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Filmes sobre Surdos: que representaes de surdos e de lngua de sinais eles trazem?
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Publicado em 2009
Prxis Educativa, Ponta Grossa, v.4, n.2, p.177-184, jul.-dez.
Carolina Hessel Silveira
  Artigo disponvel em verso PDF para utilizadores registados
Resumo

Este artigo apresenta uma análise de dois filmes que tematizam a surdez e que não foram até o presente investigados no espaço acadêmico brasileiro. Trata-se de O Martírio do Silêncio (Mandy, 1952) e de Palavras do Silêncio (After The Silence, 1996). A análise fundamenta-se nos Estudos Culturais e nos Estudos Surdos, especialmente nos conceitos de pedagogias culturais, cultura surda, identidades surdas, língua de sinais, bem como na análise de outros filmes sobre surdos, realizada por Thoma (2004). Ambos os filmes pertencem ao gênero drama e buscou-se analisar a forma como os personagens surdos são representados, destacando-se algumas cenas em que a problemática surdo x sociedade ouvinte é mostrada. No desfecho desses filmes, as personagens surdas conseguem oralizar. A partir disso, pode-se perguntar qual é o resultado pedagógico de tais filmes, ao mostrarem a oralização como uma conquista após o uso de Língua de Sinais. Assim, representações de surdos, educação de surdos e língua de sinais estão presentes em ambos os filmes, ainda que haja diferenças de abordagem entre eles.

Introdução

No campo dos estudos surdos, têm sido analisados vários artefatos culturais que apresentam representações de surdos, da cultura surda em contraste com a cultura ouvinte, como livros de literatura infantil, filmes, matérias de jornal, comunidades do Orkut, etc. Considera-se que esses artefatos trazem pedagogias culturais, pois eles ensinam sobre os surdos, suas identidades, sua língua e sua cultura.

Dentro desse quadro, o objetivo do presente trabalho é fazer uma análise de dois filmes que tratam da temática surdez, ainda não investigados no espaço acadêmico brasileiro. Trata-se de O martírio do silêncio, de Alexander Mackendrick (1952, Inglaterra) e de Palavras do silêncio, de Fred Gerber (1996, EUA), separados entre si por mais de quarenta anos de produção. Para isso, busco base teórica nos estudos culturais e nos estudos surdos, especialmente nos conceitos de pedagogias culturais,

cultura surda, identidades surdas e língua de sinais, inspirando-me na análise de outros filmes sobre surdos, realizada por Thoma (2004). Ambos os filmes pertencem ao gênero drama e neles analiso a forma como os personagens surdos são representados, destacando algumas cenas onde a problemática surdo x sociedade ouvinte é mostrada. Também examino os espaços da escola e da família em relação ao aluno/filho surdo, analisando o papel da oralização e das línguas de sinais na trama desses filmes.

Em relação aos conceitos que são base do estudo, relembro o que afirma Strobel (2008) sobre a cultura surda:

Cultura surda é o jeito de o sujeito surdo entender o mundo e de modificá-lo a fim de torná-lo acessível e habitável ajustando-os com as suas percepções visuais, que contribuem para a definição das identidades surdas e das “almas” das comunidades surdas. Isto significa que abrange a língua, as ideias, as crenças, os costumes e os hábitos do povo surdo. (p.24)

Efetivamente, o reconhecimento de uma cultura surda, de identidades surdas e da visão das identidades surdas se enquadra no que vem sendo chamado de campo dos estudos surdos. Após o surgimento dos estudos culturais, houve uma proliferação de “estudos...” sobre várias comunidades e, assim, surgiram os estudos surdos. Conforme Sá (2006), “os estudos surdos têm surgido nos movimentos surdos organizados e no meio da intelectualidade influenciada pela perspectiva teórica dos estudos culturais”. (p. 65). Tudo indica que foi em 1998 que a expressão apareceu pela primeira vez no Brasil, quando Skliar (1998) usou o título Estudos surdos em Educação: problematizando a normalidade em livro sobre surdez e Lunardi (1998) usou a expressão em sua dissertação de mestrado, afirmando que os estudos surdos eram um “novo campo conceitual” ou um “recorte teórico”.

