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Paula e Miguel estão a mudar o mundo através dos gestos
por porsinal     
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Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2019 às 04:33:17
Miguel Cruz acaba de conquistar mais do que um quadrado no canto do televisor dos portugueses.

O dedo indicador aponta para a cova no queixo. Este é o gesto para falar no Miguel. Miguel Cruz. Não serve para chamar todos os Migueis. Na língua gestual portuguesa (LGP) cada Miguel tem um nome diferente, inspirado numa característica. Miguel Cruz tem uma pequena cova no queixo - é daí que vem o seu nome.

O gesto tornou-se recentemente também a forma de chamar Gonçalo Cardoso, um surdo numa família de ouvintes, a que Miguel Cruz, de 19 anos, dá vida na série da TVI, A Teia. É uma estreia na ficção nacional: um surdo a fazer o papel de um surdo.

A equipa com que trabalha está a aprender a comunicar com Gonçalo dentro de cena e com Miguel fora desta. Nas gravações conta com a ajuda de Paula Teixeira, uma das duas intérpretes de LGP da estação de televisão de Queluz. É ela quem lhe dá a deixa, como quem diz o gesto, para entrar. Uma vez em cena, e com o guião bem estudado, está atento aos lábios e principalmente à linguagem corporal dos colegas com quem contracena.

"Estou muito orgulhoso por poder mostrar que os surdos também podem ser atores. Isto pode mudar mentalidades. É muito importante espalhar a língua gestual", conta Miguel. E durante as gravações afirma que não tem dificuldades maiores, mesmo sendo esta a sua estreia como ator.

A paixão de Miguel é a natação. É um atleta federado com mais de 80 medalhas; já representou Portugal nos Surdolímpicos - os Jogos Olímpicos para pessoas não-ouvintes - em 2013 e em 2017. Foi ainda duas vezes aos europeus de natação e atualmente está a treinar para o Mundial de agosto de 2019, no Brasil. Por isso, acorda pouco depois das cinco da manhã para ir treinar antes das gravações e, quando despe o Gonçalo, dirige-se novamente para dentro de água.

A Língua Gestual Portuguesa não está em todo o lado

Miguel tem uma vida preenchida e independente. Embora não fale com a voz, como acontece em vários casos uma vez que a surdez não afeta as cordas vocais, diz que o seu dia-a-dia é "normal": conduz, vai ao supermercado, vai trabalhar. Mas se tem uma situação em que precisa de frequentar um serviço público ou de falar com alguém com termos técnicos precisa do auxílio de um intérprete.

"Ainda existem áreas de atuação que continuam a não estar acessíveis para as pessoas surdas, destacando-se o acesso fundamental aos serviços de saúde e aos serviços de emergência, sendo urgente que sejam criadas respostas para estes serviços", explica a direção da Federação Portuguesa das Associações de Surdos (FPAS).

Para alguém que não ouve, a ida a um hospital tem de ser planeada, pois requer a presença de um intérprete que traduza para o(a) médico(a) as queixas do paciente. A pensar nesta situação, em janeiro deste ano, o partido PAN juntamente com associações de não-ouvintes fez uma petição para incentivar a "contratação de intérpretes de língua gestual portuguesa para o Serviço Nacional de Saúde".

Na escola ou no trabalho a ajuda dos intérpretes também é preciosa. Sobre o último caso, a FPAS indica que "são raras as entidades patronais que contratam intérpretes de LGP para assegurar a comunicação/informação dos trabalhadores surdos (especificamente em formações, eventos, entre outros). Observa-se que o facto de os adultos surdos estarem desempregados não tem que ver com o problema de audição, mas sim com a falta de acesso à comunicação".

Para além das dificuldades quotidianas, também na cultura há um longo caminho a percorrer na difusão da LGP. Num concerto, os surdos conseguem sentir o ritmo, mas ficam sem perceber o que está a ser cantado. Na televisão, telejornais e alguns programas de entretenimento têm tradução simultânea, obrigatória por lei, e há ainda a hipótese de colocar legendas através do teletexto, mas os programas infantis não têm tradução. Paula Teixeira não se lembra de nenhum que tenha tido um intérprete desde o Batatoon, que esteve no ar entre 1998 e 2002.

E se no teatro vão existindo peças onde os intérpretes estão presentes, no cinema não há alternativas para os filmes nacionais, que não têm legendas. E também aqui as crianças, quando ainda não sabem ler, são as principais prejudicadas.

Paula Teixeira canta com as mãos com que faz "a ponte entre dois mundos"

Foi precisamente através da arte que Paula Teixeira conquistou a comunidade não ouvinte. "Eu aproveito sempre a arte como forma de incluir e ensinar a incluir", explica. Para além de ser "a menina do quadradinho" e a intérprete de Miguel nos bastidores da série, é artista. Faz espetáculos musicais para crianças sobre "a magia da inclusão" e nos seus concertos canta com as mãos.

