porsinal  
ArtigosCategoriasArtigos Científicos
Vincius Nascimento
Vincius Nascimento
Professor/Investigador
Formao de Intrpretes Educacionais de Libras: entre concepes e propostas de curso de extenso universitria
3
Publicado em 2012
V Congresso Brasileiro de Educao Especial, So Carlos. V CBEE - VII Encontro Nacional dos Pesquisadores da Educao Especial. p.11745-11760
Vincius Nascimento
Tiago Codogno Bezerra
Neiva de Aquino Albres
Vnia de Aquino Albres Santiago
  Artigo dispon�vel em vers�o PDF para utilizadores registados
Resumo

A Política Nacional de Educação Inclusiva instaurada no Brasil nos últimos anos tem favorecido a criação e formação de novos profissionais que atuem diretamente com pessoas surdas na educação, pessoas com deficiência e pessoas com limitação na comunicação. Aliado a esse novo contexto o Decreto nº 5626/05 estabelece formação para intérpretes de libras em diferentes níveis e por esse motivo percebe-se o aumento na oferta de cursos para formação de intérpretes de língua de sinais. Nesse sentido, este trabalho analisa uma proposta de curso de Extensão para Tradutores Intérpretes de Libras Português: Intérprete Educacional. A partir da abordagem histórico-cultural e da perspectiva dialógica da linguagem observou-se a proposta curricular do curso selecionado e mapeamos as especificidades da atuação desse profissional ligadas à esfera educacional. Conclui-se que a proposta analisada contempla da especificidade linguística e tradutória até as coerções circulantes no contexto escolar.

Introdução

Nas últimas décadas, políticas de inclusão social têm sido instauradas em todo o território nacional (BRASIL, 2008). Pessoas surdas, pessoas com deficiência e pessoas com qualquer tipo de limitação na comunicação vem sendo incluídas na rede regular de ensino de escolas públicas e particulares (MELETTI e BUENO, 2010).

Esse novo cenário da educação brasileira aponta para caminhos novos a serem trilhados por professores, coordenadores, equipes gestoras de unidades escolares e por profissionais que atuam como agentes de acessibilidade em diferentes esferas sociais como os intérpretes de língua de sinais (LODI e LACERDA, 2009).

No que diz respeito às pessoas surdas, sabe-se que grande parte desta população estabelece interação com as pessoas e com mundo, principalmente e de forma completa, pela língua de sinais. No Brasil, a Libras – Língua Brasileira de Sinais – é reconhecida como meio de comunicação e expressão das comunidades surdas pela Lei nº 10.436/02 e regulamentada pelo Decreto nº 5.626/05 que estabelece parâmetros do processo de inclusão social de surdos nos diversos espaços da nossa sociedade (BRASIL, 2005).

O Decreto nº 5.626/05 (BRASIL, 2005) prevê no Capítulo V, artigo 17, a necessidade de formação do Tradutor e Intérprete de Libras / Língua Portuguesa (TILS) por meio de curso superior de Tradução e Interpretação, com habilitação em Libras - Língua Portuguesa. Atualmente, este curso específico é oferecido por poucas instituições de ensino superior, e a realidade vivenciada é a da constituição de um fazer promovida principalmente em práticas sociais diversas (espaços religiosos, associações de surdos, entre outros) e no contexto escolar (LACERDA, 2009; 2010).

Dando sequência, o artigo 18, do referido Decreto, menciona que nos próximos dez anos a partir de sua publicação, em 2005, será aceita a formação do TILS, em nível médio, realizada por meio de cursos de educação profissional; cursos de extensão universitária; e cursos de formação continuada promovida por instituições de ensino superior e instituições credenciadas por secretarias de educação.

O primeiro curso de graduação em Letras Libras foi desenvolvido na modalidade a distância com polos em todo o país, a Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC coordenou a execução desse projeto totalmente financiado pelo Ministério da Educação, uma formação em instituição pública (QUADROS E STUMPF, 2009). Segundo Albres (2010) é crescente o número de cursos de formação de intérpretes de línguas de sinais oferecidos principalmente por instituições privadas. No entanto, não existe um consenso no que deve ser trabalhado na formação desse profissional, o que se sabe, até o presente momento devido a diferentes leituras de experiências estrangeiras na formação de intérpretes (QUADROS, 2004), é que habilidades linguísticas, tradutórias e discursivas devem ser abordadas nesse processo formativo.