Skliar (1998) propõe que, dentro dos estudos surdos em Educação, existam quatro níveis de reflexão. No primeiro nível, deveriam ser examinados os “mecanismos de poder/saber, exercidos pela ideologia dominante na educação dos surdos – o oralismo ou, melhor ainda, o “ouvintismo” – desde suas origens até os dias atuais”. (p. 15). O estudo que aqui trago se encaixa, pois, dentro desse campo dos estudos surdos.

Informações iniciais

Os filmes de entretenimento se inserem no que tem sido chamado, nos estudos culturais, de pedagogias culturais. Para entendê-las, devemos citar Steinberg e Kincheloe (2001), que afirmam que a “pedagogia cultural enquadra a educação numa variedade de áreas sociais, incluindo, mas não se limitando, à escolar. Áreas pedagógicas são aqueles lugares onde o poder é organizado e difundido, incluindo-se bibliotecas, tevê, cinemas, jornais, revistas, brinquedos, propagandas, videogames, livros, esportes etc.”. (p. 24).

Na verdade, já se sabe há bastante tempo que a mídia tem o poder de atuar sobre o público espectador, fazendo-o ver como possíveis as histórias e representações que traz. Na mesma direção, podemos citar a explicação sobre televisão de Fischer (2001):

Quando assistimos à tevê, pode-se afirmar que esses olhares dos outros também nos olham, mobilizam-nos, justamente porque é possível enxergar ali muito do que somos (ou do que não somos), do que negamos ou daquilo em que acreditamos, ou ainda do que aprendemos a desejar ou a rejeitar ou simplesmente a apreciar. (p. 12).

Isso também acontece em relação ao cinema. Uma especialista no assunto, Rosália Duarte (2002), observa que

Em sociedades audiovisuais como a nossa, em que milhões de pessoas têm acesso aos meios de comunicação veiculados em imagem-som, é comum atribuir-se certas atitudes, crenças e valores de grupos ou de pessoas à influência desses meios. A ideia de que filmes (ou programas de tevê) podem incutir opiniões e produzir comportamentos, principalmente nos espectadores mais jovens ou menos escolarizados, é relativamente corrente. Mas estudos sérios vêm mostrando o quanto é difícil constatar isso. (p. 63-64).

Mesmo que seja difícil comprovar como os filmes produzem opiniões e comportamentos, o fato é que isso acontece de maneira mais ou menos intensa. Então, em relação à maioria dos filmes sobre surdos observados – produzidos, dirigidos e assistidos por grande número de ouvintes – sempre importa mais a oralização ou normalização dos surdos. Eles enfatizam a falta de audição e como a surdez pode complicar a vida futuramente – essa é a principal temática de tais filmes. Poucos valorizam a cultura surda ou uso de língua de sinais. Como o primeiro filme a ser analisado é do ano de 1952, apenas setenta anos após Congresso de Milão 1 era de se esperar que ainda mostrasse a importância única do oralismo.

Já o outro filme é do ano de 1996 e mostra, de certa forma, a Comunicação Total 2 tendência de educação de surdos que surgiu nos EUA na década de 1960. Algumas correntes de educação de surdos resistem ao uso da Comunicação Total, considerandose que a tendência atual, em muitos países, é a de educação bilíngue.

Em estudo em que analisou filmes sobre surdos, Thoma (2004) concluiu que neles acontecia o que chamou de “inversão epistemológica da anormalidade surda”. (p. 59). Demonstrou isso em três filmes: Filhos do silêncio (1986, EUA), A música e o silêncio (1999, Alemanha) e Som e fúria (documentário, 2001, EUA). Observem a explicação de Thoma (2004) sobre o primeiro filme:

Em Filhos do silêncio, as marcas da normalidade e o discurso médico terapêutico são constituidores do sujeito surdo como patológico, doente, como um sujeito a recuperar. Leeds, o professor de treinamento da fala, domina a língua de sinais, mas para ele, a língua de sinais é vista como uma possibilidade de mediação dos surdos com a oralidade e não como uma produção cultural legitima. (p. 59).

