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Vnia de Aquino Albres Santiago
Vnia de Aquino Albres Santiago
Tradutora/Intrprete de Libras-Portugus
Portugus e Libras em dilogo: Os procedimentos de traduo e o campo do sentido
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Publicado em 2012
Libras em Estudo: traduo/interpretao. So Paulo: Feneis. p.30-50
Vnia de Aquino Albres Santiago
  Artigo dispon�vel em vers�o PDF para utilizadores registados
Resumo

O presente ensaio tem o intuito de introduzir alguns conceitos essenciais para a discussão da atividade de tradução/interpretação, de apontar questionamentos meus e de amigos tradutores/intérpretes de Libras – língua brasileira de sinais – Português. Como estudar a tradução/interpretação que envolve línguas de sinais? O que ensinar no processo de formação desse novo profissional? Qual práxis qualifica esse profissional? Pretendo apresentar aqui os procedimentos técnicos ou estratégias de tradução/interpretação. Aqui coloco o primeiro questionamento, já que a tarefa de um locutor está imbricada em escolhas, farei uma escolha desde aqui consciente do termo a ser utilizado neste texto. Algumas publicações às quais recorro em meus estudos trazem o termo procedimentos técnicos, como o trabalho de Heloisa Gonçalves Barbosa (2004) que é também bibliografia base para esse ensaio, outras publicações trazem o termo estratégia como tema de pesquisa na tradução, tendo como base o mesmo conceito.

Do signo ao sentido, é interessante entender as considerações recorrentes em torno dessas palavras, pois serão também recorrentes neste ensaio. O conceito de procedimento está diretamente ligado à maneira de agir, à conduta e ao comportamento, outro conceito aplicado é o de ação ou método de realizar um trabalho de forma correta para atingir uma meta, já o termo procedimento técnico pode assumir um sentido mais específico, pois a palavra técnico traz consigo o sentido de algo padrão ou operacional, ou seja, algo que possa ser reproduzido, ou melhor dizendo, que seja recursivo. Já o conceito de estratégia é mais abrangente, e tende a considerar as condições do contexto, envolvendo um processo decisório ao pensar em uma dada atividade, e usando uma atividade formalizada pra chegar a um objetivo pré-determinado.
O termo estratégia etimologicamente utilizado no contexto da guerra e da arte militar, é hoje emprestado para outras áreas do conhecimento, dada tamanha complexidade e abrangência do seu conceito. Em A arte da Guerra, Sun Tzu (2008 [1800]), explica que na formulação de uma estratégia deve-se respeitar quatro princípios fundamentais e indissolúveis, que serão apresentados a seguir fazendo uma breve analogia com o processo de tradução/ interpretação.

Princípios fundamentais Na guerra Na tradução/ interpretação
Do campo de batalha conhecer o campo da batalha; lugares para atacar e para refugiar-se entender as condições, o contexto da tradução/ interpretação
Da concentração das forças o estado de suas tropas; as tropas devem saber que estão treinadas; ficar em guarda mesmo depois de uma aparente vitória preparação; organização dos recursos línguísticos; a cada novo enunciado uma nova tradução
Do ataque saber o que fazer e o que não pode fazer; saber tirar proveito de todas as situações concentração dispensada na tradução; implementação de procedimentos
Das forças diretas e indiretas gestão das contingências, saber o que temer ou esperar; controle do inimigo gestão do inesperado; o fantasma da intradutibilidade; e a relação com “o outro 2

Uma escolha feita em um dado momento de tradução/interpretação não responde apenas a uma meta ou objetivo, mas reflete inúmeros fatores que se correlacionam em um contexto específico. Barbosa (2004) definiu tradução como “atividade humana realizada através de estratégias mentais empregadas na tarefa de transferir significados de um código linguístico para outro” (BARBOSA, 2004, p.11).

Concordo com Barbosa (2004) quando fala de estratégias mentais e de transferência de significado. Entretanto na perspectiva bakhtiniana, onde modestamente inicio meus estudos na tentativa de assumir uma visão dialógica, entendo a tradução/interpretação como a transferência de “sentido” de uma língua para outra, de uma pessoa para outra, de uma cultura para outra, ancorada em uma rede de significações nem sempre passível de análise completa e acabada.

