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Intrpretes de Lngua de Sinais e a Proficincia Lingustica em Libras: A Viso dos Potenciais Avaliadores
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Publicado em 2010
Traduo & Comunicao: Revista Brasileira de Tradutores N. 20
Maria Cristina Pires Pereira
  Artigo disponvel em verso PDF para utilizadores registados
Resumo

Este artigo aborda a viso dos potenciais avaliadores de bancas de interpretao de Libras (lngua brasileira de sinais). A metodologia consistiu em uma simulao de uma banca, com uma conversa livre de candidatos em Libras, filmada e, aps, o vdeo foi exibido a pessoas surdas e ouvintes que ensinem ou interpretem a lngua de sinais com o seguinte questionamento: o que demonstra, na sinalizao dos candidatos, proficincia, ou falta dela, em Libras? Coletando o parecer dado por esses potenciais avaliadores foi feita uma reflexo sobre os critrios utilizados atualmente nos testes de entrada aos cursos de interpretao e de proficincia. Os resultados apontam para uma nova viso de requisitos de proficincia, bem como, para uma reviso nos testes aplicados atualmente.

Introdução

Dentre muitos aspectos ainda não suficientemente investigados sobre a interpretação de língua de sinais encontra-se o nível ótimo de proficiência em língua brasileira de sinais (Libras) em que os intérpretes deveriam iniciar sua formação e vida profissional. Com o objetivo de pesquisar quais seriam os critérios, mesmo de uma forma impressionista, que os potenciais avaliadores utilizam para selecionarem os futuros intérpretes de língua de sinais (ILS), fiz adaptações ao método de Lupton (1998), que filmou alguns surdos que utilizavam a língua de sinais como sua língua principal e apresentou a filmagem para ser avaliada por um grupo de surdos profundos a fim de que estes julgassem o grau de "fluência" dos primeiros. A pergunta básica, em meu experimento, foi: "o que caracteriza a proficiência em Libras em uma sinalização de ILS?", e o procedimento foi filmar, durante interação em Libras, ILS ouvintes, admitidos há pouco tempo (aproximadamente um mês) em um curso de interpretação e, posteriormente, exibir as fitas de vídeo a potenciais avaliadores solicitando seu parecer sobre a proficiência em Libras dos candidatos.

Os colaboradores dessa simulação podem ser divididos em duas categorias:

  1. Participantes da filmagem: candidatos a intérpretes de língua de sinais, ouvintes, adultos, cursando a formação específica para interpretação de língua de sinais.
  2. Potenciais avaliadores de testes de proficiência em Libras: pessoas que têm as principais características requeridas para comporem as bancas de seleção de cursos de interpretação de língua de sinais: 1. intérpretes de língua de sinais, ouvintes considerados experientes, certificados em cursos de formação para ILS e 2. pessoas surdas instrutoras ou professoras de Libras, capacitadas pelo curso de Instrutores de Libras promovido pela Feneis e/ou pelo MEC.

As participantes, coincidentemente, só pessoas do sexo feminino, foram filmadas, em díades, em situação conversacional livre, em que o elemento proposto como desencadeador da conversa foi, preferencialmente, alguma situação de perigo vivida pelas participantes. A situação de risco ou perigo foi escolhida, porque não é difícil envolver-se na narrativa de um drama pessoal e assim monitorar-se menos quanto à linguagem. Se alguma delas quisesse modificar o tópico, poderia fazê-lo. Foi feita uma sessão de filmagem com cada dupla, sem tempo pré-determinado para encerrarem a conversa, mas a duração média foi de 10 minutos. Foram orientadas a conversar da maneira mais informal possível; quanto mais próximo de uma conversa natural, melhor seria, apesar de todas nós, inclusive eu, reconhecermos que, para quem não está acostumado a ser filmado, não é fácil manter-se descontraído. As duplas filmadas são identificadas por dois caracteres, de acordo com sua aparição e disposição no vídeo. O primeiro caractere é numérico e indica a dupla por ordem de aparição na fita VHS. O segundo caractere indica a posição, à esquerda ou à direita, do espaço de visualização da tela. Cabe ressaltar que a variedade utilizada é a da Libras da Grande Porto Alegre, Rio Grande do Sul, pois todas as participantes, bem como os potenciais avaliadores, pertencem a essa região.

Efetivamente cinco pessoas participaram como potenciais avaliadores: três pessoas surdas, instrutores e professores de Libras, uma do sexo feminino e duas do sexo masculino; duas ouvintes, intérpretes de língua de sinais do sexo feminino. Todos já participaram de bancas avaliadoras de ILS e nenhum recebeu alguma instrução, curso ou oficina sobre como avaliar ou como proceder nessa situação. Todos os potenciais avaliadores possuem nível superior: dois têm especialização, e três deles concluíram o mestrado ou o estão cursando. Todos são membros ativos na comunidade surda e se conhecem há muitos anos, alguns desde crianças. Estão na faixa etária de 25-40 anos, e sua formação é na área da Educação. Os três informantes surdos trabalham como professores de Libras e, das duas informantes ILS, uma trabalha exclusivamente com interpretação de língua de sinais, e a outra exerce, prioritariamente, a docência para alunos surdos com algumas atuações eventuais na interpretação.

Daqui por diante, os potenciais avaliadores serão identificados como1:

  • MAHALO: surdo do sexo masculino.
  • DOMO: surdo do sexo masculino.
  • XIEXIE: surda do sexo feminino.
  • BARKALLA: intérprete, ouvinte, do sexo feminino.
  • KIAORA: intérprete, ouvinte, do sexo feminino.

