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Neiva de Aquino Albres
Neiva de Aquino Albres
Fonoaudiloga
Interpretao educacional como campo de pesquisa: o que nos revelam as publicaes internacionais
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Publicado em 2012
III Congresso Brasileiro de Pesquisas em Traduo e Interpretao de Lngua Brasileira de Sinais e Lngua Portuguesa. Florianpolis-SC: UFSC
Neiva de Aquino Albres
Cristina Broglia Feitosa de Lacerda
  Artigo disponvel em verso PDF para utilizadores registados
Resumo

O presente trabalho analisa o desenvolvimento do campo de pesquisa acadêmica na área de interpretação em língua de sinais, no período de 1990 a 2010 (20 anos), com base em publicações de periódicos científicos internacionais que divulgam a produção das principais instituições ligadas aos estudos surdos. Adotou-se como metodologia de pesquisa a análise bibliométrica e a partir dela foram relacionados os resultados considerando as publicações cujas temáticas eram interpretação de língua de sinais e interpretação educacional. O objetivo principal desta incursão é compreender o desenvolvimento das pesquisas sobre intérprete educacional, principais autores e espaços de publicação internacionalmente. Constatamos que a “interpretação educacional” se afirma na última década do século XX como um campo de pesquisa.

Introdução

O intérprete de língua de sinais é ainda uma figura de recente interesse no âmbito acadêmico. É importante considerar que há muitas diferenças nos processos de inserção do intérprete de língua de sinais em uma sala do Ensino Superior ou Ensino Médio e em uma sala de Ensino Fundamental ou Infantil (LACERDA, 2009) o que requer investigação específica.

Existem poucos estudos no Brasil, tanto no que diz respeito ao intérprete de maneira ampla, quanto pesquisas que remetam ao intérprete educacional especificamente (LACERDA, 2009). Este profissional é uma realidade em muitos países, trabalhando com um número significativo de pessoas surdas. Se faz importante conhecer sobre as pesquisas internacionais, porque ajudam a situar as pesquisas realizadas no exterior e a nossa realidade ampliando conhecimentos e materiais fontes para os pesquisadores brasileiros desenvolverem suas próprias pesquisas.

Em relação ao papel do intérprete em sala de aula, denominado de intérprete educacional há os que defendem que ele deva integrar a equipe educacional, todavia isso o distancia de seu papel tradicional de intérprete gerando polêmicas (LACERDA e BERNARDINO, 2009). Napier (2002), afirma a necessidade de mais pesquisas nesta área, para se esclarecer melhor as semelhanças e diferenças entre o intérprete e o intérprete educacional.

Aspectos teórico-metodológicos

A metodologia adotada no presente trabalho foi o estudo bibliométrico que consiste em um conjunto de princípios que contribuem para o estabelecimento teórico do campo de uma ciência em questão. A função do estudo bibliométrico é a gestão do conhecimento socialmente construído. Segundo Pritchard (1969, apud. BEUREN e SOUZA, 2008, p.3) estudos bibliométricos são “todos os estudos que tentam quantificar os processos de comunicação escrita”, o que permite estabelecer perfis dos estudos de determinada área.

Para Vanti (2002) usando este método é possível identificar trabalhos, teorias e autores que estão sendo usados para o desenvolvimento do capital científico da área estudada e seu desenvolvimento cronológico, podendo identificar o crescimento ou não da área de estudo pesquisada.

Foram selecionadas revistas acadêmicas que tivessem como objetivo publicar trabalhos sobre língua de sinais, educação de surdos, interpretação em língua de sinais e que fossem disponibilizadas em bases de dados públicas, desde que pelo menos o resumo estivesse disponibilizado na integra. Os periódicos analisados foram (ver figura 1):

  1. American annals of the deaf
  2. Sign Language Studies
  3. Journal of Deaf Studies and Deaf Education
  4. Sign Language & Linguistics
  5. Deafness & Education International
  6. The Sign language translator and interpreter
  7. International Journal of Interpreter Education

Procuramos fazer a leitura dos trabalhos, na busca por apreender as relações destas produções com os contextos sociais envolvidos. Fundamentados no campo da sociologia (BOURDIEU, 1983) pudemos refletir sobre os processos que envolvem o desenvolvimento do campo científico.

Pesquisas internacionais sobre intérprete educacional

Fizemos uma análise do número de publicações por revista; das décadas/anos de publicação; e dos autores e instituições vinculadas às pesquisas por nós destacadas. Apresentamos a seguir o resultado dos periódicos analisados.