Sobral (2008, p. 40) explica que “as línguas são traduzíveis, ou seja, postas em correspondência, mas não tradutíveis, ou seja, postas em equivalência” para ele, “não há nas línguas um conjunto de signos cujos sentidos estejam determinados [...], mas um conjunto de possibilidades de produção de sentido” (ibden).

O tema 3 da enunciação é na essência, irredutível à análise. A Significação da enunciação, ao contrário, pode ser analisada em um conjunto de significações ligadas aos elementos linguísticos que a compõe. (BAKHTIN/ VOLOCHÍNOV, 2009[1929], p. 134).

Portanto, procurando examinar algo mais específico em relação com o todo complexo e inacabado da materialidade da tradução/interpretação tomarei como objetivo deste estudo os procedimentos, compreendendo a estratégia como algo maior que não caberia neste ensaio. Deste modo, a proposta deste ensaio é a correspondência entre duas línguas, o português e a Libras, apresentando procedimentos de tradução e a caracterização cuidadosa de alguns elementos linguísticos recorrentes ou que possam estar relacionados a cada procedimento.

A questão de modalidade na tradução

Teorizar sobre o ato de traduzir/interpretar, um processo estratégico tão complexo, é um desafio, pois significa discorrer sobre língua, linguagem, pensamento e conhecimento de mundo.

Inicialmente é essencial dizer que este texto apresentará os procedimentos de tradução já descritos por outros autores como Barbosa (2004), o trabalho da autora que refere-se à tradução entre línguas orais. No entanto, neste ensaio serão aproximadas duas línguas de modalidades distintas, o português (modalidade oral-auditiva) e a Libras (modalidade gestual-visual). A diferença de estrutura e de produção-percepção entre as essas línguas acarreta aos seus “falantes” condições de conhecimento de mundo ainda mais diverso e singular, que refletem no contexto que influencia a materialidade da tradução e que é influenciado por ela.

É essencial reconhecer que aproximar essas duas línguas de estruturas diferentes não se trata de uma tarefa fácil, pois nas línguas de sinais estão presentes diferentes elementos linguísticos como expressões não manuais (corpo e face) e a “incorporação” que não se apresentam da mesma forma na modalidade oral-auditiva e que não estão gramaticalmente descritas a ponto de possibilitar uma perfeita aproximação.

A linguagem humana configura um sistema semiótico plural, ou seja, de produção dinâmica de sentidos na materialização da linguagem, para Sobral (2008, p. 63) “é da natureza desses sistemas semióticos certas fixações de sentidos, certa estabilidade, pois caso contrário os sentidos produzidos não seriam compreensíveis, se é que se produziriam sentidos”. Pensando a tradução/interpretação como um processo, estudar os elementos das línguas, com seus sentidos mais ou menos estáveis, representa aqui o objetivo de reconhecer esses elementos e suas significações como aparato técnico para a produção dos sentidos pretendidos no trabalho do tradutor/ intérprete de Libras.

Procedimentos de tradução/ interpretação

Os procedimentos de tradução são categorizados a partir da identificação dos elementos linguísticos e das formas linguísticas que aproximam ou distanciam uma língua e outra. As formas linguísticas do português e da Libras serão postas em paralelo aqui, entretanto essa materialidade da língua possibilita apenas parte da análise do todo da comunicação, pois para Bakhtin/Volochínov “a língua existe não por si mesma, mas somente em conjunção com a estrutura individual de uma enunciação concreta” (BAKHTIN/ VOLOCHÍNOV, 2009 [1929]).

A língua não é o reflexo das hesitações subjetivo-psicológicas, mas das relações sociais estáveis dos falantes. Conforme a língua, conforme a época ou os grupos sociais, conforme o contexto apresente tal ou qual objetivo específico, vê-se dominar ora uma forma, ora outra, ora uma variante ora outra. (BAKHTIN/ VOLOCHÍNOV, 2009 [1929], p. 153).