Convencionei que as duplas de intérpretes, examinadas nos vídeos, seriam denominadas segundo a ordem de sua aparição na filmagem e o posicionamento em que ocupavam na tela, assim:

  • 1D: primeira dupla, pessoa à direita.
  • 2D: segunda dupla, pessoa à direita.
  • 3D: terceira dupla, pessoa à direita.
  • 1E: primeira dupla, pessoa à esquerda.
  • 2E: segunda dupla, pessoa à esquerda.
  • 3E: terceira dupla, pessoa à esquerda.

Passemos, então, ao experimento e à análise.

O que Caracteriza a Proficiência Linguística em Libras em Intérpretes de Língua de Sinais?

Na sistematização dos pareceres, reuni as falas dos encontros que, de certa forma, frisassem elementos recorrentes e característicos de proficiência, segundo os potenciais avaliadores, independentemente da dupla em que aparecessem. Logo após o agrupamento desses elementos, constitutivos de proficiência linguística, procedi à análise. Devo destacar que outros fatores, além dos linguísticos, surgiram e serão discutidos a seguir, no andamento da apreciação dos pareceres, tais como: ensino e formação para intérpretes, convivência social com a comunidade surda, dentre outros.

2.1. Concepções de sinalização natural

O primeiro fator a destacar foi a utilização do sinal /NATURAL/, diversas vezes, pelos avaliadores. O que se pode perceber é que, por 'natural', os potenciais avaliadores indicaram, com suas falas, três sentidos principais:

- Natural como sinalização fluida:

1D, DOMO: e vai e volta, repete, volta, repete. (...) eu acho que tem muita repetição, é
muito devagar, não é uma sinalização natural, rápida, natural.

- Natural como prosódia, entonação adequada:

3D, XIEXIE: é natural.
3D, MAHALO: Ela sente a emoção da sinalização, é natural, assim como os surdos [imita várias expressões da candidata]. É uma sinalização natural, perfeita. (...).

- Natural como próxima à estrutura sintática da Libras, gramatical:

1D, XIEXIE: eu acho que elas não têm naturalidade na LS, uma fluência na sinalização, é
como se fizessem gestos, mímica.
1D, MAHALO: eu vi que ela não tem naturalidade, segue a estrutura da LP (...).

Provavelmente, se tivessem passado por alguma formação para exercer a função de avaliação, esses avaliadores teriam uma maior exatidão quanto ao que, realmente, querem significar por 'natural'. Em uma avaliação linguística, os avaliadores precisam ter a consciência de o quão importante é a maior precisão possível em suas definições. Neste caso específico, generalizo que a sinalização "natural" (fluente, com entonação condizente ao texto e sintaticamente aproximada da Libras) são aspectos positivos importantes, porém, para saber se algum deles é mais relevante, é necessário recorrer a outros trechos que detalham mais as descrições do desempenho dos candidatos.

2.2. A fluência linguística

A fluência linguística, em seu sentido estrito, ligado aos fatores temporais da fala, seu andamento, ritmo, e sua adequação a diferentes contextos, além de ser destacada como uma sinalização 'natural', também foi muito frisada. Davies (1982) considera que a fluência é fluxo e facilidade de expressão da língua.

1D, MAHALO: eu acho importante o raciocínio rápido, o reflexo rápido para fazer as conexões entre o pensamento e os sinais. (...).
1D, XIEXIE: (...) ela sinaliza entrecortado. (...).
1D, DOMO: a sinalização é em blocos separados...

Além do aspecto da velocidade de sinalização, a menção a uma sinalização em blocos separados remete a Milloy (1997), que menciona as "pausas aceitáveis". Em língua de sinais, contudo, ainda não podemos dizer o que constitui essa aceitabilidade a não ser tomando como base a percepção intuitiva dos avaliadores. No entanto, esse fator da fluência, também existe na língua de sinais e mostra-se importante na distinção de proficiência. A desnecessária e excessiva repetição de sinais, conjuntamente com uma articulação frouxa, foi apontada:

2D, MAHALO: olha, a 2E, eu acho que se repete muito, por exemplo, sinaliza um trecho e diz “entendeu?”, mais outro trecho e “entendeu?” Repete isto várias vezes. (...). Os sinais são moles, frouxos, assim como a voz de uma pessoa falando mole [imita alguém falando devagar e articulando exageradamente devagar]. (...).

2D, MAHALO: isto, solta no ar, parece o Cebolinha que troca o “R” pelo “L” [faz o sinal de /SENTAR/ de forma frouxa, escorregando], ela “come” os sinais. Outra coisa, (...) a configuração de mão não está clara [imita a candidata fazendo diversas configurações de mão indefinidas] e eu fico pensando “o que é isto que ela fez?”. Tem que arrumar as configurações de mão, assim como a voz que às vezes tem que ajustar, precisa “consertar” a configuração de mão dela. Aí fica bonito. (...).

Mahalo faz uma associação entre um desvio fonológico ou distúrbio fonético (dislalia) quando menciona a troca do "R" pelo "L" com uma articulação frouxa dos sinais, com um problema de modulação. Fato devido, talvez, a ser surdo e reconhecer na troca do "R" pelo "L", um distúrbio de fala, e, procedendo a uma generalização, aplica o exemplo em um caso que não é a dislalia. Independente desse equívoco e da configuração de mão indistinta, a ênfase é no movimento lento e na falta de uma precisão na articulação dos sinais, já não tão problemática como no excerto abaixo, para a outra candidata.

2D, MAHALO: agora a 2D, a da direita [do vídeo]. Ela não se repete, a expressão facial é melhor, falta ainda, mas ela é cuidadosa.

