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Neiva de Aquino Albres
Neiva de Aquino Albres
Fonoaudiloga
Gesto-visualidade no processo de traduo de literatura infanto-juvenil: Marcas do discurso narrativo
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Publicado em 2015
Revista Translatio, Porto Alegre, n.9, p.3-20
Neiva de Aquino Albres
Mairla Pereira Pires Costa
Thiago William Teles Rossi
  Artigo dispon�vel em vers�o PDF para utilizadores registados
Resumo

A proposta desse artigo é analisar a tradução de um trecho de literatura infanto-juvenil do gênero narrativo. Considerando que o texto alvo é em língua brasileira de sinais – Libras e observando as características desta língua, como o uso do corpo (mãos, face e tronco) e o modo de enunciação, exige-se do tradutor competência linguístico-discursiva para executar uma tradução que se aproxime do público-alvo. O objeto que serviu de corpus da análise foi um texto original (em língua oral auditiva – português) e sua versão traduzida (em língua gestual-visual – Libras), que foi executada coletivamente por acadêmicos e sob a orientação de professor. Seguindo uma perspectiva tradutória que inclui a gesto-visualidade, o gênero textual narrativo e a subjetividade ao traduzir discursos, elencou-se estratégias para que o tradutor dispusesse de recursos para realizar uma tradução de modo mais seguro. A partir da descrição dos trechos da tradução e detalhando as escolhas tradutórias, evidencia-se a utilização do espaço-sub-rogado, a construção do sentido não somente pelas palavras que compõem o texto escrito, mas também pelas ilustrações que fazem parte da obra. É possível afirmar que a gestualidade como característica das línguas naturais, incluindo também as línguas sinalizadas, é um aspecto utilizado na língua em si, bem como é um recurso do qual o tradutor pode utilizar-se para enriquecer o texto traduzido.

Introdução

A Língua Brasileira de Sinais – Libras foi reconhecida nacionalmente em 2002 com a Lei 10.436 que estabelece essa língua como meio de comunicação das pessoas surdas no país. Esta promulgação dá força para que esta língua seja vista com caráter científico, possibilitando e estimulando pesquisas e estudos sobre a mesma.

Decorrente da publicação da lei, tornou-se necessária a inclusão do ensino de Libras em Instituições de Ensino, com vistas a promover a educação de surdos em sua própria língua. Nesse contexto, ocorre consequentemente, a inserção de surdos nos diversos níveis de ensino, ocasionando por sua vez, uma preocupação com a produção de materiais bilíngues voltados a essa comunidade linguística, que deve valorizar os aspectos fundamentais para o desenvolvimento do ser surdo, ou seja, o fato de que a compreensão de mundo é basicamente adquirida pelo ‘visual’ e a expressão da língua realizada por meio da gestualidade que a compõe.

O fato da Libras ser uma língua de modalidade gesto-visual e que tem características de constituição diferenciadas das línguas orais, apresenta desafios para os tradutores desta língua. Entre eles, pode-se citar o formato do texto alvo (vídeo), a habilidade na utilização do espaço para realização da tradução, bem como uso de expressões corporais para demonstrar os sentidos que constituem qualquer língua.

Assim, a formação de tradutores de línguas de sinais deve vislumbrar o desenvolvimento de competências que vão além das competências linguísticas, pois envolvem habilidades tradutórias, conhecimento dos aspectos culturais e de estratégias discursivas para execução do ato tradutório. Para tal, é imprescindível dispor de recursos linguísticos embasados na gestualidade para enriquecer o produto final, valorizando sobretudo, o público a que se destina.

É fato que o processo tradutório não é realizado apenas transpondo-se termos de uma língua para outra, mas sim da compreensão do texto enunciado pelo autor e da reconstrução de sentidos desenvolvido pelo tradutor. Por isso, no momento da tradução, observa-se a necessidade de estabelecer a transposição de sentido baseado no discurso e não somente relacionado a mera substituição de palavras.