Os procedimentos apresentados a seguir foram caracterizados e recategorizados por Barbosa (2004), que baseou-se nos estudos de Vinay e Dalbernet (1977), Nida (1964), Aubert (1978, 1981, 1983, 1987), Bordenav (1987) e outros pesquisadores da tradução. Para redação deste ensaio me ative na obra de Barbosa (ibdem) tendo em vista a riqueza da sua publicação. Os procedimentos de tradução/interpretação serão apresentados a seguir de acordo com a proposta de recategorização desta autora em respeito à convergência ou divergência linguística e extralinguística entre a língua de origem e a língua de tradução, entendendo o termo extralingístico aqui como as condições de contexto, cultura, costumes e linguagem. A proposta da autora agrupa os procedimentos de tradução/interpretação nas seguintes categorias: com convergência do sistema linguístico, do estilo e da realidade extralinguística; com divergência do sistema linguístico; com divergência do estilo; com divergência da realidade extralinguística.

Na apresentação dos enunciados da Libras farei uso da imagem do sinal em conjunto com a Glosa 4 como recurso de registro, facilitando a aproximação das duas línguas, entretanto não perdendo de vista a natureza visual das línguas de sinais, os sinais serão descritos quando necessário. Quando da apresentação dos procedimentos estudados por Barbosa (2004), manterei o termo tradução entendendo-o como genérico, ao me referir à mediação entre o português e a Libras o termo interpretação será o preterido, por entender que a diferença de modalidade dificulta o registro entre outras peculiaridades.

Procedimentos de tradução / interpretação com convergência do sistema linguístico, do estilo e da realidade extralinguística

Tradução palavra-por-palavra

É caracterizada, segundo a definição de Aubert apud Barbosa (2004), como:

A tradução em que determinado segmento textual (palavra, frase, oração) é expresso na LT [língua da tradução] mantendo-se as mesmas categorias numa mesma ordem sintática, utilizando vocábulos cujo semanticismo seja (aproximadamente) idêntico ao dos vocábulos correspondentes no TLO [texto na língua original] (BARBOSA, 2004, p. 64).

A tradução palavra-por-palavra, do português para a Libras corresponde ao que chamamos de “português-sinalizado”, que na grande maioria das situações é inadequado às necessidades enunciativas produtoras de sentido nas línguas de sinais, essa ideia de inadequação também é difundida na tradução entre línguas orais. Veja o exemplo: (figura 1)

No exemplo acima, a tradução palavra-por-palavra do português para a Libras não contempla o sistema linguístico da língua alvo, portanto, há grande possibilidade de o interlocutor surdo não entender, tornando a enunciação mecânica e artificial. Aproximar o enunciado da tradução da estrutura linguístico-enunciativa da língua alvo faz os sentidos emergirem de forma natural, na sentença apresentada acima a tradução mais adequada poderia ser: (figura 2)

Esse é um exemplo simples, mas se aprofundássemos a discussão em torno da tradução palavra-por-palavra poderíamos verificar inúmeros equívocos de sentido. Para Sobral (2008) é preciso desenvolver a capacidade de ser fiel ao enunciado original sem violar a língua para qual se traduz, para ele “o português sinalizado “improvisa” sentidos, enquanto a LIBRAS “cria” sentidos” (SOBRAL, 2008, p. 11).

Tradução literal

A tradução literal é “aquela que mantém a semântica estrita, adequando a morfossintaxe às normas gramaticais da LT [língua da tradução]” (AUBERT, 1987 apud BARBOSA, 1987, p. 65).

A tradução literal é confundida com a tradução palavra-por-palavra, ou seja, com o português-sinalizado. Essa ideia é errônea, pois este procedimento é muito utilizado, principalmente em discursos acadêmicos e formais onde a aproximação das duas línguas se faz necessário. Na tradução do português para a língua de sinais, essa pode ser a escolha do intérprete, quando há a necessidade de o interlocutor saber exatamente como a fala foi construída na língua de origem, quando ele precisa elaborar uma reposta que será também traduzida da Libras para o português. É importante salientar que no procedimento de tradução literal, a sintaxe pode ser alterada de acordo com as normas gramaticais da língua de tradução.

