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Eudenia Magalhes Barros
Eudenia Magalhes Barros
Investigadora
Aes coletivas, identidade e os (novos) agentes sociais: Uma breve experincia etnogrfica sobre a Comunidade Surda no Brasil
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Publicado em 2013
IV Reunio Equatorial de Antropologia / XIII Reunio de Antroplogos do Norte e Nordeste, Fortaleza
Eudenia Magalhes Barros
  Artigo dispon�vel em vers�o PDF para utilizadores registados
Resumo

No intuito de compreender como ocorrem os processos de formação de novos agrupamentos e movimentos sociais na sociedade contemporânea, este trabalho pretende apresentar algumas experiências etnográficas vivenciadas com o grupo denominado “Movimento Surdo em favor da Educação e da Cultura Surda” coletivo liderado e organizado por pessoas com surdez, no ato político ocorrido em maio de 2011, na cidade de Brasília - DF. O interesse em desenvolver esta pesquisa surgiu através da experiência de campo com esses agentes, em uma pesquisa realizada sobre a Associação dos Surdos do Ceará – ASCE, que discutia a reconfiguração da identidade estigmatizada dos sujeitos surdos. Após testemunhar o surgimento desse coletivo, responsável por mobilizar pessoas surdas e não surdas a fim de organizar atos políticos, promovendo ciclos de palestras, seminários e debates em vários estados do Brasil, alguns questionamentos surgiram, principalmente no que tange às formas de articulação e organização desses agentes sociais: Que discursos associam-se à prática desses agentes? Quais argumentos propõem a construção de uma identidade cultural pautada principalmente em questões políticas? Há uma reconfiguração nos padrões pré-estabelecidos dos chamados “novos movimentos sociais”?

Introdução

O objetivo deste artigo é discorrer sobre as primeiras experiências no campo – realizada à dois anos. Essa temática também compõe o objeto de pesquisa no mestrado, que segue em andamento, e deverá ser aprofundada na produção da dissertação. Por hora, estão apresentados aqui breves relatos de quando os eventos aconteceram, ainda em uma época onde o recorte da pesquisa não tinha delimitações ou influências teóricas mais definidas, permitindo que os acontecimentos empíricos fossem percebidos sem determinadas “lentes” sociológicas.

As pesquisas sobre essa articulação social, com denominação nativa de “Comunidade Surda”, e suas experiências sócio-históricas ainda não têm tanta repercussão no campo das Ciências Sociais 1. As discussões sobre as lutas político-sociais das pessoas surdas tramitam principalmente nos campos da Educação, da Fonoaudiologia e da Linguística, tendo como principais pesquisadores e estudiosos Strobel (2008), Skiliar (2000), Quadros (1999), Perlin (2003), dentre outros. Portanto, algumas classificações e denominações podem aparecer neste texto como se estivessem naturalizadas, então, é necessário que, desde já, seja esclarecido que as leituras nativas possivelmente influíram nesta primeira análise do movimento, contudo há de se admitir que é anseio no decorrer da pesquisa constantemente por em questão todas as possível “pré” noções adquiridas ao longo das convivências com o campo de estudo.

Para que fosse possível compreender com profundidade a construção identitária desse grupo social, seria necessário realizar um vasto passeio histórico dos registros das trajetórias de sujeitos surdos que, ao longo do tempo, foram sendo estigmatizados pela sociedade e atravessaram diversos entraves na sua socialização, e principalmente no seu desenvolvimento linguístico e educacional. Infelizmente, não caberá aqui realizar esta empreitada, porém alguns pontos serão ressaltados para a contextualização das atuais lutas políticas desse grupo social. Em seguida, será apresentado o relato da experiência no ato político ocorrido em 2011, na cidade de Brasília, apresentando alguns discursos que compõem as características desse grupo.

1. A articulação das pessoas com surdez na sociedade contemporânea e a constituição de um novo movimento social

Na realidade, a história dos surdos está intimamente vinculada à luta pelo direito de comunicação através de um sistema gestual-visual, que é a língua de sinais. Segundo Rocha (2000), desde a antiguidade ocidental, os indivíduos que possuíam algum tipo de deficiência física ou intelectual não eram considerados humanos; os surdos-mudos, como eram chamados, por não conseguirem falar, eram considerados como seres que não tinham capacidades cognitivas de compreensão do mundo. O estigma, identificador de algum traço ou valor que é rechaçado pela sociedade é a sua própria condição física de surdez.