Trabalhamos com o livro “Vira lata”, de Stephen Michael King publicado pela editora Brinque-Book. Duas questões de pesquisa conduziram nossa análise: De que modo os elementos verbo-visuais interferem na tradução de livro de literatura infanto-juvenil? Como é empregada a gesto-visualidade na narrativa em Libras? O intuito desde trabalho foi de apresentar a análise de um trecho da tradução de Português para Libras e descrever os recursos linguístico-discursivos utilizados nesse processo, especificamente em gênero discursivo narrativo (livro infanto-juvenil), identificando-se como a gesto-visualidade é empregada neste gênero.

Estudos recentes mostram que os gestos fazem parte das línguas, tanto as orais quanto as sinalizadas, pois “tem um papel central no estabelecimento do léxico e das relações gramaticais, na criação do significado e na organização do discurso” (McCLEARY e VIOTTI, 2011, p. 290).

Gêneros do discurso e a gestualidade de narrativas em línguas de sinais

Os gêneros do discurso são conceituados como formas-padrão “relativamente estáveis” de se expressar um enunciado, determinados social e historicamente. A nossa comunicação é toda permeada pelos gêneros do discurso. Apropriamo-nos dos gêneros desde que nos apropriamos da nossa língua, “quase da mesma forma com que nos é dada a língua materna, a qual dominamos livremente até começarmos o estudo da gramática” (BAKHTIN, 2003, p. 282).

Nos enunciados há uma estabilidade lexical, sintática e discursiva que os caracterizam como pertencente a um determinado gênero. O uso da língua nos propicia compreender o que é adequado empregar em cada momento levando em conta os interlocutores em potencial, o papel que assumimos e o contexto social. Consideramos então que enunciados típicos caracterizam os gêneros, ou seja, no gênero a forma de enunciar tem sua tipicidade.

Qualquer enunciado é fruto de uma “memória discursiva”, embebido de palavras outras que já foram enunciadas em contato com outros falantes das línguas em outros momentos e que nos constituem, pois carregamos estas memórias discursivas das quais fazemos uso em nossas novas enunciações sem nos darmos conta. Aqui entra o conceito de dialogismo, pois no emaranhado dos discursos (em uma atividade mental responsiva) relacionamos discursos. Os nossos discursos são envolvidos e marcados por outros discursos. O tradutor, no processo de seu trabalho com textos (fonte e alvo), é essencialmente envolvido pelo dialogismo da linguagem em ação, pelo processo ativo de construção de sentidos e construção de relações com outros discursos para interpretar e para construir o novo discurso na língua da tradução.

Desta forma, consideramos que os tradutores que se propõem a trabalhar com a tradução de textos de gênero narrativo precisam se apropriar das formas de dizer em contextos de contação de histórias, levando em consideração o público alvo do material produzido (ALBRES, 2012), formas outras de dizer tanto no texto fonte quanto no texto da tradução.

Pesquisas no campo da educação (LEBEDEFF, 2002, 2005; LEBEDEFF et al., 2005) e linguística (MCCLEARY e VIOTTI, 2009; 2011; 2014) têm identificado algumas características do gênero narrativo em língua de sinais.

McCleary e Viotti (2009, s.p.) consideram que “a literatura linguística sobre as línguas de sinais tem insistido em manter uma distinção categórica entre língua, de um lado, e gesto, de outro”. Esta afirmativa não contribui para aprofundar o conhecimento sobre a estruturação discursiva em língua de sinais, por isso estes autores têm se dedicado ao estudo da gestualidade nesta língua.

limitar a análise dos gestos das línguas sinalizadas à sua forma e direcionalidade não é suficiente para dar conta do entendimento do rico uso do espaço no discurso dessas línguas. A organização espacial, fruto da conspiração entre gesto e língua, é a chave para o estabelecimento da coesão e coerência discursivas, de relações de causalidade e temporalidade, e do estabelecimento da referência (MCCLEARY, VIOTTI, 2011, p. 296).