Na tradução apresentada acima (figura 3), vemos um exemplo de Topicalização na Libras. Este é um recurso linguístico que pode ser identificado no procedimento de tradução literal, no exemplo acima, os termos (palavras e sinais) utilizados nas duas línguas são praticamente os mesmos, entretanto a estrutura sintática foi alterada, mantendo a semântica. Na sentença em Libras, o objeto direto (RELATÓRIO) é o tópico da sentença, e o sujeito e o verbo são o comentário do tópico. Isso não significa que sempre que a topicalização estiver presente em uma sentença interpretada para Libras, que se trata de tradução literal.

Segundo Ferreira- Brito (1995), as sentenças da Libras são mais flexíveis do que as sentenças do português, de modo que a topicalização é muito mais frequente do que no português, podendo ser considerada regra geral na Libras, isto é, caso não haja restrições para o deslocamento de constituintes, a ordem tópico-comentário é a preferida na língua de sinais.

Procedimentos de tradução/interpretação com divergência do sistema linguístico

Transposição

De acordo com Barbosa (2004), “a transposição consiste na mudança de categoria gramatical”. A ideia de transposição na interpretação do português para a Libras ainda é algo a ser estudado profundamente. Uma palavra no português observada em uma determinada sentença é subjugada a uma única categoria gramatical, na Libras, por conta das características da modalidade de língua gestual-visual, um mesmo sinal pode simultaneamente indicar o sujeito (oculto), o verbo e adjetivação da ação ou do sujeito. Veja o exemplo: (figura 4)

A característica de intensidade das línguas de sinais pode ser observada no procedimento de transposição, no exemplo acima, podemos notar o adjetivo vagarosamente em português que foi traduzido pelo verbo ANDAR, a princípio parece uma escolha equivocada, no entanto, o movimento (suave e lento) e a expressões não manuais (face e ombros) alteram a intensidade do sinal, ANDAR continua sendo um verbo, que atende a semântica dessa determinada enunciação adjetivando a ação. Também no verbo SAIR, ao alterar a intensidade do sinal, este pode fazer a função de um adjetivo. Ressalto que em decorrência da modalidade gestual-visual da Libras, um mesmo léxico pode transitar por várias funções gramaticais, e que essa questão requer estudos mais específicos.

Modulação

A modulação consiste na reprodução da mensagem do TLO [texto original] no TLT [texto da língua traduzida], mas sob um ponto de vista diverso, o que reflete uma diferença no modo como as línguas interpretam a experiência do real (BARBOSA, 2004 p.67). A modulação pode ser obrigatória ou facultativa na tradução.

Exemplo de modulação obrigatória: (figura 5)

Exemplo de modulação facultativa: (figura 6)

No procedimento de modulação é comum envolver expressões idiomáticas ou metáforas das duas línguas, como a usada no exemplo de modulação obrigatória, portanto um tradutor/intérprete deve conhecê-las e estudar as possibilidades de sentido que carregam. No segundo exemplo, foi apresentada a modulação da frase da negativa para a afirmativa, procedimento muito comum na tradução do português para a Libras.

Equivalência

“A equivalência consiste em substituir um segmento de texto da LO [língua de origem] por outro segmento da LT [língua traduzida], que não o traduz literalmente, mas que lhe é funcionalmente equivalente” (BARBOSA, 2004 p. 67). Segundo a autora, esse procedimento é aplicado a clichês, expressões idiomáticas, provérbios, ditos populares e outros elementos que estão cristalizados na língua. (figura 7)

As expressões idiomáticas do português são de fácil pesquisa, estando muitas delas dicionarizadas, já as expressões idiomáticas da Libras também são muitas, mas ainda são pouco estudadas e utilizadas pelos intérpretes que optam por outros procedimentos de tradução como a explicação.

