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Renato Dente Luz
Renato Dente Luz
Psiclogo
Reflexes sobre o bilinguismo geral: Apontamentos para o fortalecimento do bilinguismo de surdos
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Publicado em 2013
Libras em Estudo: Poltica Lingustica, FENEIS-SP, p.13-37
Renato Dente Luz
  Artigo dispon�vel em vers�o PDF para utilizadores registados
Resumo

O tema deste capítulo é o das questões referentes ao bilinguismo geral pelos vieses, sobretudo psicológico, linguístico e político e suas implicações no campo do bilinguismo de surdos. Ao pensarmos o bilinguismo de surdos, assumimos aqui que este se encontra inserido tanto no contexto maior das definições e tensões do bilinguismo geral, quanto apresenta particularidades advindas da condição surda. Nosso objetivo foi pensar alguns aspectos biopsicossociais envolvidos na temática ampla do bilinguismo geral e o que isto levantaria de contribuições para o bilinguismo de surdos na atualidade. A partir de uma trilha percorrida sobre a condição humana, do mirante bilíngue amplo que alcançamos, de breves reflexões sobre os direitos humanos e as políticas públicas, da nomeação de uma condição surda atemporal a ser singularizada entre Outros, da constatação dos surdos serem, em geral, minoria sensorial e de recorrentemente eles sofrerem grande normatização, foi que levantamos sintéticos e críticos apontamentos no que tange ao bilinguismo de surdos e os dividimos em sete temáticas: a psicológica; a linguística; a legal; a política; a educacional; a escolar e a familiar. Não era nossa intenção esgotar assuntos tão complexos e delicados. No entanto, esperamos que, amparados pelo ético paradigma multilinguista, tais apontamentos contribuam com o fortalecimento da efetivação local dos direitos linguísticos dos que vivem a condição surda, por meio de um bilinguismo de surdos mais sólido.

- Pai, será que tem gente em outros planetas?
- Não sei, Estrelinha. Mas sabe o que eu acho? Se só nós existíssemos, seria um tremendo desperdício de espaço.
(CONTATO, filme inspirado no livro homônimo de Carl Sagan)

1. Nosso mapa: apresentando nosso destino

Por que, nós humanos, usamos um idioma? E por que alguns usam mais de um? Quando pensamos em bilinguismo, o que nos vem inicialmente à cabeça? É possível pensarmos em bilinguismo sem pensarmos nos indivíduos bilíngues? Todos os indivíduos bilíngues vivem as mesmas condições sociais e políticas? Quando falamos de bilinguismo, estamos falando apenas de educação bilíngue? E os surdos, seriam um caso diferente de sujeitos potencialmente bilíngues? No que o bilinguismo geral ajuda a pensar o bilinguismo de surdos?

Estas e outras questões relacionadas são as que nos guiarão em nosso destino pela busca de alguma leitura mais aprofundada da situação biopsicossocial das pessoas que apresentam uma determinada condição humana: a condição surda.

De modo mais significativo, pelo menos desde os anos 1990, as discussões envolvendo políticas sociais – sobretudo linguístico-educacionais – para as pessoas surdas vêm ganhando novo fôlego histórico. Em muito isto pode ser atribuído ao amparo ideológico, acadêmico, social e midiático advindo da ampliação dos movimentos sociais em defesa dos direitos das minorias 1 étnicas, trabalhadoras, de gênero, econômicas, físico-sensórias, linguísticas e sexuais nos anos 1960 e 1970, especialmente na Europa Ocidental e nos Estados Unidos, denunciadores e críticos da organização excludente e patologizante gestada em sociedades capitalistas (LUZ, 2003, 2005).

Ainda que com suas diferenças regionais, trata-se hoje de um movimento mundial histórico – um movimento surdo – com surdos e simpatizantes organizados em prol do reconhecimento irrestrito daqueles, enquanto seres humanos portadores de uma sensorialidade própria e como uma minoria plena de direitos linguísticos, frequentemente não contemplados por sociedades normativas embasadas no paradigma monolinguista.

Nesta ampla luta política por melhores condições experienciais para o acontecer da vida humana, os surdos ganharam força para nomear e assumir na esfera pública a situação intersubjetiva precária em que eram inseridos e o grande descontentamento em relação à falta de reconhecimento ético de sua sensorialidade particular, presente por meio de ofertas sociais eminentemente adaptativas. No caso desta população, o lema da ideologia monolinguista continua se expressando por meio da mensagem subliminar cotidiana: falem a língua oral majoritária de seu país ou estarão amplamente marginalizados!

Tem sido, sobretudo, no campo linguístico-educacional que esse movimento surdo vem construindo resistências ao padrão fortemente simplista ofertado para sua condição sensorial. Isto resultou em uma série de conceituações e práticas que continuam se desenvolvendo em torno da defesa do reconhecimento das línguas de sinais como línguas plenas e de direito e da afirmação de necessárias experiências sociais e educacionais bilíngues em que não só alguma língua oral-auditiva local esteja presente, como também alguma língua de modalidade espaço-visual, o chamado “bilinguismo de surdos”.

Relativamente recente e cheio de divergências internas referentes a diversos de seus aspectos componentes, o movimento bilíngue de surdos vem acontecendo por todo o mundo, sobretudo, na forma de uma importante corrente educacional em luta política pela construção de processos sócio-educacionais mais formativos e por uma participação mais cidadã desta população nos seus territórios nacionais.

Mesmo com as críticas de diversas origens realizáveis em relação aos seus princípios gerais, é assumido aqui que o bilinguismo de surdos – pelo menos, potencialmente – oferta condições linguísticas, sociais, políticas e psicológicas vitais para uma realização humana mais ampla dos que vivem a condição surda. Não só na educação, tampouco só na escola. E por isto tudo, pensar o bilinguismo de surdos por ângulos diversos é urgente. É um modo importante de fortalecê-lo.

Para compreender um fenômeno humano qualquer é preciso olhá-lo crítica e afetivamente e por tempo prolongado. Por ser, como todos os fenômenos desta natureza, complexos e paradoxais por definição, possui dimensões e profundidades que a observação apenas por um ângulo impede de apreender. No entanto, sem exercitarmos comprometidamente nosso olhar por específicos ângulos, como podemos nos aproximar de determinado fenômeno?

Em uma frase geralmente atribuída ao escritor russo Leon Tolstoi, temos alguma nomeação desta questão humana: “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”. Em um movimento derivado deste pensamento da relação universalparticular/todo-parte poderíamos dizer: se queremos compreender bem algo em particular, comecemos por olhá-lo com afinco, a partir de algum lugar definido.

Estudar um fenômeno é esforço coletivo e multiangular ao longo do tempo que exige parcerias, complementariedade e criticidade. Estudar um fenômeno é construir um conjunto de miradas. Aqui, queremos ofertar uma das possíveis miradas sobre o bilinguismo de surdos. Uma parte de um todo. E uma parte que expressa algo do todo.

Deste modo, o presente capítulo pretende construir um olhar possível sobre o fenômeno que conhecemos por bilinguismo de surdos. A base de nossa observação, nosso mirante sobre esta criação humana pensada para e por surdos, será o bilinguismo geral 2, ou melhor, o bilinguismo enquanto fenômeno humano amplo que expressa algo da nossa paradoxal condição humana e que realiza algo do anseio comunicante presente em todos nós, anseio que independe de qual seja o nosso aparato orgânico.