Nas línguas sinalizadas a enunciação acontece por meio do corpo (face, tronco, mãos) o que “dificulta imensamente a tarefa de definir o que é propriamente verbal e o que é propriamente gestual” (MCCLEARY; VIOTTI, 2011, p. 290).

Estudando narrativas em língua de sinais, os autores destacam o uso de sinais não manuais marcando as mudanças de vozes narrativas, que passam do narrador para o personagem e que também contribuem para a construção de sentido do cenário. Com base nos estudos de Liddell (2003), os autores fazem uso do conceito de espaço sub-rogado 3, que é resultado da integração do espaço real com um espaço do evento.

Consideram ainda que, no gênero narrativo, há exploração de “dois níveis de integração conceitual com o corpo do enunciador, ora funcionando como narrador, ora como personagem, ora partido, realizando simultaneamente as duas funções” (McCLEARY, VIOTTI, 2014, p.10). O corpo do sinalizador/narrador encena os diferentes papeis, assumindo diferentes vozes dos personagens da história narrada. Pode correr ainda a sobreposição de gestos, indicando a incorporação dos personagens e de sinais manuais como sendo a voz do narrador, descrevendo ou narrando a história.

A competência de uso dos gêneros discursivos está diretamente relacionada à nossa familiaridade com eles (gêneros). Quanto mais temos consciência das formas de enunciar em dada língua, mais podemos empregar os gêneros de forma adequada no processo de tradução. Podemos considerar que o gênero narrativo é um dos mais usados em esferas discursivas do cotidiano, na interação face a face, o que não requereria grandes esforços de falantes proficientes na língua em utilizá-lo. Todavia, a língua gesto-visual tem uma complexa estrutura de organização de seus discursos em espaços mentais e uso do particionamento do corpo que requer do tradutor muita habilidade linguístico-discursiva para desenvolver a tradução.

Metodologia

Analisamos um trecho de uma tradução de gênero narrativo (literatura infanto-juvenil) de língua portuguesa para Libras. O livro em questão é o “Vira lata” de Stephen Michael King, publicado em 2005 pela editora Brinque-Book e traduzido de português para Libras em 2013.

Figura 1: Capa do livro
Fonte: King (2005)

O livro foi traduzido por uma turma de quarenta aprendizes de tradução no curso de Letras Libras de Universidade Pública, como atividade coletiva mediada pela professora da disciplina de tradução. Desta forma, o corpus desta pesquisa é composto de 29 páginas de tradução, integrando o texto (língua fonte - português), ilustrações (desenhos) e texto final (língua alvo - vídeo em Libras). O corpus é fruto de projeto que articula as atividades de ensino e pesquisa da primeira autora deste artigo.

A turma composta por surdos e ouvintes, sendo que os alunos surdos, proficientes em Libras, desenvolveram a dupla atividade de tradutores e de avaliadores da tradução realizada pela turma. Os alunos ouvintes, proficientes em português, desenvolveram a atividade de tradutores. Como produto obteve-se o que chamamos de tradução coletiva.

Conforme Baker, o corpus “tem um papel importante a desempenhar na exploração de normas de tradução e em contextos específicos socioculturais e históricos [...]” (BAKER, 1995, p. 231, tradução nossa) 4. Nesta investigação, fizemos uso de corpus produzido em contexto natural de ensino-aprendizagem, sendo uma prática de tradução coletiva e orientada, importante material para o estudo das práticas tradutórias para a Libras no gênero narrativo.

Este corpus, de acordo com o que foi apresentado por Baker (1995, apud FERNANDES, 2004), é caracterizado como bilíngue, sincrônico, especializado e unidirecional.

Critério Caracterizado
a) número de línguas Bilíngue (português e Libras)
b) restrição temporal Sincrônico (análise da tradução da obra “Vira lata” - 2013)
c) domínio Especializado – literatura infanto-juvenil - gênero narrativo
d) direcionalidade Unidirecional (em que é observada a tradução de Português para Libras)

Tabela 1 - Classificação do Corpus objeto deste estudo.
Fonte: Adaptado de Fernandes (2004).

