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Cantar com as mãos
por porsinal     
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Sexta-feira, 23 de Novembro de 2018 às 04:49:42
Rafaela Cota Silva nasceu na ilha Terceira há 32 anos e é intérprete de língua gestual desde 2008. Em 10 anos de profissão conta com uma digressão com a banda The Gift, foi intérprete de uma equipa de futsal masculina com atletas surdos e treinador ouvinte e é, desde 2013, intérprete das missas do Santuário de Fátima. É também coautora de um projeto chamado “MusicSign” que interpreta as canções da atualidade para surdos.

Foi sempre conhecida pelos cabelos coloridos. Hoje dá cor à vida da comunidade surda em Portugal. Cor e música. Através dos gestos.

Rafaela Cota Silva nasceu na Praia da Vitória, ilha Terceira, e despertou muito cedo para a necessidade de comunicar com os surdos, estava, ainda, no 5º ano: “Encontrei na biblioteca da FOC (Escola EBI Francisco Ornelas da Câmara) um livro que tinha o abecedário gestual. Eu e uma amiga tentamos aprendê-lo e nos intervalos das aulas tentávamos comunicar escrevendo palavras no ar. Foi o primeiro contacto e foram esses momentos que despertaram o meu interesse na língua”, adiantou a intérprete de Língua Gestual (e não “Linguagem gestual”, como é muitas vezes erradamente designada).

Ingressou, em 2005, na Escola Superior de Educação de Coimbra, precisamente no ano em que abriu o curso. Fez parte da primeira turma daquele curso. “A formação existe também na Escola Superior de Educação de Setúbal e do Porto. Em 2004 já tinha tentado concorrer para Setúbal mas na altura exigiam pré-requisitos, isto é, já ter conhecimentos de LGP e como eu não tinha não pude candidatar-me”, adiantou a açoriana que defende que a língua gestual devia ser uma oferta formativa nos currículos escolares desde os primeiros níveis de ensino.

Rafaela conhece melhor o contexto micaelense em termos de língua gestual e garante que na maior ilha açoriana a atividade “Está muito bem. Existe escola (básica e secundária) para o ensino bilingue de alunos surdos, escolas onde os alunos têm a LGP como primeira língua e o português escrito como segunda e todas as aulas têm intérprete de LGP (para se ter uma noção, são 16 os profissionais da área que exercem na ilha). Para além disso, existe uma associação de surdos muito dinâmica, cheia de projetos e de gente ativa. Na Terceira sei que há pessoas a trabalharem na área, mas desconheço os moldes. Creio que passa muito por uma questão de apoio a alunos surdos e o que me parece é que esses alunos não são tratados como iguais e que lhes é vedado o direito de acesso à língua que lhes é natural”.

Rafa é frequentemente requisitada para conferências, serviços em tribunal, casamentos, idas ao médico, entre outras atividades diárias tão comuns que nem passa pela cabeça de um ouvinte: “Desde resolverem algum assunto que tenha que ser feito, obrigatoriamente, via telefone. Ir a serviços públicos e serem atendidos por pessoas pouco sensíveis. Viverem numa casa onde não existe campainha luminosa. Quererem estar a par do que se passa no mundo e as notícias não terem interpretação” são alguns dos entraves diários para os quais a comunidade surda em Portugal ainda precisa de ajuda.

Para a terceirense “burro velho” aprende, sim, línguas. Mas mais lentamente: “toda e qualquer pessoa tem um cérebro com a função da linguagem e com capacidade para aprender línguas. Se aos 30 anos é mais difícil do que aos 6? Ah isso sim, mas com qualquer língua seja ela alemão ou LGP”.

Nem tudo é colorido também na regulamentação da profissão “A Lei que existe é de 99 e está muito desatualizada. A associação de intérpretes, da qual faço parte, está com essa luta em mãos e estamos com uma petição para levar essa discussão à Assembleia da República. Regulamentar a profissão é o primeiro passo para acabar com os restantes entraves”. A terceirense garante que existem muitos profissionais, só falta um maior esforço do estado para libertar mais verbas para a sua devida remuneração.

A intérprete garante que a comunidade surda reconhece a importância da profissão por uma questão de sobrevivência mas que o resto da sociedade encara a Língua Gestual como uma prestação de auxílio voluntária: “Grande parte das pessoas acha que a profissão se limita a um gesticular desalinhado no ar mas não, é muito mais do isso. É trabalhar com duas línguas com modalidades diferentes, uma é de produção oral e perceção auditiva, a outra é de produção manual e perceção visual. São distintos sentidos a trabalharem ao mesmo tempo e tudo isso aliado ao processo ultra-rápido que acontece no cérebro: ouvir uma mensagem, descodificar e perceber o que é dito, transpor mentalmente para outra língua numa mensagem que corresponda à original e que seja percetível e produzir esse discurso codificado noutra língua. E fazer esse processo repetidamente durante todo o momento de interpretação. É tão complexo que é quase difícil de explicar. É, também, recorrente a ideia de que esta não devia ser uma profissão remunerada porque as pessoas surdas precisam é de ajuda e por isso nós devíamos fazê-lo de modo voluntário”.

O seu mais recente projeto chama-se MusicSign que assenta na interpretação em duo de músicas conhecidas e o produto final é disponibilizado no Youtube. “Surgiu por brincadeira, por gosto pela área e por achar que era algo que ainda não se fazia em Portugal. Convidei um colega para interpretamos uma música e gravarmos um vídeo. Foi algo muito amador mas tão bem aceite pela comunidade surda e tão partilhado pelas redes sociais que decidimos fazer mais e melhor”. Ainda mais do que aos que cantam com a voz, o ritmo da música pode dificultar o trabalho a quem canta com as mãos: “É complicado acompanhar o ritmo. Também são difíceis as canções que são cheias de metáforas pois nem sempre é fácil descodificar a mensagem”.

Já cantaram em inglês e em português mas “Amar pelos Dois”, do Salvador Sobral, foi a mais especial. “Quando escolhemos as músicas, dividimos a letra (habitualmente escolhemos duetos cantado por homem e mulher pelo que a divisão segue a original), trabalhamos a interpretação em conjunto, definimos os gestos que vamos utilizar e articulamos a produção em conjunto”.

No passado dia 15 de novembro, assinalou-se o Dia Nacional da Língua Gestual com iniciativas pelo país: “Destaco a sensibilidade de algumas entidades. Este ano notei que uma série de entidades partilharam nas redes sociais vídeos com LGP (Vodafone, Nestlé, SEF, GNR, alguns clubes de futebol, etc) o que é fundamental para a promoção da língua e da existência da pessoa surda”.

Rafaela é também atriz no grupo de teatro “Corpus”. A par do teatro gosta de música, de ler, conhecer sítios novos, cabelos coloridos e de ver espetáculos ao vivo.

O projeto MusicSign é a prova de que a música sente-se e não se ouve, apenas.

Fonte: Açoriano Oriental

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