Ao pensarmos o bilinguismo de surdos assumimos aqui que este tanto se encontra inserido no contexto maior das definições e tensões do bilinguismo geral, como apresenta particularidades advindas da condição sensorial específica e da situação mais recorrentemente sofrida por esta população. Posto isto, nosso objetivo é apontar certos aspectos biopsicossociais envolvidos nesta temática maior do bilinguismo geral, enquanto fenômeno humano linguístico-comunicante e o que isto levantaria de contribuições para o bilinguismo de surdos.

2. De onde partimos: o humano como ser comunicante

Nós, seres humanos, somos, no mínimo, complexos. Somos vida e morte. Somos temporários, mas desejamos a eternidade. Somos frágeis e fortes. Somos corpo físico, mas também ente psíquico. Somos choro e riso. Somos encontro e desencontro. Somos singulares e plurais. Somos particulares e universais. Somos biologia e também cultura. Somos únicos e, ao mesmo tempo, somos todas as outras pessoas dentro de nós. Somos um todo e uma parte de um todo. Somos solidão e companhia. Somos o indivíduo e o social. Somos de um lugar e de uma época, no entanto, não somos reduzíveis a este lugar e época. Somos necessidade, assim como desejo. Somos no presente, porém, estão presentes algo do passado vivido e do futuro ansiado. Somos, na verdade, mais que complexos: somos paradoxais.

Pois um modo possível de descrevermos esta nossa paradoxal condição humana seria dizer que somos a partir de três dimensões dialeticamente relacionadas: a dimensão ética, a dimensão subjetiva e a dimensão situacional. Inseparáveis no cotidiano, elas são dimensões de um mesmo fenômeno: a existência humana (e suas manifestações). E que nossa vida é, em especial, a busca pela experiência de aparição de si entre outros humanos. A busca por uma vida que existencialmente valha à pena, não apenas uma vida orgânica e materialmente existente (LUZ, 2011, 2013). Vejamos.

Na dimensão ética temos revelado o anseio de sermos reconhecidos como um alguém a priori, um rosto (LEVINAS, 1988), um alguém único e irrepetível, ou seja, de sermos recebidos incondicionalmente por presença afetiva e efetiva que se responsabiliza por nossa existência e manifesta a isso, acolhendo com consistência nossa duradoura fragilidade orgânica e psíquica. Existimos, considerando esta dimensão, desde o princípio de nossa vida e independentemente de quaisquer atributos específicos. Somos pessoas e simplesmente por nossa presença no mundo, somos dignos. Esta relação de reconhecimento e de responsabilidade com um alguém, de um rosto, é que consideramos ética. Sem este apoio, esta balsa humana, para nossa travessia pela delicada experiência da vida, ficaríamos mais gravemente desamparados (SAFRA, 2004).

E sobre que bases esta dimensão ética se transforma de mera potência em um acontecimento? A dimensão subjetiva ilumina um pouco mais nossa paradoxal condição. Sempre como rosto, como um alguém a priori, nós acontecemos criativamente a partir de um suporte orgânico, ou seja, de um amparo físico, um corpo específico que é dotado de certas disponibilidades sensoriais e motoras. É este alguém em um corpo único que encontra e é encontrado por um Outro, ou seja, um humano, com quem experiencia a alteridade, o não-eu, o afeto, a cultura etc., e, por meio de quem, recebe o mundo singularizado. Somos psicossoma que singulariza continuamente o Outro e que busca revelação única de si, ou seja, que anseia por aparição.

Trata-se de um rosto que experiencia gradativamente a um si-mesmo, o Outro e o mundo a partir de sua base orgânica e que busca significá-los de modo interpretativo. E, com o passar do tempo – e se tudo corre bem –, a tudo isso o faz de modo cada vez mais singular. Um singular que emerge de uma criatividade primária e demanda gestação pelo plural. Assim, o alguém tem sede de ser cada vez mais um eu de contornos psicológicos definidos de modo mais preciso, um si-mesmo, um ente singularizado para si e para o Outro, um alguém que tem testemunhada presença, que tem aparição para si e para o Outro no mundo. Aqui, a experiência cada vez mais completa de si e do mundo se dá como dependência do Outro, como interpretação (cri)ativa deste e do mundo, como significação do que é vivido dentro de si, na sua cultura, na sua família, na sua escola etc.

Somos seres criativos, dependentes e ansiamos por realização singular no mundo, por aparição. Neste sentido, somos seres potencialmente interpretantes do nosso interior, do Outro e do mundo, e a isso realizamos quando podemos experienciar consistentemente uma das mais importantes facetas do nosso anseio por aparição: o ser comunicante. Aparecer é interpretar e ser interpretado. Não é somente comunicar, tampouco ser comunicado. Aparecer é se comunicar. É poder, com o apoio do nosso Outro linguístico, “passar da sensação para o ‘sentido’, ascender do mundo perceptivo para o conceitual” (SACKS, 1998, p. 74, grifo do autor).

É, em muito, deste anseio humano por contato interpretante e comunicante consigo mesmo e com o nós, deste querer aparição reconhecida, que as línguas surgem entre os humanos. As línguas são, sob esta óptica, uma manifestação potente, variável, altamente complexa e no tempo de algo muito simples: o anseio comunicante em nós. Enquanto somos inseridos no mundo, experienciamos a algo e a seu específico nome em determinado idioma juntos. Esta é a dimensão subjetiva da condição humana: um alguém como um ser biológico, psíquico e comunicante, singularizando-se nas experiências de mundo, entre Outros linguísticos.

Ainda assim, falta definir algo sobre a condição humana enquanto paradoxo. E é no reconhecimento da dimensão situacional que encontramos maior sustentação dialética para isso. Como poderíamos acontecer, enquanto seres encarnados e singulares, mas a partir do nada, do vazio? Seriam o mundo e o Outro genéricos e atemporais? Na verdade, nunca. O mundo e o Outro que bebemos de modo interpretativo sempre são manifestações específicas em um tempo e espaço. Dito de outro modo, é sempre a partir de um lugar, uma época e entre subjetividades com seus modos de ser relacionalmente forjados que acontecemos no mundo.

Este quando-onde-quem-como é uma das bases experienciais do nosso acontecimento. E esta equação apresenta uma manifestação criativa e coletiva muito potente em termos experienciais: a cultura. Quaisquer pessoas, incluindo nossos pais/cuidadores, cresceram bebendo em uma fonte cultural, com certos valores, idiomas, alimentos, sons, cores, cheiros, visão de homem e mundo, organização política etc. Quando estes cuidadores nos gestam e nos inserem no mundo, eles o fazem a partir da singularização que realizaram das culturas por eles experienciadas, da cultura que lhes foi apresentada por pessoas reais, por seus respectivos Outros.

Somos, então, não só a partir da recepção ética e de um corpo específico e pleno de anseio por aparição, mas também a partir de modos de ser particulares que se configuram em uma situação datada, localizada, única e encarnada. E esta é a dimensão situacional da condição humana.