No decorrer dos séculos, estudos e experimentos foram desenvolvidos a fim de descobrir quais seriam as causas da surdez e suas possíveis soluções, que envolviam desde as intervenções clínicas, como cirurgias, equipamentos estimuladores de audição e implantes, até o desenvolvimento de uma linguagem específica para aqueles que não conseguiam se comunicar oralmente. Essas são, respectivamente, as metodologias Oralista e Gestual. Segundo Goldfeld:

O oralismo, ou filosofia oralista, usa a integração da criança surda à comunidade de ouvintes, dando-lhe condições de desenvolver a língua oral (no caso do Brasil, o Português). O oralismo percebe a surdez como uma deficiência que deve ser minimizada através da estimulação auditiva. (GOLDFELD, 1997, p. 30 e 31)

O método Gestual, como o próprio nome já expressa, utiliza na aprendizagem o sistema linguístico que favorece a apreensão do mundo através de experiências visuais, com no uso da língua de sinais. Atualmente, a filosofia mais aceita entre a Comunidade Surda 2 é a do método Bilíngüe, onde a Língua de Sinais é valorizada como língua materna, e por isso, deve ser ensinada desde a infância, para a alfabetização ser eficaz e que seja possível adquirir com maior propriedade a língua oral oficial de seu país.

No Brasil, a fundação do primeiro instituto para educação de surdos ocorreu no período do segundo império, com a chegada de um ex-aluno surdo do Instituto de Paris, Hernest Huet. Sendo apoiado por Dom Pedro II, Huet conseguiu um prédio na cidade do Rio de Janeiro e em 26 de setembro de 1857, fundou o Instituto Imperial dos Surdos-Mudos do Rio de Janeiro, atual Instituto Nacional de Educação dos Surdos – INES. Segundo a história oficial, o interesse de fundar um instituto de educação para surdos seria impulsionado pelo fato de o próprio Dom Pedro II ter um neto surdo, filho da Princesa Isabel com o conde D’Eu, parcialmente surdo.

A Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS – começou a se desenvolver nesse período. Com o alfabeto manual francês trazido por Huet, os sinais caseiros já desenvolvidos por surdos brasileiros foram sendo organizados e readaptados com grande influência da Língua de Sinais Francesa; para exemplificar a relação entre essas duas línguas, basta imaginar que o latim está para a Língua Portuguesa assim como a Língua de Sinais Francesa está para a Língua de Sinais Brasileira. O que ocorre é que, após o Congresso de Milão, evento internacional de professores sobre o ensino de pessoas com surdez, em 1880, para padronizar o método de ensino a ser utilizado nos institutos de educação nos demais países, a Língua de Sinais foi rechaçada, e o método oralista foi indicado como a melhor metodologia na educação dos alunos surdos.

Os processos de resistência às línguas de sinais foram percebidos nos diversos grupos de surdos nos países que adotaram a metodologia oralista. No Brasil, o que aconteceu foi o desenvolvimento de uma comunicação clandestina repassada entre os estados a partir dos surdos que estudavam no INES. Com o crescimento e articulação interna desses grupos de resistência ao oralismo, foram surgindo em todo o país várias associações para Surdos 3. A partir dessa breve exposição do contexto histórico dos sujeitos surdos, pode-se ter uma ideia de quão intenso está sendo o processo de articulação e de ação política diante das atuais propostas educacionais sugeridas pelo Ministério da Educação (MEC), das quais a Comunidade Surda possui uma experiência bastante traumática, segundo suas próprias experiências de vida.

O coletivo nacional denominado “Movimento Surdo em favor da Educação e da Cultura Surda” surgiu em contraposição a uma das diretrizes do Plano Nacional de Educação (PNE), um projeto de lei proposto ainda no governo Lula, para vigorar entre 2011 e 2020, tendo como principal objetivo desenvolver projetos que se referem especialmente à difusão da educação escolar e erradicação do analfabetismo no país.