No projeto A Fada Juju colocou em palco um cego, um deficiente motor, um surdo e fadas para "mostrar que a limitação está muitas vezes na nossa cabeça". E as crianças são o melhor público porque "aceitam com muita naturalidade a diferença" e no final do teatro até empurram a cadeira de rodas ou experimentam as palavras em língua gestual que aprenderam.

Paula Teixeira conquista miúdos e graúdos. Nos seus concertos, tem sempre muito público que nunca ouviu a sua voz, porque Paula tem o cuidado de cantar em duas línguas. Enquanto canta, vai traduzindo. E se vai tocar guitarra, faz-se acompanhar de uma intérprete de LGP. "A música é universal. Não tem barreiras. E é muito bom quando tens surdos a cantarem contigo. Nos meus concertos há pessoas que cantam com a voz e outras que cantam com as mãos".

A ideia surgiu quando estava a cantar e um surdo lhe perguntou o quê. "Eu estou a cantar Gloria Estefan, Reach", respondeu. "Isso quer dizer o quê?", perguntou-lhe novamente. Começou a cantar com as mãos. E não parou mais. "A minha vida mudou naquele momento, porque até hoje tudo o que eu faço, tudo o que eu canto, tem as minhas mãos", diz Paula e vai traduzindo para LGP o que está a dizer, embora por perto não esteja nenhum surdo.

Os gestos já são uma extensão da sua fala. Nem sempre foi assim, confessa que no início "tinha muitas vezes vontade de desistir" de aprender a língua. A juntar às dificuldades naturais de quem se aventura num novo idioma, não tinha ninguém à sua volta que fosse surdo com quem praticar.

Paula optou por desistir do curso de Educação Especial que estava a tirar, aos 20 anos, para ir para a Associação Portuguesa dos Surdos descobrir a LGP quando olhou "com olhos de ver pela primeira vez para um grupo de surdos". "Fiquei fascinada", recorda. "Poder ser a ponte de comunicação entre dois mundos é incrível".

Não é possível saber ao certo o número de intérpretes de LGP profissionais que existem, mas a FPAS estima que "possam existir mais de duzentos a nível nacional". Para entrarem para a profissão hoje é necessário frequentar o curso superior de tradutor-intérprete de língua gestual. O que, segundo Maria José Freire, coordenadora desta licenciatura na Escola Superior de Educação de Setúbal, a primeira a ser criada a nível nacional, "veio dar maior relevo e estatuto à profissão de intérprete de LGP".

E quanto recebe um intérprete? "Apesar de se verificarem muitos 'atropelos' àquilo que seria uma justa remuneração de um trabalho altamente qualificado e exigente, de grande responsabilidade e seriedade, o valor hora de interpretação de LGP, como profissional liberal, pode variar entre 35/45 euros/hora", responde a professora, filha de pais surdos, que forma novos intérpretes há 25 anos e se apaixonou "por esta profissão antes mesmo de ela existir e ser reconhecida", em 1997.

A gramática dos gestos

Falar com as mãos implica dar atenção à posição dos dedos, à orientação e ao movimento que a mão faz. O mesmo gesto direcionado para a esquerda e para a direita tem diferentes significados. Também as expressões faciais ou corporais são fundamentais; as sobrancelhas, por exemplo, atribuem pontuação às frases.

Quanto à estrutura da língua (língua e não linguagem por ser composta por signos arbitrários, convencionados e com uma gramática própria), esta é mais parecida com o inglês do que com o português. Os elementos surgem nas frases pela seguinte ordem: sujeito, objeto, verbo ou objeto, sujeito, verbo. "Eu vou para casa" traduz-se como "Para casa eu vou".

Isto no caso português, porque a língua gestual não é universal; cada país tem a sua própria língua. E dentro de cada idioma existem ainda regionalismos, variantes criadas pelas diferentes comunidades de surdos que personalizam os gestos convencionados.

A língua gestual portuguesa é inspirada na sueca, porque a sua criação recebeu o auxílio do fundador de um instituto para surdos na Suécia - Per Aron Borg - que veio a Portugal a pedido do rei D. João VI, no século XIX. Na sequência desta visita foi ainda criada, em 1823, a primeira escola para surdos em Portugal. No entanto, a língua só foi reconhecida como tal pela Constituição da República Portuguesa em 1997.

Quantas pessoas a falam hoje por necessidade não é possível saber, uma vez que os dados sobre a população não ouvinte são raros e estão datados. Como indicadores há o Inquérito Nacional de Incapacidades, Deficiências e Desvantagens, de 1996, que revela a existência de 115 066 pessoas com deficiência auditiva e 19 172 com surdez, para além dos Censos de 2001 que apontam, sem especificar mais, para 84 172 "deficientes auditivos".

Fonte: Diário de Notícias

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