Em síntese, um modo possível de compreendermos a paradoxal condição humana é a partir das suas três dimensões componentes: é dizer que acontecemos a partir de nosso aparato orgânico único e comunicante e do fato de sermos um alguém que foi recebido, em algum grau, eticamente como um rosto em uma situação específica que experienciamos ao longo dos anos, no mundo e entre Outros. E que no fundo, o que lutamos para alcançar é a realização do anseio por aparição singular, de presença única, criativa e comunicante que, mesmo organicamente finita, pode se eternizar nos corações dos que desse testemunharam existência única.

Pois os idiomas são uma das maiores manifestações da paradoxal condição humana. Embora não seja a única forma de experienciar nossa essência comunicante, uma língua é uma poderosa maneira de a isso alcançar. Cada idioma, não sendo fenômeno puramente natural, mas sim manifestação direta do acontecer humano, também revela as três dimensões da nossa experiência no mundo e entre Outros: a dimensão ética, a dimensão subjetiva e a dimensão situacional.

Cada idioma exala, por todos seus detalhes, o contextual que se apoia no universal, o cultural que emerge do ontológico, o psicológico apoiado no orgânico, o humano amparado pelo ético. Cada língua sintetiza certa sensorialidade humana, a estética local, saberes e fazeres de determinado grupo e época, certas nomeações, as especificidades da natureza local, as condições materiais de vida, os jogos de força entre determinados grupos etc. As línguas, emergindo de subjetividades em situação, são produções humanas que permitem concretização do apoio ético do qual precisamos para acontecer no mundo plenamente. Ou seja, as línguas, por serem fenômenos humanos, expressam as três dimensões da nossa condição.

As línguas expressam, direta e indiretamente, o anseio humano por interpretação e comunicação, por realização de si entre Outros, por aparição. As línguas revelam, em suas eternas transformações, subjetividades em situação que continuamente as gestam, negam, oprimem, transformam, publicizam, padronizam etc.

Sobretudo, a partir da presença de uma dimensão situacional na existência humana, podemos afirmar: nós, seres humanos, quando falamos, não falamos línguas genéricas. Falamos, pelo menos potencialmente, uma específica língua. E até mais do que isso: falamos específica língua singularizada e inteligível. Sendo criação humana, um idioma é sempre uma invenção cultural, vital, criativa, localizada, datada e em ininterrupta mutação. Sempre se encontra sendo subjetivada por seus falantes. Sempre está sendo forjada situacionalmente.

Qualquer língua, como toda manifestação humana, é produção coletiva e fluida que colabora no alimento situacional específico que nutre uma pessoa: as línguas são subjetivantes, ou seja, são essenciais na singularização de um alguém. São estruturantes de subjetividade e de aparição. São chão linguístico para o acontecimento comunicante de um alguém entre Outros. E são também expressão das tensões humanas em determinada região e época. Deste modo, as línguas são, ao mesmo tempo, fenômeno universal, situacional, coletivo e em singularização. São tridimensionais.

Detendo-nos em alguns traços mais próprios de sua dimensão situacional, podemos, por exemplo, descobrir que, contemporaneamente, estão calculadas em 6.909 as línguas vivas – isso sem contar suas variações internas. Ou seja, temos hoje quase sete mil idiomas sendo utilizados pelos cerca de seis bilhões de pessoas que habitam este planeta (ETHNOLOGUE, 2009). Somos seres infinitamente criativos, comunicantes e situacionais. E, certamente, estas quase sete mil línguas são uma das mais fortes provas disto.

Tal a força dos idiomas na vida humana que estes se tornam fator de agregação para além de outros traços humanos, como os culturais, os religiosos e os nacionais. A isso os sociolinguistas chamam de “comunidade linguística”:

Certamente os grupos identificados primariamente com suas línguas não são os países ou as nações. [...] Com a criação das nações modernas, houve um esforço político muito grande para estabelecer uma língua como a ‘língua da nação’ (e esse esforço continua até hoje). Outra ideia atraente para associar línguas aos grupos humanos é a de associar cada língua com uma tribo, ou cultura, ou povo. Muitas línguas são chamadas com o nome do povo que as falam. Mas, como veremos mais adiante, os povos também não vivem em isolamento em relação a outros povos, e a relação de uma língua com um povo acaba não sendo uma relação simples. Os grupos associados ao uso de línguas são menores (ou maiores!) do que uma nação, e não correspondem exatamente nem a tribos, nem a culturas, nem a etnias (MCCLEARY, 2009, p. 7-8, grifo do autor).

Seguindo por este viés 3, ou seja, focando-se na ideia da língua como manifestação linguística dos seres sociais que nós somos, podemos descobrir que, de todas as línguas vivas, apenas 172 são faladas como primeira língua por comunidades linguísticas com mais de três milhões de integrantes e que 94% das línguas vivas são faladas por menos de um milhão de usuários, o que soma apenas 6% da população (ETHNOLOGUE, op. cit). Mas isto significaria que estas minorias linguísticas, falantes da maioria dos idiomas existentes atualmente no mundo, estariam, por sua quantidade de integrantes e por seu idioma incomum, excluídas da vida contemporânea global e dos processos coletivos subjetivantes que facilitam alcançar aparição singular entre Outros?

Potencialmente não, e menos ainda se estiverem em comunidades linguísticas politicamente reconhecidas como dignas e plenas de direito. Como em toda questão humana, no que concerne também à diversidade linguística, relações de dominação – que querem, por quaisquer motivos, reduzir a criatividade e pluralidade inerente aos humanos – são uma possibilidade, aqui nomeada como monolinguista. Uma possibilidade limitada e limitante, mas factível. Ainda assim, mesmo quando são consideradas representacionalmente como produtoras de exclusão e são proibidas ou diminuídas simbolicamente, muitas pátrias linguísticas – talvez um nome alternativo para o que chamamos de comunidades linguísticas – continuam resistindo e permanecem engendrando singularidades apoiadas na experiência de aparição que suas línguas vivas, enraizadas e plenas facilitam.

Aliás, com tal força do anseio comunicante em nós, com tanto pertencimento e subjetivação ofertados pela experiência de um código linguístico vivo e pleno com o qual nos vinculamos, com tanta riqueza humana portada pelas diferentes línguas, com tantos Outros linguísticos pelo mundo, tantas comunidades linguísticas e tantos entrecruzamentos e trocas possíveis entre estas, seria, no mínimo, muita ingenuidade afirmar que, nós humanos, nascemos para sermos monolíngues 4. O humano é, na verdade, infinitamente comunicante 5.

3. Nosso mirante: o ser comunicante e o bilinguismo

Somos seres paradoxais, frágeis, dependentes, criativos, situacionais, psicossomáticos, aparicionais, comunitários e comunicantes. E por ser esta a nossa condição humana é que idiomas foram e continuam sendo gestados. Bom, e o que isto teria a ver com o fenômeno humano do bilinguismo? Este seria o domínio de duas línguas e só?