No que diz respeito à Educação Especial, o Projeto de Lei nº 8035/2010 prevê que as crianças com algum tipo de necessidade especial devem ser incluídas em escolas regulares, onde elas teriam o contato e interagiriam com as demais crianças, proporcionando dessa maneira o estímulo ao respeito às diferenças. O Projeto pauta-se na Constituição da República, sobre os direitos dos cidadãos de viver em sociedade “o mais plenamente possível.” Há um forte ideário de que a escola mais adequada seria aquela que pudesse atender a todo e qualquer tipo de aluno. 4

A partir dessas diretrizes, as escolas regulares, para se adaptarem ao modelo inclusivo, teriam o apoio da equipe do Atendimento Educacional Especializado (AEE). O AEE é um programa do MEC, que se propõe a qualificar professores da rede de ensino público para que estes consigam lidar com qualquer tipo de aluno portador de alguma deficiência. Esse programa foi inserido na Constituição Brasileira, no Art. 208, que se refere à responsabilidade de garantir a educação como dever do Estado:

III – atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino;
IV – educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças até 5 (cinco) anos de idade;• (Inciso com redação dada pelo art. 1º da Emenda Constitucional nº 53, de 19/12/2006.) (BRASIL, 2008, p. 143)

Do ponto de vista dos elaboradores e executores desse programa, a Escola Especial é considerada segregacionista, pois impede que o aluno com deficiência conviva com os demais; em uma de suas cartilhas, o posicionamento ideológico que é apresentado discorda nitidamente do modelo da Escola Especial:

Estas questões geram polêmica entre muitos estudiosos, profissionais, familiares e entre as próprias pessoas com surdez. Aqueles que defendem a cultura, a identidade e a comunidade surda apóiam-se no discurso das diferenças, alegando que elas precisam ser compreendidas nas suas especificidades, porém, pode-se cair na cilada da diferença, como refere Pierucci (1999), que em nome da diferença, pode-se também segregar. (SEESP / SEED / MEC, 2007, p. 14)

Baseada na ideologia da inclusão, a rotina do aluno com necessidades especiais teria dois momentos de aprendizagem; em um turno ele estaria tendo aulas na escola regular, junto aos alunos “normais”, e em outro turno, ele teria um “reforço”, com uma equipe especializada na sua deficiência. O aluno teria uma dupla matrícula, que segundo dizem as autoridades à frente do projeto do PNE, seria opcional.

Foi com a divulgação dessa notícia, realizada por uma liderança com grande representatividade na Comunidade Surda do Brasil, que as discussões via redes sociais começaram a ganhar força, e a mobilização promovida por alguns surdos no país culminou na manifestação política nos dias 18 e 19 de maio de 2011, em Brasília, organizada pelo “Movimento Surdo em favor da Educação e da Cultura Surda.” A diante, segue um breve relato das experiências vivenciadas nesse momento político promovido pelo movimento em questão.

2. Uma pretensão etnográfica: Relatos de uma mobilização de surdos a partir do olhar "não surdo"

Estava realizando uma pesquisa sobre a articulação dos surdos na ASCE – Associação dos Surdos do Ceará, quando “ouvi murmúrios” sobre a notícia de que um surdo bastante conhecido entre os principais representantes da comunidade, Nelson Pimenta (SP), havia publicado um vídeo na rede social YouTube com um depoimento exaltado, revelando a todos a sua indignação com as decisões do MEC, expondo o porquê que não deveria ser permitido que o INES fosse fechado, incitando uma articulação a nível nacional de todas as instâncias representativas das pessoas com surdez, para que fossem à luta pelos seus direitos. Mais adiante, retomarei esse ponto para detalhar como se deu o início da articulação, segundo o relato de uma das lideranças surda.

Sem compreender muito bem do que se tratava a discussão, resolvi participar de um encontro semanal que já estava acontecendo havia algumas semanas, em abril de 2011. Nesse grupo, além de alguns surdos que eu já conhecia e tinha proximidade devido à pesquisa anterior, encontrei também alguns pais de surdos e familiares envolvidos na articulação de uma passeata que ocorreria em aproximadamente um mês.

Identifiquei-me como pesquisadora diante do grupo, falei dos meus interesses acadêmicos e sociais, demonstrei que me sensibilizava com a causa e que queria ser uma ativista. No entanto, naquele contexto, para os surdos que estavam presentes, eu não era apenas isso: na época, meu estreito envolvimento com a comunidade surda cearense havia se intensificado após o meu envolvimento pessoal com um dos intérpretes bastante influente na comunidade. Então, o meu lugar no grupo era definido principalmente por esses dois papéis, e a partir de então o entrosamento e a interação se tornaram mais fluidas.

Após participar de algumas reuniões que aconteciam semanalmente no Institutos Cearense de Educação de Surdos (ICES), decidi que iria à Brasília juntamente com as lideranças do Ceará, que ao todo somavam 14 pessoas, envolvendo surdos e familiares. No intuito de que eu pudesse participar das reuniões que ocorreriam nos dias da manifestação, fui realocada como “liderança”, integrada na lista de e-mail oficial da organização nacional e também no grupo da rede social Facebook, locais onde aconteceram (e acontecem até hoje) as principais articulações, circulação de informações e integração entre aqueles que se comunicam através da Libras. Esse era o meu lugar dentro do grupo naquele contexto específico, e que não há como desvincular dos alcances que eu obtive e das consequências que hoje me são postas.