3E, KIAORA: (...) Localiza bem as pessoas, tem um ritmo mais fluente, mais nexos, aproveita um sinal e já vai para outro, não tem aqueles segundos de parada para ir para outro sinal.

Uma boa constituição dos sinais, claros, calmos, cuidadosos e sem repetição demasiada é tida como demonstrativo de proficiência. As candidatas não são somente criticadas em suas falhas, mas os potenciais avaliadores também reconhecem os elementos que distinguem uma boa sinalização.

A repetição de sinais é notada, diversas vezes, como um fator negativo:

1D, KIAORA: (...) Alguns sinais estão repetidos. Faz mais de uma vez o sinal de chinelo sem necessidade.

2E, KIAORA: Também repete muito os sinais, não basta fazer uma vez, faz várias vezes o mesmo movimento do sinal. (...) Faz o sinal de ‘porquê’ várias vezes, parece com alguns surdos [que somente na idade adulta aprendem a LS] que fazem o sinal de ‘porquê’ sem saber ainda o que significa.

Jakubovicz (2002, p. 131) denominou esses problemas de fluência como repetições, quando se tratavam de duplicação, em quantidade exagerada, de sílabas, palavras ou frases e de interjeições, quando a repetição demasiada era de sons, palavras ou frases curtas. Esses fatores depreciativos para uma sinalização de qualidade demonstram ser um dos elementos mais importantes na determinação de um nível adequado de Libras para os ILS. Esse tipo de disfluência parece ser comum e mereceria um tratamento investigativo mais atento por parte dos fonoaudiólogos, linguistas e professores de Libras que trabalham com ouvintes adultos aprendizes de Libras.

2.3. Configuração de mão, classificadores e datilologia

Os principais articuladores das línguas de sinais são os membros superiores e, de modo destacado, as mãos. As diversas formas que as mãos tomam na sinalização são chamadas de configurações de mão (CM). Os classificadores (CL), por sua vez, são algumas CM que representam a "forma e tamanho dos referentes, (...) características dos movimentos dos seres de um evento, tendo, pois, a função de descrever o referente do nome (adjetivos), substituir o referente do nome (pronomes) ou localizar os referentes (locativos)" (BRITO, 1995, p. 102).

A datilologia, alfabeto manual ou alfabeto datilológico também se constitui em CM específicas para representar as letras do alfabeto da língua vocal. Algumas pessoas, não-familiarizadas com as línguas de sinais, confundem a soletração manual com a Libras em si, uma espécie de código Braille manual que simplesmente transcreve todo o léxico da Libras em língua portuguesa. O datilológico é utilizado, principalmente, para nomes próprios que não possuem um sinal e, somente em alguns casos, existe a soletração manual para designar outras classes de sinais como /VAI/, /PAI/, /BEM/, etc. Mesmo assim, alguns sinais soletrados, por meio da soletração rítmica (uma soletração rápida, curta e abreviada) incorporam-se à Libras por meio de movimentos e CM como, por exemplo, a soletração de 'loja', que se transformou /LJA/. A seguir, trechos que demonstram esses elementos constitutivos da Libras:

1D, MAHALO: (...). O uso de CL é fraco, tem, mas muito pouquinho, é fraco, [imita o sinal de /CAMINHÃO/ mal feito pela candidata], o que é isso???

1D, XIEXIE: anafórico. Os ouvintes, na língua portuguesa, é um termo que se relaciona com outro, chama outro. O CL combina com fazer as chamadas de outras palavras.

2D, MAHALO: (...) Precisa usar CL. (...) por exemplo, [sinal de /SENTAR/] ela faz o sinal frouxo, escorregando e já emenda com outro sinal, ela não define bem o sinal, parece que não tem um final bem definido do sinal e já faz outro [sinal] por cima, não afirma, não afirma o sinal. Parece que quer se livrar do sinal, não afirma.

É perceptível, em alguns depoimentos, uma distinção pouco consistente entre CM e CL. Enquanto as CM representam todo o conjunto possível de formas que as mãos podem tomar em uma língua de sinais, os CL são uma classe diferenciada e formada por apenas algumas CM. Mahalo se refere ao sinal /CAMINHÃO/ feito de forma que sua identificação só foi possível pelo contexto. Não se tratava de um CL para referenciar o caminhão como veículo, mas do próprio sinal de caminhão. Assim como Xiexie que, se por um lado, dá uma explicação consistente do que é um anafórico, por outro lado equivoca-se ao atrelar a referência anafórica com os CL.

A partir daqui, outra característica dos potenciais avaliadores foi detectada: sua pouca familiaridade com termos específicos linguísticos e frequente equívoco entre dois conceitos relacionados. Apenas seguindo as descrições de Mahalo e Xiexie, o problema poderia ser creditado somente a pouca utilização de CL, no entanto, um exame mais cauteloso revelaria essa falha na formação dos avaliadores. Mahalo detectou um problema relacionado à CM, mas não soube precisá-lo, confundindo-o com CL, Xiexie deixa a dúvida se a dificuldade da candidata está na utilização de anafóricos ou de CL. Simplesmente ser uma pessoa surda, um professor de Libras ou ILS não garante qualidade e precisão como avaliador. As oficinas de formação de examinadores do SLPI, neste caso, constituem-se em um exemplo de qualificação geral dos testes de proficiência, não só preocupando-se com o instrumento de testagem, mas com todos os envolvidos na sua aplicação.

O espaço onde os sinais são realizados também foi objeto de análise:

2D, XIEXIE: (...) também a CM não tem clareza, é muito fechada [feita em um espaço diminuto], não aproveita o espaço de sinalização. Isto é importante, não sinalizar em um espaço muito limitado, pequeno. Parece que ela está presa, precisa abrir a sinalização.

