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Educao Multicultural para a emancipao social dos Surdos
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Publicado em 2010
I Frum de Estudos e Leituras de Paulo Freire, Cuiab-MT. Estudos e Leituras de Paulo Freire em Mato Grosso. Cuiab-MT: Grupo de Pesquisa em Movimentos Sociais e Educao - GPMSE/UFMT, p. 142-148
Marcos Roberto dos Santos
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Resumo

O artigo trata das questes multiculturais que abordam as novas polticas de incluso, visando a busca e a reflexo de abordagens metodolgicas diferenciadas no processo de ensino e aprendizagem. Para este trabalho destacam-se os estudos de Paulo Freire, o qual pode observar o importante papel escolar na alteridade da construo da identidade dos indivduos surdos para que se sintam integrantes do processo educacional.

Introdução

O presente trabalho propõe uma análise no cenário da educação brasileira, partindo de um prisma de educação multicultural voltada para atender a demanda da diversidade dentro do espaço escolar a fim de que possa construir bases teóricas que permitirão o pleno reconhecimento, a proteção e a asseguridade dos direitos humanos fundamentais, principalmente no que se refere à inclusão dos surdos.

Na Educação, existe todo aparato de políticas no âmbito da inclusão social. Porém, o que pretendo suscitar nesse artigo, é a falta da práxis do envolvimento da comunidade escolar com a cultura surda, para que assim os surdos possam construir sua identidade sentindo-se parte integrante do meio.

Acredito que esse artigo venha contribuir para o processo de ensino e aprendizagem dos surdos dentro das escolas, processo esse que histórico e culturalmente esteve comprometido pelo fato da unificação do ensino que não legitimava e não tratava com relevância a diversidade cultural dentro das salas de aula.

Um olhar sobre o cenário educacional

Para iniciar essa discussão sobre a proposta de inclusão do Novo Milênio, não poderei deixar de falar sobre a Educação de um modo geral no Brasil, qual o currículo que as escolas vem imprimindo em seus alunos? O ensino tem dado relevância multicultural dentro do ambiente escolar?

Diante desses questionamentos acima, observamos que a historicidade da educação é construída num cenário de educação vertical, em que o professor assume um papel de detentor do saber que transmitirá conhecimentos instituídos aos educandos. Estes receberão a mesma educação, ao desconsiderar suas diferenças histórico-sociais e culturais conduzindo-os num abismo intelectual desconectando da realidade social, ou seja, unifica o saber posto pela escola. Para Freire,

Narração de conteúdos que, por isto mesmo, tendem a petrificar-se ou a fazer-se algo quase morto, sejam valores ou dimensões concretas da realidade. Narração ou dissertação que implica num sujeito – o narrador – e em objetos pacientes, ouvintes – os educandos.
Há uma quase enfermidade da narração. A tônica da educação é preponderantemente esta – narrar, sempre narrar. (1994 p. 31)

Nota-se que a educação tinha uma finalidade para os iguais, o professor maestro – detentor do saber, transmitindo luz para seres passivos, pacientes, ouvintes. A partir da década de 90 com a forte tendência mundial para a educação inclusiva algumas reformas começaram a abalar a estrutura escolar no Brasil, com isso houve uma grande procura pela escola também a ampliação e universalização do ensino médio.

O cenário tecido aponta que desde o ano de 2000 eclodiu no ambiente escolar ações que atendessem aos alunos por meio das políticas afirmativas para a educação. É valido ressaltar que a partir das políticas afirmativas surge um movimento de inclusão dos grupos segregados (sejam eles negros, índios, homoafetivos e deficientes) que historicamente viveram a margem do sistema educacional. Desde então, a escola vem vivenciando um choque de diferenças em seu espaço originando assim a multiculturalidade nas salas de aulas.

Neste sentido faz-se necessário abordarmos as contribuições da multiculturalidade na educação de surdos. A opção didático-pedagógica adotada na feitura do presente artigo dar-se-á a formação histórica das tramas que tecem os sujeitos da educação de surdos no espaço escolar. Na sequência vamos observar a educação de surdos e a multiculturalidade.