Em um primeiro momento, poderíamos dizer apenas que o bilinguismo é a habilidade humana de um alguém usar bem dois idiomas distintos. Mas, como todo fenômeno humano, é bem mais complexo do que isso. Segundo Flory & Souza (2009), o termo representa uma quantidade infinita de quadros distintos, ligados a aspectos inúmeros da vida humana – sociais, culturais, econômicos, políticos, legais, históricos, psicológicos etc. –, sendo, por isto, inúmeros os sentidos que lhe podem ser atribuídos.

De modo geral, costumam ser foco dos estudos sobre o fenômeno humano do bilinguismo aspectos como: repertório linguístico total, seus domínios de uso e as funções que as línguas exercem na vida da pessoa bilíngue (GROSJEAN, 2008); o grau de proficiência nas línguas, função e uso das línguas, a alternância entre os códigos e a interferência entre eles (MACKEY, 2000, apud MEGALE, 2005); e as competências nas duas línguas, a organização cognitiva destas, a idade de aquisição, a presença de comunidade linguística falante de uma segunda língua no entorno, o status relativo das duas línguas, a filiação grupal e a identidade cultural (HAMERS & BLANC, 2000, apud MEGALE, op. cit).

São muitos os caminhos possíveis para compreensão deste tema: são alguns os modos de nomeação do termo (unidimensionais e multidimensionais); são algumas as perspectivas para estudo deste fenômeno (sociais, psicológicas, cognitivas etc.); são distintos os tipos de bilinguismo (bilinguismo individual, quando estudamos o fenômeno em um indivíduo e bilinguismo social, quando estudamos uma mesma comunidade que usa dois ou mais idiomas); há distintos graus de habilidade bilíngue nos indivíduos (a bilingualidade); e várias são as forças situacionais ajudando a produzir uma maior ou menor quantidade e qualidade de pessoas bilíngues (políticas de paradigma monolinguista ou multilinguista) (PHILLIPSON, 2002; MEGALE, op. cit; PATEL, 2007; FLORY & SOUZA, op. cit; MOURA, 2009; SALGADO & DIAS, 2010).

E que caminho adotaremos no presente capítulo para nossa inserção no tema do bilinguismo? Um tecido com base nas referências iniciais apresentadas acima, ou seja, o da assunção do acontecimento humano, enquanto fenômeno baseado em três dimensões – a dimensão ética, a subjetiva e a situacional – com foco na faceta comunicante que compõe a ansiada experiência humana de aparição. Vejamos a que mirante esta trilha pode nos fazer chegar.

Nos primeiros anos de vida, nós humanos experienciamos o repertório comunicante dos nossos primeiros Outros, nossos primeiros cuidadores e, deste, nos alimentamos criativa e sensorialmente, enquanto iniciamos nossa realização como seres linguísticos e únicos. Trata-se de um Outro que é, no aspecto comunicante, um Outro linguístico.

A este rico e situacional código linguístico ofertado pelo agrupamento humano que nos recebe no mundo, que aprendemos a partir do experienciável por nosso aparato orgânico, que nos subjetiva, e com a qual nos identificamos afetivamente, os linguistas chamam de “língua materna”. Mas quando os cuidadores deste ser que chegou ao mundo sabem e desejam usar mais de uma língua com seu filho, ou seja, ofertar mais de uma língua materna, gestam seres bilíngues: crianças nascidas no Japão, filhas de pai brasileiro e mãe japonesa, que aprendem o japonês e o português; crianças nascidas no México que têm pai inglês e mãe mexicana e crescem bilíngues em espanhol e inglês, entre infinitas possibilidades.

Mas seria este o único caminho de nos tornarmos usuários, em algum grau, de mais de um idioma, ou seja, de sermos bilíngues? Somos bilíngues caseiramente e só? De modo algum! Com o passar dos anos são múltiplos os Outros linguísticos com quem podemos e queremos ter contato comunicante. E estes se comunicam por meio de inúmeros códigos. Desta forma, podemos ter à nossa disposição vários idiomas: o(s) idioma(s) de nossos pais; o dos demais familiares; o das pessoas do bairro, da aldeia, da cidade, da escola, da mídia; o dos amigos; o dos parceiros de trabalho etc.

Recebemos algum nome inicial para as coisas que estão dentro e fora da gente e algum jeito de construir nossa expressão linguística por meio de pessoas que são falantes de determinados códigos linguísticos: do português, do mandarim, do russo, do inglês, do iorubá, da Libras, do guarani, do árabe, do quéchua e de mais umas 6.900 possibilidades, atualmente.

Em nossa sede comunicante, experienciamos psicossomaticamente pessoas e idiomas juntos. Por isso, são incalculáveis os caminhos por meio dos quais podemos nos tornar, em algum grau, bilíngues: aprendemos um idioma com a mãe, outro com o pai; dois idiomas na família; um idioma em casa, outro fora; dois idiomas em países ou comunidades oficialmente bilíngues; um em casa e outro em escola de línguas; um na família e outro na escola; um idioma na esfera privada, outro na esfera pública; dois em casa e um deles também na escola; um até a vida adolescente e um segundo a partir da vida adulta; um durante a vida no país natal, outro no país para onde imigrou; dois no país natal e um terceiro no estrangeiro; um na vida pessoal e dois outros na vida profissional, e por aí vai.

Sendo uma experiência ética, subjetiva e situacional de contato ao longo da vida com um conhecimento linguístico produzido historicamente, o aprendizado e uso de distintas línguas por uma pessoa acaba se materializando, na dimensão subjetiva, em habilidades bilíngues individuais variáveis em grau, mutáveis com o tempo e variáveis ainda de acordo com o contexto de uso: a bilingualidade. Deste modo, cada pessoa demonstra uma gama de infinitas e fluidas possibilidades linguísticas que variam ao longo de um contínuo bilinguismo precário, algum semibilinguismo, até um bilinguismo individual equilibrado (MCCLEARY, 2009).

Como se não bastasse toda esta complexidade e certa precariedade na experiência humana da bilingualidade, cabe ainda pontuar que são, em geral, quatro as habilidades linguísticas possíveis de uma pessoa em cada idioma, o mesmo valendo quando falamos de algum uso em dois ou mais idiomas: a habilidade compreensiva da fala, a habilidade expressiva de fala, a habilidade de leitura e a de escrita 6.

Por tudo isto, falarmos de bilinguismo apenas enquanto o domínio de dois ou mais idiomas por uma pessoa ou por uma comunidade é muito pouco. A partir do que analisamos acima, o mais justo seria dizermos que: a habilidade de um alguém em duas ou mais línguas varia em grau, contextualmente, ao longo do tempo e nas quatro (ou duas) habilidades linguísticas derivadas de cada idioma e que as possibilidades bilíngues dependem de tudo o que compõem a experiência humana de aparição, ou seja, dos aspectos mais facilmente identificados quando assumimos as três dimensões do digno acontecer humano, isto é, dependem do seu aparato sensorial singular, da qualidade ética das suas experiências no mundo, do ofertado situacionalmente por seu entorno, das suas experiências formativo-educacionais formais/informais, dos seus laços afetivos, de seus interesses pessoais/profissionais, do seu momento de vida, entre outras potências e condições.

O bilinguismo e suas manifestações são múltiplos porque os caminhos comunicantes de cada ser humano são únicos, afetivos, eticamente facilitados/dificultados, situacionais e em contínua mutação.