Winston (2005) indica que uma das dificuldades para a construção de um curso de formação de intérpretes também advém da falta de formadores. Nos Estados Unidos da América, quando uma instituição pretendia desenvolver tal programa, precisava contratar professores externos, visto que em seu quadro permanente não os tinha, principalmente devido à especificidade de conteúdos e habilidades a serem desenvolvidas para a formação de intérpretes de línguas de sinais.

Cokely (2005), a partir de pesquisa no campo de formação de intérpretes, indica que cursos para este fim devem abordar um conjunto de habilidades para o desenvolvimento do profissional intérprete. O autor considera que o curso inicial deve focar em interações dialógicas, ou seja, a sequência de disciplinas deve ter como foco o desenvolvimento da competência discursiva. Historicamente, os cursos de formação de intérpretes têm trabalhado com disciplinas e habilidades como pré-requisitos como se a sequência de estudo – tradução, interpretação consecutiva e depois interpretação simultânea – fosse essencial.

Esse mesmo autor indica que é necessário aprofundar a interpretação simultânea na formação desses profissionais, visto ser a mais complexa, mas ressalta não ser o objeto fim do trabalho do intérprete, não sendo a tradução e a interpretação consecutiva apenas meios para esse fim, pois estas também são atividades que compõe a prática deste profissional. Uma formação completa deve proporcionar a consciência de que a tradução e interpretação consecutiva também são estratégias a serem usadas em várias situações, a depender da esfera do discurso e das interações nas quais o profissional está inserido.

Nesse sentido, algumas questões se apresentam aos profissionais que tem se dedicado ao processo de formação de tradutores/intérpretes: como trabalhar essas habilidades na especificidade de cada esfera de atuação, principalmente para o intérprete educacional? Como desenhar um currículo que desenvolva tal formação?

Assim, o objetivo deste trabalho é realizar uma análise documental de uma proposta curricular de curso de formação de Intérprete Educacional de Libras em nível de extensão.

Referencial Teórico

Para o Círculo de Bakhtin, o estudo da língua é inseparável da vida, pois é nela, nas relações entre os sujeitos, na realização da língua por meio da interação entre esses mesmo sujeitos, que a linguagem acontece e os sentidos se instauram. O olhar para a linguagem deve ocorrer nas suas reais condições de produção, pois, obrigatoriamente, os sentidos implícitos nessas práticas só emergem na interação real e viva entre sujeitos singulares.

A prática de interpretação da língua de sinais constitui-se, por excelência, como uma atividade social de uso da linguagem em que o intérprete, enquanto enunciador/mediador constrói uma ponte interativa entre sujeitos que desconhecem a língua um do outro, isto é, são sujeitos “discursivamente estranhos” (NASCIMENTO, 2011) que querem (ou precisam interagir).

Sobral (2008) aborda a tradução/interpretação como enunciado concreto ao afirmar que traduzir significa “[...] mobilizar um texto por meio de outro discurso” (p. 70) e que o tradutor/intérprete ao dirigir-se a um público a que um autor não pode se dirigir cria, necessariamente, novas relações enunciativas e discursivas, isto é, uma nova relação entre o autor e o público.

A especificidade da tradução está no fato de que, em primeiro lugar, o discurso passa a ter, além do locutor e dos interlocutores “originais”, um interlocutor que também é locutor (o tradutor) e outro grupo de interlocutores (os leitores da tradução). O discurso a ser traduzido não pode incorporar diretamente esse outro grupo de interlocutores, assim como o discurso gerado pela tradução não pode incorporar os leitores do “original” (SOBRAL, 2008, p 70).

A tradução/interpretação, enquanto ato enunciativo-discursivo é realizado em situações concretas de interação entre sujeitos organizados socialmente e ultrapassam a dimensão linguística, os aspectos lexicais, morfológicos, sintáticos, textuais, pois “[...] essas relações entre enunciações plenas não se prestam à gramaticalização, uma vez que, reiteramos, não são possíveis entre as unidades da língua, e isso tanto no sistema da língua quanto no interior do enunciado” (BAKHTIN, 2010, p. 276).

No caso do Intérprete de Língua de Sinais que atua na esfera educacional há uma questão que perpassa o funcionamento das línguas envolvidas no processo tradutório/interpretativo. Sua atuação está atrelada as relações de mediação pedagógica constitutivas da esfera educacional. Os conteúdos apresentados e ensinados pelo docente são acessados pelo aluno surdo a partir da atuação do Intérprete que (re) significa os conteúdos na língua alvo, no caso, a Língua de Sinais.