O multiculturalismo na educação de surdos

Na esteira do debate da inclusão de surdos na educação observamos que o tema está intrinsecamente relacionado ao conceito de Multiculturalismo. Ao longo da história da humanidade, a sociedade vem sofrendo muitas modificações. Com o avanço da globalização e consequentemente a crise de valores, onde não existem mais limites para determinadas violações, fica evidente então que a educação toma uma outra face, a do multiculturalismo, que defende uma educação para todos respeitando a diversidade dentro do ambiente das salas de aula, eliminando os estereótipos dos grupos minoritários. Freire nos remete a uma educação multicultural quando afirma que:

Uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar as condições em que os educandos em suas relações uns com os outros e todos com o professor ou a professora ensaiam a experiência profunda de assumir-se. Assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos, capaz de ter raiva porque capaz de amar. Assumir-se como sujeito porque capaz de reconhecer-se como objeto. (1996 p. 18)

Assim, a educação multicultural baseia-se no reconhecimento das diferenças, no respeito delas e proporcionar que todos tenham acesso a conhecimentos e ativa participação, sendo capazes de sentirem e se imporem como partes do ambiente escolar.

Sabemos que os grupos segregados, marcam a ruptura do silêncio ao gritarem sua cidadania. Cidadania conquistada no estado democrático com a carta magna do país, a Constituição da República Federativa do Brasil, à partir daí os surdos tiveram várias mudanças a seu favor, seja na consciência da sociedade a respeito do sujeito surdo e até mesmo perante a lei, como por exemplo a Declaração de Salamanca, as diretrizes e bases do Conselho Nacional de Educação para a educação inclusiva, a lei da Acessibilidade e o reconhecimento oficial da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS, e a inserção obrigatória dela como disciplina curricular nos cursos de Licenciatura e Fonoaudiologia.

Esses grupos minoritários já estavam inclusos mesmo antes das políticas de inclusão, porém não havia uma legitimidade dessa “aceitação” dentro das escolas, o que era muito natural negros, homossexuais, surdos, pobres entre outros desistirem de suas formações por causa dos preconceitos sofridos. Com essa reforma passamos a discutir agora a função do multiculturalismo na educação.

Para tratarmos especificamente da educação de surdos, o multiculturalismo assume um papel de consolidar direitos fundamentais dos surdos brasileiros que historicamente sofreram grande marginalização do ensino. Esses direitos foram considerados se consolidarmos as normas constitucionais, que trazem a concepção de dignidade humana de cada sociedade.

O Multiculturalismo defende a valorização da cultura nos diversos grupos sociais e entende o que há de mais valioso na sociedade que é a sua diversidade. Nesses movimentos multiculturais estão presentes surdos e ouvintes que vivem realidades diferentes, mas, são enquadrados a uma educação igualitária, ou seja, igual para todos, porem as perspectivas para a inclusão do surdo mobilizam e promovem transformações significativas nos sujeitos de aprendizagem, esperando assim contribuir com as reflexões sobre as práticas pedagógicas oferecidas nas escolas.

Inclusão para a autonomia social

Na atualidade muito tem se falado em inclusão social, termo que até pode ser considerado como modismo, todos fazem e praticam a tão propalada temática, partindo de um prisma apenas material ou físico que se caracteriza em fatores econômicos, qualidade de vida, raça, entre outras ausências, tornando visível apenas a parte externa da inclusão, porém há todo um aparato de metodologias específicas a cada caso.

De acordo com o Código de Ética dos Profissionais Tradutores/intérpretes de Língua Brasileira de Sinais, o intérprete é apenas um dos instrumentos de acessibilidade, é necessário muitos mais, incluir um surdo implica na alteridade da sua identidade e valorização de sua cultura dentro do espaço acadêmico, para FREIRE:

A questão da identidade cultural, de que fazem parte a dimensão individual e a de classe dos educandos cujo respeito é absolutamente fundamental na prática educativa progressista é problema que não pode ser desprezado. Tem que ver diretamente com a assunção de nós por nós mesmos. (1996, p. 41)

O termo inclusão é tão velho quanto a humanidade, todos precisam ser incluídos. Desde que nascemos somos incluídos na família, na escola, no mercado de trabalho e etc. Com relação aos surdos estão incluídos numa sociedade preconceituosa onde para se desenvolverem e exercerem sua cidadania dependerá de outras pessoas para intermediar suas relações com o mundo. Numa sala de aula, ao se deparar com um aluno surdo surgirá vários questionamentos, problemáticas, desafios na relação educador-educando. Qual a atribuição necessária para o educador em lidar com essa realidade dentro da sala? E qual o papel da escola para que esse indivíduo não perca suas características dentro do grupo?