4. Fortalecendo nosso mirante: direitos linguísticos, políticas públicas e o bilinguismo

Se do ponto de vista ético e subjetivo o bilinguismo é algo absolutamente legítimo, possível e comum 7, na dimensão situacional a questão se torna mais complexa. Embora sejam declarados e publicizados atualmente direitos universais para todos os humanos, inclusive o da pluralidade linguística, é na realidade situacional de cada território político-administrativo que os discursos e as ações em torno da diversidade linguística se tornam realidade para sua população. Vejamos com calma.

Internacionalmente, a especificação e o reconhecimento dos direitos fundamentais inerentes a absolutamente qualquer ser humano ganharam uma maior definição e publicização, especialmente a partir do impacto de total horror causado pela intolerância e violência extremas manifestadas durante a Segunda Guerra Mundial.

Desde então, sob a liderança da Organização das Nações Unidas e suas diferentes suborganizações e agências, alguns documentos 8 têm sido acordados por seus paísesmembro, partindo de direitos mais gerais na direção de maiores especificações conforme diferentes grupos humanos ganham consciência crítica sobre a qualidade das condições de vida que lhe são ofertadas, identificando seus direitos e suas respectivas violações: Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948; Declaração Universal dos Direitos das Crianças, de 1959; Declaração Mundial sobre Educação para Todos, de 1990; Declaração de Salamanca, de 1994, entre outros.

É desta sucessão de gerações de direitos universais (DOUZINAS, 2012) que os direitos linguísticos têm sido mais tematizados. Assentados sobre o princípio ético da diversidade cultural como riqueza e como patrimônio da humanidade e de seus específicos grupos, os direitos linguísticos têm sido proferidos dentro dos marcos da imprescindível pluralidade humana. Segundo Fonseca (2007):

No cenário internacional, a questão da diversidade linguística se insere no universo mais amplo da preocupação com a diversidade cultural. Em 2002, a Unesco publicou o Atlas das línguas em perigo no mundo; em 2003 foi aprovada pela Assembleia Geral da organização a Convenção para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial, que inclui no seu Artigo 2, intitulado Definições, ‘a língua como vetor do patrimônio cultural imaterial’; e, em 2005, a Convenção sobre a Proteção e a Promoção da Diversidade das Expressões Culturais reconhece em seu Preâmbulo que ‘a diversidade linguística é um elemento fundamental da diversidade cultural’. Acha-se em estudo, na ONU, a proposta de uma Declaração Universal dos Direitos Linguísticos 9, proclamada em Barcelona em 1996 (grifos do autor) (FONSECA, 2007).

Mesmo considerando o papel vital destas declarações como ideal positivo do humano – e aqui sustentando alguma legítima universalidade destas declarações – há uma significativa diferença entre sua confecção e publicização, enquanto documento, e a sua efetivação no cotidiano das pessoas de carne e osso. Sendo imprescindível seu registro, é preciso construir ações para que haja sua execução. Deste modo, além de declarar ideais humanos como o direito à pluralidade cultural e ao bilinguismo, é central construir ao máximo seu acontecimento dentro e entre todas as inúmeras comunidades linguísticas existentes atualmente no mundo. Mas como?

Mesmo sendo essenciais as declarações em escala mundial, é na escala territorial de um Estado e nas suas subdivisões administrativas que, na contemporaneidade, pode-se falar em acontecimento dos direitos humanos. E, são as subjetividades diversas que habitam estes territórios, os protagonistas potenciais de sociedades mais dignas e plurais.

São os posicionamentos políticos regionais, em mutação ao longo do tempo, oriundos de tensões universais e situacionais, globais e locais, éticas e contextuais, leigas e técnicas, práticas e teóricas, populares e administrativas, afetivas e pragmáticas, comunitárias e estatais, que são forjadas as ações humanas em um território, em especial por meio das políticas públicas. Seu planejamento organizado e sua execução são a manifestação maior dos anseios dos habitantes de determinado território. Nas políticas públicas estão seus maiores sonhos e medos, suas experiências, desejos de futuro e suas estratégias para isso. Pelo menos, é o que de melhor as políticas públicas poderiam ser.

Atualmente, é em muito por meio das políticas públicas que o direito universal pode alcançar alguma realidade local, os anseios ontológicos podem ser mais bem amparados e se manifestarem sob a forma de aparição cotidiana e os direitos linguísticos podem acontecer, enquanto experiência comunicante efetiva. E é sob a forma de dois grandes paradigmas que os seres humanos cuidam politicamente de suas línguas: o paradigma monolinguista e o paradigma multilinguista.

No primeiro paradigma, o monolinguista, expressão de uma relação de poder entre duas ou mais comunidades linguísticas distintas, uma seria representacionalmente superior e mais legítima por motivos situacionais, afetando a base comunitária e linguística, de inserção ética, estética, psicossomática e plural no mundo dos membros daquela que está sendo considerada enquanto minoritária, com uma suposta vantagem de que estaria sendo construído, a partir da unidade de código linguístico, algum tipo de fortalecimento econômico e político nacional – ou global, quando no caso da escolha de línguas francas em eventos e encontros internacionais.

No segundo paradigma, o multilinguista, pautado sobre os princípios da igualdade e dos direitos humanos, as línguas gozariam de igual prestígio e estes códigos comunicantes das específicas comunidades linguísticas seriam base ética para a pluralidade cultural e para a singularização, por um alguém de uma cultura amparada na realidade e história locais e, por isso, seriam balsa afetiva para a realização de um simesmo, enraizado na comunidade de origem – entre outros argumentos de cunho ético, psicológico e sociológico que tornariam quaisquer idiomas algo desejável e digno de apoio sistemático (CAVALCANTI, 1999; PHILLIPSON, 2002; PATEL, 2007; FONSECA, op. cit; MOURA, 2009).

O grau de capacidade de um país em reconhecer sistematicamente os direitos linguísticos universais de seus habitantes, acolher sua diversidade cultural e as diferentes comunidades linguísticas que o compõem, ou seja, de assumir, o ético paradigma multilinguista, expressa-se na qualidade das ações voltadas para a oferta de condições materiais e imateriais dignas e para a formação plural desta população.

Tais ações de Estado acontecem transversalmente por meio dos mais distintos discursos e práticas garantidos, enquanto políticas públicas neste território: políticas de segurança, políticas culturais, de saúde, de habitação, em educação etc. E é pela qualidade ética destas políticas e pela relação intersetorial entre os atores envolvidos na efetivação destas diferentes ações estatais que, em muito, ampara-se a realização de um país mais humano.

É, em especial, por meio do planejamento e das escolhas linguístico-educacionais públicas, em relação às novas gerações, que o paradigma multilinguista se efetiva em um Estado. O paradigma multilinguista e o grau de acolhida da diversidade linguísticocultural presentes nas políticas públicas de Estado, tem seu carro-chefe, nas políticas públicas educacionais.