A interpretação educacional, por ser realizada a partir do gênero discursivo aula, entra em consonância com as coerções ligadas à especificidade deste gênero. As interações estabelecidas, os enunciadores, os conflitos, negociações e vicissitudes ligadas à esfera escolar afetam, influenciam e, sobretudo, constituem a prática do profissional intérprete, uma vez que é para mediar as interações nessa esfera que sua prática se legitima, coexistindo com outras práticas discursivas protagonizadas pelos diferentes atores sociais que ali circulam.

Os gêneros do discurso são apontados por Bakhtin (2010) como constitutivos da linguagem humana. Para o autor, que considera que toda e qualquer enunciação acontece a partir de diferentes esferas da comunicação humana, qualquer modificação da língua, em termos composicionais e linguísticos, só ocorre a partir (e primordialmente) dos gêneros.

Nesse sentido, dentre as múltiplas questões coercitivas existentes na atuação do intérprete educacional, a prática de interpretação da língua de sinais na esfera escolar, especificamente no gênero aula, bombeia para essa língua novos acordos linguísticos, tanto em termos léxicos, como semânticos e pragmáticos, devido às necessidades existentes no ato interpretativo de expandir, em libras, os discursos produzidos na língua portuguesa. Esse fato acontece pela introdução da libras na educação e de um recente desenvolvimento de um corpo léxico específico nessa língua para, a partir de então, acordar-se expressões que signifiquem os novos conceitos apreendidos pelos alunos surdos.

Dessa forma, ao debruçar-se sobre a formação de intérpretes para a realização do ato interpretativo na esfera escolar, a partir do gênero aula, percebe-se apontamentos, tanto teóricos quanto práticos, que norteiam uma formação profissional para o intérprete de língua de sinais, e ainda que esses apontamentos não sejam formalizados e sistematizados, eles indicam, para profissionais que trabalham na construção dessa formação, possibilidades de abordagem da prática nessa esfera em uma perspectiva sócio histórica e discursiva.

Metodologia de Pesquisa

A formação de profissionais é uma área de estudo que tem por finalidade fundamentar o processo de ensino e aprendizagem como uma prática de desenvolvimento humano para os diferentes fazeres. Tal conceituação impõe a elas, enquanto área do conhecimento, modos de organização curricular e didática.

A área da tradução/interpretação tem se constituído historicamente uma área de conhecimento e uma área que demanda formação específica. Consideramos as propostas de ensino em situações historicamente situadas objeto de investigação. Isto significa examiná-los no contexto social em que se efetiva. Analisá-los não com caráter avaliativo ou prescritivo, mas como fenômeno social resultante da trama das ações políticas, administrativas, econômicas e culturais contextualizadas.

Bakhtin (2010), afirma que todo tipo de investigação acontece a partir de enunciados concretos dentro de campos específicos de atividade humana e de comunicação. A questão do desconhecimento do enunciado e de sua natureza, logo de suas produções na interação verbal leva o investigador, caso tenha a linguagem como objeto de estudo, a voltar seu olhar, apenas, para a estrutura e a forma da linguagem, excluindo, no entanto, as relações da língua com a vida. Segundo o autor a vida se concretiza na linguagem, são nos enunciados, na interação discursiva que a vida surge e permanece.

Ainda salientando a importância da observação do conteúdo e forma da produção ideológica como constituintes um do outro, Bakhtin/Volochínov (2010) afirma:

Todo signo, como sabemos, resulta de um consenso entre indivíduos socialmente organizados no decorrer de um processo de interação. Razão pela qual as formas do signo são condicionadas tanto pela organização social de tais indivíduos como pelas condições em que a interação acontece. Uma modificação dessas formas ocasiona uma modificação do signo. (p. 45).

Nessa perspectiva, qualquer análise parte do processo real de vida e dos ecos ideológicos deste processo. Como instrumento de pesquisa, optamos pela análise documental imbricada com as ações do homem (gestores, professores) sobre o pensar da formação de um novo profissional, o intérprete de língua de sinais. Para tanto, selecionamos o projeto de curso de curso de extensão universitária em Tradução Interpretação de Libras Português: Intérprete Educacional de uma instituição privada de ensino de São Paulo.