Procedimentos de tradução / interpretação com divergência do estilo

Omissão e explicitação

“A omissão consiste em omitir elementos do TLO [texto da língua de origem que, do ponto de vista da LT [língua de tradução], são desnecessários ou excessivamente repetitivos” (BARBOSA, 2004 p. 68).
No geral, a omissão de termos do português é recorrente na tradução para a língua de sinais, como a omissão de verbos de ligação ou pronomes relativos, pronomes oblíquos, alguns pronomes de tratamento, locuções adverbiais e adjetivas, entre outros termos que não se apresentam necessariamente na língua de sinais. Veja o exemplo: (figura 8)

A explicitação é o processo inverso da omissão, ou seja, o que na língua de origem é omitido na língua de tradução deve, obrigatoriamente, ser explicitado. Uma forma de a explicitação ocorrer na Libras é quando se faz uso do espaço mental token (MOREIRA, 2007), ou seja, quando define-se referentes locais no espaço de sinalização e o tradutor sente a necessidade de explicitar o referente, porque essa informação ficou obscura na enunciação e precisa ser retomada. (figura 9)

Segundo Moreira (2007, 47), “o espaço mental token é um espaço integrado, em que entidades ou as coisas das quais se quer falar são representadas sob a forma de um ponto fixo no espaço físico [...]. Nas línguas de sinais, essa representação sob a forma de token é projetada no espaço que fica em frente ao corpo do sinalizador (espaço de sinalização)”.

Melhorias

Barbosa (2004, p. 70) explica que “as melhorias consistem em não se repetirem na tradução os erros de fato ou outros tipos de erro cometidos no TLO [texto da língua de origem]”.

Uma situação em que se pode usar o procedimento de melhoria na tradução/interpretação do português para a Libras, acontece mais frequentemente quando da interpretação do português falado para a Libras, no momento do uso de listagem, erros que não acontecem no português escrito na fala são frequentes. (figura 10)

No exemplo acima, o uso de marcadores manuais evita o erro de listagem no momento da interpretação, quando de uma lista maior, o uso da marcação numérica também confere a organização dos objetos ou pessoas listadas.

Albres (2008, p. 42) esclarece que os dedos de uma das mãos podem ser usados como um marcador, um ponto manual a ser retomado, o emissor pode apontar para os dedos e demarcar que neles estão os elementos do discurso (pessoa, objeto), e que quando for necessário retomar um dos elementos basta apontar o dedo anteriormente demarcado.

Reconstrução de Períodos

A reconstrução de períodos “consiste em redividir ou reagrupar os períodos e orações do original ao passá-los para a LT [língua de tradução]” explica Barbosa (2004, p. 70). Distribuindo, por exemplo, orações complexas em períodos mais curtos ou vice-versa. (figura 11)

Na interpretação com reconstrução de períodos, do português para a Libras é comum identificar o uso o da pergunta retórica conforme apresentada no exemplo acima. O uso desse elemento linguístico é corriqueiro nas enunciações em Libras, estilo esse facilmente incorporado pelos tradutores/intérpretes de língua de sinais, e utilizado em quase todos os âmbitos de tradução/interpretação.

Procedimentos de tradução/interpretação com divergência da realidade extralinguística

Compensação

A compensação para Barbosa (2004, p. 69) “consiste em deslocar um recurso estilístico, ou seja, quando não é possível reproduzir no mesmo ponto, no TLT [texto da língua de tradução] um recurso estilístico usado no TLO [texto da língua de origem], o tradutor pode usar um outro, de efeito equivalente, em outro ponto do texto”. (figura 12)

No exemplo acima, a música faz uso de um recurso estilístico apoiando-se no tipo de linguagem e na construção sintática que permitiu a rima (“meus” e “seus”) ao final das orações. Ao traduzir para a língua de sinais, a rima é um recurso estilístico que não provoca o mesmo efeito aos interlocutores surdos, portanto o uso dos classificadores em Libras pode representar um recurso estilístico compensatório no processo de tradução/interpretação, conforme foi apresentado no exemplo.

Os classificadores conforme Felipe (2007, p. 172) “são configurações de mãos que, relacionaras à coisa, pessoa, animal ou veículo, funcionam como marcadores de concordância, [...] são formas que, substituindo o nome que as precedem, podem ser presas à raiz verbal para classificar o sujeito ou o objeto que está ligado à ação do verbo”.