Apesar do espaço concedido pelo grupo a mim, fiz questão de não influir nas decisões que porventura aquele grupo deveria tomar. Naquele momento, eu havia conscientemente ultrapassado a minha posição de pesquisadora para uma postura de militante, mas ainda havia um compromisso meu em não ser protagonista naquele espaço. Minhas contribuições eram de ordem prática: me responsabilizei por fazer um registro fílmico e fotográfico no período do ato e acompanhar de perto a passeata para que posteriormente eu realizasse um relatório das articulações do movimento.

Próximo ao dia da viagem à Brasília, descobri que o meu principal informante e via de acesso ao demais líderes surdos não estaria presente no ato; preocupações surgiram ao tentar articular quais seriam as estratégias de aproximação com as pessoas nos dias do ato político. Um detalhe importante: essa preocupação era oriunda do fato de que, apesar do meu conhecimento da língua nativa que me possibilita ter o mínimo da comunicação com as pessoas surdas, ainda assim esse conhecimento era raso o bastante para que eu deixasse escapar a profundidade do significado da fala do sujeito. Então, a experiência seria muito aproximada do que o professor Magnani (2007) relata quando participou de uma festa junina organizada por surdos em São Paulo. Interessante quando ele afirmou que

Como um estrangeiro, caminhava no meio deles apreciando as rodinhas de conversa, dos grupos de amigos, os casais, as conversas, a forma como estavam vestidos; pelo fato de não dominar a língua de sinais, não me prendi a nenhum grupo, nem procurei decifrar o que diziam; interessava-me, nesse momento, fazer uma imersão nesse ambiente novo, cujo código básico de comunicação me era estranho. (MAGNANI, 2007, p. 9)

A minha situação era um pouco menos dramática porque eu tinha conhecimento suficiente para perguntar o nome, o sinal, e eventualmente compreender algumas frases que o sujeito viesse a falar, mas ainda assim seria uma empreitada inédita e desafiadora. Já estava comprometida com a comunidade, e também com a possível pesquisa acadêmica que potencialmente viria a ser no futuro. O discurso nativo que perdurava (e que se segue até hoje) é que tal evento seria um momento ímpar e de grande relevância na trajetória da Comunidade Surda Brasileira. Portanto, a empolgação de estar naquela ocasião específica sufocou o receio de me sentir “estrangeira em território alheio”.

Nos dias 19 e 20 de maio de 2011, fomos (cerca de 15 pessoas designadas como lideranças cearenses) à Brasília, e um ônibus com outros surdos e familiares para agregar forças nas passeatas e atos políticos que estavam programados para ocorrer nesses dois dias. A programação oficial e distribuída em folders que estava prevista girava em torno dessas atividades: dia 19, manifestação em frente ao MEC, com sugestão de acampamento; dia 20, passeata partindo do Museu Nacional até o Congresso.

Ao chegar no aeroporto, agrupei-me com três pessoas surdas e uma intérprete. Alugamos um carro, e fomos ao encontro de uma centena de surdos que já estavam aglomerados em frente ao prédio do MEC. O primeiro impacto que tive – e se é necessário considerar que, inclusive, tal situação faz parte de um conjunto de características incluídas na categoria do que os próprios nativos denominam de “Cultura Surda” – foi o fato de que os agrupamentos de surdos que já se encontravam em frente ao prédio do MEC traziam bastante instrumentos sonoros: tambores, bumbos, cornetas, apitos, buzinas. Muito longe de representar um movimento silencioso e frágil, como é esperado de um grupo de pessoas deficientes e “sem voz”, os surdos não mediam esforços para se fazerem notórios naquela manha de quinta-feira, e vez ou outra, funcionários da burocracia política se estendiam pelas janelas, curiosos para entender de onde vinha tanto barulho.