A unidade básica de análise é a linguagem, concebida aqui como processo de construção histórico-cultural, visto que os sujeitos se constituem pela e na “palavra” na interação com o outro no processo de construção da humanidade (BAKHTIN, 1999).

Entende-se, então, que investigar aspectos relacionados à formação de uma nova profissão, no campo do currículo e da formação profissional, possibilita também o estudo da cultura escolar, podendo ser feito por meio dessas obras, quando considerado o recorte histórico e político, pois se sabe que os fenômenos da sociedade são constituídos por diferentes determinações, contradições e forças antagônicas (SILVA, 2006).

Análise do Curso

A proposta curricular escolhida para análise é a de um curso de Extensão em Tradução Interpretação de Libras Português: Intérprete Educacional oferecido por uma instituição privada de ensino da cidade de São Paulo. Na proposta, o curso possui carga horária total de 130 horas distribuídas em dois módulos, um em cada semestre. As disciplinas estão organizadas em três eixos específicos: eixo pedagógico/educacional, eixo sócio/antropológico e eixo linguístico/interpretativo.

O eixo pedagógico/educacional tem por objetivo abordar as temáticas ligadas as políticas educacionais, a cultura escolar, ao funcionamento de unidades escolares, a educação inclusiva e educação bilíngue, bem como as relações institucionais estabelecidas no espaço escolar. As disciplinas que compõem esse eixo são: Políticas Educacionais de Inclusão; Esfera escolar e atuação do Intérprete Educacional.

O eixo sócio/antropológico aborda as questões ligadas as especificidades da surdez: os aspectos biológicos, sociais e psicológicos; identidade, cultura e comunidade surda; as concepções médica-patológica e sócio-antropológica da surdez; a aquisição de linguagem de pessoas surdas e letramento e surdez. As disciplinas que compõem esse eixo são: Aspectos biopsicossociais da surdez; Surdez, sociedade e escola.

E no último, eixo linguístico/interpretativo é tratada a questão da prática de interpretação ligada a esfera educacional desde a educação infantil até a pós-graduação, bem como os aspectos relacionados a mobilização de textos e discursos em libras/português/libras. As disciplinas que compõem esse eixo são: Práticas interpretativas I, II, III, IV.

Desse modo, a grade curricular do curso foi assim constituída:

Disciplinas Conteúdo Total horas
Módulo I
Políticas Educacionais de Inclusão - Educação Especial x Educação Inclusiva;
- Legislação, Diretrizes e Orientações do Ministério da Educação;
- Projetos de Educação Bilíngue;
16
Esfera escolar e atuação do Intérprete Educacional - Ética
- Relações interinstitucionais
Relação Professor - Intérprete - Aluno Surdo
- Interpretação Simultânea e Consecutiva
16
Práticas Interpretativas I - Educação Infantil e Ensino Fundamental I e II
- Aspectos linguísticos, tradutórios e pedagógicos da interpretação
16
Práticas Interpretativas II - Ensino Médio, Graduação e Pós-Graduação
- Aspectos linguísticos, tradutórios e pedagógicos da interpretação
16
Módulo II
Aspectos biopsicossociais da surdez - Anatomia e fisiologia da audição
- Patologia da surdez
16
Surdez, sociedade e escola - Concepção médica-patológica da surdez
- Concepção sócio-antropológica da surdez
- Aquisição da linguagem e surdez
- Desenvolvimento da linguagem escrita do surdo
16
Práticas Interpretativas III - Aspecto enunciativo-discursivo da tradução/interpretação
- Aspectos linguísticos da Libras
- Aspectos linguísticos do Português
- Verbo-visualidade no processo interpretativo
- Exercícios de interpretação – Português – Libras
16
Práticas Interpretativas IV - Aspectos enunciativo-discursivo da tradução/interpretação
- Verbo-visualidade no processo interpretativo
- Exercícios de interpretação – Libras – Português (versão voz)
16
Estágio de observação Observação de interpretação da libras em sala de aula 2
TOTAL DE HORAS   130

A proposta em questão pareceu buscar uma formação que contemplasse as especificidades da atuação deste profissional na esfera educacional, abordando desde a materialidade das línguas envolvidas no processo tradutório até a sua prática nos diferentes contextos e níveis educacionais possíveis de atuação. O conhecimento sobre a problemática da educação bilíngue e dos papeis a serem desenvolvidos pelo intérprete educacional foram contemplados no eixo pedagógico/educacional. O desenho do currículo indica a preocupação não apenas com a técnica ou a prática da interpretação, mas assume que o intérprete deve ser um profissional reflexivo em relação a sua área de atuação. A partir da promoção de leituras, discussões e reflexão sobre a complexa questão do bilinguismo para surdos, considerando suas especificidades e inserindo-o no quadro amplo das definições e tensões no campo geral do bilinguismo.

