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Surda, freira e vítima de Freud: a verdadeira história de Alice de Battenberg, a princesa extraordinária
por porsinal     
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Segunda-feira, 25 de Novembro de 2019 às 12:49:33
Nasceu na presença da rainha Vitória, foi tratada por Freud, escondeu judeus durante o Holocausto e fundou um convento. Esta é a história da princesa Alice de Battenberg, sogra de Isabel II.

“Bubbikins”, o episódio número quatro da terceira temporada de “The Crown”, levantou o véu sobre umas das figuras mais fascinantes da família real britânica. Historicamente, Alice de Battenberg tem sido relegada para segundo plano. Foi a mãe do príncipe Philip, marido de Isabel II, logo, a sogra da rainha. Casou com Andrew da Grécia e da Dinamarca. Embora tenha nascido no Castelo de Windsor e passado os seus últimos dias em Buckingham, foi em Atenas que viveu a maior parte da sua vida. Na capital grega, resistiu ao exílio durante a II Guerra Mundial, colaborou com a Cruz Vermelha e ainda fundou uma instituição monástica para acolher crianças pobres.

Na série da Netflix, que voltou aos ecrãs no último domingo, o papel de Alice de Battenberg é desempenhado por Jane Lapotaire. “Bubbikins” é a expressão usada pela personagem para se dirigir ao filho, Philip, nesta temporada representado pelo ator Tobias Menzies. Já no livro Alice: Princess Andrew of Greece, publicado em 2000, o biógrafo Hugo Vickers incluiu referências à expressão, nomeadamente a uma carta escrita pela princesa, que nela se dirigia ao duque de Edimburgo usando este termo afetuoso.

Ela é, simplesmente, a personagem mais extraordinária”, admitiu Peter Morgan, o criador da série. Alice de Battenberg morreu a 5 de dezembro de 1969, com 84 anos, ao que parece, sem quaisquer bens para legar. Ao filho, deixou uma curta nota — “Querido Philip, sê corajoso e lembra-te que nunca te vou deixar e que me encontrarás sempre que precisares. Com todo o meu amor e devoção, da tua velha mãe”. Foi sepultada em Windsor, onde nasceu, mas em 1988, em cumprimento de um desejo manifestado em vida, os seus restos mortais foram levados para a Igreja de Santa Maria Madalena, templo ortodoxo onde jazia já a tia, Elizabeth de Hesse e Reno, em Jerusalém.

Bisneta da rainha Vitória e sobrinha da última czarina: a família de Alice de Battenberg

Victoria Alice Elizabeth Julia Marie nasceu a 25 de fevereiro de 1885, no Castelo de Windsor, na presença da bisavó, a rainha Vitória. A mãe, a princesa Victoria de Hesse e Reno, era a filha mais velha da princesa Alice do Reino Unido, uma das quatro filhas da histórica soberana (e do príncipe Albert, um alemão), que, através do casamento, estabeleceram laços com a nobreza e a realeza alemãs.

O pai era Louis de Battenberg, fruto do casamento morganático de Alexander de Hesse e Reno com a condessa Julia Hauke, união que deu origem à Casa de Battenberg (nome que viria a ser alterado para Mountbatten em 1917, quando a I Guerra Mundial colocou Alemanha e Inglaterra em barricadas opostas), dentro da linha Hesse-Darmstadt. Louis foi ainda o primeiro marquês de Milford Haven.

Alice foi a mais velha de quatro irmãos — George e Louis, que acabariam por ficar responsáveis pela educação de Philip quando este foi enviado para o Reino Unido, e Louise. Esta última viria a casar com Gustaf Adolf e tornar-se-ia rainha consorte da Suécia em 1950. Durante a infância, terá mantido contacto com ambos os lados da família, em Londres e em Jugenheim, na Alemanha. Terá sido, inclusive, a avó paterna, a primeira princesa de Battenberg, a levá-la a um especialista, depois de Alice ter apresentado atrasos no desenvolvimento da fala. A surdez foi-lhe diagnosticada ainda em criança e acompanhou-a durante toda a vida.

Após o processo de pesquisa para escrever “The Crown”, Peter Morgan concluiu que as dificuldades de audição poderão ter estado na origem de um estado de depressão, mais tarde confundido com perturbações do foro mental. Ainda assim, a surdez não a impediu de falar fluentemente inglês, francês, alemão e, mais tarde, grego. Terá ainda aprendido a ler os lábios nestes mesmos idiomas. Com oito anos, foi uma das damas de honor de Mary de Teck, no seu casamento com Jorge V, avô da atual rainha. A rainha Vitória morre a 22 de janeiro de 1901, a cerca de um mês de Alice completar 16 anos.