Observa-se que no exemplo da tradução da música, a intérprete de Libras poderia, mas não usou o sinal PROCURAR, termo presente no texto em português, ela optou pela substituição deste verbo pelo uso de classificador de boca seguido do sinal BEIJAR, a expressão facial também é um elemento linguístico da língua de sinais que corrobora com o recurso de classificadores.

Transferência

Segundo descreve Barbosa (2004, p. 71), “a transferência consiste em introduzir material textual da LO [língua de origem] no TLT [texto da língua de tradução]”. No geral, a transferência incide na soletração manual da palavra trazida do português para a Libras, mas veremos a seguir algumas variações desse procedimento. Segundo Barbosa (2004), esse procedimento pode assumir algumas formas que serão comentadas a seguir:

O estrangeirismo: que consiste no uso de um termo técnico, conceito ou objeto de outro idioma que não tenha tradução para a língua alvo, essa forma de transferência também pode ser chamada de empréstimo linguístico quando esses termos são incorporados à língua de tradução com a mesma forma do outro idioma. Outro procedimento é o estrangeirismo com explicação, quando esse termo trazido da língua de origem é desconhecido pelos falantes da língua de tradução, ele pode vir acompanhado de uma explicação diluída no texto.

Outra forma de transferência é a transliteração que consiste na substituição de uma convenção gráfica pela outra, quando duas línguas envolvidas na tradução são de extrema divergência não possuindo sequer o alfabeto em comum, como seria se correspondêssemos o alfabeto cirililico russo do alfabeto do português. Este também não é o caso de procedimento evidenciado entre o Português e a Libras que utilizam o mesmo alfabeto para a escrita/soletração.

Já a aclimatação, processo pelo qual os empréstimos linguísticos são adaptados à língua, raramente evidenciada na tradução de línguas orais, pode ser mais facilmente encontrada na tradução/interpretação do português para Libras, entretanto mais frequentemente na interpretação no espaço educacional. Isso acontece porque comumente novos termos em português e seus conceitos são apresentados aos alunos surdos durante as aulas e os intérpretes de Libras acabam por recorrer à aclimatação, criando sinais para esses termos com uso da inicialização, por causa da sua recorrência durante o semestre ou ano letivo, esses novos sinais em geral carregam as iniciais ou sigla para facilitar ao aluno recordar a palavra em português. Exemplos que podem ser considerados aclimatação, identificados por meio de uma análise diacrônica, são os sinais apresentados a seguir, onde as iniciais das palavras são a configuração de mão da mão dominante durante a produção de sinal: (figura 13)

Peixoto (2006) infere sobre a inicialização, como empréstimo linguístico que está diretamente ligado ao elemento de intercessão das duas línguas, o alfabeto manual, nestes casos, o sinal é formado levando-se em consideração a primeira ou todas as letras que compõem a palavra correspondente a ele, sendo mais uma vez as letras – parâmetros próprios à escrita – convertidas em configurações de mão – parâmetros próprios à língua de sinais. A aclimatação pode aproximar-se então do conceito de inicialização, mas é importante salientar que a aclimatação é frequente na interpretação do português para a Libras especificamente em âmbito educacional, mas que em geral não é frequentemente uma decisão do tradutor/intérprete, tendo em vista que a aclimatação, ou melhor dizendo, a inicialização muitas vezes já está convencionalizada na língua de sinais.

Outra possibilidade é a transferência com explicação, quando somente a transferência não possibilita a apreensão do significado, pode vir como nota de rodapé no texto escrito ou em explicações diluídas no texto. Na interpretação de português para Libras, conforme Santiago (2011) a transferência (soletração manual da palavra) com explicação é um procedimento muito usado tanto na tradução/interpretação de português para a Libras educacional, quanto na interpretação de conferências onde termos técnicos do português precisam ser apresentados (soletrados manualmente) no momento da interpretação, entretanto sua apresentação não é suficiente para a construção do sentido por parte do interlocutor, o que pede a complementação de uma breve explicação, como no exemplo abaixo: (figura 14)

