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Silvana Aguiar dos Santos
Silvana Aguiar dos Santos
Professora / Investigadora
Reflexes sobre as identidades dos intrpretes de lngua brasileira de sinais
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Publicado em 2007
I Encontro dos Profissionais Tradutores e Intrpretes de Lngua Brasileira de Sinais do Centro-Oeste, Campo Grande. v. 1. p. 27-41
Silvana Aguiar dos Santos
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Resumo

Curiosamente, as produções acadêmicas que tratam sobre os intérpretes de língua de sinais a partir da perspectiva cultural, em nosso País, são pouco freqüentes. Nos últimos anos, estamos acompanhando uma circulação de idéias políticas, sociais e culturais muito intensas dos movimentos de resistência surda, e por conseqüência, o profissional intérprete de língua de sinais passa a ser mais solicitado. Outro motivo que marca nossas discussões a respeito do traduzir e do interpretar é a inserção, nos meios acadêmicos, dos próprios profissionais enquanto pesquisadores de sua área, nos mais diversos campos do saber. Problematizando as questões do discurso e da identidade em uma perspectiva crítica, temos Lima (2006), na Análise do Discurso, há Russo 1 (2007), na Lingüística Aplicada, contamos com Pereira 2 (2006) ao passo que, nos Estudos da Tradução, discutindo as questões de fidelidade e invisibilidade da tarefa do tradutor, encontramos Rosa (2005), entre outros trabalhos. Por fim, aliado a esse movimento acadêmico, temos a organização profissional e coletiva por meio das associações de intérpretes de língua de sinais. Todos esses motivos expostos nos confirmam a hipótese da busca pela profissionalização que esse grupo vem enfrentando em sua atuação nas últimas décadas. No entanto, essa busca não é estática; precisamos desconstruir alguns mitos e trabalhar com questões de identidade e diferença, já que partimos da teoria cultural para embasar nossas discussões.

Dialogando com algumas concepções de identidades

Em 2004, a partir das experiências enquanto intérprete de língua de sinais, 3 atuando no curso de mestrado e doutorado do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, e em seguida, enquanto mestranda nessa mesma Universidade, junto com alguns colegas, passamos a discutir algumas problemáticas que envolvem a área da interpretação. Nessas reflexões, na época, a questão da identidade dos ILS e a valorização profissional foram temas que se destacaram.

A demanda de surdos ingressando nos meios acadêmicos aumentava a cada dia, mas, para a comunidade desse espaço em geral – professores, pesquisadores e discentes – não havia clareza a respeito do papel que desempenhávamos em sala de aula. A necessidade de se esclarecer a compreensão quanto aos ILS e de se buscar fundamentos para a valorização profissional no ambiente da Academia eram evidentes. No entanto, essa busca exigia que nós, encontrássemos, além de subsídios que firmassem nosso espaço na interpretação, elementos que fundamentassem o motivo de estarmos atuando naquele determinado cenário.

Dos Estudos Surdos, que nos últimos anos têm se afiliado aos Estudos Culturais, foi possível extrair conceitos, culturais e lingüísticos, amplamente discutidos e divulgados pelos pesquisadores que trabalham na área. Desse modo, questões como língua de sinais, identidades, diferença, compreensão da surdez a partir da perspectiva cultural, história dos surdos narrada pelos próprios surdos, bem como, ILS enquanto mediadores lingüísticos e culturais, passaram a ganhar espaço significativo em nossos discursos e nos possibilitaram pensar a área da interpretação a partir dessa ótica.

Cabe ressaltar que, esse viés não é o único e que muitos outros trabalhos têm sido pensados a partir de diversas áreas, tais como a de Lingüística Aplicada, Análise do Discurso e a dos Estudos da Tradução, por exemplo. De todos esses conceitos apresentados, a necessidade de discutir as identidades dos ILS era algo fundamental. De um lado, estão os intérpretes que tinham clareza quanto ao seu papel, e do outro, um desconhecimento evidente da comunidade acadêmica, que enunciava discursos se referindo aos ILS, por exemplo, como sendo “aquelas pessoas que ficavam ao lado do professor, gesticulando com as mãos a aula inteira 4”.

Hall (2004) dialogou com três concepções a respeito das identidades em determinados momentos históricos, sobre as quais esclarecemos abaixo, entendendo que, se nos aproximarmos dessas, teremos a possibilidade de compreender porque tais discursos se repetem na atualidade.

