro, no relacionamento físico com as pessoas, mas o certo é que "os tempos nos oferecem muitas vantagens tecnológicas".

Com a força e o optimismo de alguém habituado a enfrentar adversidades, Zé Luís acredita que "às vezes só precisamos de nos isolar numa cabana no meio do nada e escrever as ideias". De resto, "a pandemia tem provocado uma viragem na realidade, para que todos olhem em redor, abram os olhos e vejam que somos todos iguais".

E é aqui que Zé Luís e a sua história se tornam especiais.

"Um amigo imaginário"

Somos todos iguais, sim. Zé Luís Rebel é um realizador que gere um estúdio de cinema independente. Só que ficou surdo aos dois anos devido a uma meningite, e o seu estúdio dedica-se a produzir filmes com legendas e língua gestual. Parece complicado, mas no fundo é muito simples: "Uma pessoa surda é capaz de tudo, menos de ouvir. E eu sou uma pessoa surda. Mas prefiro ser o Zé Luís".

Lamenta que existam tantos "obstáculos, barreiras de comunicação, falta de informação e de igualdade de oportunidades". A GestoFilmes nasceu como manifestação cultural, mas também para colmatar lacunas objectivas. "Não há actores surdos profissionais. Não há legendas em filmes nacionais. Não há língua gestual portuguesa (LGP) nos filmes. Não se abor­da um contexto social que fale das pessoas surdas, apesar de elas faze­rem parte da sociedade desde os pri­mórdios". E por haver toda uma educação a fazer, o que mais se destaca nos seus projectos é o "perfil psico­emocional da pessoa surda". "Quando olha para uma pessoa surda e ela começa a falar em língua gestual, a sociedade aguarda pelo som, aguarda uma mensagem prestes a chegar", explica. É preciso familiarizar "a sociedade com as vivências das pessoas surdas". Estreitar "os laços".

A GestoFilmes tem feito muitos vídeos para escolas de referência associadas à educação bilingue de alunos surdos, principalmente o Agrupamento de Escolas Alexandre Herculano, "exemplar na colaboração com uma equipa de docentes e intérpretes de LGP". "Uma criança surda segue os movimentos como uma criança ouvinte segue os sons". O cinema, defende Zé Luís, pode assumir o papel de um guia e de "um amigo imaginário": a criança "vai atrás, sonha que está a correr no recreio, mas é o fluxo que a criança tem dentro que a orienta".

Dark Social, a sua curta-metragem mais recente, está "em pós-produção". Teve uma primeira exibição no Festival Nacional de Arte Surda (FNAS) em fevereiro. Numa tentativa de explicar a sua "perspectiva singular" do cinema, Zé Luís afirma que é muito simples ler uma imagem. "O protagonista na cena franze a testa, eu estou a observá-lo e a estudar a sua expressão facial, mudo de mira para os lábios e de lá sai o diálogo: 'Não'. Mudo de novo a mira para as legendas e lá passa a palavra 'Não!', agora com um ponto de exclamação. Passo para o plano geral, observando agora a expressão corporal do protagonista. Tudo isto em segundos".

Há um trabalho de tradução do som a fazer para os espectadores que não podem ouvi-lo. "O som, além de ser audível, é também imagem, movimen­to. Não posso ouvir, mas sinto a vibração nos meus pés, nas minhas mãos, até nas costas e no peito, e essa vibração emite uma sensação de som que consigo imaginar, embora não literalmente. Já me coloquei diversas vezes - e até muito perto - com a cabeça encostada nas colunas com o som alto. Nos programas de montagem, eu vejo o som, alto e baixo, de várias proporções; parece o batimento cardíaco nas máquinas".

Para ele, o som são "nuvens e montanhas, porque não são linhas contínuas, não é como olhar para o horizonte no fundo do mar; isso seria o silêncio, a calma".

No seu processo criativo, porém, lida em primeiro lugar com as imagens. "Não fazia sentido, sendo eu surdo, colocar o som como prioridade". Depois da imagem, das legendas e da língua gestual (as "regras de ouro da GestoFilmes"), vem o som, dentro das possibilidades deste realizador que aprendeu com uma prima e com amigos a trabalhar essa outra camada em programas de montagem. Fazendo filmes para o público em geral, sabe que o som tem sempre de lá estar, apesar de não ser prioritário.

Salvos pelas legendas

Em Portugal, os produtores profissionais surdos são poucos, até porque muitos nem são admitidos nas escolas de Cinema. "O país não dá grandes oportunidades ao cinema, quanto mais às pessoas surdas. Se calhar, é porque ainda está a evoluir lentamente e, como somos um país pequeno, mercado não é forte o suficiente. Mas não é só cá, vários países têm esse problema".

Sente que andou a vida toda a aprender lá fora, sentado em Portugal. "Eu preferia começar aqui, para me sentir seguro e ir para fora depois, mas foi sempre o contrá­rio". Agradece a quem legenda os filmes, porque a comunidade surda tem a sorte ("Pensávamos que eram para nós, mas não são") de poder assistir filmes estrangeiros graças às legendas, mas aponta a importância de legendar os filmes portugueses também. "O cinema e as pessoas surdas têm uma coisa em comum: são discriminados".

"O cinema é universal, não tem barreiras", diz. Mas os festivais de cinema têm. "O regulamento discri­mina, ao colocar a pessoa surda numa situação em que se sente 'obrigada' a colocar o som". O FNAS é muito importante porque dá a conhecer os artistas surdos e "dá o exemplo".

Zé Luís já participou como espectador no Fantasporto e no Festival Clin d'Oeil ("esse puramente ligado à surdez, em Reims, França") e sentiu "uma tremenda diferença entre os dois".

"Identifico-me muito mais com Clin d'Oeil, com muita pena minha, não por se dedicar à surdez, mas por dar aos artistas surdos a liberdade de produzirem filmes". Recorda um episódio num festival de cinema português onde foi convidado a exibir uma curta, e ao qual se deslocou com uma intérprete paga por si, apenas para perceber que os espectadores não tinham sido informados de que o filme não tinha som e que a organização tinha ido jantar. Desde então, ainda não recuperou "a confiança para participar nos festivais de cinema portugueses", apesar de tencionar voltar a fazê-lo no futuro.

Na sua opinião, "devemos juntos quebrar as barreiras e criar acessibilidade". "Quem nunca foi surdo não faz ideia de como é ser surdo. Na rua, olhamos para a pessoa e não sabemos que ela é surda, até a contactarmos ou até ela começar a falar por gestos".

E "o preconceito cresce quando há falta de conhecimento". Por isso é preciso "educar" o público logo desde a infância. "Quando falo, as pessoas não me percebem. Quem se esforça sou eu - tal como a maioria das pessoas surdas. Eu não tenho pro­blemas em relacionar-me com as pessoas, ir até elas e falar. Por que não fazem o mesmo?"

Fonte: Pblico (texto de Sofia Matos Silva)

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