Explicação

Barbosa (2004) relata que “havendo a necessidade de eliminar do TLT [texto da língua de tradução] os estrangeirismos para facilitar a compreensão, pode-se substituir o estrangeirismo pela sua explicação”. (figura 15)

No exemplo acima, podemos observar a explicação substituindo os termos banqueiro e bancário sem nenhum prejuízo à completude da mensagem, esse procedimento é recorrente na interpretação do português para a Libras. Entretanto, há que se fazer uma ressalva quanto ao momento adequado para se fazer uso do procedimento de explicação sem fazer a transferência da palavra do português. No caso de interpretação educacional, onde os termos em questão são técnicos, somente a explicação pode não configurar um procedimento adequado, quando da necessidade de apresentar no português o termo técnico específico de uma determinada área de estudo ao interlocutor.

Decalque

Barbosa (2004) define o decalque como “traduzir literalmente sintagmas ou tipos frasais da LO [língua de origem] no TLT [texto de língua de tradução]” são dois tipos de decalque: de tipos frasais e de tipos frasais ligados aos nomes de instituições. Na interpretação do português para Libras, esse procedimento pode acontecer evidenciando-se a interpretação literal de um segmento de texto ou pela soletração manual do nome de uma instituição. Veja o exemplo abaixo. (figura 16)

Adaptação

Para Barbosa (2004, p. 76), “a adaptação é o limite extremo da tradução”, quando a situação toda a que se refere o TLO [texto da língua de origem] não existe na realidade extralinguística, ou seja, na cultura dos falantes da LT [língua de tradução]. Esse procedimento é reconhecido em traduções de texto escrito para texto escrito, como manuais de empresas multinacionais, onde as adaptações acontecem devido a discrepâncias de hábitos e costumes.

A adaptação do português para a Libras pode ser evidenciada quando o conteúdo da mensagem envolve o uso dos sentidos ou de formas de enunciação, ouvir/ver, falar/sinalizar, sendo, a grosso modo, a principal diferença entre os interlocutores destas duas línguas, que incorrem na produção de hábitos e costumes também diferentes. Veja o exemplo: (figura 17)

O exemplo acima é um clássico de adaptação na interpretação do português para a Libras, é interessante observar que nessa situação de interpretação, o locutor principal fala em português, e na mediação da comunicação está o intérprete de Libras que sinaliza a mensagem. Uma opção seria a interpretação para escute bem seria: “OLHAR-ME”, mas a depender da situação que envolve a interpretação essa opção pode confundir o interlocutor surdo, que fica sem saber quem está pedindo atenção, o locutor fonte ou o intérprete, portanto, como no exemplo, a utilização de termos mais genéricos como “ATENÇÃO” e “EXPLICAR” são adaptações que servem a qualquer situação.

O tradutor/ intérprete de Libras - Português e sua práxis

A proposta de recategorização dos procedimentos técnicos da tradução com base nas convergências e divergências linguísticas e extralinguísticas apresentadas neste ensaio vêm ao encontro do pensamento de que as línguas não são sistematicamente estáticas, e que além da língua como um sistema, existe um domínio maior que a influência, o seu conteúdo afetivo, a ideologia espontaneamente posta e as situações reais de interação que ditam o dinamismo da tradução/ interpretação. Para Bakhtin/Volochínov (2009):

O erro fundamental dos pesquisadores que já se debruçaram sobre as formas do discurso de outrem é tê-lo sistematicamente divorciado do contexto narrativo. Daí o caráter estático da pesquisa nesse campo. [...] No entanto, o objeto verdadeiro da pesquisa deve ser justamente a interação dinâmica dessas duas dimensões, o discurso a transmitir e aquele que serve para transmiti-lo. (BAKHTIN/VOLOCHÍNOV, 2009 [1929], p. 154).

A cada grupo de procedimentos de tradução foram apresentados elementos linguístico da Libras que servem para transmitir determinado enunciado resultando no uso de um e/ou de outro procedimento, no entanto esses elementos, como a soletração manual; a inicialização; a topicalização; as expressões idiomáticas e metáforas; os marcadores manuais; a pergunta retórica, o uso do espaço mental token; os classificadores; entre outros não citados neste ensaio, não representam o todo da materialidade linguística da Libras, portanto o contexto da enunciação, de quem e para quem a mensagem é designada, a esfera discursiva e o conteúdo ideológico, seja afetivo e/ou político, não podem ser divorciados destas definições linguísticas.