A primeira concepção que o autor menciona sobre identidade nos faz voltar ao Iluminismo, compreendendo-a a partir de uma visão única e centrada no próprio sujeito,ou seja, individualista, como parte da sua essência, fixa em determinados padrões de uma única cultura, sendo esses, criados pela própria Sociedade Iluminista.

Esses padrões eliminavam toda e qualquer possibilidade de expressão da diferença e de múltiplas identidades. Afinal, existia uma única identidade que determinava as outras e, conseqüentemente, aqueles que não se encaixavam na mesma, eram excluídos cultural, econômica e socialmente, segundo nos é revelado pela história daquela época.

Perante essa realidade, a surdez era compreendida enquanto patologia – doença que necessitava de uma intervenção divina – e são desastrosas as conseqüências geradas por tal pensamento. Porém, nessa época, em nenhum momento, os registros mencionam algo a respeito dos ILS. Um dos motivos que explica tal afirmação ocorre pela condição que as pessoas surdas ocupavam na era Iluminista. Se estendermos essa análise, veremos que, não foram apenas os ILS que padeceram nessa época, mas também, os intérpretes de línguas orais, que enfrentaram um “apagamento histórico” nesse intervalo.

Outro motivo que ratifica a omissão nos anais da História se deve à posição social que os intérpretes ocupavam naquela época, pois, para Delisle e Woodsworth (2003), eles eram:

“híbridos étnicos e culturais, muitas vezes do sexo feminino, escravos ou membros de uma “subcasta” – cristãos, armênios, judeus que viviam na Índia britânica, por exemplo, (Roditi, 1982, p.6) esses intermediários não recebiam nos registros históricos o tratamento que mereciam” (DELISLE e WOODSWORTH, 2003:258).

A segunda concepção que Hall (2004) destaca envolve o mundo público e o mundo pessoal, isto é, o sujeito é constituído a partir da sutura desses dois mundos. Do mundo pessoal, vêm as questões subjetivas, que são “costuradas” com o mundo público – de onde vêm as estruturas sociais – por meio das identidades. “Esse processo proporciona estabilidade aos sujeitos, bem como, aos mundos culturais que eles habitam, tornando ambos reciprocamente mais unificáveis e predizíveis”, diz HALL (2004: 12).

Tornar sujeitos predizíveis e unificáveis foi o que Educação Especial 5 fez com as pessoas surdas, durante muito tempo, ao enunciar os discursos de integração e diversidade enquanto técnicas para normalizar esse grupo. A língua de sinais, a diferença, as identidades são aceitas, mas, desde que dependentes daqueles que ouvem e que ditam os discursos encarados como verdade. Se esse processo gera estabilidade, é apenas para aqueles que definem tais normas, pois, para os surdos, essa “máscara” é facilmente rechaçada e denunciada nos movimentos de resistência. Mas e os ILS, nessa perspectiva, como podemos percebê-los?

Ao examinar que tipos de comportamentos se apresentam, nesse ponto de vista, a princípio, temos dois que se destacam. De um lado, encontram-se aqueles intérpretes que atuam nos espaços religiosos e familiares com fins caritativos, preocupados em ajudar os surdos por dó ou compaixão, atuando voluntariamente. Em muitos casos, essa relação é facilmente confundida com superproteção dada às proporções que tais comportamentos são assumidos por ambas as partes (ILS e surdos). Distinguir esses espaços é fundamental para evitar que, futuramente, constrangimentos e problemas mais graves surjam dessa relação.

Do outro lado, localizam-se os ILS que atuam nesses mesmos espaços, exercendo colonização sobre as pessoas surdas, isto é, julgando-as subalternas e pertencentes a culturas inferiores, podendo também, manipular a comunidade surda, ou ainda, subjugar-se ao extremo para ser aceito (ou pertencer culturalmente) pelos membros da referida comunidade 6. No século XIX, comportamentos como esses eram freqüentes, mas, ainda temos muitos casos de superproteção que ocorrem hoje em dia.

“Estos “intérpretes” trabajaban para el bien de la comunidad sin recibir ningún pago a cambio. Sus funciones sobrepasaban en cierta medida las propias del profesional de la interpretación tal y como se entendien hoy en día, ya que en la mayoría de los casos actuaban también como guías o asistentes, aconsejando y apoyando a las personas sordas, lo que, en muchos casos, conllevaba situaciones de sobreprotección” (RODRÍGUEZ, 2001:18).