Sobre outro filme, o documentário Som e fúria, Thoma (2004) expõe:

Os surdos defendem, no documentário, que a surdez é uma diferença, constituída pelo uso de uma outra modalidade de comunicação e por uma cultura visual, que poderá ser extinta pelos implantes cocleares. Normalizar os surdos fazendo-os ouvintes através dos implantes significa, para muitos surdos, ter seus corpos invadidos, suas identidades silenciadas e sua cultura apagada. (p.65).

Assim como os filmes citados mostram que é necessário normalizar (o primeiro, ao menos), existem vários outros filmes sobre surdos que trazem, através dos personagens e do enredo, uma visão normalizadora e clínica da surdez. Conceitos e perspectivas como cultura surda, identidade surda e uma visão adequada da língua de sinais ainda aparecem pouco na maioria desses filmes.

Breve descrição dos filmes analisados

Descrevo a seguir os dois filmes que analisei: O martírio do silêncio (Título original: Mandy. Diretor: Alexander Mackendrick. Ano: 1952, Inglaterra. Drama, 93 min., preto-e-branco) e Palavras do silêncio (Título orginal: After the Silence. Diretor: Fred Gerber. Ano: 1996, EUA. Drama, 91 minutos, cor), fazendo um resumo de seu enredo.

Filme O martírio do silêncio

Pode-se dizer que a problemática maior do filme é a educação de uma menina a partir do momento em que os pais descobrem que ela é surda. Em uma cena, aparece uma professora particular de língua de sinais, ensino que, entretanto, é logo abandonado. Em seguida, a menina é enviada a uma escola, em que fica clara a metodologia dominante naquele momento, que é de oralização e exercícios constantes. A ênfase do enredo é a progressiva aprendizagem de leitura labial e oralização da menina, auxiliada por um professor, e o desfecho do filme se traduz no sucesso dela para dominar a língua falada.

Trazendo alguns detalhes do enredo, vemos que Mandy, como o filme é chamado no original, é o nome da menina surda – retratada com um olhar triste no cartaz de publicidade do filme –, cuja surdez os pais descobrem quando ela tem 2 anos de idade. Como não sabem como começar sua educação, o pai sai em busca de uma escola para a filha. Chega a encontrar uma escola de surdos, The Bishop

David School for the Deaf, em Manchester, mas não gosta dela, decidindo educar Mandy em casa com uma professora particular. Durante cinco anos, Mandy é protegida, sempre brincando sozinha em casa, aprendendo BSL (British Sign Language, língua de sinais britânica) com a professora particular, que mora com a família. Entretanto, a menina não desenvolve a BSL, sem que o filme deixe claro o motivo desse não desenvolvimento.

Preocupada, a mãe resolve visitar a escola que seu marido rejeitara; então, conhece toda a instituição e conversa com o diretor, que explica que o método utilizado pela escola é o da oralização. A mãe gosta da escola e resolve matricular Mandy, então com cerca de 6 anos de idade. O pai desaprova a decisão, pois Mandy ficaria longe deles, que moravam em Londres. A mãe deixa o marido e leva Mandy junto, indo morar ambas em Manchester. No começo, Mandy fica na escola em regime de internato, mas não gosta de dormir lá. Trata-se de uma situação difícil para Mandy, pois, durante cinco anos, tivera pouca, ou nenhuma, convivência com outras crianças, ficando dentro de casa muito protegida e sem linguagem desenvolvida. Afinal, entrou na escola aos 6 anos de idade.

O filme mostra o esforço de Mandy, até que um dia o diretor, que também era professor, resolve ensinar Mandy em casa três vezes por semana, à noite. Vemos cenas de sala de aula com a professora ensinando nomes de objetos, mostrando-os e fazendo os surdos oralizarem. No final do filme, Mandy fala seu nome e consegue se integrar com as crianças na rua, após grande esforço na escola e nas aulas particulares. Os pais ficaram emocionados quando ela fala; a mãe já a havia visto falar um pouco antes. O pai nunca vira e não acreditava que a escola pudesse ajudar Mandy a se desenvolver.