Propôs-se com a análise, responder a duas questões: De que modo os elementos verbo-visuais interferem na tradução de livro de literatura infanto-juvenil? Como é empregada a gesto-visualidade na narrativa em Libras?

A ferramenta utilizada para editar as imagens foi o software Eudico Linguistic Annotator - Elan, um programa bastante empregado em pesquisas envolvendo línguas sinalizadas, pois permite visualização criteriosa dos dados e ainda a localização precisa dos sinais/gestos empregados no discurso.

Dentre as páginas do livro traduzidas, levantamos os episódios em que se explorou a gesto-visualidade. Como procedimento de análise, apresentamos a imagem e texto do livro (texto fonte) e a decupagem 5 do corpo do tradutor com frames da tradução (enquadres da sinalização do vídeo). Estes frames foram nomeados pela letra T (de tradução) mais a numeração crescente. Para a transcrição da tradução em Libras, os sinais convencionados da língua foram apresentados em caixa alta; os gestos e incorporação entre parênteses. Consideramos não ser produtivo neste trabalho nomear por meio de palavras (glosar) a sequência gestual, mas sim, descrever a encenação.

Construímos esquemas de análises utilizando-nos de tabelas. Ao apresentarmos cada episódio (trecho da página analisada), na primeira linha exibimos o texto fonte (português) e ilustração, e na segunda linha, o texto alvo (Libras) por meio da decupagem do vídeo. Utilizamos alguns símbolos para destacar parte da sinalização discutida na análise. Apresentamos a imagem do tradutor destacando o traço do sinal que indica o espaço mental sub-rogado com um círculo azul, e o sinal manual que indica a voz do narrador com colchetes verdes. Estabelecemos duas categorias de análise: a) motivação pela ilustração e b) motivação pelo texto em português.

Análise dos dados

A proposta desta seção é estudar as estratégias utilizadas na tradução para a Libras, observando como os tradutores lidaram com o texto e com a ilustração. A partir da análise contrastiva, poder-se-á corroborar com a descrição de procedimentos de tradução em narrativas (história de literatura infanto-juvenil).

Figura 2: Página do livro analisado neste artigo
Fonte: KING (2005)
Vídeo disponível em <http://youtu.be/mhSW65qytxU>

Na figura 2 apresentamos uma das páginas do livro traduzido coletivamente e executada por uma tradutora em formação (surda). Nesta parte da história, percebe-se que estava anoitecendo e que o personagem principal perambulava na rua à procura de comida e abrigo. Além do texto em português, há também três ilustrações do cachorro em que ele anda, aproxima-se de uma casca de banana e depois de um latão de lixo caído no chão. Dividimos esta página em três episódios relacionados a três atividades do personagem (cachorro): [1] perambular, [2] comer, [3] dormir e em duas categorias de análise, a) motivação pela ilustração e, b) motivação pelo texto.

Episódio [1]: Perambular

Figura 3: Trecho 1 da página traduzida
Fonte: KING (2005)

Tabela 2: Episódio comparativo do texto fonte e texto alvo
Fonte: Adaptado de KING (2005), produção nossa.

Na língua fonte (português) foi apresentada a seguinte sentença “O céu estava escuro e seu estomago, vazio”. A ilustração refere-se ao desenho do cachorro (personagem) andando cabisbaixo com o olhar direcionado para uma nuvem escura. O texto em português é descritivo e a ilustração indica a cena onde ocorre a atividade de perambular pelo cachorro.

Consideramos que, no processo de tradução, a tradutora toma como base o verbal e o visual para construção da tradução, visto que se trata de livro de literatura infanto-juvenil. A tradutora constrói a cena, primeiramente, com a chegada do animal caminhando lentamente (T1, T2 e T3) e, logo em seguida, o direcionamento do olhar do cão para cima (esquema 1).

O referente ‘olhar para cima’ representa o céu que estava escuro (T3), sendo motivado, nesta parte da tradução, pela ilustração do livro. A tradutora optou por desenvolver uma construção gestual cronológica espacial dos fatos, encenando como se fosse o cachorro. Há correspondência do sentido apresentado em língua portuguesa para o que é tipicamente a forma de enunciar em Libras no gênero narrativo.