No entanto, essa realidade vem mudando nos últimos anos, especialmente a partir da década de oitenta do século passado, pois, temos vivido constantes transformações sociais e políticas no cenário mundial e, por conseqüência, em nosso cotidiano, o qual também é afetado por essas mudanças. Entender a identidade como única, centrada em individualismos, imutável e fixa, não condiz com a experiência contemporânea pelas quais temos passado atualmente.

Hall (2004) apresenta a terceira concepção a respeito desse tema: múltiplas culturas, múltiplas identidades, sujeitos que enfrentam descentramentos, subjetividades desestabilizadas, rompimento com cenários estabilizados, entre outras, são algumas características que têm nos assolado nas últimas décadas.

Todas essas mudanças obrigam os sujeitos a se deslocarem constantemente, alternando suas identidades, conforme os espaços que ocupam. Em um determinado momento, pode se destacar a identidade regional; em outro, a identidade nacional, ou ainda, a de gênero, a profissional e assim por diante. O certo é que, todas elas estão articuladas umas com as outras, em que, uma cadeia complexa de significados, espaços e sujeitos que as envolvem se estabelece. Esse contexto – no qual entram em cena essas múltiplas identidades – requer dos ILS algumas desconstruções, que são complexas, pois, não se restringem somente à língua envolvida, mas abrangem preocupações que vão além: espaços híbridos que esse profissional se insere, as conseqüências advindas desse processo, etc.

Assim, não basta entender a interpretação apenas como uma transmissão de signos de uma língua para outra, mas sim, de pensar que esse processo faz parte de uma tradução cultural.

Esse lugar que os ILS ocupam a cada interpretação que realizam, não é sempre confortável. Desse processo, desencadeiam-se relações de tensão cultural ao se traduzir signos complexos quanto à traduzibilidade, ao enunciar as diferenças culturais pela interpretação. Estar aberto a esses embates pessoais, culturais e lingüísticos, deslocando-se freqüentemente a cada ato interpretativo, convoca-nos a refletir sobre a tradução cultural.

“Na irrequieta pulsão de tradução cultural, lugares híbridos de sentido abrem uma clivagem na linguagem da cultura, que sugere que a semelhança do símbolo, ao atravessar os locais culturais, não deve obscurecer o fato de que a repetição do signo é, em cada prática social e específica, ao mesmo tempo, diferente e diferencial. (...) a “estrangeiridade” da língua é o núcleo do intraduzível que vai além da transferência do conteúdo entre textos ou práticas culturais” (BHABHA, 2005:230).

As discussões a respeito da tradução cultural e sua interface com a interpretação em língua de sinais são apresentadas por Masutti (2007), em sua tese. A partir daqui, é válido apresentar traços que constituem algumas identidades dos intérpretes de língua de sinais e que ratificam a necessidade de se entender esse processo da tradução cultural.

A constituição lingüística como traço nas identidades dos ILS

As línguas representam mais que estruturas gramaticais entre seus falantes, elas representam o significado cultural que permeia os sujeitos. São elementos fundamentais da constituição dos sujeitos, isto é, elas são partes indispensáveis às identidades. Rajagopalan (2003: 93) ratifica essa afirmação ao dizer que a “língua é muito mais que um código ou um instrumento de comunicação. Ela é, antes de qualquer outra coisa, uma das principais marcas da identidade de uma nação, de um povo. Ela é uma bandeira política”.

Geralmente, os ILS são constituídos pelo Português e, posteriormente, pela língua de sinais ou, até mesmo, em determinados casos, por uma terceira língua, seja ela o Inglês, o Espanhol, a língua de sinais norte-americana, entre outras possibilidades. Quando alguém aprende uma nova língua, esse se redefine enquanto pessoa, ou seja, disso emergem outras identidades que não estavam em cena. As questões lingüísticas, culturais, sociais e econômicas propiciam aos sujeitos novas identidades entrarem em jogo, refletindo-se também na constituição das identidades dos ILS.

Essa redefinição exige que os ILS, em cada ato interpretativo, adquiram conhecimentos que são específicos de cada língua – costumes, expressões, culturas, representações sobre as diferentes formas de entender a Sociedade, as escolhas das palavras adequadas na interpretação e o vocabulário que está sendo utilizado – façam parte do seu cotidiano. Esses conhecimentos são fundamentais no processo da tradução cultural, e influenciam, significativamente, no desempenho da atuação dos ILS.