O espaço de realização dos sinais constitui-se nos lugares possíveis de sinalização, sem restrições. Em geral, localiza-se no corpo, a partir dos quadris, indo até a cabeça e à frente do corpo, sem tocá-lo. Nesse caso, a candidata utiliza as CM, mas em um espaço de realização dos sinais muito pequeno.

Tida pela maioria dos ouvintes e por muitos surdos como uma das mais difíceis tarefas na recepção da língua de sinais, a leitura da datilologia aparece como um ponto especialmente importante para os ILS:

2D, BARKALLA: a LEITURA da datilologia, a 2E soletra e a 2D pede para repetir várias vezes, ela tem dificuldade.

2D, BARKALLA: a dificuldade de leitura...e ela também é extremamente lenta. Acho que a leitura da datilologia é um critério importante. (...).

Barkalla detecta a dificuldade de ler a soletração manual por parte de uma candidata e, como é ILS, sabe da complexidade que esse item representa em interpretações simultâneas. Os ILS precisam treinar muita soletração e leitura de alfabeto manual (datilológico), pois são CM que se sucedem rapidamente e nem sempre a uma distância que permita uma boa visualização. Tudo isso, ao mesmo tempo em que os ILS vão vocalizando e organizando a estrutura da língua portuguesa.

Como os membros superiores são os principais articuladores da Libras e encontram-se visíveis, os movimentos, ou a falta destes, se anômalos, podem ser considerados desfavoráveis a uma boa proficiência:

2D, KIAORA: Tem uma mão de descanso, mas talvez precise deste tempo para organizar os sinais para contar a história. (...) A mão do descanso é bárbara! [risos].

A candidata mostrada no vídeo permanece com uma das mãos pousada nas pernas enquanto sinaliza. Para um leigo, isso poderia não chamar a atenção, mas, para uma ILS, significa que algo não está adequado na sinalização e remete a aspectos fonéticos/fonológicos. Logo essa postura torna-se inadequada e é um fator de perturbação na recepção da língua, como indica o depoimento de Kiaora.

2.4. Componentes não-manuais

Os aspectos não-manuais presentes em uma sinalização são representados por movimentos na cabeça, face (incluindo olhos, nariz, boca, língua, sobrancelhas) e no tronco (incluindo ombros). Quadros e Karnopp (2004, p.60) destacam que "as expressões não-manuais (...) prestam-se a dois papéis nas línguas de sinais: marcação de construções sintáticas e diferenciação de itens lexicais". Brentari (1998) também chama atenção para o caráter de elemento prosódico dos componentes não-manuais.

Vejamos como os avaliadores manifestam-se quanto aos fatores relativos a componentes que não são executados com as mãos.

1D, XIEXIE: (...) O rosto dela está morto (...).

1D, XIEXIE: (...) Não tem uma relação do rosto [expressão] com o que ela está pensando e os sinais, ela só está preocupada com as mãos, com a cabeça [rosto e expressão] não, as duas precisam estar juntas.

2D, MAHALO: (...) Outra coisa, a expressão facial, parece que ela acha que exagerando a expressão facial vai se expressar melhor, mas ao contrário, não me comunica nada.

2D, MAHALO: agora a 2D, a da direita [do vídeo]. (...) a expressão facial é melhor, falta ainda, mas ela é cuidadosa.

2D, BARKALLA: elas estavam falando de um assalto e pareciam sem emoção, uma delas quase morreu e a expressão facial não demonstra esta emoção.

2D, XIEXIE: é isto aí, a entonação é na expressão facial e ela não tem.

2D, BARKALLA: é como se ela tivesse uma máscara na frente do rosto, não se sabe a emoção que ela sente, a emoção que está por trás da máscara.

3D, XIEXIE: (...) A expressão facial está bem, o corpo está ok, sinalização e expressões ok, mas a 3D fica com o rosto sem expressão, parece que não está entendendo nada [do que a outra está sinalizando], que finge que entende. (...).

3D, MAHALO: a 3E já tem entonação boa, (...). O que tem de bom é a expressão, no sinal de /ADMIRAR/ [demonstra o sinal com a expressão] (...). (...) tem uma expressão perfeita, muito boa a expressão facial (...).

2D, KIAORA: Fez uma cara de riso, mas não era expressão da história, era ela que estava lembrando alguma coisa engraçada. (...) É uma situação de perigo, mas a cara está super descansada, não tem entonação que marque isto, tipo um olho arregalado. A expressão está normal, super tranquila.

3E, KIAORA: Expressão muito boa, coloca o corpo na ação que o bandido está fazendo. (...) Usa mais expressão facial e corporal, os sinais são claros e tem conexão entre eles.

3D, KIAORA: Tem uma certa expressão que dá uma certa entonação ao que está contando.

Essa extensa lista de excertos demonstra a relevância que as expressões nãomanuais, especialmente a expressão facial, assumem para falantes de línguas de sinais. No aprendizado da Libras, a expressão facial e diversos tipos de expressões não-manuais são, frequentemente, tratados como acessórios, um parâmetro auxiliar. Entretanto, algumas partes dos diálogos são ininteligíveis sem a expressão facial "...para mim é difícil entendê-la" ou, ao contrário, com o seu exagero sem conexão com o discurso "...não me comunica nada". Na língua vocal as expressões faciais, como elementos paralinguísticos, são auxiliares muito importantes na compreensão do que é dito; nas línguas de sinais, entretanto, além de representarem elementos prosódicos, são, em alguns casos, gramaticalizadas, sendo, por isso, imprescindíveis.