No processo de interpretação de uma língua para outra o intérprete toma para si uma enunciação que não é propriamente sua, mas que ideologicamente transpassa sua realidade de uso da linguagem e estrutura sócio-ideológica, explica Santiago (2011) que, numa perspectiva enunciativo-discursiva, a língua funciona e possibilita a interação entre sujeitos discursivos marcados ideologicamente em um determinado contexto. Decorre disso a importância da interpretação na esfera educacional ser pensada nas suas especificidades.

A abordagem teórico-metodológica adotada no curso de Extensão para Intérpretes de Língua de Sinais Educacional e apresentada na proposta advém de duas bases: a primeira, abordando a língua e a linguagem como constitutiva do existir do humano, da perspectiva dialógico-polifônica, construída por Bakhtin e seu Círculo. E a segunda, abordando os aspectos ligados à educação e aos sujeitos sociais que atuam nessa esfera, da perspectiva histórico-cultural, de Lev Vygotsky.

A partir dessas duas perspectivas teóricas, percebe-se um alinhavar dessa formação lidando com questões ligadas ao funcionamento das línguas envolvidas no processo interpretativo ao mesmo tempo em que aborda negociar e construir os sentidos e significados provenientes da esfera educacional, visto que “[...] a linguagem não é falada no vazio, mas numa situação histórica e social concreta no momento e no lugar da atualização do enunciado” (BRAIT, 2005, p. 93).

Por isso, as disciplinas que compõem o eixo sócio/antropológico levam os alunos a transitarem da concepção patológica da surdez à concepção de minoria linguística e diversidade humana, mesmo porque essas questões coexistem em diferentes contextos sociais. Os intérpretes atuarão na fronteira entre dois mundos diversos linguística e culturalmente, sendo assim devem compreender as concepções e, na educação, estarem preparados para lidar com as coerções do sistema educacional em que estarão inseridos. Portanto o eixo sócio/antropológico, com as disciplinas Aspectos biopsicossociais da surdez, e Surdez, sociedade e escola, configura a sistematização de um conhecimento indispensável para esta formação na perspectiva em que ela foi pensada.

Ao analisar as propostas, especificamente das disciplinas do eixo linguístico/interpretativo, como Práticas Interpretativas I e II o foco está na prática de interpretação em diferentes níveis de ensino, como indica o programa do curso:

- Educação Infantil e Ensino Fundamental I e II
- Ensino Médio, Graduação e Pós-Graduação
- Aspectos linguísticos, tradutórios e pedagógicos da interpretação

A disciplina de Práticas Interpretativas III explora a reflexão linguística da libras e do português, a produção de uma análise contrastiva entre as línguas envolvidas na atividade do intérprete e nos aspectos de tradução de literatura refinando a interpretação verbo-visual do material a ser traduzido. Como indica o conteúdo do curso:

- Aspecto enunciativo-discursivo da tradução / interpretação
- Aspectos linguísticos da Libras
- Aspectos linguísticos do Português
- Verbo-visualidade no processo interpretativo
- Exercícios de interpretação – Português – Libras

A disciplina de Práticas Interpretativas IV aprofunda a produção autônoma da interpretação simultânea de Libras para português conduzindo a aprendizagem por meio de “Exercícios de interpretação – Libras – Português (versão voz)”. Apesar de nessa disciplina se destacar a “versão voz”, a mesma também foi trabalhada nas disciplinas Práticas Interpretativas I e II, anteriormente dando destaque a esfera de atuação.

Constatamos não haver uma discriminação de pré-requisitos, já que se trabalham diferentes habilidades e cada qual a ser aplicada a depender da necessidade dos interlocutores envolvidos. Para Cokely (2005) Este tipo de programa de formação permite que os alunos visualizem a tradução, a interpretação consecutiva, e a interpretação simultânea como ferramentas estratégicas para se aplicar de forma consistente ou alternativamente no interior ou ao longo de uma interação interpretada.