Não é por acaso que a rainha Vitória ficou conhecida como a avó da Europa. A sua descendência estabeleceu laços com outras casas europeias, incluindo com a família imperial russa. Alexandra Feodorovna, a última czarina, mulher de Nicolau II, era irmã da princesa Victoria (ambas eram netas da rainha Vitória), logo, tia de Alice de Battenberg. A própria família real grega, à qual acabaria por ligar-se em casamento, tinha sangue Romanov. O marido da princesa, o príncipe Andrew da Grécia e da Dinamarca, era filho de uma grã-duquesa russa, Olga Constantinovna.

O casamento e o tratamento violento de Freud

Alice de Battenberg tinha 18 anos quando casou com Andrew da Grécia e da Dinamarca, um dos oito filhos do rei Jorge I da Grécia. O casal ter-se-á conhecido em 1902, quando membros das casas reais de toda a Europa se reuniram em Londres para a coroação de Eduardo VII. Alice adotou o nome do marido e ficou conhecida como princesa Andrew da Grécia e da Dinamarca. Tiveram cinco filhos — Margarita, Theodora, Cecilie (que morreu com apenas 26 anos num acidente de avião), Sophie e Philip, o mais novo e único rapaz da prole.

Mas a instabilidade política depressa afetaria a vida do casal, bem como a de toda a realeza grega. Com o eclodir da I Guerra Mundial, em julho de 1914, a família começou por resistir em Atenas. Consta que, a 1 de dezembro de 1916, todos se refugiaram na adega do palácio, enquanto a cidade era brutalmente bombardeada. Acabaram por partir para o exílio, na Suíça, em 1917. O cunhado, Constantino I, abdicaria do trono nesse ano, rumando ao mesmo destino, enquanto a I Guerra Mundial devastava praticamente todo o continente. Terá sido durante esse período que Alice de Battenberg se apegou à religião. No ano seguinte, toda a família imperial russa foi assassinada, incluindo as suas duas tias Elizabeth e Alexandra Feodorovna.

A família regressa à Grécia em 1920, mas por pouco tempo. A grande guerra tinha chegado ao fim, ao contrário do conflito com a nação vizinha, a Turquia. Dois anos depois, um golpe antimonárquico levou a uma nova fuga. O casal e os cinco filhos foram então resgatados pela Marinha Real Britânica, com o príncipe Philip, com um ano e meio, escondido numa caixa de laranjas. Fixaram-se nos arredores de Paris, onde a princesa acabaria por se converter à Igreja Ortodoxa Grega.

No final dos anos 20, o destino da família dava outra reviravolta. A princesa teve um esgotamento. Pouco tempo depois, foi diagnosticada com esquizofrenia paranoide, segundo confirmou Ernst Simmel, que a recebeu no seu consultório, em Berlim. Alice é internada à força no sanatório do psiquiatra Ludwig Binswanger, na Suíça. Corria o ano de 1930, a princesa tinha 45 anos, Philip já morava em Inglaterra, ao cuidado dos tios e da avó, e, no final do ano seguinte, as quatro filhas já estariam casadas. A mãe, porém, não esteve presente em nenhuma das cerimónias.

Segundo a British Psychological Society, na Suíça, Alice de Battenberg foi tratada pelo próprio Sigmund Freud. O especialista concluiu que os delírios frequentes da paciente eram fruto de frustração sexual e recomendou que fosse submetida a um tratamento de raios x nos ovários para eliminar a libido. A terapia terá tido lugar sem o consentimento da paciente, que sempre alegou gozar de boa saúde. Ainda assim, permaneceu internada durante cerca de dois anos.

A morte trágica da filha e o Holocausto

Alice e Andrew não voltaram a morar debaixo do mesmo teto, embora o divórcio nunca tenha sido formalizado. Em 1937, reencontram-se após seis anos sem se verem. A ocasião foi trágica — o funeral da filha, a princesa Cecilie, que morreu a 16 de novembro desse ano quando o avião onde seguia com a família se despenhou em solo belga. O acidente teve, na verdade, contornos bastante insólitos. A bordo, rumo a um casamento em Londres, ia também o marido, a sogra, os dois filhos mais velhos, de 6 e 4 anos, e um recém-nascido, já que a princesa havia dado a luz dentro do avião, instantes antes de este se despenhar. O príncipe Philip tinha, na altura, 16 anos e também esteve no funeral.

A princesa voltou para a Grécia. Começou por viver num pequeno apartamento, mais tarde foi morar com uma das cunhadas, enquanto o resto da família real grega permanecia exilada. A II Guerra Mundial dividiu a família — enquanto os genros combatiam do lado alemão, o filho fazia parte da Marinha Real Britânica. O primo, o príncipe Victor zu Erbach-Schönberg, foi embaixador da Alemanha em Atenas, durante a ocupação da capital grega pelas forças nazi, a partir de 1943.