A língua ocupa um lugar de destaque na formação individual e coletiva dos sujeitos, marcando posições de pertencimento ou não a um determinado grupo. Por exemplo, decidir ser um ILS no grupo cultural de surdos significa: adquirir, saber, ter fluência na LS e no Português, ter postura ética e estar inserido nos espaços onde os surdos transitam, pois, esses elementos são primordiais para se pertencer a esse grupo. Embora, mesmo que não necessariamente, sejam elementos que garantam a permanência dentro desse grupo. Vemos que apenas conhecer as línguas envolvidas na interpretação, não garante o pertencimento do profissional nos espaços em que o mesmo atua. Esses requisitos, além das questões lingüísticas, também corroboram a necessidade de entender esse processo da interpretação como uma tradução cultural.

ROSA (2005) coloca a tensão existente na escolha do profissional ILS e sua aceitação pelo grupo de surdos. A autora foca essa escolha baseada no jogo de poder que os surdos têm ao aceitarem ou não um determinado ouvinte como intérprete.

O ouvinte, ao aprender a LS como sua segunda língua, passará por um constante processo de renegociação e realinhamento com as pessoas surdas. Em determinados momentos, poderá sentir vergonha da sua condição de aprendiz. Em outros, necessitará de esforço para compreender aspectos culturais diferentes das suas experiências culturais por meio de uma língua com modalidade gestual-espacial (LS), distinta da modalidade oralauditiva da sua língua (no nosso caso, o Português). Essa desconstrução requer uma imersão cultural na língua do outro, para que, realmente, estabeleçam-se os laços de pertencimento e esse processo é complexo.

“Isso se dá por conta da dificuldade na ruptura com a língua materna e da descoberta de um novo eu na língua estrangeira. Ambos os processos são essencialmente distintos em sua gênese: na língua materna, o falante manifesta uma relação natural ao penetrar no mundo dos conceitos que a constituem, a aprendizagem é informal, há o vinculo afetivo com o grupo de referência mais imediato; na língua estrangeira, salvo os casos de imersão natural, a aquisição é sistemática, o ambiente é artificial, o aprendiz se vê num trabalho de elaboração constante, intencional sobre a adequação daquilo que quer dizer que vai sendo atenuado à medida que sua identificação vai se consolidando e o sentimento de pertencer à cultura, à comunidade de acolhida se estabelece” (FERNANDES, 1999: 64).

A maioria dos ouvintes que se tornaram ILS passou por um processo de aquisição da LS em contato com os surdos adultos e, ao longo das suas experiências, desenvolveram habilidades e estratégias de expressão na LS. Nesse ato de tradução e interpretação, na passagem de uma língua para outra, os ILS vivenciam aproximações culturais entre surdos e ouvintes. Perlin (2006) nos fala que os ILS sempre “voltam para casa”, que eles têm a necessidade de conviver com seus pares, que não são surdos e de acolher um hibridismo.

No entanto, pensamos que, ao conviverem e se constituírem nessas fronteiras culturais, quando os ILS “voltam para casa” levam consigo elementos lingüísticos, sociais e culturais de ambas as línguas envolvidas no ato de interpretar. Esse movimento cultural marca a alteridade desses profissionais e coloca em cena traços híbridos dos ILS, pois, essa passagem, não é mecânica, mas articulada com os grupos envolvidos no processo.

A ação de transitar nas fronteiras culturais exige dos ILS, conforme Perlin (2006), romper com uma série de artefatos coloniais – enunciação da cultura surda vista como sendo ainda uma figura subalterna, ou como inexistente em algumas frações sociais. Questões de pertencimento e de vínculo são freqüentemente contestadas pelos surdos.

Se os ILS atuam como mediadores lingüístico-culturais, além de romper com esses artefatos coloniais e com essa redefinição enquanto pessoas – uma vez que transitam em produções culturais e lingüísticas diferentes – há de se rever também, a constituição profissional desses sujeitos.

A constituição profissional como traço nas identidades dos ILS

Estamos vivendo momentos de estruturação profissional dos ILS, criando recentes discussões sobre o papel desses profissionais, em especial, no que se refere à regulamentação da profissão. Por outro lado, o Decreto n°. 5626 de 2005, dá visibilidade a outra reivindicação antiga dessa categoria: a formação dos ILS, os quais, até então, não dispunham de formações específicas na área de interpretação.