Filme Palavras do silêncio

O outro filme, Palavras do silêncio, produzido nos anos 1990, apresenta algumas passagens baseadas em fatos reais. A protagonista é uma adolescente surda, que nunca estudou em escola, tendo permanecido em casa durante anos, fazendo trabalhos domésticos e sendo vítima de maus-tratos pelo pai. Ela resolve fugir e, fora de casa, muda radicalmente de vida: tem uma educação melhor, aprende a língua de sinais com uma assistente social e em uma escola de surdos e aprende a escrever e conviver com pessoas surdas e ouvintes.

Contando com detalhes o enredo, vemos a apresentação da adolescente surda chamada Laura, que viveu confinada durante 14 anos, sofrendo maus-tratos do pai, que afirmava que ela era “retardada” e só servia para fazer limpeza de casa. Um dia, Laura resolve fugir de casa e cai do prédio de dois andares, sobrevivendo, no entanto, à queda. Recebe, então, os cuidados de uma assistente social, Pam, que é ouvinte e conhece a ASL (American Sign Language, língua de sinais americana). Contudo, Laura não quer voltar mais para casa dos pais, preferindo ficar longe, mesmo que seu pai quisesse sua volta.

Pam impede que Laura volte para casa, mas o pai não acredita que a filha tenha “dito” que não queria retornar. Pam, no entanto, entendera a base dos gestos expressados por Laura. A assistente, então, procura a melhor educação para Laura, que nunca havia estudado em escola anteriormente, era analfabeta e tampouco conhecia a ASL. No começo, elas se comunicam através de gestos, com dificuldades, pois Laura aprendera a ASL nos livros, em um tipo de dicionário e em vídeos em casa. Laura também começa a frequentar a escola de surdos, no regime de internato, durante os fins de semana. Há, entretanto, o problema de ela não ter onde morar. Laura, então, passa a ficar na casa de Pam nos fins de semana, sob a custódia na Justiça. O pai quer que ela volte para casa, e Laura não tem condições de se expressar e explicar o que aconteceu ali durante 14 anos. Pam a incentiva a desenvolver mais a ASL, de modo a explicar melhor sua história na Justiça. Para tanto, Laura continua estudando na escola e começa a ter contato com pessoas surdas, que vão lhe servindo de modelo. No final, ela entra na Justiça com uma ação contra o pai; junto com Pam, antes de entrar na sala de julgamento, Laura oraliza “Thank you, Pam!” (Obrigada, Pam!) e Pam fica emocionada.

Algumas análises

Não realizaremos análises com base na linguagem cinematográfica específica, mas sim interpretações de cenas e personagens presentes nos filmes descritos a partir do olhar da cultura surda e dos estudos surdos. Primeiramente, veremos, no enredo do filme O martírio do silêncio, vários fatos inverossímeis (ao lado de outros verossímeis) e outras cenas que revelam preconceitos contra a personagem surda.
A primeira questão observada é que, quando se descobre que a menina é surda, o médico explica para os pais sua condição, enfatizando que ela, no entanto, “não parecia deficiente mental”. Isso revela o estereótipo da associação entre surdez e deficiência mental, que se relaciona à associação entre palavra falada e pensamento. Por outro lado, o filme mostra Mandy mantida em casa durante cinco anos, sem ir à escola, com pouco contato com crianças, o que era um fato muito comum até há poucos anos
– alguns pais manterem o filho surdo em casa, sem lhe dar educação.

Mandy tinha uma professora particular mais velha, que lhe ensinava a BSL, e o filme não deixa claro por quanto tempo ela tentou aprender a língua britânica de sinais. Não fica claro porque Mandy jamais aprendera a BSL, já que é muito raro encontrar uma criança surda que não tenha conseguido aprender a língua de sinais e se oralizado, uma vez que ela é considerada a língua materna dos surdos.
Outro aspecto interessante pode ser observado numa cena em que Mandy salva um cão de ser atropelado por uma caminhonete. A caminhonete para porque ela se joga na sua frente. O motorista desce, sacudindo seu braço e falando com ela. Mandy, mesmo sem entender nada, nota que ele está bravo apenas pela interpretação de sua expressão facial.