2.5. Aspectos estruturais

Na Libras, o estabelecimento dos referentes se dá pelo posicionamento espacial, pelo apontamento para algum ponto no espaço, pela rotação do tronco ou da cabeça e pela direção do olhar. O não-estabelecimento dos referentes ou a sua troca de posições podem comprometer todo o entendimento da sinalização. Já um estabelecimento dos referentes, de forma consistente no espaço, clarifica a mensagem. É possível perceber estas diferenças de referenciação nos trechos:

2D, MAHALO: sim, ela cuida, o posicionamento, por exemplo, ela [numa cena] faz que tira um estojo de óculos da bolsa, põe os óculos no rosto e devolve o estojo dentro da bolsa. Perfeita a localização! (...).

2D, XIEXIE: falta assumir os personagens da história, assim como ele falou [apontando para Mahalo].

3D, XIEXIE: falta mais pronome [oralizado]. É só uma que pergunta e sinaliza, a conversa é em uma direção só, não referencia bem. Precisa ter esta troca entre as pessoas, eu e tu, sabe? (...).

2D, KIAORA: Não tem marcadores, não se sabe se possui o fone de ouvido ou se é o cara que vai assaltar ela.

3E, KIAORA: Localiza bem as pessoas (...). (...) coloca o corpo na ação que o bandido está fazendo. Poderia marcar melhor quando sai de um lugar e vai para outro. Por exemplo: quando vai entrar no ônibus.

1E, KIAORA: Conta a história, mas não consegue localizar os referentes. Se apóia no Português e usa o vocabulário para a língua de sinais, mas não utiliza o espaço do corpo para isto. Ou falta vocabulário ou falta fazer os nexos. Os sinais usados não têm conexão (...). Balança o corpo, mas não usa essa posição para referenciar pessoas, pode ser um tique nervoso.

Considerando o contexto a que se refere Kiaora, a tentativa, não-proficiente, de referenciar suscitou na candidata um balanceio do corpo que não cumpre com o seu suposto objetivo e termina por se parecer com algum problema corporal.

s línguas de sinais possuem uma categoria de verbos que marcam no espaço a concordância (QUADROS; KARNOPP, 2004) e podem ser chamados de verbos espaciais. A inversão ou marcação inapropriada, no espaço de sinalização, pode comprometer o sentido como no verbo /PERGUNTAR/ que, dependendo de onde o movimento parte e onde finaliza, modifica a ordem de quem perguntou a quem:

3D, MAHALO: a 3E já tem entonação boa, mas falta, por exemplo, ela disse “os familiares me perguntaram” [em Libras] e queria dizer “eu perguntei para os familiares” [em Libras]. Como pode? (...).

A simples mudança no movimento de um sinal pode gerar discrepâncias tão grandes quanto na frase acima referida. Supõe-se que um intérprete deve ter uma proficiência ótima em língua de sinais para só depois se iniciar nas complexas técnicas de interpretação. É importante destacar que em línguas de mais tradição profissional e de ensino existem convenções sobre "limiares linguísticos" de níveis de proficiência, ou mais precisamente, pontos de corte, em Libras, porém nada foi pesquisado e publicado até a presente data. O que temos são direções apontadas por Pereira (2008) em sua dissertação de mestrado Testes de Proficiência Linguística em Língua de Sinais: as possibilidades para os intérpretes de Libras. Alguém que ainda está em uma fase de aprendizagem de elementos básicos da língua de sinais, como a candidata, deveria aperfeiçoar sua Libras antes de começar seus estudos na interpretação interlíngue.

2.6. Português sinalizado e o Ensino da Libras

Uma grande polêmica na educação de surdos é a utilização do que consideramos português sinalizado, por não se constituir como língua de sinais e nem como língua portuguesa, pois "Os sistemas orais sinalizados, como se sabe, não correspondem a línguas de sinais: têm a superestrutura da língua oral considerada, e emprestam o léxico da língua de sinais do país em questão de modo mais ou menos sistemático" (SOUZA, 2003, p. 338). Essa prática é levada à interpretação interlíngue por muitos professores que se tornam intérpretes, no intuito de proporcionarem às pessoas surdas o acesso à língua portuguesa. O português sinalizado é uma "língua artificial que usa o léxico da língua de sinais com a estrutura do português e alguns sinais inventados para representar estruturas gramaticais do português que não há na língua de sinais" (GOLDFELD, 1997, p. 37); nessa mesma direção, é importante lembrar que também existem estruturas gramaticais da língua de sinais que não existem nas línguas orais. Alguns depoimentos remetem a essa relação entre professores de surdos e o português sinalizado, considerado pelos potenciais avaliadores como de difícil ou, até mesmo, impossível compreensão.

1D, MAHALO: (...) Eu acho que a sinalização das duas é LP puro. (...).

1D, MAHALO: eu vi que ela não tem naturalidade, segue a estrutura da LP, (...).

2D, MAHALO: (...) Também a estrutura da LP [revirando os olhos para cima e soltando o ar pela boca], nossa! É A ESTRUTURA DA LP! (...).

2D, BARKALLA: estou pensando se, por acaso, as duas são professoras e se preocupam em sinalizar igual à estrutura da LP.

3D, BARKALLA: (...) Eu percebi o quê? Uma diferença muito grande nesta dupla. A 3E usa a LS naturalmente, a outra [3D] a LS é quase a estrutura da LP, a gente até consegue fazer uma frase em LP olhando sinal por sinal. Eu, ouvinte, vejo os sinais e consigo fazer a frase literal para a LP.

3D, MAHALO: ela só passa da LP para a LS literalmente, só.

3D, XIEXIE: para mim, eu não entendo nada!

1E, KIAORA: (...) Se apóia no Português e usa o vocabulário para a língua de sinais, mas não utiliza o espaço do corpo para isto.