Outro importante fator no Brasil é o surgimento das associações dos ILS, com o intuito de discutir, organizar politicamente, buscar os direitos profissionais desse grupo, assim como, de se ater à formação e ao comportamento ético dos mesmos. Em nosso País, ainda não temos a associação nacional de ILS, mas, é algo que vem sendo construído arduamente, em especial pelas lideranças da área. Em países como o Canadá e a Espanha, 7 já existem tais associações desses profissionais.

No âmbito internacional, temos a Associação Mundial de Intérpretes de Línguas de Sinais 8 - WASLI, que realizou seu primeiro congresso em Worcester, na África do Sul, em Outubro de 2005. O segundo congresso ocorreu em Julho de 2007, em Madri, na Espanha.

Por meio desses exemplos, podemos notar que a identidade profissional dos ILS vem se estabelecendo em meio a outras tantas identidades. Esse grupo tem afirmado seu espaço de atuação e também de discussão, com proposições e alternativas apresentadas para a formação e criação de políticas públicas que visualizem o ser intérprete como um profissional legítimo da área da interpretação em língua de sinais.

No entanto, mencionamos tanto a questão do ser profissional, mas, nem sempre os critérios que definem o mesmo são claros para a Sociedade em geral, o que causa uma confusão dos papéis que esse profissional desempenha.

A forma como é entendida a questão profissional depende da perspectiva de quem enuncia os discursos. Se nos detivermos ao espaço acadêmico, por exemplo, no que se refere a aspectos burocráticos, ou seja, de contratação – possivelmente, os mesmos (instituição) compreendam que se trata de contratar um profissional ILS para atender a demanda existente no espaço.

Por outro lado 9, dependendo da instituição, poderão ser contratadas outras pessoas que tenham fluência em Língua de Sinais, mas que não são ILS, por exemplo: bolsistas, auxiliares administrativos, técnicos e assim por diante. Essa última atitude, além de não valorizar o profissional ILS, coloca em risco a aprendizagem das pessoas surdas que requerem o serviço de interpretação, pois, um profissional não habilitado poderá causar sérios problemas éticos, lingüísticos, entre outros, quando passa a atuar nesse espaço.

Ao olhar sob o ponto de vista de um ILS, el@ vai poder atuar de forma profissional ou não, dependendo de qual é a compreensão que el@ possui a respeito da interpretação e de sua função. Para LIMA 10 (2006), os critérios para atuação profissional de um ILS compreendem os seguintes requisitos básicos: ser fluente em LS (Libras, no caso do Brasil), e em língua oral (Português, no caso do nosso País); conhecer e dominar as técnicas de interpretação; respeitar o Código de Ética dos ILS; conhecer o mercado de trabalho e suas demandas; saber trabalhar em equipe; manter-se atualizado em relação aos conhecimentos gerais e, principalmente, quanto aos conhecimentos lingüísticos sobre Língua Portuguesa e LS; conviver harmonicamente com a comunidade surda, respeitando suas organizações e lideranças, como também, reconhecendo suas limitações e habilidades.

Essa trama que se constitui entre sujeito e instituição é fundamental para discutirmos alguns dos critérios iniciais que demarcam a questão do profissional e o diferem de um voluntário, por exemplo. Nesse sentido, Charlot e Bautier apud Ramalho et. al. (2004) utilizam os critérios a seguir para caracterizar o ser profissional:

  • base de conhecimento;
  • prática na situação;
  • capacidade para demonstrar seus conhecimentos, seu “saber-fazer” e seus atos;
  • autonomia e responsabilidade no exercício de suas competências;
  • adesão às representações e às normas coletivas da identidade profissional;
  • pertencimento a um coletivo que desenvolve estratégias de promoção e discursos de legitimação

O autor mencionado não tratou especificamente dos ILS, no entanto, esses critérios podem ser úteis para refletir sobre a questão profissional que esse grupo vem constituindo. Certamente, a necessidade de se conhecer a história do grupo e do desenvolvimento de suas atividades de trabalho faz com que tenhamos subsídios específicos da profissão, entendendo os desdobramentos políticos, históricos, disciplinares, sociais e econômicos pelos quais os ILS vivenciaram desde quando se constituíram enquanto grupo.