O filme também apresenta o dia em que a mãe de Mandy resolve visitar a escola de surdos que empregava o método do oralismo. Vemos uma cena que mostra um menino surdo que já sabe falar seu próprio nome. O diretor da escola informa que ele começou a aprender há três meses e já sabe falar seu nome, assim como fazer leitura labial; é inverossímil, nessa cena, a falta de esforço do surdo para oralizar.
Também no mesmo contexto, vemos uma mulher mais velha, que fundou a escola de surdos e é surda. Durante uma reunião, ela faz leitura labial de várias pessoas discutindo, inclusive de uma que ela não visualiza. A mulher surda participa da reunião, como se fosse algo habitual. Isso é bastante inverossímil, pois se conhece bem a dificuldade de uma pessoa surda participar de uma reunião com várias pessoas falando, compreendendo e interagindo normalmente. Isto é: o filme apresenta “conquistas” de surdos dentro de uma normalização ouvintista.

O filme também mostra uma candidata procurando emprego, que queria trabalhar na escola de surdos em questão. O diretor lhe pergunta qual é o interesse dela na escola. Ela informa que tem mais interesse em trabalhar com crianças surdas do que com crianças normais. Observem o diálogo:

Diretor: – Srta. Crocker, se importaria de responder uma pergunta pessoal? Por que quer este trabalho?
Crocker: – Achei que seria mais interessante do que ensinar crianças normais.
Diretor: – Entendo. Acha interessante ser surdo. Crocker: – Não, é claro que não.

Isso mostra a velha oposição entre surdos x normais. Os surdos são vistos como interessantes, exóticos, enfim, anormais.

Podemos observar também que, durante a aula das crianças surdas, não se mostra muito crianças sinalizando e tampouco se expressando de forma espontânea, mas somente tentando oralizar, comportando-se de forma “fria”, mecânica.

Um sentimento que sempre é apresentado, embora de forma negativa, é a vergonha que o pai de Mandy tem da filha que é surda, preferindo, portanto, mantê-la em casa. Tal sentimento era muito comum (e talvez ainda seja) entre os pais ouvintes de filhos surdos.

Mandy desenvolve a fala após muito treino na escola e durante as aulas com o professor particular, que ia até a casa dela todas as noites. É contraditório na trama que ela não tenha aprendido nada da língua de sinais quando a professora (que conhecia a BSL) morava na sua casa e tenha “aprendido” a falar (oralizando) após muitos treinos na escola. Sabe-se que as línguas de sinais são as línguas naturais dos surdos, que eles aprendem com a mesma facilidade com que as crianças ouvintes aprendem a língua oral quando expostas a ela.

No final, Mandy oraliza o próprio nome e o pai fica orgulhoso que ela tenha conseguido falar; até sua mãe também fica feliz, embora já tivesse visto a menina falar antes. Ou seja: o desfecho feliz do filme é a vitória da “normalização” de Mandy, que consegue oralizar.

Com uma distância de produção de cerca de quarenta anos, o outro filme que escolhemos, Palavras do silêncio, está mais próximo das representações atuais da sociedade de surdos, mas há ainda alguns elementos desvalorizados. Laura é uma adolescente que viveu trancada durante 14 anos, sem saber nada da língua de sinais, e tampouco da linguagem escrita, por conta do confinamento imposto pelos pais.

Há uma cena interessante, na qual ela está no hospital e recebe a visita da assistente social, Pam, que conhece a ASL. O pai dela então aparece, procurando por Laura, que não quer recebê-lo. Pam percebe isso e tenta perguntar se era o pai dela, usando outro gesto mais claro. Laura entende perfeitamente e assente com a cabeça. Em seguida, Pam vai explicar ao pai de Laura que ela não quer voltar para casa, mas o pai não acredita. Observem o diálogo:

Pai: – Mentirosa! Ela não disse nada, ela não consegue falar!
Pam: – Eu a compreendi perfeitamente

Ou seja, a concepção do pai é de que a comunicação só pode se dar através da linguagem falada. O filme, entretanto, apresenta o contraponto de Pam.

Posteriormente, Pam sai em busca de um abrigo para Laura, sendo que um deles a recusa por ser surda, mostrando claramente a discriminação. Quando Pam ameaça ir à Justiça diante de tal atitude, o abrigo a aceita de imediato.

