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Espinho, Cultura Surda e a arte de Goulão
por porsinal     
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Segunda-feira, 02 de Julho de 2018 às 02:40:30
Francisco Goulão nasceu em Lisboa, tem 66 anos e é surdo. É professor de surdos licenciado pela Universidade de Lisboa, na Faculdade de Belas Artes.

A despeito das variações fonéticas, sintáticas e lexicais que demarcam o Português europeu e o Português brasileiro, ainda temos – brasileiros e portugueses – uma mesma língua. Mas para a surpresa de muitos, sobretudo daqueles pouco familiarizados com as culturas surdas, as duas línguas de sinais são bastante diferentes: a Língua Gestual Portuguesa (LGP), reconhecida legalmente em 1997, tem raízes na Svenskt teckenspråk (a Língua de Sinais Sueca), ao passo que a Língua Brasileira de Sinais (Libras), reconhecida cinco anos depois, recebeu grande influência da Langue des Signes Française. Diferenças à parte, as duas comunidades surdas em muito se assemelham.

Muitas das pautas que preenchem a agenda surda brasileira também seguem acesas em Portugal, como as reinvindicações por uma educação bilíngue de qualidade, as demandas por acessibilidade (nos serviços públicos, nos circuitos culturais, na rede privada etc.), a afirmação e a promoção da língua gestual, entre outras. Num país com pouco mais de 10 milhões de habitantes (inferior à população do município de São Paulo), no entanto, essas questões ganham outras dimensões, mas em nada perdem relevância, mesmo com todas as dificuldades enfrentadas para se avivar os movimentos associativistas do povo surdo.

E bem como no Brasil, as produções culturais das comunidades surdas portuguesas avolumam-se a cada dia, e aos poucos chegam aos brasileiros, principalmente por meio da internet. Algumas delas, já há muito conhecidas por surdos portugueses, também despontam pelas terras brasileiras, como por exemplo as obras do “Professor Goulão”.

Francisco Goulão, 66, é, de origem alfacinha (alcunha dada a quem nasce em Lisboa), e na própria capital portuguesa, em 1977, concluiu sua licenciatura na Faculdade de Belas-Artes da Universidade (Clássica) de Lisboa. Nesse mesmo ano, após se casar, mudou-se para Espinho, uma pequena cidade litoral na região metropolitana do Porto - cidade que Goulão frequentava desde pequenino, quando sua família a escolheu como destino das férias de verão.

Espinhense de adoção e de alma, sua grande admiração pela cidade se expressa em centenas de desenhos e pinturas que a retratam – algumas dessas obras foram reunidas e expostas pela primeira vez em 2012, em uma exposição local intitulada “Goulão pinta Espinho” (anos mais tarde, em 2016, outras deram corpo ao livro “Goulão desenha Espinho”). Desde então, “seguiram-se mais cinco exposições individuais, todas elas dedicadas a Espinho e à língua gestual, com trabalhos a lápis de cor e aquarela”, afirma o artista. Numa das lojas interativas do Turismo do Porto e Norte, localizada no Aeroporto Francisco Sá Carneiro (o Aeroporto do Porto), os seus trabalhos, de tão emblemáticos que são, já serviram como cartaz turístico do concelho que lhe é tão caro, também conhecido como a “Rainha da Costa Verde” (epíteto dado à cidade de Espinho). Ao que se percebe, tal sítio vive terna e continuamente nos seus lápis, nos seus pincéis e em seu coração.

Mas para além de Espinho, as obras de Goulão – que por 38 anos exerceu a docência como professor de Educação Visual para crianças surdas no Centro António Cândido, no Porto – são também um grande patrimônio das Artes Surdas portuguesas. Nelas, expressam-se as culturas surdas, as línguas de sinais, as lutas do povo surdo, os eventos comemorativos, etc. Muitos surdos e ouvintes, ao depararem as suas pinturas e os seus desenhos, logo reconhecem os seus traços e cores, várias vezes acompanhados pela frase “Goulão desenha...” (“dia da mãe1”, “dia do surdo”, “dia de São Martinho”, “LGP”, “Braga”, “primavera”, entre outros). Nessas obras, muito comum é encontrar estampada a própria representação do Professor Goulão, com o seu chápeu, o seu bigode e sua característica gravata, entre os gestos da LGP.

Em toda a sua trajetória como professor e artista, Goulão destaca-se também como valioso militante pelos direitos das causas surdas. Grande defensor das escolas bilíngues para surdos, já proferiu numerosas palestras sobre cultura e Arte Surda em escolas e instituições de todo o país, além de ter contribuído para diversas revistas e jornais especializados em surdez (entre elas, a revista da Feneis, por exemplo).

Revisitar o trabalho de Goulão é, por isso, vivenciar um pouco da cultura e da cultura surda portuguesa, da LGP e, claro, dos encantos de Espinho. Revisitá-lo é, sem dúvidas, lembrar da potência e da importância da arte – e da Arte Surda! – para alunos surdos, sobretudo em ambiente escolar (vale perceber que muitos de seus trabalhos tem cariz escolar). Ao fim e ao cabo, ressaltar a arte de Goulão é estreitar os laços que unem as comunidades surdas brasileiras às comunidades surdas portuguesas, percebendo que – para além da lusofonia – as vidas, as conquistas e as demandas se tocam em muitos pontos.

Fonte: Revista Espaço - INES

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