Conforme já foi citado, é necessário para o processo de ensino e aprendizagem do educando com surdez a construção da identidade surda e o fortalecimento da sua cultura dentro do ambiente, o que ocorrerá através dos contatos com o meio, pois esse processo pedagógico vai além das paredes da sala de aula, o que possibilitará a formação de cidadãos mais participativos nos processos decisórios sociais. Mas, quando essa relação da alteridade na construção da identidade é negada dentro do espaço acadêmico surge então grandes dificuldades na interação do surdo com o meio, pois ele não se reconhece como sujeito dotado de ações, conhecimentos e saberes numa perspectiva instituinte. Partícipes de ambientes com jogos de poder impostos pelas instituições de uma forma colonizadora, há então uma desconstrução da sua identidade, pois grande parte das escolas não possui intérpretes e não se atém em assegurar a valorização da cultura surda. FONSECA cita o CNE/MEC (17/2001) que faz a seguinte consideração a respeito da inclusão:

Entende-se por inclusão a garantia, a todos, do acesso contínuo ao espaço comum da vida em sociedade, sociedade essa que deve estar orientada por relações de acolhimento à diversidade humana, de aceitação das diferenças individuais, de esforço coletivo na equiparação de oportunidades de desenvolvimento, com qualidade, em todas as dimensões da vida. (2008 p. 03)

Já que a inclusão assume esse caráter citado acima, a escola deve propiciar formas para que o educando sinta-se confortável em conviver nesse espaço cada vez mais diversificado, que ele tenha a garantia de uma interação harmoniosa e que todos possam conviver com grupos, culturas multifacetadas.

É necessário que o educando e educador na alteridade da construção identitária se assumam como ser pensante e a prática didático-pedagógica seja rebuscada de forma clara e precisa para dentro do espaço universitário, segundo FREIRE:

Uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar as condições em que o educando em suas relações uns com os outros e todos com o professor ou a professora ensaiam a experiência profunda de assumir-se. (1996 p. 41)

Refletindo sobre o pensamento freiriano, qual o efeito pérfido na identidade do surdo na atual proposta da inclusão? É papel da escola e do educador mergulhar na cultura surda, saber quem é esse indivíduo dentro da academia para que possa fazer um paralelo entre o conhecimento científico e as experiências sociais e culturais pela qual passam os alunos, porém para isso exige pesquisa. Quando a instituição e o corpo docente nega essa alteridade para a formação da identidade do surdo dentro da sala de aula, nega-se também a aquisição de saberes e conhecimentos em sua totalidade, e a competência do educando no decorrer do curso poderá estar comprometida pois pela falta das abordagens metodológicas diferenciadas e da sua identidade linguística ele não conseguirá abstrair todos os conceitos fundamentais necessários para sua formação e autonomia.

O educador, por sua vez, se encontra num grande paradoxo, entre efetivar a inclusão dos surdos e cumprir a temporalidade do sistema educacional para se adequar à essas metodologias.

No entanto, compete às escolas discutir a aplicabilidade das políticas de inclusão dos surdos em seu ambiente, para que as “lindas” campanhas de responsabilidade social saia do papel e seja vivenciada na práxis do processo de ensino e aprendizagem.

Considerações Finais

O termo inclusão/exclusão tem sido alvo de debates nas diversas esferas sociais e não podemos deixar de levá-lo para dentro das nossas escolas. O multiculturalismo, movimento iniciado à partir das reformas educacionais, tem por base os fundamentos teóricos e práticos para a mudança no cenários das injustiças e desigualdades pelas quais sofrem os grupos minoritários, submissos às culturas dominantes.

O que coloco em evidência, é que mais do que incluir, as escolas necessitam repensar as estratégias e metodologias para que não prossigam com o processo de exclusão na sua formalidade através da inclusão e a comercialização dos saberes, o que nos permite indagar qual o objetivo da educação com relação a inclusão?

Quando falamos na inclusão de surdos, ressaltamos a importância na presença de outros elementos que irá cercear esse processo. Além do profissional tradutor/intérprete de língua de sinais também todo o envolvimento da comunidade escolar com a causa. Para isso, a escola e o corpo docente necessitam estar abertos para a proposta causando uma desconstrução e a quebra de velhos paradigmas construídos historicamente. Para finalizarmos, gostaríamos de deixar uma reflexão sistemática de como está ocorrendo a inclusão dos surdos nas escolas numa perspectiva bilíngue e multicultural, que nos leva a questionar, seria a cultura surda impossibilitada de ascensão social ou a cultura ouvinte nada maleável?

Bibliografia

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. Editora Paz e Terra. São Paulo 1996.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Editora Paz e Terra. São Paulo 1994.

FONSECA da SILVA. Políticas da Inclusão no Ensino Superior: Panorama da Legislação Brasileira. UDESC 2008.

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