Estas políticas são centrais fomentadoras do paradigma linguístico nacional, de como os idiomas das distintas comunidades linguísticas locais estão sendo apoiados em um território político-administrativo e nas suas subdivisões. Aliás, não só quais idiomas são cuidados politicamente neste território, mas também em como se lida com as variedades linguísticas destes códigos (CAVALCANTI, op. cit). Ou seja, o paradigma multilinguista não se expressa somente por meio do bilinguismo, mas igualmente por meio da qualidade da acolhida da variedade padrão e das variedades não padrão de cada língua. O paradigma multilinguista pleno é chão do bilinguismo e, igualmente, do bidialetalismo.

Pensando a realidade formativa de um país, múltiplos são os espaços que podem possuir práticas educacionais mais explícitas: escolas, ONGs, associações, sindicatos, entidades filantrópicas, igrejas, postos de saúde, centros culturais, museus, escolas de idiomas etc. Destes todos, é a escola que se configura, em nossa tradição ocidental, como a principal instituição na formação de um país ética, subjetiva, cultural e linguisticamente mais plural. A escola é um lugar privilegiado para isso. É um terreno bastante importante no acontecimento das políticas públicas educacionais de um Estado.

Mas qual seria mais explicitamente então, a ligação entre o anseio comunicante, o bilinguismo e estas questões sobre direitos humanos, políticas públicas, educação e escola? Bilinguismo pode ser acontecimento nas mais diversas experiências de nós, de Outros linguísticos, pois tudo relacionado à alteridade – e aos espaços onde esta pode ser encontrada – possui potencial força comunicante, formativa e subjetivante 10: a casa, o bairro, a igreja, o local de trabalho, o clube e também a escola, entre outras. Bilinguismo não se limita estritamente às políticas públicas educacionais, nem apenas à educação bilíngue.

O que o Estado produz, enquanto síntese das tensões situacionais e defende nacionalmente por meio de suas diferentes políticas públicas intersetoriais é condição bastante significativa para a produção de relações mais (ou menos) éticas entre as diferentes comunidades linguísticas locais. Dentro disto, o paradigma linguístico presente nas políticas educacionais, é primordial para analisarmos o grau de bilinguismo assumido e fomentado nos territórios e subterritórios de um Estado, sendo suas escolas um dos locais mais privilegiados para seu acontecimento. Políticas públicas, bilinguismo, educação bilíngue e escolarização bilíngue não se equivalem, mas se encontram, na contemporaneidade ocidental, relacionados em muito.

Dos dois grandes paradigmas linguísticos apontados acima emergem os dois grandes tipos de programas bilíngues de educação nas escolas: o bilinguismo educacional fraco, expressão do paradigma monolinguista, nos quais as crianças oriundas de minorias linguísticas passam por um processo de assimilação à língua com prestígio local, sendo seu objetivo o monolinguismo na língua dominante ou um bilinguismo limitado; e o bilinguismo educacional forte, expressão do paradigma multilinguista, em que o idioma de sua comunidade linguística de origem, o idioma majoritário do território político-administrativo em que vive e/ou um idioma de prestígio internacional são utilizados no cotidiano escolar e, no qual, todas estas línguas gozam de equilibrado prestígio social (MOURA, 2009).

Na sua forma escolar forte, ou seja, na escolarização bilíngue multilinguista, o bilinguismo deve fazer parte do programa institucional, sendo as línguas, em questão, meio e não apenas objeto de ensino. Deste modo, neste tipo de escolarização, os idiomas presentes são meio e fim em si mesmo. Nestas escolas bilíngues, ensina-se as línguas e por meio das línguas, sendo o bilinguismo experiência escolar sistemática de contato com o Outro, com a pluralidade:

[...] para ser caracterizada como escola bilíngue, é necessário que a escola se organize em todos os aspectos para promover bilingualidade por parte de todos os alunos atendidos, bem como promover aos alunos, acesso a componentes culturais relacionados às línguas, ampliando suas competências comunicativas e sua visão de mundo. O currículo deve prever uma carga horária dedicada ao ensino de cada língua, presente como meio de instrução nas áreas do conhecimento. O ambiente deve promover o contato com ambas as línguas por meio do oferecimento de materiais e oportunidades de interação. Os professores precisam ter o necessário conhecimento do objeto de ensino – as línguas – para poder ensiná-lo pela comunicação com os alunos (MOURA, op. cit, p. 53-4).

Segregar, assimilar ou alimentar o singular pelo plural, no campo linguístico, são extremamente distintas ações decorrentes, sobretudo, das políticas intersetoriais de um Estado. São produzidas situacionalmente a partir das tensões locais, estando sua resultante em maior ou menor grau articulada com os direitos universais e os anseios comunicantes e comunitários presentes em todos nós. Algumas resultantes, facilitando aparição, outras, dificultando. A acolhida irrestrita – ou seja, sistemática e estável, especialmente por meio das políticas públicas – dos direitos linguísticos universais e do anseio comunicante em todas as esferas da vida local é a acolhida da riqueza humana e um grande apoio ético ao princípio constitutivo do si-mesmo: a diversidade.

5. Nosso olhar: a condição surda e alguns apontamentos sobre o bilinguismo de surdos

Em nossa apresentação, fizemos algumas perguntas simples que adiantavam as questões principais que queríamos discutir ao longo do capítulo. Delas, duas ainda restam responder. Por hora, vamos resgatar a penúltima pergunta: os surdos seriam um caso diferente de sujeitos potencialmente bilíngues?

Para responder a esta, a partir dos conceitos trazidos aqui, é preciso explicitar um pouco melhor, alguma compreensão específica acerca da pessoa surda, ou melhor, da condição surda. Vejamos: entendemos que essa pessoa, como as demais, sofrem as vicissitudes da condição humana e que, do ponto de vista de sua corporeidade, apresenta, a partir de algum momento de sua travessia pela existência humana, uma significativamente baixa experiência sonora de mundo. Esta pessoa, como todos os humanos, organiza-se criativamente a partir da sensorialidade disponível em seu aparato orgânico – neste sentido, cabe afirmar que cada surdo é, inevitavelmente, diferente de um outro surdo. Quanto mais intensamente e mais cedo estiver presente esta sensorialidade surda, mais a realização de seu anseio comunicante dependerá, especialmente, das experiências visuais e motoras.

A fim de alcançar frequente aparição, a pessoa surda demanda, ao longo da vida, reconhecimento ético de seu rosto e acolhida humana de si, enquanto um alguém digno e irredutível a qualquer traço físico. Estas pessoas exalam, pelos poros, a mensagem intersubjetiva: sou uma pessoa, sou surdo, sou digno como qualquer outra e eu falo a partir do corpo que tenho, não apesar dele, e também a partir do que encontro de experiências comunicantes acessíveis entre Outros linguísticos. Neste sentido, antes de tudo, os surdos são uma minoria sensorial.

Temos, assim, configurada uma condição surda derivada da condição humana que se apoia em quatro aspectos centrais:

  1. no anseio por reconhecimento ético de seu rosto, ou seja, que independa da sua configuração orgânica;
  2. em uma sensorialidade surda variável em época, grau, tipo etc.;
  3. na ontológica sede humana por realização de aparição e, para isso, de experiências singulares plenamente comunicantes;
  4. e no anseio de um idioma que seja disponibilizado por Outros linguísticos e que, concomitantemente, seja acessível sensorialmente.