Quando me referi ao fato de que esse tipo de comportamento “barulhento” se constitui como sendo característica da Cultura Surda, tomo por referência o discurso nativo da construção de uma identidade específica, e de relatos que pude coletar ao longo do meu contato com pessoas surdas, especificamente usuárias da Libras. Conversando com alguns surdos, em outras ocasiões que não esta, alguns afirmavam que gostam do “barulho”: na realidade, quanto maior a vibração do corpo que emite o som, maior o impacto físico no corpo do indivíduo, fazendo-o sentir a sintonia da música, das batidas do bumbo, da emissão de qualquer que seja o som. Nas oportunidades que tive de visitar a ASCE, frequentemente o aparelho de som estava ligado, e em volumes elevados, impossibilitando que os poucos ouvintes que ali estavam se escutarem e conversarem oralmente. Aquilo me intrigava bastante, pois não entendia qual vantagem havia naquela situação. Contudo, após conhecer melhor o universo desses sujeitos, recorrentemente sabia de festas em boates onde muitos jovens surdos combinavam de se encontrar. Isso também aconteceu em Brasília: no sábado, alguns jovens surdos que ainda permaneciam na cidade combinaram uma “balada” em comemoração aos dias de luta da Comunidade Surda.

Em frente ao prédio do MEC, muitos cartazes estavam erguidos: reivindicações por igualdade de direitos, respeito à diferença, e principalmente, pelo direito de participar das decisões que lhes dizia respeito. O lema “Nada sobre nós sem nós”, escrito em letras garrafais nas faixas trazidas pelos surdos, remetia a uma discussão célebre entre os estudos das pessoas com deficiência e suas lutas políticas. 5

As faixas apresentavam reivindicações em favor das Escolas Bilíngues para crianças surdas ao invés das escolas inclusivas, e essa é uma das pautas mais polêmicas trazida pela Comunidade Surda porque, diante das lutas defendidas pelos movimentos dos deficientes físicos, a necessidade da inclusão é um fator primordial para que tais sujeitos sejam reconhecidos como cidadãos, possuidores de direitos e deveres como qualquer outro indivíduo; a inclusão é o ápice da conquista dos direitos à cidadania.

Porém, o modelo inclusivo de educação é percebido por esse movimento como sendo um retrocesso, devido ao fato de que a língua utilizada na sala de aula não será a sua língua materna. Os deficientes físicos, intelectuais e visuais, por exemplo, utilizam como primeira língua o português, e não encontram maiores dificuldades em aprendê-la, sobretudo porque conseguem ouvi-la e replicá-la oralmente. Para as pessoas cegas, há a escrita do português adaptado, o sistema Braille, para que seja possível a leitura; não chega a ter o status de língua, mas sim de uma readaptação do símbolo gramático para que esse possa ser capturado através do sentido tátil.

No caso dos surdos, o sistema de aprendizagem da língua portuguesa requer recursos que estimulem a oralização do sujeito, fazendo com que aprenda a ler lábios, emitir os sons e utilizar aparelhos auditivos. Há inúmeros debates que questionam esse método de aprendizagem, sobretudo os estudos de Fernando Capovilla (2006, 2008, 2011) 6, que são incorporados nos discursos da Comunidade Surda para embasar cientificamente um argumento que vem sendo defendido pelos sujeitos em seus debates internos ao movimento social.

Foi devido a esse fato que, quando um dos líderes surdos de Brasília, Nelson Pimenta, gravou o vídeo explicando o “fechamento” do INES, a reação da Comunidade Surda foi de surpresa e medo de um possível retrocesso, comparando com o que ocorrera em Milão, onde o modelo definido como o ideal para o ensino de crianças surdas era o oralista. O que iria acontecer no instituto, segundo a proposta do Ministro da Educação na época, Fernando Haddad, seria uma abertura para que as crianças não surdas também fossem matriculadas na escola, e paulatinamente fosse realizada a política de inclusão, propondo aos estudantes uma dupla matrícula, onde a Libras seria ensinada em um contraturno.

Esse vídeo tomou proporções inesperadas, e segundo o relato de uma das líderes que consegui contato na época, a história começou bem antes da divulgação dessa notícia; com a participação de surdos paulistas na Conferência Estadual de Educação em 2010, de onde sairia as propostas a serem levadas ao CONAE (Conferência Nacional de Educação) 2011, e posteriormente ao PNE alguns relatos circulavam entre as instituições organizadas dos surdos, principalmente notícias vinculadas na Revista FENEIS (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos), afirmando que as propostas de escolas bilíngues já estavam sendo barradas nas plenárias locais com o argumento de que tais escolas tinha caráter segregacionista. Um dos participantes da Conferência narrou:

As minorias todas que participavam do EIXO 6, combinaram que todos os grupos estariam votando a favor das propostas de todos os grupos de minorias, que todos os movimentos respeitariam a opinião dos grupos, uma vez que cada minoria é que sabe o que é melhor para seu próprio grupo. E assim fizemos: votamos a favor de todas as propostas que foram destacadas por todos os grupos minoritários – movimentos dos Negros, Quilombos, Índios, MST – Movimento dos Sem Terra – Movimento dos Estudantes, professores, etc..
Nas nossas costas, depois que saímos da Plenária, esses grupos, foram chamados para uma reunião com as pessoas do Governo Federal – MEC e de representantes de ONGs, que os convenceram a votar contra as propostas destacadas pelo grupo de surdos, inclusive alegando que éramos contra a inclusão.
Assim, no dia seguinte, ficamos surpresos quando, das 11 propostas que havíamos conseguido destacar, com apoio de todos os grupos, foram rejeitadas 7, somente 3 propostas foram aprovadas (...). (Neivaldo Zovico, texto do blog “Acessibilidade para surdos”, 3 de abril de 2010)

Porém, segundo Mariana (líder pernambucana), essas notícias não tiveram grande impacto, pois houve pouca divulgação em massa, e as discussões não tomaram grandes proporções. Somente em março de 2011, quando o MEC já estava implementando as políticas de inclusão na prática, e Nelson gravou o vídeo que se tornou responsável por ser o principal veículo de difusão desse assunto, alcançou a audiência dos surdos que não necessariamente estavam diretamente vinculados as discussões de ordem política. Então, muitos surdos que se encontravam na manifestação de maio eram estudantes de ensino médio, crianças, havia familiares e professores ouvintes, que tiveram conhecimento da causa através do repasse das informações das lideranças locais.

Jovens surdos com nariz de palhaço carregavam faixas, onde estava escrito “Respeito à Cultura Surda”, e em vermelho “Fora Martinha Clarete”, até então diretora de Políticas de Educação Especial; “Não à inclusão homogeneizadora”, “Inesquecível para a educação dos surdos – INES”, “Professores Surdos Já!”, compunha o cenário das primeiras movimentações da quinta feira, 19, em frente ao prédio do MEC.

Comecei aos poucos a me distanciar da comitiva do Ceará, para poder capturar algumas imagens e transitar por outros agrupamentos, organizados até então por região. A maioria das pessoas estava vestida com a blusa oficial, onde estava inscrita a logomarca do movimento, composta pela frase “Escola Bilíngues para Surdos”. Algumas comitivas trouxeram bandeiras de papel dos seus estados, customizaram as suas camisas incluindo elementos que caracterizassem de onde aquele grupo era oriundo.

Especialmente nesses dias de manifestação, a vontade de ocupar o maior número de espaços possíveis era latente. Dentro do prédio do MEC, acontecia uma reunião entre o Ministro Fernando Haddad e alguns representantes surdos: Paulo Bulhões, vice presidente da FENEIS, Flaviane Reis, pesquisadora da Universidade Federal de Uberlândia, Nelson Pimenta, autor do vídeo que difundiu a notícia, Messias Ramos, diretor da FENEIS no Distrito Federal, Mariana Hora, autora do abaixo-assinado contra o fechamento do Colégio Aplicação do INES, e Sueli Fernandes, pesquisadora da Universidade Federal do Paraná. Do lado de fora do prédio, discursos inflamados de outras lideranças regionais eram propagados, muitos surdos realizavam círculos em torno dessas falas, filmando e aplaudindo.

A próxima atividade ainda para a manhã de quinta-feira, 19, era a ocupação do Senado Federal. Na realidade, uma audiência fora convocada pelo senador Lindberg Farias (PT/RJ), presidente da Subcomissão Permanente de Assuntos Sociais das Pessoas com Deficiência, e cerca de 200 participantes ocuparam a sala da Comissão de Assistência Social, restando ainda outros manifestantes que ocuparam o lado externo do auditório. Consegui entrar, por sorte, antes de barrarem as entradas, pois realmente não havia mais espaço naquela sala. Alguns deputados presentes olhavam ao seu redor de maneira perplexa, expressando surpresa diante de tantas pessoas surdas que se articulavam de maneira bastante organizada.

Alguns deputados se pronunciaram em favor dos surdos, e a sessão terminou com um espírito de vitória por parte da comunidade: o documento onde estava incluído as propostas de escolas bilíngues, antes da mudança realizada pelo CONAE 2011, foi entregue em mãos ao Ministro Fernando Haddad e cópias foram distribuídas entre os parlamentares presentes.