Comparando a carga horária destinada à formação prática de interpretação de libras para português ou de português para libras, constatamos maior enfoque à interpretação simultânea de português para a libras. Segundo Nascimento (2011) a interpretação simultânea é mais recorrente na prática do intérprete de língua de sinais e isso justifica-se pelas diferenças de modalidade entre os pares linguísticos envolvidos no ato interpretativo, uma vez que a gestualidade e a oralidade podem ser produzidas ao mesmo tempo.

Esse dado reflete a condição de trabalho da maioria dos intérpretes educacionais, muitos mais se interpreta a fala do professor ouvinte para a libras do aluno surdo. Os alunos, de forma geral, na educação brasileira, pouco tem espaço para se expressar em sala de aula. Na educação de paradigma tradicional o professor é o transmissor do conhecimento e o aluno é o receptor (DOTTA, 2009), na perspectiva inclusiva o aluno surdo, quando expressa algo em uma conversa com seus colegas surdos ou com o próprio intérprete, muitas de suas enunciações não são transmitidas para o professor ouvinte. Dessa forma, o curso reproduz a condição social da esfera educacional.

Considerações Finais

Nesse processo de ação, reflexão e ação os modos de formação e as práticas de ensino vão se constituindo, adquirindo novas configurações e propondo novas perspectivas, entendendo que a atividade de interpretação possibilita ao intérprete a consciência da complexidade de cada momento de sua atuação, dos interlocutores envolvidos e de suas funções sociais e educacionais. As situações de interpretação desencadeiam um sistema de processos complexos de compreensão ativa e responsiva do intérprete, sujeito às experiências e habilidades que ele como intérprete deve deter.

A formação do intérprete educacional, na proposta analisada, foi pensada, por uma perspectiva dialógica, para além da transmissão de conteúdos, pois a elaboração conceitual do aluno surdo é resultado, também, do trabalho do intérprete.

A grade curricular apresenta uma proposta de formação específica para profissionais Intérpretes de Libras para atuação na Esfera Educacional e, a partir da observação e da análise documental, podemos considerar que a proposta inicial do referente curso parece suprir a emergência atual na formação de profissionais intérpretes para atuarem nessa esfera. No entanto, chamamos atenção para a necessidade de criação de mais cursos no campo para formar esses profissionais que já estão em atuação e tem como referência da constituição de sua identidade a sua própria prática.

O que se configura no contexto brasileiro atualmente é a crescente demanda desses profissionais na área educacional, haja vista a política de educação inclusiva que tem incluído alunos surdos em salas de aulas regulares. No entanto, a ausência de profissionais com formação específica, em nível superior, faz com que as instituições públicas e privadas contratem, para atuar como intérpretes – na melhor das hipóteses – pessoas com fluência em língua de sinais mas sem conhecimentos, habilidades e competências voltadas para a prática tradutória e interpretativa.

Nesse sentido, com o escasso número de cursos de formação superior, com a alta demanda de alunos surdos incluídos e com a ausência de profissionais qualificados, o curso de extensão em tradução interpretação em Libras se configura como um espaço de aprendizagem importante para o conhecimento dos fazeres específicos atrelados às línguas envolvidas no processo tradutório. Consideramos que mesmo que a formação inicial estivesse consolidada no país a formação continuada tem lugar fundamental para a reflexão aprofundamento da própria prática.

Um campo importante de investigação está nos aspectos da mediação pedagógica, das estratégias didáticas para a formação de novos profissionais no campo da tradução/interpretação de língua de sinais, visto que envolve a além do currículo, o ensino. Consideramos ser importante o olhar também sobre as práticas pedagógicas aplicadas nas disciplinas desenhadas em um currículo.

Bibliografia

ALBRES, Neiva de Aquino. Processos de produção e legitimação de saberes para o currículo de Pós em Libras na formação de intérpretes… para uma especialização? In: Anais do II Congresso Brasileiro de Pesquisas em Tradução e Interpretação da Língua de Sinais. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, 2010.

ALBRES, Neiva de Aquino. A formação de intérpretes de libras para um serviço da educação especial. O que os currículos de cursos de especialização em libras têm a nos revelar? VI Congresso Brasileiro multidisciplinar de Educação Especial e VII Encontro da associação brasileira de pesquisadores em educação especial. Londrina de 08 a 10 novembro de 2011 - ISSN 2175-960X – Pg. 2151-2162 v

BAKHTIN, Mikhail /VOLOCHINOV. Marxismo e filosofia da linguagem. Trad. Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Hucitec, 1999.