1. American Annals of the Deaf
A revista foi publicada pela primeira vez em 1847, a Annals é a mais antiga revista acadêmica em inglês com a temática da surdez e da educação de surdos, coordenada pela Gallaudet University nos Estados Unidos da América. São mais de 150 anos de trabalho. Todavia, apenas as edições a partir de 1991 estão digitalizadas e disponíveis no Portal de Periódicos da CAPES. Dentre 676 artigos publicados, encontramos apenas dez sobre intérprete de língua de sinais, dentre esses cinco com foco no intérprete educacional.

Dados disponíveis em: <http://interpretaremlibras.blogspot.com.br/2012/06/american-annals-of-deaf.html>

2. Sign Language Studies
A revista Sign Language Studies é coordenada pela Gallaudet University nos Estados Unidos da América, começou a ser publicada em 1972. Todavia, a publicação digitalizada e disponível no Portal CAPES se deu apenas a partir de 2000. Dentre os 161 artigos publicados e disponíveis, identificamos apenas cinco publicações na área de interpretação de língua de sinais e destes um sobre intérprete educacional.

Dados disponíveis em: <http://interpretaremlibras.blogspot.com.br/2012/06/sign-language-studies.html>

3. Journal of Deaf Studies and Deaf Education
A revista teve início em 1996 e as publicações estão disponíveis desde sua criação, contando com 13 volumes, disponibilizando os textos completos dos artigos. A revista já publicou 366 artigos. Encontramos dezoito artigos sobre intérprete de língua de sinais, sendo desses doze artigos sobre intérprete educacional.

Dados disponíveis em: <http://interpretaremlibras.blogspot.com.br/2012/06/desde-1996-journal-of-deaf-studies-and.html>

4. Sign Language & Linguistics
A revista é publicada desde 1998. Publicada pela John Benjamins Editora, Amsterdan, tem como editores Josep Quer da ICREA & Universitat Pompeu Fabra e Roland Pfau da University of Amsterdam. Foram 97 artigos publicados nestes 14 anos, dentre estes apenas um sobre intérprete de língua de sinais.

Dados disponíveis em:<http://interpretaremlibras.blogspot.com.br/2012/06/sign-language-linguistics.html>

5. Deafness & Education International
A revista está disponível desde 1999. É produto da parceria entre a British Association of Teachers of the Deaf (BATOD) e da Australian National Association of Teachers of the Deaf (NAATD). Não há nenhum artigo publicado que tenha como foco o intérprete de língua de sinais dentre os 140 artigos disponíveis.

Dados disponíveis em: <http://interpretaremlibras.blogspot.com.br/2012/06/deafness-education-international.html>

6. The Sign language translator and interpreter
A revista teve início em 2007, tendo apenas os três primeiros volumes publicados, foi interrompida em 2010. Esta decisão aconteceu pela constatação dos editores de haver poucos especialistas em tradução de língua de sinais vinculados a espaços acadêmicos de pesquisa. Por este motivo não conseguiram manter um fluxo consistente de artigos de qualidade. A editora São Jerônimo atualmente trabalha com série de livros. Ao total foram 26 artigos publicados, todos sobre tradução ou interpretação em língua de sinais, sendo que apenas um destes tratava de alguma forma sobre interpretação educacional.

Dados disponíveis em: <http://interpretaremlibras.blogspot.com.br/2012/06/sign-language-translator-and.html>

7. International Journal of Interpreter Education (IJIE)
Essa é uma revista pioneira abordando temas de interesse para pesquisadores que trabalham com a Formação de Intérpretes A editora chefe é Jemina Napier da University Macquarie (Austrália). A revista foi criada em 2009 e tem um volume publicado anualmente, no qual todos os artigos são focados no trabalho dos formadores de intérpretes, foram publicados 3 artigos em 2009 e 6 artigos em 2010. Dentre esses, uma publicação refere-se ao trabalho do intérprete educacional.

Dados disponíveis em: <http://interpretaremlibras.blogspot.com.br/2012/06/international-journal-of-interpreter.html>

Tradução/interpretação de Língua de sinais e Interpretação educacional: campos em construção

Constatamos que o foco das primeiras revistas estava na área da linguística e da educação de surdos. Os artigos sobre interpretação apareceram timidamente a partir do ano de 1992 e foram crescendo lentamente em número. A área específica da interpretação em língua de sinais foi contemplada posteriormente com a criação de periódicos com interesse focal, quais sejam: The Sign language translator and interpreter, em 2007, e International Journal of Interpreter Education, a partir de 2009.