Os que experienciam esta condição surda geral, fazem-na de modo único. A experiência concreta desta condição não é algo genérico. Ou seja, cada surdo é uma pessoa distinta que experiencia sua específica condição humana surda de um jeito único, sendo que é, a partir desta e de como isso é contemplado ética e situacionalmente, que buscará singularização.

Mas qual seria a relação entre esta condição surda e o bilinguismo de surdos? Ao longo da história, a dimensão situacional tem oscilado muito na consistência humana do que tem ofertado em termos de condições materiais e imateriais para que, aqueles que vivem esta condição surda, encontrem aparição. E aí, em vez de ética balsa humana, o que tem se apresentado em muito para a existência destas pessoas é um precário e desamparador barco furado. Desta forma, uma digna travessia humana do surdo e sua plena aparição enquanto um si-mesmo, tornam-se, em muito, dificultadas. Do ponto de vista psicológico, o resultado desta repetida situação tem sido recorrente sofrimento psíquico (LUZ, 2003, 2005).

Pela rara frequência da sensorialidade surda entre os humanos e, sobretudo, pela predominância da experiência linguística oral e sonora entre os majoritários demais, as pessoas surdas estão, frequentemente, em situação bilíngue, ou seja, duas línguas fazem parte de seu cotidiano linguístico-comunicativo: alguma língua espaço-visual e alguma expressão da língua oral-auditiva (na sua versão escrita ou falada). Por tudo isto, diríamos não que os surdos seriam potencialmente bilíngues, mas que estes estariam potencialmente em situação bilíngue, em duas comunidades linguísticas. É na dimensão situacional mais recorrentemente presente para estas pessoas que sua condição surda tem demandado o desenvolvimento de alguma bilingualidade.

As pessoas que experienciam a condição surda, tal qual definida acima, estão – a partir da frequente situação de terem sua presença em uma comunidade majoritária que tem na sonoridade um aspecto constitutivo e que é usuária de outra modalidade linguística – em repetido e cotidiano contexto de dois ou mais idiomas. E isso pede a oferta situacional de condições éticas e subjetivantes para que sua bilingualidade aconteça o mais plenamente possível.

Definido, então, não um surdo em si, mas uma pessoa que vive de modo singular sua condição surda, e considerando a dimensão situacional mais recorrente em que estas se encontram, chegamos finalmente à derradeira e principal questão presente neste capítulo: no que o bilinguismo geral ajuda a pensar o bilinguismo de surdos?, ou seja, de que forma as experiências gerais bilíngues podem iluminar melhor as experiências surdas bilíngues?

É a partir da trilha biopsicossocial que adotamos, do mirante bilíngue amplo que alcançamos, das reflexões sobre direitos humanos e políticas públicas, da nomeação de uma condição surda atemporal a ser singularizada entre Outros e da constatação da situação ainda recorrente de serem minoria sensorial que levantamos alguns apontamentos no que tange ao bilinguismo de surdos:

  1. Do ponto de vista psicológico, é necessário que o bilinguismo de surdos considere a singularidade da experiência da condição surda que cada pessoa surda tem, em sua busca por aparição linguístico-comunicante entre Outros no mundo, sendo a realidade sensorial de cada um e a qualidade ética de sua situação, as bases de um processo de singularização desta condição e de uma potencial realização humana plena;
  2. Do ponto de vista linguístico, que o bilinguismo de surdos considere o processo multideterminado que é experienciar duas ou mais línguas; que trate disto, enquanto um processo de construção de bilingualidade fluida entre Outros linguísticos; que as duas línguas sejam consideradas importantes na situação recorrente de minoria sensorial das pessoas que vivem a condição surda; e que sejam assumidas as nuances e as respectivas decorrências da bilingualidade dos surdos, que é uma bilingualidade bimodal, pois, na sua expressão falada, a língua oral-auditiva é de limitado acesso sensorial e, na sua expressão escrita, é linguisticamente descontínua em relação à língua mais acessível aos surdos que é a de modalidade espaço-visual;
  3. Do ponto de vista legal, que o bilinguismo de surdos continue lutando por parâmetros legislativos internacionais e nacionais, a fim de oficializar o direito humano à diversidade cultural e linguística em todos os territórios em que se encontram pessoas surdas;
  4. Do ponto de vista político, que o bilinguismo de surdos possa trocar saberes e fazeres com os demais movimentos sociais de minorias, especialmente os de minoria linguística, para ampliar suas estratégias de luta política; e que o bilinguismo de surdos, enquanto movimento político, possa ajudar a fortalecer mais ativamente o planejamento e a efetivação de políticas públicas multilinguistas intersetoriais – portanto, não só as educacionais –, que façam de um país um território, na prática e em todas as esferas da vida social, balsa humana da pluralidade subjetivante;
  5. Do ponto de vista educacional, que o bilinguismo de surdos possa se entender como um processo maior que o da escolarização, assumindo que todos os espaços humanos são potencialmente educacionais e que, por isso, todos precisariam ser transformados em local de encontros efetivamente linguísticocomunicantes;
  6. Do ponto de vista escolar, que o bilinguismo de surdos possa materializar todos estes aspectos neste espaço educacional vital, enquanto um bilinguismo educacional do tipo forte, entendendo a escola tanto como um lugar produzido por humanos como também produtor de humanos; e que, para isto, possa amadurecer ferramentas de formação escolar mais adequadas, tanto à condição humana surda geral quanto à condição surda, singularmente vivida por cada um de seus alunos surdos;
  7. E, por fim, do ponto de vista familiar, que o bilinguismo de surdos possa se articular aos pais que assumem os cuidados de pessoas surdas, de modo a tornálos parceiros e protagonistas deste processo de formação, não seus inimigos, tampouco os que devem ser os heróis das pessoas que vivem a condição surda;

Estes são apenas alguns apontamentos a partir da trilha caminhada e do mirante que alcançamos no presente capítulo. Cada um destes sete pontos merece mais estudos, pesquisas e práticas ao longo do tempo. Por hora, ficam como reflexões multilinguistas sobre os que vivem a condição surda. Ficam como sugestões, a partir da psicologia e do bilinguismo geral, de aspectos a serem cuidados a fim de facilitarmos a realização de um bilinguismo de surdos mais eticamente sólido.

6. Nosso horizonte: considerações finais

O objetivo do presente capítulo era relativamente simples. Foi esboçar, a partir de uma possível definição sobre a paradoxal condição humana, algumas contribuições do bilinguismo geral para o bilinguismo de surdos. Para isso, buscamos utilizar vários conceitos oriundos, sobretudo, da psicologia e da linguística. Disto, surgiram os sete apontamentos acima registrados. Defendemos que bilinguismo, direitos linguísticos universais e políticas públicas intersetoriais multilinguistas devem caminhar juntos. Independentemente da condição sensorial de seus sujeitos, sejam surdos e ouvintes.