Na área dos estudos da testagem linguística, a noção de washback, que se refere ao impacto que os testes têm no ensino e na aprendizagem (BAYLEY, 1999; TAYLOR, 2005), é muito utilizada. Em termos de testagem de língua de sinais, é possível perceber que o impacto é recíproco. Na verdade, a educação influencia as práticas linguísticas que são levadas para a testagem, mas ainda não é possível precisar como os testes de proficiência vão influenciar no ensino da Libras, sobretudo, como L2. No entanto, algumas falas dos depoentes já prenunciam a necessidade de que os cursos de Libras como L2 capacitem melhor seus alunos, caso contrário, os cursos de interpretação ficarão sobrecarregados com a tarefa de ensinar a Libras para os candidatos, e não é essa a sua função. Como é afirmado, dentro dos Estudos da Tradução, a competência tradutória (que inclui a interpretação interlíngue) sucede a proficiência linguística e dela depende. Além de Barkalla, pessoa ouvinte, Mahalo, pessoa surda, afirma que "Um ILS precisa estar pronto [do ponto de vista da proficiência em Libras]. O que ela vai fazer em um curso de ILS? Vai ser preciso ensiná-la posicionamento, tudo de novo, não sei...". Seria uma reflexão necessária e interessante para os cursos de Libras: até onde está sendo efetivado o aprendizado e em que condições as pessoas estão se julgando aptas para prosseguirem como intérpretes de língua de sinais, logo após os cursos.

Outro aspecto citado foi a adequação que os ouvintes, professores de crianças surdas, precisam empreender quando se dirigem a adultos surdos. Assim como a língua portuguesa, ou qualquer outra língua, existem variedades e registros diferentes na Libras. Além do mais, o tempo em que ser somente professor de surdos era contato o bastante com a comunidade surda já está superado. Atualmente, cada vez mais, as pessoas surdas estão acessando vários ambientes sociais, políticos e acadêmicos, e a exigência quanto à adequação da Libras se torna cada vez maior. Isso pode ser percebido nos trechos a seguir.

1D, MAHALO: precisariam de mais contato com surdos, contato com a comunidade surda. Parece que falta este contato, das duas, com a comunidade surda.

1D, DOMO: parece que elas têm é contato com crianças surdas porque usam uma LS infantil, parece dirigida a crianças, lenta.

1D, MAHALO: para mim parece que elas não têm contato nenhum.

1D, DOMO: elas precisam é de contato com adultos surdos, só com os alunos...não dá, precisa ser com adultos.

1D, XIEXIE: na minha opinião o curso de LS tem poucos níveis e poucas horas. Eu acho que teria que fazer uma proposta para mudar quantos níveis, 1, 2, 3...até...na Europa tem 7 níveis. Aqui, parece fácil, porque os alunos vão passando, rápido, vai se deixando qualquer nível de LS ser aprovado. Vai indo, vai indo e não tem organização.

1D, MAHALO: MAS tem outras pessoas que só com o contato com a comunidade surda sinalizam bem, a gente pergunta como sinalizam tão bem e respondem que têm bastante contato com surdos.

1D, XIEXIE: eu percebo isso na comunidade informal, mas na formal precisaria, por exemplo, em uma palestra, no teatro, em uma entrevista, no médico, estes intérpretes informais não têm sinais adequados.

1D, BARKALLA: mas se passaram na seleção...

1D, XIEXIE: eu acho que não deveria passar, falta ainda...

Esses trechos indicam que, apesar da valorização do contato, da interação com a comunidade surda, existe também o reconhecimento de que uma interpretação interlíngue de uma variedade de Libras mais refinada e acadêmica necessita de outras habilidades e conhecimentos além da convivência com pessoas surdas. Continuando nessa direção, destaco a preocupação dos avaliadores com os cursos de interpretação.

3D, BARKALLA: porque eu acho que precisa pensar, no futuro, nas bancas de seleção para cursos de ILS, no tempo de duração dos cursos. Porque, agora, atualmente, os cursos são muito rápidos, as pessoas precisam entrar no curso sabendo muito bem a LS. Se os cursos tivessem uma duração maior, teria mais tempo de ensino de LS. Tem que considerar a duração do curso.

Até mesmo os cursos atuais de interpretação de língua de sinais influenciam na avaliação. Porém uma questão permanece: será função de um curso de 'interpretação' ensinar a Libras? Essa reflexão abre espaço para questionamentos sobre os cursos de Libras e sua relação com a formação de ILS: os cursos estão dando conta de alçar os alunos a patamares cada vez mais altos de proficiência? A carga horária e os níveis existentes são suficientes para diversos objetivos, além do mero "comunicar-se com as pessoas surdas"? Eis a testagem impactando a educação.

2.7. Proficiência Linguística ou Proficiência Tradutória?

Um acontecimento muito marcante foi uma discussão que ocorreu, no primeiro encontro entre os potenciais avaliadores, durante a análise da terceira dupla. A controvérsia surgiu após Xiexie opinar sobre as bancas de seleção e mencionar sua visão de que é necessário testar a proficiência tradutória para a seleção a cursos de ILS. Neste ponto, Barkalla, ILS ouvinte, e Mahalo, surdo, iniciam um debate extenso em que Barkalla defende somente a inclusão do fator compreensão da sinalização na avaliação, mas Mahalo pensa que os futuros ILS precisam entrar no curso de interpretação de língua de sinais já possuindo habilidades mínimas de interpretação interlíngue. Segue a transcrição do debate:

XIEXIE: mas a banca precisa dar um limite até...3 minutos para sinalizar, não pode exagerar o tempo. Outra coisa, precisa também ter um surdo sinalizando e o candidato a ILS interpreta para a LO, porque precisa pensar em como fica a estrutura da LP na hora da interpretação, como? Precisa comparar a sinalização e a parte oral, então precisa também interpretar a parte oral, igual a LS, para ver a estrutura das duas.