Várias cenas mostram Pam ensinando a ASL para Laura e algumas delas parecem inverossímeis para nós, surdos. Em determinado momento, Laura erra um sinal e Pam a corrige, tocando sua mão. Geralmente não é necessário tocar o surdo para melhorar sua configuração de mãos 3 pois espontaneamente o aprendiz vai aperfeiçoando seus sinais. Esse pequeno erro em um dado sinal pode ser comparado a um tipo de balbucio dos ouvintes.

O mesmo acontece em outra cena, na qual Laura assiste à aula de uma freira que pergunta que dia era aquele. Laura responde “é terça feira”, usando a ASL, porém, fazendo o sinal um pouco errado. Também aqui a freira toca sua mão para corrigi-la.

Outro detalhe impressionante é o fato de Pam desenhar uma casa para Laura entender o que ela quer dizer, embora exista o sinal casa, que é muito simples e semelhante aos gestos dos ouvintes para dizer “casa”, dispondo as mãos no formato de um “telhado”. Ficamos com a impressão de que Pam poderia usar o sinal “casa” diretamente para Laura, não necessitando do desenho.

Após Pam explicar “casa”, Laura percebe que havia mais objetos com um sinal correspondente. Ela então começa a apontar todos os objetos, pedindo para Pam lhe ensinar, nem rápido, os sinais correspondentes. Essa cena parece ter se inspirado em outros dois filmes sobre surdos. São eles O milagre de Anne Sullivan, de Arthur Penn (1962, EUA) e Seu nome é Jonas, de Richard Michaels (1979, EUA). No final do primeiro filme, apresenta-se a surda-cega Helen Keller querendo aprender mais e mais sinais, após descobrir a existência do primeiro sinal: “água”. Observem a figura anterior da cena em que Helen toca a água, enquanto a professora Anne Sullivan lhe ensina o respectivo sinal.

FIGURA 1

No outro filme, Seu nome é Jonas, o personagem, um menino surdo de 8 anos de idade em processo de aprendizado da língua de sinais, descobre que um sinal tem significado ao ver o cachorro-quente que já havia pedido antes para a mãe, que não o entendia. Observe a figura abaixo de uma cena, embora ela mostre especificamente o sinal “cachorro-quente”. A cena mostra apenas a interação entre o menino Jonas e sua mãe, quando esta percebe que ele desenvolvia melhor a comunicação pela ASL e o interesse dele em aprender mais sinais.

FIGURA 2

Reproduzimos abaixo outra cena do filme Palavras do silêncio, em que Laura descobre que há mais sinais correspondentes a objetos, especificamente o sinal livro.

FIGURA 3

Pode-se comentar ainda que, no enredo, Laura vai morar provisoriamente na casa da Pam, que lhe mostra o material para Laura aprender a ASL: vídeo e livros (dicionários), etc. Vale notar, no entanto, que, geralmente, as pessoas surdas desenvolvem a língua de sinais através do contato com pessoas dentro da comunidade surda, ou em escolas ou associações, e não através de material impresso e vídeo.

Em outra passagem do filme, a chefe Barbara, administradora do Conselho Tutelar, controla Pam, que mantém Laura em sua casa, pois não é permitido à assistente social manter qualquer adolescente morando em sua própria casa. O máximo que poderia fazer era procurar um abrigo ou um espaço onde a adolescente, no caso, Laura, pudesse se desenvolver. Barbara explica a situação para Pam na presença de Laura. Laura pergunta a Pam o que Barbara havia falado e Pam mente, dizendo que a administradora tinha ficado feliz em vê-la. Essa cena traz a questão ética da tradução incorreta. É comum alguns ouvintes traduzirem de forma diferente a informação de outra pessoa, conforme Thoma (2004, p. 61) recorda, ao abordar o A música e o silencio, em que a menina Lara, ouvinte, traduz incorretamente o diálogo entre os pais surdos e um gerente de banco ouvinte:

Gerente (fala e Lara traduz): – Não, desculpe. Não posso fazer nada até o dia 1º de março. Eles aplicaram por seis meses. Só então poderão receber. Martin: – Pergunte pelo dinheiro que depositamos. Ele não pode nos devolver uma parte? Precisamos de dinheiro agora!
Lara (LS): – Não dá, papai. Pare de implorar.
Martin: – Pergunte a ele!
Lara: – Meu pai agradece. Está satisfeito com a aplicação.
Gerente: – Fico feliz.
Lara (LS): – Ele disse que não.