Atualmente se começa a visualizar que o conhecimento e as habilidades envolvidas em cada domínio da atuação de intérpretes de língua de sinais são específicos, podendo haver, em alguns casos, uma transferência de um campo para o outro. A área da interpretação educacional se configura como uma área específica, pois demanda questões e análises próprias, como formação do intérprete, familiarização com o conteúdo acadêmico da turma onde trabalha, habilidades de interpretação apropriadas para cada tipo de publico, entre outras (MARSCHARK, SAPERE e SEEWAGEN, 2005).

Pela tabela 1, visualizamos a quantidade de publicação sobre tradução/interpretação de língua de sinais e a de interpretação educacional levantada em nossa amostra. Dessas sete revistas científicas, a maioria está vinculada a um programa de pós-graduação em Educação ou Linguística. Seus editores são pesquisadores da área de Educação de surdos ou de descrição linguística de língua de sinais.

Tabela 1
Levantamento de publicações por revista/temas
Por temas Publicação desde Acervo disponível na internet desde Total de artigos
(vários temas)
Artigos sobre intérprete de língua de sinais (áreas) Artigos sobre intérprete educacional
American annals of the deaf 1847 1991 676* 5 5
Sign Language Studies 1972 2000 161* 4 1
Journal of Deaf Studies and Deaf Education 1996 1996 366 6 12
Sign Language & Linguistics 1998 1998 97 1 0
Deafness & Education International 1999 1999 140 0 0
The Sign language translator and interpreter 2007 2007 26 25 1
International Journal of Interpreter Education 2009 2009 9 8 1
Total     1.475 49 20

* Este número de publicação refere-se apenas ao cálculo a partir de sua disponibilização na internet.

A revista mais antiga é de 1879 e a mais recente é de 2009. Os trabalhos foram levantados apenas a partir de 1991, segundo a disponibilidade de acesso junto ao Portal de Periódicos da CAPES.

As sete revistas já publicaram um total de 1.475 artigos, sendo destes, 49 sobre intérprete de língua de sinais na área jurídica, médica, em conferência, formação, entre outras e constatamos a publicação de 20 artigos sobre intérprete educacional. O número de publicações sobre intérprete educacional é grande em comparação a cada uma das outras áreas de interpretação de língua de sinais indicando que a atuação como intérprete educacional se constitui como um campo importante. Pesquisas sobre formação dos intérpretes de língua de sinais também se mostrou um campo em ascensão.

Para Bourdieu (2007) há uma hierarquia social dos objetos de pesquisa que orientam os investimentos intelectuais proporcionando um lucro material e simbólico. “O pesquisador participa sempre da importância e do valor que são comumente atribuídos ao seu objeto (...)” (BOURDIEU, 2007, p. 36). Constatamos que as publicações sobre intérprete educacional se intensificam no período investigado (a partir dos anos 1990s), podendo ser associada à discussão política mundial de inclusão educacional, entre outros fatores.

Dentre os 20 artigos, especificamente dedicados à comunicação de pesquisas sobre intérprete educacional, descreveremos sua periodicidade em cada revista, por ano/década de publicação. A tabela 2 mostra o número de artigos produzidos no decorrer dos anos. A tabela é divida em duas partes, nas quais os números são agrupados nas décadas de 1991 a 2000 e de 2001 a 2010. Nela se detalha o número de trabalhos em cada um dos anos dos séculos XX e XXI. Cabe destacar o aumento do número de artigos apresentados no decorrer das décadas, culminado inclusive com a criação de um periódico endereçado à publicação específica do tema “intérprete de língua de sinais”.

Tabela 2
Levantamento de publicações por década/ano
Por ano anos 1991 1992 1993 1994 1995 1996 1997 1998 1999 2000
American annals of the deaf 1990s   1         1      
Sign Language Studies                    
Journal of Deaf Studies and Deaf Education                 2  
Sign Language & Linguistics                    
Deafness & Education International                    
The Sign language translator and interpreter                    
International Journal of Interpreter Education                    
  anos 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010
American annals of the deaf 2000s


2       1          
Sign Language Studies       1            
Journal of Deaf Studies and Deaf Education   2   3 1 2   2    
Sign Language & Linguistics                    
Deafness & Education International                    
The Sign language translator and interpreter             1      
International Journal of Interpreter Education                 1  

Nos anos 90, foram 4 trabalhos em duas revistas; já de 2000 a 2010 temos 16 artigos apresentados em 5 diferentes revistas. Constatamos o interesse crescente de pesquisa e divulgação na área de interpretação educacional nesta última década.