BARKALLA: isto a pessoa...não dá para a pessoa, antes de entrar no curso, já saber interpretar. Ela vai aprender DENTRO do curso, a interpretar.

MAHALO: não, não, não...

BARKALLA: elas precisam entrar já sabendo A LS!

MAHALO: não, não, não...não concordo. Precisa um pouco...

BARKALLA: eu estou acostumada, pois sou do primeiro grupo de ILS do Brasil, antes era assim, agora é a nova geração.

MAHALO: mas eu não concordo. A nova geração precisa saber interpretar, no mínimo, o básico. Saber interpretar da LO para a LS, precisa um mínimo.

BARKALLA: Precisa, por exemplo, ter uma banca em que um surdo sinalize e o candidato, depois da pessoa surda sinalizar, dizer o que compreendeu, não ao mesmo tempo [simultânea], depois, por exemplo, o candidato diz “ele [a pessoa surda] falou isso, isso e isso”. A compreensão...

MAHALO: um momento!

BARKALLA: [tenta sinalizar].

MAHALO: peraí...

BARKALLA: [começa a sinalizar]...porque...

MAHALO: vamos discutir então...

BARKALLA: ok...

Quando Barkalla argumenta que os candidatos a ILS devem ter a compreensão do que foi  sinalizado e não, obrigatoriamente, demonstrar uma interpretação interlíngue, Mahalo propõe, então, que os exames de proficiência utilizem um vídeo, com alguém sinalizando, para ser interpretado para a LP.

MAHALO: um mínimo precisa sim, porque, por exemplo, filma uma pessoa surda sinalizando, coloca em uma tela, eu sou o ILS, por exemplo, assisto o vídeo, parado, depois falo o mínimo do que foi sinalizado, ao menos. Um mínimo, mínimo.

BARKALLA: só oral [LS para LO]?

MAHALO:...ah...tanto faz....na hora ou depois.

BARKALLA: [tenta sinalizar alguma coisa].

MAHALO: PERAÍ! Nada a ver, pode ser na hora ou espera e depois interpreta. Sei lá. Precisa é ver o nível, por causa da organização do raciocínio. Segundo, uma tela com alguém falando em LP e o ILS interpreta para a LS, só! Só um pouquinho de cada um. Porque no curso para ILS tu vais usar todas essas coisas. Vais usar vídeos de LS para LO, de LO para LS. Mas, antes, precisa ter um mínimo...um pouquinho, para poder entrar. Só sinalizar rápido [expressão de zombaria]: “ai, passei” [oralizado].

No excerto anterior é possível depreender uma discordância existente entre alguns formadores de ILS, ouvintes e surdos. As primeiras gerações de ILS não recebiam instrução formal: eram familiares, religiosos e professores de surdos e iniciavam a interpretação mesmo tendo apenas noções básicas de LS. Deste modo, as pessoas surdas tinham contato com seus ‘intérpretes’ não em formação, mas já atuando, e ‘saber’ um pouco de LS era o suficiente para ser prognosticado como futuro intérprete. Parece que esse resquício da mentalidade de que o intérprete nasce pronto ainda permanece no imaginário da comunidade surda. Para as pessoas surdas, a necessidade de ILS faz com que exijam que candidatos proficientes em LS também já o sejam em proficiência tradutória, habilidade que deve ser desenvolvida exatamente nos cursos para os quais os candidatos estão sendo selecionados. Em uma comparação grosseira, seria o equivalente a pedir a uma criança não-alfabetizada que lesse e escrevesse para ser admitida na escola em classe de alfabetização ou exigir de um estudante de medicina que executasse uma cirurgia para ser admitido à disciplina de técnicas cirúrgicas. Um diálogo maior entre surdos, ILS ouvintes e formadores de ILS é um modo possível de esclarecer a comunidade que se vê envolvida na interpretação de língua de sinais. Os mitos de que o ILS se constitui por puro dom, sem a necessidade de formação, treino e esforço ainda persistem e prejudicam a seleção dos futuros intérpretes. Aqui, um resgate à característica da competência tradutória, definida por Hurtado Albir (2005, p. 19), como um conhecimento “especializado, integrado por um conjunto de conhecimentos e habilidades, que singulariza o tradutor e o diferencia de outros falantes bilíngues não tradutores” e que “é qualitativamente diferente da competência bilíngue e que é um sistema subjacente de conhecimentos necessários para traduzir” [grifo meu] (PACTE, 2003, p. 40) pode auxiliar na compreensão de que a competência em traduzir uma língua depende, intrinsecamente, de uma competência anterior de falar essa língua.

A simulação realizada com a filmagem da sinalização dos candidatos a ILS e subsequente parecer dos potenciais avaliadores não pretende ser a resposta definitiva, mas um caminho possível. As questões apontadas pelos potenciais avaliadores são fonte muito rica de reflexões sobre o que é realmente considerado no julgamento de proficiência linguística em Libras para ILS, embora se trate, neste estudo, de uma amostra pequena. O ideal é que, para pesquisas futuras sobre os critérios a serem considerados em avaliações de proficiência linguística, fosse utilizado um número bem maior de pessoas, alcançando uma amostra mais significativa quantitativamente.