À tarde, mais passeatas foram realizadas em torno do prédio do MEC. Não houve pausa para descanso, e, ao entardecer, todos os manifestantes se agruparam nos gramados do Congresso Nacional para realizar uma homenagem aos surdos que estudaram no INES na época em que a língua de sinais era proibida. Ao anoitecer, os manifestantes acenderam velas em referência aos surdos que resistiam em conversar em Libras nos corredores do INES, na calada da noite, à luz de velas.

Na manhã da sexta-feira, 20, contabilizou-se a presença de 4 mil pessoas na passeata que partiu do Museu Nacional rumo ao Congresso Nacional. A rampa do Museu serviu de palanque para as lideranças estaduais realizarem seus discursos; a organização da passeata e a disposição dos grupos foi feita por estado, onde um líder de cada grupo fora escolhido para representar na rampa a sua delegação, dispostos de maneira tal que cada líder estivesse posicionado em frente a cada grupo de pessoas e pudesse repassar as coordenadas de como se daria a passeata.

Eu estava presente, equipada com câmera e filmadora, no meu papel de relatora do evento. Ao mesmo tempo, vesti minha blusa oficial do movimento, e firmei em meio aquele grupo os meus posicionamentos a cerca das lutas da comunidade. O detalhe mais importante para mim, como pesquisadora, nessa manhã, foi o fato de que a minha interlocutora intérprete não se fez presente nesse ato, pois ela estava reunida com algumas lideranças produzindo uma nota de esclarecimento sobre as definições e as características do modelo da Escola Bilíngue ; então, a princípio, me vi completamente acuada e tentei me aproximar de outros interpretes ali presentes.

O fato é que, ao iniciar-se a passeata, percebi que a dinâmica dos grupos ao meu redor se dava de maneira tão atrativa, que rompi novamente o medo de me “perder”, e fui ao encontro das pessoas, utilizando do pouco conhecimento que tinha de Libras. Comecei a filmar as pessoas, me apresentando para algumas lideranças pedindo-lhes as suas opiniões sobre aquele ato político (eu não era a única que fazia registros naquele momento, por tanto, isso não se deu de maneira tão invasiva). Paullo Vieira, líder surdo de São Paulo, falou com grande entusiasmo que lutava pelas Escolas Bilíngues, sendo estas muito importantes para a Comunidade Surda; enquanto eu passava entre os manifestantes, muitos se voltavam para lente da câmera e diziam palavras de apoio, acenavam, demonstravam felicidade por estar naquele momento. Muitos surdos estavam com apitos e buzinas, bem mais do que no dia anterior; para minha grande surpresa, uma figura pública subiu no trio elétrico e anunciou apoio à causa do Movimento Surdo: Elke Maravilha, uma atriz e modelo russa que vive no Brasil a muitos anos e é bastante conhecida no campo das mídias televisivas. Ter uma figura artística apoiando a causa é de extrema importância, principalmente pelo fato de que a Comunidade Surda no Brasil ainda é bastante desconhecida, e trazer uma figura pública para junto do movimento é criar oportunidades para que se ganhe certa visibilidade midiática.

Um trio elétrico foi conduzindo a passeata, que teve como ponto de chegada os gramados do Congresso. Durante o restante da manhã, seguindo pela tarde, ainda havia surdos nas ruas em movimento, quando representantes da FENEIS foram convidados a se reunirem com o Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (Conade). Quando soube dessa reunião, algumas pessoas próximas a mim da delegação do Ceará decidiram ir, e tentar participar desse momento. Fomos sem saber ao certo onde essa reunião estava acontecendo, mas, por sorte, conseguimos encontrar o lugar antes que a reunião estivesse chegado ao fim.

As falas da diretora da FENEIS, Patrícia Rezende, já encontravam-se exaltadas, em respostas aos argumentos dos representantes do MEC, nos quais eles afirmavam que a proposta de educação especial é segregadora e excludente. Quando entramos na sala, mesmo prédio em que estava funcionando a Secretaria de Direitos Humanos, percebemos que o ambiente estava regido por tensões, e o diálogo entre os representantes de ambas as frentes não estava atingindo um consenso. Porém, ao final da reunião, a FENEIS entregou o documento que fora elaborado pela manhã daquela sexta, que se tratava de uma nota pública de esclarecimento ao MEC sobre as escolas bilíngues, nas mãos do presidente da Conade, que se comprometeu em verificar os documentos da CONAE e possivelmente alterar o que fosse necessário em detrimento às demandas da Comunidade Surda.

