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Pais surdos compartilham rotina de cuidados com filha ouvinte
por porsinal     
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Domingo, 27 de Agosto de 2017 às 17:58:24
“Independente de serem surdas ou ouvintes, queremos ajudar outras famílias e mostrar que é possível ensinar língua gestual à criança”, diz Sabrina Lage

Quando Sabrina Lage e Roberto Leandro descobriram que estavam à espera de um bebé começaram informar-se sobre gravidez, amamentação, puerpério e passaram a planear o parto natural da filha Catharina. Além das perguntas comuns sobre o sexo e nome da criança, algumas pessoas começaram a questionar se eles seriam capazes de cuidar de um bebé, já que são surdos.

No entanto, o casal prova que pais surdos são tão capazes de cuidar de uma criança ouvinte tanto quanto qualquer outra pessoa. A falta de informação e conhecimento sobre outras realidades faz com que comentários como “E se a criança se maguare eles não ouvirem o choro?” ainda sejam frequentes no dia a dia da família.

Acreditamos que há um preconceito da sociedade em relação à capacidade do surdo nos cuidados de um ser humano”, afirma Sabrina em entrevista ao Delas. A mãe explica que a visão aguçada e a sensibilidade tátil são grandes aliados que os permite se comunicar e identificar qualquer desconforto ou necessidade da filha.

Primeiros meses da filha

Essa comunicação e aproximação começaram assim que Catharina nasceu. Sabrina conta que nos três primeiros meses de vida ela colocava a filha deitada no carrinho ao lado da cama do casal para que elas pudessem se aproximar mais. “Eu colocava uma das mãos em contato com ela para poder sentir o movimento dela até que pude me conectar melhor com ela durante a amamentação”, diz. A mãe conta que, como se fosse mágica, os seios começavam a deitar leite exatamente no momento em que a filha chorava para mamar.

Quando a filha completou quatro meses, ela passou a partilhar a cama com os pais e faz isso até hoje, com um ano e sete meses. “Ela já me acorda para mamar”, conta. Aos seis meses, os pais começaram a introdução alimentar e hoje a filha já sabe comunicar quando está com fome ou sede. “Ela já sinaliza ‘comer’ e faz outros sinais referentes ao alimento”.

Comunicação falada e por gestos

Sabrina conta que hoje a comunicação entre ela, a filha e o marido flui muito bem. “Sendo nós surdos e ela ouvinte, usamos a fala oral e a fala sinalizada”, explica. Pelo fato do casal utilizar a língua de sinais (Libras) e a língua portuguesa – já que conseguem oralizar – Catharina é considerada CODA (Children of Deaf Adult – crianças ouvintes de pais surdos) e bilíngue.

Estimulamo-la tanto na língua falada como na língua sinalizada. Isso faz com que ela se desenvolva mais rapidamente em relação a uma criança que domina apenas uma língua”, diz a mãe. De acordo com Sabrina, a filha não teve dificuldades comunicar-se dessa forma. “Ela adquiriu ambas as línguas de forma natural e tem sensibilidade na parte auditiva e visual”, completa.

Língua de sinais para bebés

Pensar que um bebé entende LIBRAS ou gestos pode soar estranho, mas Sabrina explica que, na verdade, a língua gestual para os pequenos acontece de forma natural e espontânea. “Os gestos são um canal de comunicação eficiente que podem ser aplicados já nos primeiros meses de vida do bebé”, diz. Como estão em fase de desenvolvimento, adquirir a linguagem por meio de movimentos corporais e expressões faciais é a forma mais simples para os bebés se comunicarem. A fala oral, por sua vez, exige mais complexidade e vai-se desenvolver mais tarde.

Estimular a língua gestual tem apenas benefícios para a família, já que a criança consegue expressar-se melhor, antes mesmo de aprender a falar. “Haverá mais conexão e interação entre o bebé, a mãe e os seus cuidadores”, afirma Sabrina. Quando falamos de pais não ouvintes, essa forma de comunicar faz com que os cuidadores compreendam sem tanta dificuldade o que a criança quer expressar.

Também podemos citar outros benefícios, como aumento da capacidade de coordenação motora, memória e percepção do espaço mais apurado”, comenta. Sabrina acredita que os educadores devem explorar mais esse artifício para facilitar e estreitar a comunicação com os pequenos.

Exemplo nas redes sociais

Como toda essa comunicação ainda é algo desconhecido para muitas pessoas, o casal resolveu criar uma página no Facebook para compartilhar como educam e cuidam da filha. Em Pais Surdos, Sabrina e Roberto produzem conteúdo sobre a educação bilíngue e a importância da língua de sinais para todas as crianças. “Independente de serem surdas ou ouvintes, queremos ajudar outras famílias e mostrar que é possível ensinar LIBRAS à criança”, diz.

O casal publica vídeos do dia a dia da filha, como a hora do almoço ou a da leitura. A ideia é mostrar como a língua gestual é eficiente e pode otimizar a comunicação da família logo nos primeiros meses da vida da criança. E, de acordo com Sabrina, sem comprometer a fala oral.

Catharina é muito atenta tanto auditivamente quanto visualmente. Ela ouve o barulho lá fora e comunica-nos o que ouviu, por exemplo, o cão a ladrar, o avião a passar, o cantar dos passarinhos...”, conta. Sabrina ainda comenta que a filha também tem uma boa memória visual e consegue identificar detalhes em desenhos e diferenciar partes do corpo, por exemplo.

Rede de apoio

Trocar experiências com outras famílias que utilizam a língua gestual na comunicação também foi algo importante para o casal pensar sobre o cuidado e educação da filha. Ainda na gestação, Sabrina começou a participar em grupos nas redes sociais voltados para mães surdas com o intuito de se informar mais sobre a maternidade.

Hoje, além de produzir material para a página Pais Surdos, Sabrina criou o site Mamãe Surda, dedicado a mães como ela. “O objetivo é empoderar outras mães surdas com informações sobre maternidade”, diz. A ideia é que cada vez mais pessoas tenham acesso a conteúdo para desmistificar e conhecer mais sobre o tema.

Fonte: Globo

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