Episódio [1] - Motivação pela ilustração

Esquema 1
Fonte: Adaptado de KING (2005), produção nossa.

Apesar de o texto em português ser narrado em terceira pessoa, ou seja, os fatos da história serem contados por um narrador, na tradução optou-se por fazer uma tradução em que quase não se conta, mas se vive as cenas usando do espaço mental sub-rogado (incorporação). O gênero narrativo em Libras requer o uso desta estrutura, causando um efeito estético de vivência pelo tradutor/narrador da história.
No primeiro episódio, a tradutora incorpora o cachorro perambulando e olhando para o céu. A construção de sentido de que o olhar para o céu refere-se à ação do cachorro naquele momento permite ao leitor associar o texto à ilustração e à sinalização (tradução). Isso ocorre principalmente pelo fato de a tradutora olhar para o seu lado direito superior na mesma direção que a ilustração mostra o cachorro olhando e por manter um traço do sinal do cachorro (mãos em formato de pata) (esquema 1). Se a tradutora direcionasse o olhar para outro lado, essa leitura ficaria confusa visto que, na leitura do vídeo-livro a ilustração, o texto e o vídeo em Libras se completam. Pensando em atingir o público (crianças), a associação da ilustração do livro com os pontos referentes estabelecidos pelo tradutor é fundamental. Desta forma, faz-se importante atentar para o fato de que o corpo do tradutor (vídeo) é sobreposto a imagem do livro, a indicação de referentes locais e a direção do olhar precisam ser estabelecidos levando em consideração o conjunto de linguagens que comporão o material traduzido (vídeo-livro ou e-book).

Episódio [1] - a) Motivação pelo texto em português

Esquema 2
Fonte: Adaptado de KING (2005), produção nossa.

A tradutora produziu os seguintes sinais manuais: CÉU ESCURO (T4, T5, T6 e T7) para referir-se ao texto “o céu estava escuro” em português. Manteve o olhar direcionado para o canto direito superior da tela, o posicionamento do tronco e os gestos contribuem para a leitura de que o tronco mantém-se sub-rogado como o cachorro, que antes perambulava e olhava para o céu, e parte do corpo, mais especificamente as mãos, indica a voz narrativa sobre a condição do céu (destaque em colchete no esquema 2).

Pode-se inferir que o narrador enuncia que o céu estava escuro, ocorrendo o particionamento do corpo do tradutor, sendo que, na posição do corpo e a direção do olhar continua o papel de cachorro (mesma da parte que precede este frame) e nas mãos estaria o narrador descrevendo o céu escuro.

É um complexo processo de sintaxe visual da qual as línguas de sinais fazem uso. O particionamento do corpo em narrativas acaba por contribuir muito com o efeito da modalidade das línguas visual-espacial. As zonas particionáveis do corpo são citadas por Dudis (2004).

Estas zonas, quando particionadas no corpo do sinalizante, criam elementos visuais adicionais que aumentam e enriquecem uma rede de integração conceitual dos quais eles se tornam parte. Em outras palavras, o particionamento do corpo desempenha um grande papel fornecendo ao sinalizante uma ampla gama de opções na criação de espaço real, combinando essas ações com o que seria possível (DUDIS, 2004, p. 237, tradução nossa) 6.

Episódio 1 - b) Motivação pelo texto em português

Esquema 3
Fonte: Adaptado de KING (2005), produção nossa.

Na continuidade da tradução fez-se opção por manter-se como o cachorro, evidenciado pela configuração da mão (pata do cachorro) e expressão facial de tristeza para enunciar a parte do texto “e seu estômago, vazio”, sendo demonstrada por um único gesto de circular a mão (pata) sobre a barriga (T9, T10 e T11). O estômago vazio não é traduzido por /FOME/ 7 (sinal manual), mas sim pelo gesto de tocar na barriga ao mesmo tempo em que olha para ela com expressão facial indicando tristeza. Como descrito em pesquisas linguísticas, “a ação construída é a demonstração, por meio de movimentos e posturas corporais e faciais, das ações de uma personagem como percebidas e conceitualizadas por um narrador” (BOLGUERONI e VIOTTI, 2013, p. 23).