Também vemos várias cenas que mostram a trajetória de aprendizagem da ASL por Laura. No dia da reunião para marcar a audiência em que o pai pretendia pedir que Laura voltasse, Pam tenta explicar que Laura não queria isso. O promotor ou advogado, no entanto, explica que Laura precisa se apresentar como depoente, contando o que aconteceu. Porém, ela ainda não tem condições de se expressar suficientemente na língua de sinais. Sua linguagem ainda não está muito desenvolvida, por ela ter ficado muitos anos sem adquirir a linguagem alguma, sequer a escrita. Isso é semelhante à realidade, pois existem alguns surdos que ficam isolados e sem acesso a educação durante muitos anos.

Posteriormente, Pam pede para Laura participar mais nas aulas, de modo a aprender e se desenvolver melhor para ter condições de participar nas decisões da Justiça. Laura se sente pouco inteligente, chegando a achar que talvez tivesse causado complicações na Justiça. Pam tenta lhe explicar que ela não era incapaz: poderia trabalhar futuramente, morar sozinha e até dirigir. Laura fica surpresa com a possibilidade de poder aprender a dirigir.

Outra cena interessante é aquela em que Pam tenta falar sobre um “doutor”, e Laura nem mesmo conhece o respectivo sinal. Pam procura outro jeito para expressar, usando mímica e mostrando que doutores usam máscara, e logo Laura entende. Essa cena mostra a importância do uso de estratégias alternativas para ensinar ou explicar para surdos, quando eles não entendem ou não conhecem um determinado sinal.

Em outra ocasião, a escola de surdos em que Laura estuda realiza uma festa de Natal, e vemos Laura e seus colegas surdos apresentando um coral em Língua de Sinais. Como explicam vários artigos, o coral não faz parte da cultura surda. Observemos a citação da Strobel (2008) sobre a música dos surdos:

A música, por exemplo, não faz parte de cultura surda, os sujeitos surdos podem e têm o direito de conhecê-la como informação e como relação intercultural. São raros os sujeitos surdos que entendem e gostam de música e isso também deve respeitado. Respeitando a cultura surda, substituindo as músicas ouvintizadas, surgem artistas surdos em diferentes contextos como: músicas-sem-som, dançarinos, atores, poetas, pintores, mágicos, escultores, contadores de histórias e outros. (p. 70).

Tem-se aí uma perspectiva do ouvinte, mesmo que o filme procure valorizar a língua de sinais e a cultura surda.

Outra cena mostra que Laura conheceu um garoto surdo, Doug, com o qual faz amizade. Doug pergunta a Laura se ela sabe falar: Laura informa que não. O garoto insiste para ela soltar a voz, pegando-lhe a mão e colocando-a no seu pescoço para que Laura possa sentir a vibração. Podemos observar como a cena mostra uma obsessão pelo som, pela questão de sentir vibração, emitir sons, falar ou não, etc.
Em seguida, Laura fica se olhando espelho, tentando falar o próprio nome da seguinte forma: “Laaa...” Isso revela como o som é mais prestigiado e detém mais poder na sociedade ouvinte.

Em outra cena, vemos Laura sentada no chão e, atrás da cama, há um aparelho de som bem colado à sua cabeça, para que ela possa sentir vibração da música.

O final traz uma cena na Justiça, em que Lau-ra precisa de se apresentar como ré, explicando as ações do pai dela antes de sua fuga de casa. Antes de Pam entrar, Laura a chama para falar para ela e, então, oraliza: Thank you, Pam. (Obrigada, Pam). Pam fica emocionada e fala: Você tem seus segredos! Essa é a cena final do filme, um legítimo happy end, como se transmitisse a melhor ação que um surdo pudesse fazer – falar.