Os ILS merecem ser incluídos nas decisões que vão além do seu espaço de atuação, mostrando suas habilidades e competências de negociação entre grupos. Atualmente, a maioria das leis sobre os ILS apenas menciona a importância ou garantia desse profissional. Dessa forma, a participação dos mesmos se torna fundamental para o desenvolvimento das discussões que vêm surgindo.

Esse processo de constituição da identidade profissional não é acabado, unificado, nem imutável, mas, ao contrário, configura-se em um processo cultural, lingüístico, histórico, cultural, político e social, que dialoga com questões as quais muitos dos ILS vêm buscando há algum tempo. Elementos tais como: formação, regulamentação e status profissional são pontos centrais de discussões dos ILS.

Considerações finais

Nessa direção, discutirmos os elementos que constituem a identidade profissional dos ILS assim como outras, sugere cursos de formação, o domínio de técnicas e estratégias para interpretação das línguas, mas, além disso, sugere ainda, pensar na reflexão das práticas de atuação nos diferentes níveis em que esse profissional trabalha. Por meio do trabalho reflexivo em grupo, construindo e reconstruindo permanentemente as identidades que se encontram em movimento, as contribuições para a formação desses profissionais tendem a alcançar significativos avanços.

Assim, os ILS estão diante de vários desafios para a consolidação das suas identidades, quer sejam profissionais, quer sejam de tradução cultural, dentre outros. Na medida em que eles aprendem a se articular enquanto grupo profissional, tendem a criar políticas de valorização da profissão, pensando sobre questões de formação e remuneração desse grupo, bem como, de ética e avaliação permanente do exercício desses profissionais.

É nesse cenário que os ILS vêm constituindo suas identidades múltiplas, instáveis e em deslocamentos constantes. Não nos preocupamos em estabelecer indícios de verdade ou falsidade sobre as questões das identidades, visto que, o que nos interessava era identificar os traços que contribuem para a formação política e cultural dessas identidades e ainda, apontar o que elas representam nesses tempos marcados pela dúvida e pela incerteza, perante tantas transformações cotidianas que ocorrem. Apresentar diferentes tipos de identidades, seria um sistema excludente, classificando aquilo que é ou não é. Por isso, a razão primeira para compor essa reflexão foi discutir, de forma geral, diferentes concepções de identidades e traços que contribuem para a formação delas.

Agradecimentos

Aos pesquisadores e intérpretes de língua de sinais da Universidade Federal de Santa Catarina, que, em 2004, iniciaram uma longa caminhada de estudo na área da interpretação em língua de sinais.

Aos pesquisadores surdos que contribuem, cotidianamente, para a descoberta de novos elementos que compõem a interpretação em língua de sinais e os seus desafios.

À colega e amiga Viviane Barazzutti, que continua a pensar comigo questões significativas da tradução cultural e de suas contribuições para o campo da interpretação em língua de sinais.

À Dra. Ronice Müller de Quadros, minha orientadora durante o mestrado, que, pacientemente, forneceu-me subsídios para adentrar nesse mundo da interpretação.

Notas

1 Dissertação em andamento.
2 Dissertação em andamento.
3 A partir desse momento estarei utilizando ILS para nomear intérpretes de língua de sinais
4 Esse enunciado foi obtido de dois colegas ouvintes que cursavam o Mestrado e se referiam no horário do intervalo, ao estranho personagem que ocupara sua sala de aula, isto é, o intérprete de língua de sinais.
5 Este tema é enfocado no artigo de Lunardi (2006) intitulado “Pedagogia da Diversidade: Um Travestismo Discursivo Na Educação De Surdos”.
6 Será que precisamos de ILS “bonzinhos” ou de bons profissionais ILS?
7 No Canadá, temos a Association of Visual Language Interpreters of Canada (AVLIC) e, na Espanha, a Associación Intérpretes de Lengua de Signos de España (ILSE).
8 World Association of Sign Language Interpreters.
9 Essa situação ocorreu no estado de Santa Catarina.
10 Esses critérios foram eleitos por essa pesquisadora em sua dissertação de mestrado, na qual ela centraliza seu estudo na presença do intérprete de Libras no Ensino Superior.

Bibliografia

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RAMALHO, B. Formar o professor profissionalizar o ensino: perspectivas e desafios. Porto Alegre: 2ed. SULINA, 2004

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