Episódio [2]: Comer

Figura 4: Trecho 2 da página traduzida
Fonte: KING (2005)

Tabela 3: Episódio comparativo do Texto fonte e texto alvo
Fonte: Adaptado de KING (2005), produção nossa.

Na língua fonte (português) foi apresentada a seguinte sentença “ele procurou algo para comer”; a ilustração refere-se ao desenho do cachorro (personagem) próximo a uma casca de banana, com o focinho direcionado para ela. O texto em português é narrativo e a ilustração indica a cena onde ocorre a atividade de procurar comida pelo cachorro.

Novamente, toma-se como base o verbal e o visual para realizar a tradução, pois a construção do discurso narrativo manteve-se com a incorporação do cachorro, como apresentado no esquema a seguir (esquema 4).

Episódio [2] – a) Motivação pela ilustração

Esquema 4
Fonte: Adaptado de KING (2005), produção nossa.

A ilustração motivou a construção linguístico-discursiva de incorporação do cachorro. Na tradução mantem-se as mãos em configuração padrão para representar as patas do cachorro, indicando ser ele a procurar comida, encolhe-se os ombros para o lado direito inferior, mesmo lado em que a ilustração do livro indica o cachorro direcionado para o desenho da casca de banana (esquema 4).

Constatamos que na tradução para Libras não há necessariamente uma equivalência de palavra X traduzida como Y, mas um complexo processo discursivo de correspondências do sentido, marcado fortemente pela gestualidade utilizada na tradução. Dito de outra forma, na tradução para a Libras de textos do gênero narrativo se explora a encenação pelo tradutor das ações vividas pelos personagens da história. De fato, as línguas são traduzíveis, pois podem ser postas em uma relação de correspondência (SOBRAL, 2008).

Episódio [2] – b) Motivação pelo texto em português

Esquema 5
Fonte: Adaptado de KING (2005), produção nossa.

Na tradução não se executa o sinal prototípico para o verbo /PROCURAR/ 8. Todavia, toda a gestualidade empregada na cena de olhar para um lado, olhar para o outro, de se abaixar e farejar, de manter uma expressão facial de desapontamento, possibilita ao leitor a construção de sentido de que o cachorro (sub-rogado) está à procura de algo para comer.

No processo de tradução deve-se compreender o discurso na língua fonte e reconstruir este mesmo discurso na língua alvo.

Pensar a interpretação como a busca de correspondências [...] implica pensar as línguas não como compostas por elementos equivalentes aos de outras línguas, mas como compostas por formas de expressão que usam esses elementos para criar, no âmbito de uma dada cultura, formada por diferentes expressões, sentidos que a operação de tradução pode fazer corresponder a sentidos criados em outra cultura, igualmente complexa, formas de expressão que não são exatamente iguais nem equivalentes, mas que permitem criar efeitos de sentido semelhantes (SOBRAL, 2008, p. 81).

Consideramos que a tradução /PROCURAR ALGUMA-COISA COMER/ é possível, mas pouco produtiva em língua de sinais, principalmente para compor um material de literatura e que tenha como público-alvo crianças surdas. Com esta linguagem direta perder-se-ia o encantamento da narrativa. O efeito estético do texto de gênero narrativo está essencialmente no uso do espaço sub-rogado mesclado à voz do narrador. Desta forma, a utilização de recursos gestuais e pantomímicos (arte de narrar com o corpo) são essenciais para compor o texto de gênero narrativo mesclado a voz do e narrador pelo procedimento de particionamento do corpo do tradutor.

Episódio [3]: Dormir

Figura 5: Trecho 3 da página traduzida
Fonte: KING (2005)

Tabela 4: Episódio comparativo do Texto fonte e texto alvo
Fonte: Adaptado de KING (2005), produção nossa.