Entre a força do ontológico anseio comunicante, a realidade psicossomática única, os processos biopsicossociais de subjetivação e de constituição de um alguém em um si mesmo desejante, os saberes e fazeres presentes no âmbito familiar, o acesso a determinadas comunidades linguísticas, as experiências escolares pessoais, os discursos e práticas públicos amplos, mais ou menos facilitadoras de aparição e as políticas linguístico-educacionais praticadas por um Estado é que indivíduos bilíngues acontecem em maior ou menor grau. Ou seja, não só por meio das políticas educacionais, nem somente nas escolas. É entre Outros, éticos e facilitadores de aparição, que podemos ampliar nossa bilingualidade. Ou seja, depende da balsa humana que nos ofertam.

Esperamos que nossa trilha tenha sido acessível, que nosso mirante linguístico e político tenha sido alcançado por mais pessoas, e que o bilinguismo dos que vivem a condição surda tenha sido mais fortalecidamente mirado – não como miragem. E que estes escritos tenham clareado um pouco mais o horizonte neste campo.

De qualquer forma, dentro do que nos propusemos para este capítulo, não tínhamos como objetivo esgotar os assuntos polêmicos, complexos e ricos da condição humana, dos idiomas, do bilinguismo geral, da condição surda e do bilinguismo de surdos, assim como os demais pelos quais passamos rapidamente – correndo alguns riscos, inclusive.

Propusemo-nos apenas a pensar aqui o que o bilinguismo de surdos pode aprender com o bilinguismo geral, que é um modo de dizermos: o que os surdos podem aprender com a psicologia e a linguística. Tão ou mais rico teria sido perguntar o contrário: o que a psicologia e a linguística podem aprender com os surdos. Não faltariam descobertas incríveis. Fica para uma próxima oportunidade.

Aqui, tantas palavras foram usadas para dizer algo relativamente simples: sem acolher a diversidade, precariza-se o humano pleno. Por isso, defendemos exaustivamente o paradigma multilinguista e o bilinguismo no seu sentido amplo. Para comunicar esta ideia central, talvez não precisássemos de tantas palavras. Quem sabe? Talvez tivessem bastado apenas as primeiras, extraídas do filme Contato: se nenhum outro planeta linguístico fosse habitado, se fossemos todos monolíngues, se só nossa língua existisse, “seria um tremendo desperdício de espaço”.

Notas

1 E que de “minorias” estas só são no quesito representação política, de modo algum no quantitativo ou na sua dignidade humana.
2 O termo bilinguismo está sendo entendido ao longo de todo este capítulo como a capacidade de um alguém ou alguma comunidade usar, em algum grau comunicante, mais de uma língua, e não somente duas. Isto se dará pois acreditamos que nossas reflexões sobre as pessoas e as comunidades usuárias de duas línguas se aplicam, em grande grau, às de três línguas ou mais. Assim, em muitos momentos aqui, este termo adquirirá um sentido mais largo, enquanto sinônimo de multilinguismo/plurilinguismo. Em suma, com os limites e os alcances possíveis desta escolha, o termo bilinguismo, neste capítulo, guardará tanto seu sentido original, ou seja, de duas línguas - etimologicamente “bi” significa duas -, quanto um sentido linguístico mais amplo, de duas ou mais línguas.
3 Sendo uma leitura (sócio)linguística, no sentido dado por Calvet (2002), aqui, comunidade linguística parte do viés linguístico para compreender uma comunidade social, ou seja, este aspecto encontra-se relacionado aos demais que se manifestam diariamente na vida coletiva humana, nunca estando o linguístico totalmente separado ou mesmo identificado por completo com quaisquer outros aspectos.
4 Calvet (op. cit) vai além e pontua mais agudamente a inexistência do monolinguismo: “É realmente preciso conceber que todos os falantes, mesmo quando se acreditam monolíngues (que não conhecem ‘línguas estrangeiras’), são sempre mais ou menos plurilíngues, possuem um leque de competências que se estendem entre formas vernaculares e formas veiculares, mas no quadro de um mesmo conjunto de regras linguísticas” (p. 101-2, grifo do autor). Em outras palavras, nós falamos variações linguísticas de acordo com as distintas situações sociais, mesmo dentro de um idioma compartilhado, o que não deixa de ser manifestação de algum tipo de bilinguismo.
5 A título de exemplo, no Brasil, considerado supostamente como um território monolíngue, são utilizadas, além da língua portuguesa, cerca de 180 línguas distintas, incluindo duas línguas de sinais: a Libras e a língua de sinais dos Urubu-Kaapor (ETHNOLOGUE, 2009). Segundo Cavalcanti (1999), no país, são alguns os contextos bilíngues, geralmente de minorias (políticas): contextos indígenas; contextos de imigração; contextos de fronteiras e a comunidade surda; além dos contextos bidialetais/urbanos em que são utilizadas variações distintas ao do português padrão e que, inclusive, englobaria a maioria da população brasileira dentro e fora da escola. Desta forma, não só seríamos bilíngues no Brasil, no sentido amplo, como também bidialetais nas variações de português, incluindo muitas das pessoas pertencentes aos contextos de minorias. Disto decorre que são alguns os modelos de educação bilíngue presentes no país, a maior parte em comunidades linguísticas minoritárias politicamente: as escolas de fronteira (português-espanhol), as escolas bilíngues para surdos (libras-português), as escolas indígenas (língua indígena-português); as escolas de comunidades de imigrantes (portuguêsalemão/italiano/japonês/coreano etc.); e as escolas de elite (português-língua com prestígio internacional) (CAVALCANTI, op. cit; MOURA, 2009).
6 Vale aqui a ressalva de que muitas línguas são, até o momento, ágrafas, ou seja, não possuem um sistema de registro escrito. Sendo assim, no caso das línguas ágrafas, são apenas duas as habilidades alcançáveis: a compreensiva e a expressiva da fala.
7 Segundo Grosjean (2008), estima-se que 50% da população mundial saiba, em algum grau, pelo menos duas línguas.
8 Uma interessante crítica sobre a real universalidade dos documentos produzidos majoritariamente a partir da tradição do pensamento ocidental, assim como alguns dos possíveis limites internos destes materiais, podem ser encontrados em Douzinas (2012).
9 A UNESCO, agência da ONU responsável por lutar pela paz e pela segurança mundiais por meio de documentos e ações no campo da educação, ciência e cultura, assinou e tem apoiado este documento e a seguinte introdução consta em seu site português: Partindo do princípio que a situação de cada língua é o resultado da confluência e da interacção de uma multiplicidade de factores - político-jurídicos, ideológicos e históricos, demográficos e territoriais, económicos e sociais, culturais, linguísticos e sociolinguísticos, interlinguísticos - a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos considera que todas as línguas são a expressão de uma identidade colectiva e de uma maneira distinta de apreender e descrever a realidade, pelo que devem poder beneficiar das condições necessárias ao seu desenvolvimento em todas as funções. (UNESCO, 2012)
10 É por isso que, mesmo com políticas públicas do tipo monolinguista, um Estado, muitas vezes, não consegue dizimar por completo a diversidade linguística territorial, como inúmeros exemplos históricos de resistência popular nos mostram. A título de exemplo, é só lembrar a dramática situação vivida, no Brasil, pelos imigrantes japoneses, italianos e alemães durante a Segunda Guerra Mundial e como estas comunidades linguísticas imigrantes resistiram. O mesmo podemos dizer de várias línguas de sinais locais que resistiram apesar de sua sistemática proibição.

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