Ao início deste texto foram lançados questionamentos, assim como a simples análise de um determinado enunciado extraído do seu contexto não dá conta dos sentidos pretendidos, uma pergunta pode ter várias respostas, a depender do todo ideológico que a envolve. A seguir a tentativa de respostas, certamente inacabadas, pois o acabamento parte também do interlocutor, que a partir da sua da sua leitura de mundo e da sua realidade extralinguística complementa e cria sentidos outros para esses questionamentos.

Como estudar a tradução/ interpretação que envolve línguas de sinais? Para o tradutor/intérprete de língua de sinais – português, conhecer o sistema linguístico, a estrutura da Libras é fundamental, mas compreender a realidade extralinguística, ou seja, a cultura da comunidade surda e entender que, como relata Sobral (2008), a situação do surdo não é a mesma do ouvinte; que não se trata apenas de ter uma outra língua, mas de ter uma língua não oral num ambiente sociocultural oral e de coexistir num território de ouvintes.

O que ensinar no processo de formação desse novo profissional? O estudo dos procedimentos de tradução/interpretação deve compor os programas de formação de tradutores/intérpretes, que precisam estudar o português e a Libras e reconhecer os seus elementos linguísticos como falantes dessas línguas. Na perspectiva enunciativo-discursiva entende-se que tornar-se realmente sujeito discursivo é produzir enunciados que façam sentido para o interlocutor, isso só é possível quando o tradutor/intérprete, proficiente, leva em consideração que as enunciações constituem produtos de interações sociais, e usa os procedimentos de tradução como aparato técnico para realização do “tema” dessas interações sociais.

Qual práxis qualifica esse profissional? A práxis pode ser considerada a prática pensada, melhorada, o tradutor/intérprete exerce uma recepção ativa (reflexiva) da enunciação de outrem e a transmite. Toda transmissão de um enunciado tem um fim específico para o locutor, o tradutor/intérprete deve apreender a enunciação não apenas como um bloco de elementos linguístico, mas como um discurso a transmitir. Mas como fazer isso? E é esse tradutor/intérprete, sujeito discursivo nessas línguas que detém o conhecimento sobre a sua práxis, e que quando pesquisador de sua prática possibilita um universo de novos conhecimentos que desenvolvem sua própria atividade. É deste profissional pesquisador que partirá as respostas para este último questionamento, das novas pesquisas no campo de tradução/interpretação de Libras – Português.

Notas

2 Para Bakhtin/ Volochínov (2009 [1929], p. 125) “O centro organizador de toda enunciação, de toda expressão, não é o interior, mas o exterior: está situado no meio social que envolve o indivíduo”. Ele explica que toda linguagem é dialógica, todo enunciado é sempre um enunciado de alguém para alguém, e que a enunciação enquanto tal é um puro produto da interação com o “outro”.
3 Para Bakhtin/ Volochínov (2009 [1985], p. 134) “O tema é um sistema de signos dinâmico e complexo, que procura adaptar-se adequadamente às condições de um dado momento da evolução. O tema é uma reação da consciência em devir ao ser em devir”. Podemos entender a partir disso que o tema seria ao mesmo tempo o objetivo e o produto da tradução, ou seja, a produção de sentido que foge ao controle do tradutor ou de quem analisa o processo de tradução.
4 Glosa é uma palavra que traduz aproximadamente o significado de outro signo, neste caso, os sinais da Libras. A Glosa Libras – Português é representada sempre com a escrita em maiúscula entre outras regras descritas por Felipe (2007).

Bibliografia

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BARBOSA, Heloisa Gonçalves. Procedimentos Técnicos da tradução: uma nova proposta. 2 ed. Campinas: Pontes, 2004.

FELIPE, Tanya A. Libras em contexto: curso básico: livro do estudante. 8 ed. Rio de Janeiro: WalPrint Gráfica e Editora, 2007.

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