No texto fonte (português), foi apresentada a seguinte sentença “e um lugar para dormir”; a ilustração refere-se ao desenho do cachorro (personagem) próximo a uma lata de lixo caída, lugar que provavelmente pretende se abrigar para dormir. O texto em português é descritivo e a ilustração indica a cena onde ocorre a ação. Do mesmo modo, o verbal e o visual motivaram a tradução, explorando o espaço mental sub-rogado para compor sua enunciação narrativa, como apresentado no esquema a seguir.

Episódio [3] – a) Motivação pela ilustração

Esquema 6
Fonte: Adaptado de KING (2005), produção nossa.

A tradutora inicia a enunciação descrevendo o objeto e depois deita para dormir (encenando). Percebe-se que no trecho registrado, ela descreve algo com o movimento das duas mãos simultaneamente, contornando a borda da lata com formato circular (entre colchete verde), utilizando para isso, a configuração de mão no formato da pata do cachorro (círculo azul). Esta descrição do narrador, com o tronco voltado para direita e no espaço a frente de seu tronco fora motivado pela ilustração do livro (esquema 6). Não há uma preocupação em sinalizar “LATA DE LIXO”, visto que o produto final será um vídeo-livro em que a enunciação em Libras estará sobreposta à ilustração do livro.

Nos frames T22, T23 e T24, ocorre novamente o particionamento do corpo do tradutor. O tronco do cachorro é evidenciado pela configuração de mão (em pata), mas a descrição do cenário é realizada pelo narrador, apresentado pelos sinais manuais.

Esquema 7
Fonte: Adaptado de KING (2005), construção nossa.

Na tradução, encena-se todo o processo de entrada na lata, previamente descrita, demonstrando o cachorro se acomodando no local. Esta entrada de frente para a lata é motivada pela ilustração do livro (esquema 7).

Episódio [3] - b) Motivação pelo texto em português

Esquema 8
Fonte: Adaptado de KING (2005), produção nossa.

No texto alvo, os termos /LUGAR/ 9 e /DORMIR/ 10 do texto fonte não são traduzidos pelos sinais prototípicos manuais; são enunciados no projeto discursivo da narrativa encenada explorando o espaço mental sub-rogado. O “lugar” é expressado pela descrição de algo circular onde o cachorro se posiciona para se recolher (T22, T23 e T24), e “dormir” é expressado pela própria ação de fechar os olhos da tradutora (T30).

O conjunto da história nos possibilita compreender e imaginar que o cachorro está dentro da lata de lixo dormindo. Assim como demonstrado no esquema 8, o corpo da tradutora apresentado dentro do objeto circular previamente descrito que é compreendido pela leitura também por meio da ilustração do livro.

A partir da descrição das escolhas tradutórias coletivas e da análise da tradução, constatamos a opção por representar as ações e atitudes do personagem valendo-se de diferentes posturas corporais, expressões faciais, movimentos do tronco e marcações gestuais como se fosse o cachorro. Assim, a construção dos sentidos produzidos por meio da totalidade discursiva é marcada pelos elementos linguísticos (texto em português) e extralinguísticos (ilustrações do livro). A voz do personagem é expressa por todo complexo processo de incorporação e a voz do narrador é apresentada por sinais manuais descritivos e informativos que aparecem entremeados ao processo de incorporação. “A diferença de modalidade entre as línguas produz discursos de diferentes consistências e textos de diferentes aspectos constitutivos” (NASCIMENTO, 2011, p. 42). De tal modo, pelos diversos articuladores é possível que um mesmo corpo expresse simultaneamente o personagem e o narrador pelo procedimento de particionamento do corpo do tradutor.

Considerações finais

Com esta análise, foi possível verificar que o espaço sub-rogado e a gesto-visualidade em ato tradutório de gênero textual narrativo estão necessariamente interligados. É importante que o tradutor perceba o grau de complexidade que envolve a tradução nesse tipo de gênero a fim de compor material bilíngue (livro de literatura infanto-juvenil).