Alice de Battenberg dedicou-se à caridade, cooperando com as delegações sueca e suíça da Cruz Vermelha. Fomentou os cuidados de saúde nos bairros mais pobres da cidade, criou abrigos para crianças órfãs e sem teto e chegou mesmo a viajar até à Suécia, sob o pretexto de visitar a irmã, para se abastecer de medicamentos. Escondeu uma família judia durante a perseguição antissemita que culminou no Holocausto. Um feito comprovado que, em 1994, lhe valeu a honra póstuma de receber o diploma e a medalha de “Justo entre as Nações”. “Desconfio que nunca lhe tenha ocorrido que esta ação foi especial. Era uma pessoa com uma fé religiosa profunda, então devia achar que era apenas um gesto humano para com outros seres humanos em perigo”, discursou o príncipe Philip durante uma visita ao memorial Yad Vashem, em 1994.

Em outubro de 1944, Atenas foi libertada da ocupação alemã. Depois de visitar a cidade (e a princesa), o então ministro Harold Macmillan admitiu que Alice vivia em condições humildes, “para não dizer miseráveis”. Em dezembro de 1944, a princesa ficou viúva. O príncipe Andrew morreu aos 62 anos, em Monte Carlo, onde residia à data. Numa carta escrita ao filho, a princesa Battenberg terá relatado a sua situação precária, uma alimentação à base de pão e manteiga e sem carne “há meses”.

Após o fim da guerra, a luta entre as forças britânicas e as guerrilhas comunistas continuou a aquecer os ânimos na capital grega. Ainda assim, a benfeitora manteve o hábito de percorrer as ruas para entregar alimentos a guardas e crianças. Segundo o biógrafo Hugo Vickers, a uma das várias advertências sobre o perigo de ser atingida por uma bala perdida terá respondido: “Dizem-me que não se ouve o tiro que nos mata e, de qualquer forma, sou surda. Por isso, porque é que me vou preocupar?”.

“The Crown”: da realidade para a ficção

Alice de Battenberg viveu na conturbada Atenas até 1967, ano em que se muda para o Palácio de Buckingham, onde passou os últimos dois anos de vida, perto do filho, da nora e dos netos. O quarto episódio da terceira temporada de “The Crown” retrata da mudança, mas também dá uma amostra da vida que levava na capital grega. Em 1949, a princesa fundou a Irmandade Cristã de Marta e Maria, uma casa de acolhimento para crianças pobres mantida por freiras ortodoxas.

Sabemos que era freira, que criou a sua própria ordem religiosa e que vendeu as próprias joias e insígnias reais para financiar o convento em Atenas. Depois, veio para o Palácio de Buckingham. Havia rumores e piadas sobre o facto de os corredores do palácio cheirarem a Woodbine — uma marca de tabaco muito associada aos homens da classe trabalhadora. Acontece que o tabaco que ela fumava era dos militares britânicos que ela tratou durante a guerra, como freira”, contou Peter Morgan, o criador da série, à Vanity Fair, confirmando assim que, à semelhança da personagem, também a princesa fumava compulsivamente durante a sua estadia em Londres.

Mas a mãe do duque de Edimburgo esteve presente noutros momentos chave do reinado de Isabel II, a começar pelo seu casamento, em novembro de 1947, na Abadia de Westminster. Algumas das suas joias foram mesmo usadas no anel de noivado da então princesa. O sentimento anti-alemão era, na altura, predominante e levou a que nenhuma das irmãs do príncipe Philip fosse convidada. No início dos anos 50, Alice de Battenberg fez duas viagens aos Estados Unidos, com o objetivo de angariar fundos para sustentar o convento. Em junho de 1952, voltou a Londres, dessa vez para marcar presença na cerimónia de coroação da nora.

Na obra ficcional de Peter Morgan, a madre superiora Alice-Elizabeth, como também ficou conhecida, surge fielmente retratada, de uniforme e capelo cinzentos e com a simplicidade de uma eclesiástica despojada de tesouros materiais. A afinidade com a neta, a princesa Anne, foi criada para reforçar a simpatia gerada por ambas as personagens e para despoletar o momento em que Alice conta a sua história. “O grau de proximidade é aquilo a que eu chamaria trabalhar com a imaginação. Acho que todos os pontos que estou a juntar com a minha ficção estão baseados em factos absolutamente sólidos, em exatidão e na verdade”, acrescentou Morgan. Alice de Battenberg morreu em dezembro de 1969. Passados 50 anos e pela via da ficção, a história da princesa vê a luz do dia.

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