Pesquisadores/Autores dos artigos – a escrita como poder simbólico

Jemina Napier, pesquisadora da University Macquarie na Austrália, é a autora com maior número de publicações (cinco artigos). Michael Stinson, pesquisador e professor do Education Rochester Institute of Technology National Technical Institute for the Deaf em Nova York – EUA, é o segundo autor com mais artigos publicados (cinco artigos). Shirin Antia, pesquisadora da Universidade do Arizona - EUA, (quatro artigos). Campbell Mid McDer, professor do George Brown College – Toronto, Ontario – Canada, (três artigos). Marc Marschark, professor e diretor de Center for Education Research Partnerships National Technical Institute for the Deaf - Rochester Institute of Technology em Nova York EUA (três artigos). Brenda Schick, professora da University of Colorado – EUA (três artigos).

Os demais autores têm apenas uma publicação e, por vezes, esta foi realizada em conjunto com autores já citados. Cabe destacar ainda que autores como Napier, Marschark, Antia e Schick têm livros publicados na sobre intérpretes educacionais.

Constatamos assim uma repetição de autores, mas não necessariamente de temas. Para a produção científica é comum que se permaneça em um determinado campo do saber e se produza diferentes textos científicos com temas relacionados. Os pesquisadores, de forma geral, sobre a “pressão” por publicação o fazem desta forma. Conforme Bourdieu (1983), os pesquisadores vivem em um lugar de lutas e associações, concorrências e acordos. Lutam por capital social e buscam o reconhecimento entre os pares por meio de credibilidade científica. A produção de conhecimento também é a produção de saberes sociais de articulação, de filiações políticas e teóricas. Para Bourdieu (1983) o número de publicações é simbolizado no campo científico como acúmulo, o chamado “crédito científico”. Assim, é possível afirmar que há uma comunidade de pesquisadores interessados no campo da interpretação educacional, que este campo é debatido e justifica uma produção acadêmica e que, além disso, alguns pesquisadores constituem este campo como seu objeto principal de pesquisa.

Considerações finais

Pôde-se estabelecer com o levantamento dos periódicos internacionais o seguinte paralelo: a situação da comunicação científica periódica internacional em interpretação educacional tendeu a se adequar aos padrões formais científicos, desenvolvendo periódicos específicos e a consolidar-se como área do conhecimento. Ao mesmo tempo, essa adequação formal, pelos vínculos a programas de pós-graduação e pela presença de editores pesquisadores da área, também contribuiu diretamente para a consolidação destes mesmos periódicos científicos. A situação atual da produção científica internacional sobre o intérprete educacional tem aumentado e se inscrito em diferentes programas de pós-graduação. Consideramos que, há indícios de que esse campo também aqui se torne uma área do conhecimento consistente.

Bibliografia

BEUREN, I. M. e SOUZA, J. C. de. Em busca de um delineamento de proposta para classificação dos periódicos internacionais de contabilidade para o Qualis CAPES. Rev. contab. finanç. 2008, vol.19, n.46, pp. 44-58.

BOURDIEU, P. O campo científico. In: ORTIZ, R. (Org.). Pierre Bourdieu: sociologia. São Paulo: Ática, 1983. cap. 4, p. 122-155. (Grandes cientistas sociais, 39)

_______. Método científico e hierarquia social dos objetos. In: NOGUEIRA, M. A; CATANI, A. Escritos de Educação. Petrópolis, RJ: Vozes, 2007 (1975). p. 33-38.

LACERDA, C. B. F. de. Intérprete de LIBRAS: em atuação na educação infantil e no ensino fundamental. 1. Ed. Porto Alegre: Editora Mediação/FAPESP, 2009.

LACERDA, C. B. F de; BERNARDINO, B. M. O papel do intérprete de língua de sinais nas etapas iniciais de escolarização. In: LODI, A. C. B.; LACERDA, C. B. F de. Uma escola duas línguas: letramento em língua portuguesa e língua de sinais nas etapas iniciais de escolarização. Ed. Porto Alegre: Editora Mediação/FAPESP, 2009.

MARSCHARK, M., SAPERE, P., & SEEWAGEN, R. Preface. In: MARSCHARK, M.; PETERSON, R.; & WINSTON, E. A. (Eds.), Sign language interpreting and interpreter education: Direction for research and practice. New York: Oxford University Press. 2005.

NAPIER, J. University interpreting: linguistic issues for consideration. Journal of Deaf Studies and Deaf Education 7:4, Fall, 2002, p. 281-301

VANTI, N.A.P. Da bibliometria à webometria: uma exploração conceitual dos mecanismos utilizados para medir o registro da informação e a difusão do conhecimento. Ci. Inf. 2002, vol.31, n.2, pp. 369-379.

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