Corroborando com as pesquisas sobre tradução para a Libras, constatamos que na tradução analisada, se assume a perspectiva do cachorro e toda a construção do espaço mental sub-rogado é motivada tanto pela ilustração quanto pelo texto. A ilustração é essencial para a criação discursiva da narrativa e o texto em português motiva principalmente a voz do narrador – descrevendo e informando.

O gênero discursivo-narrativo requer que tradutores utilizem-se de procedimentos tradutórios, empregando abordagens adequadas. Para isso, é necessário compreender o que é típico em diferentes gêneros.

Descrevemos como a gesto-visualidade é amplamente explorada em tradução de literatura infanto-juvenil. Também corrobora-se que “traduzimos discursos, não textos (ou não apenas textos)” (SOBRAL, 2003, p. 58).

Por conta disto, o tradutor deve ater-se em buscar uma correspondência linguístico-discursiva e não apenas efetuar uma tradução focada na correspondência entre as línguas. Delineamos um leque de soluções disponíveis que contribuem com a execução da tradução de literatura infanto-juvenil, como: construção de espaço mental sub-rogado (incorporação dos personagens), utilização da ilustração do livro para criar o cenário e a encenação, definição da orientação do tronco e do olhar do tradutor/narrador tomando como base a direção do personagem ilustrado no livro, construção do particionamento do corpo do tradutor como narrador e como personagem.

A perspectiva de que o tradutor utilize-se dos elementos imagéticos do livro de literatura e traga para o ato tradutório e a sua subjetividade para a construção do texto alvo favorece que a tradução esteja mais voltada ao público infantil surdo, pois traz consigo o sentido construído sobre o texto e suas ilustrações, e não somente a tradução de uma língua escrita (português) para uma língua sinalizada.

Notas

3 Segundo Bolgueroni e Viotti (2013, p. 17), o espaço sub-rogado determina que “o narrador pode fazer referência às personagens da história e representar suas ações e atitudes, valendo-se de diferentes posturas corporais, expressões faciais, movimentos do tronco, da cabeça etc”. Portanto, conclui-se que o espaço sub-rogado diz respeito à incorporação de personagens na narrativa.
4 “They also have an important role to play in exploring norms of translating in specific socio-social and historical contexts […]” (BAKER, 1995, p. 231).
5 Decupagem é a sequência de imagens congeladas do contínuo de sinalização extraído de um vídeo em Libras. A decupagem é uma forma de registrar no “papel” (relatório de pesquisa – em programa Word) detalhadamente a sequência de enquadres dos sinais, contendo a movimentação do corpo do sinalizador, direção do olhar e a sequência de sinais manuais da tradução para língua gestual-visual.
6 “These zones, when partitioned off from the signer’s body, create the additional visible elements that increase the richness of the conceptual integration network of which they become part. In other words, body partitioning plays a large role in providing the signer with a wider range of options in the creation of real-space blends than would otherwise be possible”. (DUDIS, 2004, p. 237)
7 Sinal do FOME. Imagens dos sinais extraídos de Capovilla; Raphael, 2000, p.1117.
8 Sinal do verbo PROCURAR. Imagens dos sinais extraídos de Capovilla; Raphael, 2000, v. 2, p.1823.
9 Sinal de LUGAR. Imagens dos sinais extraídos de Capovilla; Raphael, 2000, v.2, p. 1412.
10 Sinal do verbo DORMIR. Imagens dos sinais extraídos de Capovilla; Raphael, 2000, v. 1, p. 861.

Bibliografia

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ALBRES, Neiva de Aquino. Tradução de português para a Libras do livro "Vira Lata". 28.750Kb. Formato videoclipe. Florianópolis, 2013. Disponível em: <http://youtu.be/mhSW65qytxU>. Acesso em: 28 out. 2014.

BAKER, M. Corpora in translation studies: An overview and some suggestions for future research. Target, Amsterdam, John Benjamins, v. 7, n. 2, p. 223-243, 1995.

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