Nesta simulação de uma seleção de ILS, os potenciais avaliadores apontaram aspectos relacionados à proficiência linguística em Libras dos candidatos. Vale a pena recuperar o que foi destacado:

  • quanto à estrutura linguística: o afastamento do que se considera como estrutura da Libras e abuso do português sinalizado, algumas vezes chegando perto da gestualidade e da mímica; a falta de classificadores; a referenciação confusa;
  • quanto à fluência: em sua acepção especializada, foi muito citada na repetição demasiada de sinais ou expressões inteiras; sinais frouxos; lentidão exagerada, sinalização entrecortada em blocos;
  • quanto aos aspectos sociolinguísticos: a aparente falta de contato com a comunidade surda que reflete na artificialidade da sinalização e, principalmente, na aparente falta de elementos não-manuais como a expressão facial; o emprego de uma Libras infantil, inadequada a surdos adultos; a excessiva preocupação de algumas candidatas acerca da estrutura da língua portuguesa; a boa sinalização de pessoas que mantêm contato com a comunidade surda, mas falta de uma interpretação apropriada a contextos considerados mais formais por estes intérpretes informais.

Ao final das considerações que os potenciais avaliadores fizeram sobre a sinalização dos candidatos a ILS, as perguntas que geraram esta simulação ecoam mais fortes: Afinal, o que é falar e falar bem uma língua? E mais, o que é falar bem uma língua para um determinado fim? No caso específico desta pesquisa, o que é ser considerado proficiente em língua de sinais para um candidato iniciar sua carreira na interpretação de Libras? Esta pequena amostra leva a crer que, nem sempre, os critérios determinados para um teste de proficiência em língua de sinais consideram a especificidade dos candidatos e nos impele a uma reflexão sobre como deve ser elaborado uma testagem linguística o mais fidedigna possível.

3. Considerações Finais

Muitas perguntas recém começaram a ser formuladas, e as respostas, apesar de ensaiadas, ainda carecem de maiores pesquisas paralelas de suporte. Assim, outras possibilidades de pesquisa surgiram a partir de meu tema principal:

  1. o que constitui fluência linguística em LS;
  2. a proficiência linguística em língua portuguesa dos ILS;
  3. c) a proficiência tradutória LO<->LS;
  4. a influência dos antecedentes dos candidatos (de onde se originam, se têm a Libras como L1 ou L2, sua formação com a LS em cursos ou na comunidade surda, etc.);
  5. e) a visão dos candidatos que passaram pelo teste de proficiência tradutória;
  6. f) a aprendizagem da LS por adultos ouvintes em contextos de ensino formal;
  7. g) o papel dos cursos de interpretação de língua de sinais desenvolvimento da proficiência linguística e tradutória dos ILS; 
  8. as interfaces de estudo com a Linguística de língua de sinais e os Estudos da Tradução: fonoaudiologia, cinesiologia, testagem linguística, capacitação e certificação profissional, dentre outras;
  9. a conexão entre diversas práticas ainda carentes de apoio teórico e metodológico, entre elas, mais especificamente, o ensino-aprendizagem da língua de sinais como segunda língua por pessoas ouvintes (além dos ILS, professores, profissionais que trabalham com surdos, familiares e comunidade em geral) e as avaliações de proficiência linguística e tradutória de língua de sinais.

E, provavelmente, ainda outras possibilidades não divisadas por mim.

Não podemos esquecer que a interpretação de língua de sinais começou a ser vista com o profissionalismo que lhe é devido nos anos noventa, quando surgiram os primeiros cursos para formação de ILS. Antes disso, os intérpretes eram, basicamente, empíricos, aprendiam com suas experiências, com pouco ou nenhum embasamento teórico. A maioria dos ILS era motivada por razões pessoais ou idealistas; a visão profissional surgiu há apenas poucos anos. Esse argumento pode justificar o atraso, mas não, em hipótese alguma, a acomodação aos saberes que já possuímos; poucos, aliás.

O aspecto que demanda grandes estudos é o estabelecimento de critérios linguísticos que sejam adequados à função para a qual os candidatos estão pleiteando aceitação. Cada profissão demanda competências linguísticas que serão mais exigidas, em virtude das interações mais ou menos intensas, frequentes e profundas com as pessoas surdas como alunas, clientes, pacientes etc. No caso de ILS, é aconselhável uma observação da prática de interpretação de língua de sinais para que seja possível estabelecer quais as reais qualidades exigidas no desempenho do exercício profissional.

O assunto da testagem linguística envolve, diretamente, a concepção de língua que os elaboradores do teste possuem. Uma visão de linguagem como uma simples denominação dos entes concretos ou mera ferramenta para a comunicação, na forma de um conjunto de regras, internalizadas ou não, conduzirá a um tipo de testagem voltado para examinar, unicamente, o conhecimento gramatical que o candidato possui. Por outro lado, se aceitamos a idéia de que a língua, além da concepção de ferramenta de comunicação, é também meio de organização e expressão de pensamentos e sentimentos, forma de significar o mundo, elemento na construção e manutenção de nossa identidade como um ser social, instrumento para estabelecer e manter vínculos sociais e exercer poder, então a testagem será elaborada e exaustivamente revisada para que consiga também uma amostragem mais adequada das competências interacionais do candidato.

As questões levantadas por este estudo pretendem ser desencadeadoras de um interesse de pesquisa mais aplicado à realidade dos intérpretes de língua de sinais. Diversas áreas estão envolvidas, mas a Linguística, de uma forma surpreendente, só muito recentemente tem produzido pesquisas no viés específico da interpretação de língua de sinais. Considerando a importância e a complexidade da tarefa da interpretação interlíngue, especialmente entre línguas de modalidades diferentes e entre pessoas que percebem e interagem com o mundo de formas tão radicalmente diferenciadas, predominantemente pela audição ou pela visão, não podemos mais deixar estes estudos na marginalidade.

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