Comentários finais

Para finalizarmos este artigo, é importante retomarmos alguns conceitos dos estudos culturais que servem de instrumento para nossa análise, como o conceito de “representação”. Nos filmes analisados, são trazidas representações dos surdos e da surdez, formas de mostrar personagens surdos dentro de enredos e, conforme Hartley (2002), “as representações se articulam com o poder cultural”. O autor observa, ainda, que “uma vez que as representações envolvem inevitavelmente um processo de seleção em que certos signos são privilegiados em relação a outros, importa saber de que forma esses conceitos são representados nos meios noticiosos, no cinema, ou até na vulgar conversa”. (p. 234).

Pudemos ver, através da descrição de algumas cenas dos filmes, como as representações da normalização do surdo pela oralização e pela busca de aproveitamento de audição são mais frequentes e importantes do que as representações da cultura surda e da utilização da língua de sinais.

Essas observações podem ser relacionadas ao conceito de “pedagogias culturais” – outro conceito importante dos estudos culturais, pois é evidente que os filmes contêm pedagogias culturais, ensinando aos ouvintes e aos surdos o que é ser surdo e quais são suas capacidades e habilidades.

Em especial, os filmes sobre surdos poderiam propor um modelo para que os surdos vissem esses personagens inseridos em uma cultura surda e em uma identidade surda, como os estudos surdos procuram mostrar. Os estudos surdos seguem os estudos culturais, ao aceitarem que a identidade não é algo essencial, mas, como afirma Hall (2002), “a identidade é realmente algo formado, ao longo do tempo, através de processos inconscientes” (p. 38) e ela “muda de acordo com a forma como o sujeito é interpelado ou representado”. (p. 21). Ou seja, as representações de surdos nos filmes interpelam os surdos que os assistem, mostrando “como eles podem ser” e o que é desejável, propondo, assim, uma identidade e não outra.

Embora Palavras do silêncio dê mais espaço para a língua de sinais do que O martírio do silêncio, no qual a valorização é toda do oralismo, o primeiro ainda valoriza questões relativas ao som, à vibração, à oralização e etc. Além disso, apresenta, conforme analisado, várias cenas inverossímeis. No final de ambos, as personagens surdas conseguem oralizar, o que nos permite perguntar qual é o alcance pedagógico desses filmes ao mostrarem como um grande feito a oralização após o uso de língua de sinais. Afinal, a cultura surda abrange língua de sinais, poesia surda e muitas outras manifestações, que são valorizadas no cotidiano dos surdos em detrimento da questão do som.

Nesse sentido, Duarte (2002) nos relembra que “o fato de alguns dos mais respeitados teóricos da cultura preocuparem-se com o papel desempenhado pelo cinema nas sociedades é mais um indicador de que sua influência não se restringe aos limites do espetáculo de diversão”. (p. 97).

Aproveitando o que a autora explicou sobre a influência do cinema, cabe perguntar como filmes que valorizam a oralização podem influenciar na identidade dos surdos e na representação dos surdos pelos ouvintes. Note-se que o desfecho dos dois filmes é semelhante, com as duas personagens surdas oralizando, como se essa fosse a melhor cena ou espetáculo, que faz as pessoas (ouvintes) ficarem emocionadas.

 

Notas

1 No ano de 1880, foi realizada uma conferência internacional em Milão com o objetivo de discutir o futuro da educação para os surdos. Foi questionado se o ensino deveria se dar em língua de sinais ou através do oralismo. O método oralista venceu por vários motivos, dentre eles, devido à ideia de que sem fala não existe pensamento, tese de certa forma resultante da filosofia aristotélica.
2 Conforme Ramos; Goldfeld (1992), “Roy Holcomb, professor surdo e supervisor de uma escola para crianças surdas entre 3 e 12 anos de idade, adotou o ‘Total Approach’ para todos os estudantes da instituição rebatizando-o de ‘Total Communication’ (Comunicação Total)” (p. 72). Isto é: os professores oralizam e sinalizam simultaneamente, de acordo com a filosofia surgida na década de 1960 nos EUA. Isso quer dizer Português Sinalizado.
3 Configuração de mãos: representa a forma que a mão assume durante a realização de um sinal e pode ser diferenciada pela extensão (lugar e números de dedos estendidos), contração (mão fechada, mão aberta) e o contato ou divergência dos dedos, podendo variar entre mão configurada, mão configurada sobre a outra, que lhe serve de apoio e duas mãos configuradas de forma espelhada.

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