Após todos os representantes do MEC e da Conade terem se retirado da sala, conversei rapidamente com Patrícia, a fim de saber qual a percepção dela a respeito de tudo que ocorrera até aquele momento. Bastante emocionada, Patrícia ouvia a minha pergunta com atenção pelas mãos da intérprete, e naquele momento, eu me notei afetada por todo o sentimento que transbordava daqueles agentes. Tremi um pouco a voz, pensei “ela não vai notar isso”, mas também lembrei que lágrimas são visíveis. Ela me disse:

Eu acredito que ontem e hoje foi uma vitória muito poderosa para nós surdos. A manifestação mudou todo... chamou a atenção da mídia, dos políticos, do Conade, do Senado, e isso desestruturou. Eu acredito sim que vai ser uma luta continua, eu acredito que houve vitórias positivas. É claro, há divergências... (nesse momento, ela para de sinalizar, e enxuga as lágrimas do rosto). Bom, eu acredito que vai haver mudanças a partir desse momento. Nós, surdos, já temos uma consciência diferente, que a luta deve ser continua, ela não pode ser perdida. E nós vamos sim, chamar atenção, buscar saber o que está acontecendo, o que cada político esta fazendo, saber as ações... e se eles não mudarem, nós vamos fazer mais manifestações, sempre buscando nossos direitos. (Patrícia Rezende, Brasília, 2011).

Depois de muito relutar por assumir que estava sendo militante nas análises que eu expunha sobre o Movimento Surdo, houve um momento em que me distanciei bastante do contato direto com esses agentes. Ingenuamente, imaginava que dessa maneira pudesse ter um olhar mais científico, menos enviesado pelo contexto histórico e os discursos do movimento.

O distanciamento foi importante, mas admitir que houve, até certo momento, grande envolvimento entre pesquisador-pesquisado – relação essa que muitas vezes era confusa, pois os discursos eram bastante alinhados – , se faz importante para qualquer produção acadêmica, no meu ponto de vista, pois nos coloca dentro do espaço social, nos posiciona como agente, e nos tira a ilusão de que estamos pairando sobre uma cultura que não nos pertence. Na realidade, as trocas e os aprendizados que obtive com esses sujeitos em circunstância tão específica me constitui como tal hoje, na produção do meu próprio argumento, na feitura da sociologia que me caberá fazer desde lá, e a partir de então.

Notas

1 Não posso deixar de mencionar, no entanto, a grande contribuição antropológica que o Núcleo de Antropologia Urbana – NAU, realiza atualmente, no qual existem vários pesquisadores antropólogos e sociólogos que atualmente estudam essa temática, e que tem seu coordenador geral o Prof. Dr. José Cantor Magnani.
2 Quando me refiro à Comunidade Surda, pretendo enfatizar a organização e articulação desse grupo social que defende o uso e educação em LIBRAS, o envolvimento político em Associações, Federações e Instituições de ensino, ou seja, uma comunidade que envolve Surdos, ouvintes, intérpretes, amigos e familiares envolvidos pela causa.
3 A utilização do s maiúsculo na palavra “Surdo”, em alguns momentos, supõe uma distinção identitária entre esses sujeitos com surdez; nas produções nativas, o Surdo é aquele indivíduo que compartilha de uma série de símbolos, códigos, valores e, principalmente, a auto-denominação de um indivíduo que assume o discurso da diferença no lugar da deficiência, ou seja, a surdez passa a ser uma característica de diferenciação, no qual o seu principal código cultural é o uso da língua de sinais.
4 Projeto em tramitação no Congresso Nacional - PL nº 8.035/2010. Apresenta o Projeto de Lei 8530/10 de autoria do Poder Executivo, que institui o Plano Nacional de Educação (PNE). Disponível em: <http://bd.camara.gov.br/bd/handle/bdcamara/5826>. Acesso em: 14 de setembro de 2012.
5 Em 1993, James Charlton publica “Nothing about Us without Us: Disability Oppression and Empowerment”, uma das primeiras produções que se dispôs a realizar um panorama teórico que debatesse a questão das opressões à deficiência, realizando comparações entre outros tipos de opressão, dentre eles o racismo, o sexismo e o colonialismo.
6 Fernando César Capovilla, pesquisador e professor em psicologia (USP), realiza a mais de 10 anos pesquisas sobre neuropsicolinguística cognitiva, desenvolvendo estudos que apresentam em seus resultados fatores que comprovam a eficácia do ensino da língua de sinais na primeira infância para que a criança surda consiga construir o léxico necessário para a compreensão de mundo, e posteriormente possa associar os significados aos códigos escritos do português em um segundo momento.

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