BAKHTIN, Mikhail. Os gêneros do discurso. In: Estética da criação verbal. Tradução Paulo Bezerra. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010 [1951-53]

BRAIT, Beth. Bakhtin e a natureza constitutivamente dialógica da linguagem. In: BRAIT, B. (org.) Bakhtin, dialogismo e construção do sentido. Campinas: Editora da Unicamp, 2005.

BAKHTIN, Mikhail. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

BRASIL. Lei n. 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras e dá outras providências. Disponível: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/2002/L10436.htm>. Acesso: 22 mai. 2007.

BRASIL. Decreto-lei n. 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Regulamenta a Lei n. 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras, e o art. 18 da Lei n. 10.098, de 19 de dez. 2000. Disponível: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2005/Decreto/D5626.htm>. Acesso: 22 mai. 2007.

BRASIL. MEC/SEESP. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, 2008. Disponível em http://portal.mec.gov.br/seesp/arquivos/pdf/politica.pdf. Acesso em: 10 abr. 2008.

COKELY, DENNIS Curriculum Revision in the Twenty-First Century: Northeastern’s Experience. In: ROY, CYNTHIA B. (org.) Advances in Teaching Sign Language Interpreters Gallaudet University Press. Washington, D.C.2005.

DOTTA, Sílvia. Aprendizagem dialógica em serviços de tutoria pela internet: estudo de caso de uma tutora em formação em uma disciplina a distância (tese de doutorado em Educação). orientação Marcelo Giordan. São Paulo: USP, 2009. Disponível em: http://www.lapeq.fe.usp.br/~silviadotta/textos/tese_silviadotta.pdf

LACERDA, Cristina Broglia Feitosa de. Intérprete de Libras: em atuação na educação infantil e no ensino fundamental. Porto Alegre: Mediação/FAPESP, 2009.

________. Tradutores e intérpretes de Língua Brasileira de Sinais: formação e atuação nos espaços educacionais inclusivos. Cadernos de Educação (UFPel), v. 36, p. 133-153, 2010.

LEITE, Emeli Marques Costa. Os papéis do intérprete de Libras na Sala de aula Inclusiva. Dissertação de Mestrado. Faculdade de Letras/UFRJ. 2004.

LODI, A. C. B.; LACERDA, C. B. F. de (Org.). Uma escola duas línguas: letramento em lingual portuguesa e língua de sinais nas etapas iniciais de escolarização. Porto Alegre: Mediação, 2009.

MELETTI, Silvia Márcia Ferreira; BUENO, José Geraldo Silveira. Escolarização de alunos com deficiência: uma análise dos indicadores sociais no Brasil (1997-2006). In: Anais da 33ª Reunião Anual da ANPED, Caxambú, MG. GT 15. 2010.

NASCIMENTO, M.V. B. Interpretação da língua brasileira de sinais a partir do gênero jornalístico televisivo: elementos verbo-visuais na produção de sentidos. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem). São Paulo: PUC-SP/LAEL, 2011.

QUADROS, R. M. O Tradutor Intérprete de Língua Brasileira de Sinais e Língua Portuguesa. Brasília: MEC/SEESP, 2004.

QUADROS, Ronice Muller; STUMPF, Marianne Rossi. Brazilian Sign Language Interpreter Education in Brazil: From Voluntary work to formal distance learning. In: NAPIER, Jemina. International perspectives on Sign Language Interpreter Education. Gallaudet University Press: Washington, DC: 2009.

SILVA, Fabiany de Cássia Tavares. Cultura Escolar: quadro conceitual e possibilidades de pesquisa. Revista Educar, Curitiba, n. 28. Editora UFPR 2006. p. 201-216.

SANTIAGO, V. A. A. Os Sinais e seus significados - polissemia. 2011. In Libras EAD UFSCar - material didático instrucional. São Carlos: UFSCar, 2011.

SOBRAL, Dizer o ‘mesmo’ a outros: ensaios sobre tradução. São Paulo: SBS, 2008.

WINSTON, Elizabeth A.. Designing a Curriculum for American Sign Language/English Interpreting Educators. In: MARSCHARK, M.; PETERSON, R.; & WINSTON, E. A. (Eds.). Sign language interpreting and interpreter education: Direction for research and practice. New York: Oxford University Press. 2005.

Coment�rios