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Por que dançam as intérpretes de língua gestual?
por porsinal     
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Sexta-feira, 30 de Junho de 2017 às 03:43:45
As redes sociais renderam-se ao trabalho das intérpretes de língua gestual portuguesa durante o concerto solidário pelas vítimas dos fogos.

Quem viu o concerto de solidariedade para com as vítimas dos incêndios de Pedrógão Grande na televisão, em qualquer dos três canais, não ficou indiferente ao trabalho das intérpretes de língua gestual portuguesa (LGP), que faziam gestos ao mesmo tempo que dançavam ao ritmo das canções. Nas redes sociais, os comentários elogiosos foram muitos. Mas por que dançaram as intérpretes para os surdos?

Porque a tradução implica interpretação, explicam Maria José Freire e Isabel Correia, directoras dos cursos superiores de LGP dos institutos politécnicos de Setúbal e de Coimbra, respectivamente. “A tradução não é como se fosse uma máquina, os gestos transmitem sentimentos e sentidos”, declara Maria José Freire. “Traduzir música não é o mesmo que traduzir uma frase do quotidiano. É preciso entender a melodia e a letra”, acrescenta Isabel Correia.

Assim, a tradução faz-se através dos gestos, mas também da expressão facial e corporal do intérprete. Por isso, os espectadores viram as profissionais de LGP que movimentavam o corpo ao ritmo da música ou imitavam o baterista ou o violinista quando estes tocavam. Foi o que fez Alexandra Ramos, que esteve a gestuar — é este o verbo que se aplica à acção destas profissionais — na SIC. “Quando se traduz uma música, tudo se faz em LGP”, diz, para lembrar que no seu caso, quando cantou Raquel Tavares, também pôs as mãos nas ancas e movimentou-se para poder transmitir como a música era alegre. Na sua página de Facebook houve um amigo que partilhou uma imagem em que Alexandra está de braços no ar, tal como Pedro Abrunhosa.

Para transmitir a melodia aos surdos, as intérpretes movimentam o corpo ao ritmo da música. “Se ficássemos quietas, pareceria que não havia mais do que palavras”, explica Sandra Faria, que esteve a trabalhar na RTP.

Eu danço com as mãos, gosto de ser uma bailarina com as mãos. Amo! Já via a minha mãe a dançar e ela dizia-me que sentia a vibração nos pés. Por isso, a música sempre foi apaixonante”, revela Alexandra Ramos, que é filha de surdos e a LGP foi a sua primeira língua, e que também trabalha no canal Parlamento.

Contudo, “o intérprete não pode exagerar, porque senão torna-se cansativo para quem está a ver e pode perturbar a recepção da mensagem”, salvaguarda Maria José Freire.

Tentamos dar o ritmo para ser o mais fiel possível. Por exemplo, fazer um ar apaixonado se for uma canção mais romântica”, continua Sandra Faria.

Ao todo foram nove as intérpretes que se voluntariaram para levar o concerto à comunidade surda — cinco na RTP, duas na SIC e duas na TVI. As deste último canal foi a primeira vez que traduziram música, informa Sofia Figueiredo, intérprete de LGP na RTP e que teve a ideia de estas tradutoras se associarem-se ao concerto Juntos por Todos. “'Todos' é também a comunidade surda, que nos viu não só em Portugal mas no estrangeiro”, diz.

E como a maneira de traduzir não é igual para todos — porque existem sinónimos e maneiras diferentes de dizer a mesma coisa, tal como acontece quando, por exemplo, se traduz de inglês para português; ou porque há quem use uma maneira mais erudita de falar, justifica a professora Isabel Correia —, as profissionais reuniram-se antes para definirem uma maneira única de dizer Juntos por Todos, conta Sofia Figueiredo.

Mas não basta ver e ouvir o concerto para fazer uma boa tradução. “O que fazemos é interpretar, temos de reflectir nas palavras, conhecer as letras e os artistas”, enumera Sofia Figueiredo, que conta que para este espectáculo solidário procuraram pesquisar “o máximo” sobre os cantores para poder interpretar o “melhor possível”.

E os surdos também dançam, mesmo sem ouvir a música? “Os surdos podem conhecer as letras, ir a discotecas, pôr o som mais alto no carro para sentir a batida”, responde Alexandra Ramos.

Falta LGP para as crianças

Participar nesta iniciativa que passou em simultâneo nos três canais “foi muito importante, porque todas as televisões aderiram e mostraram como os surdos também têm de ter a noção do que se passa no mundo. Temos recebido reacções incríveis”, diz Sandra Faria, que traduziu Jorge Palma e Sérgio Godinho. Sofia Figueiredo sente-se feliz por ter contribuído com o seu trabalho para “incluir a comunidade surda”.

Esta não pode ficar à parte do que se passa no mundo, defende Isabel Correia, lamentando que não exista tradução para LGP dos desenhos animados. “Há crianças surdas que é como se estivessem mudas para o mundo”, lamenta a professora, que confessa estar “orgulhosa” por ver as suas alunas, e também as das outras escolas — existem três licenciaturas no país —, no espectáculo a favor das vítimas de Pedrógão Grande. “Foi um gesto bonito”, diz, referindo-se ao facto de também estas tradutoras se terem voluntariado para participar.

Isabel Correia congratula-se ainda por, na noite de terça-feira, o quadrado onde as intérpretes aparecem, no canto inferior direito do ecrã, ter sido um pouco maior, para se ver os movimentos do corpo. Devia ser sempre assim, defende. “A visão do gesto é muito importante, e os surdos idosos, por vezes, não vêem a janela”. Sandra Faria concorda que o quadrado onde aparecem pode ser uma “barreira”: “A expressão facial passa tanta informação e, por vezes, é difícil num quadrado tão pequeno”.

Pouco a pouco, há cada vez mais programas em que a intérprete de LGP marca presença, mas ainda há muito caminho a percorrer. Por exemplo, nos serviços públicos. Se nos serviços do Ministério da Justiça há uma bolsa de intérpretes, esta faz falta nos serviços de saúde, do emprego e formação profissional ou mesmo no ensino superior, refere Maria José Freire.

Isabel Correia lembra que se os alunos surdos têm apoio até ao secundário, chegados ao superior entram num mundo de ouvintes onde ninguém fala a sua língua, embora já existam escolas que, muitas vezes suportando o custo, providenciam intérpretes para estes estudantes.

Mas também são precisos noutras situações. Maria José Freire dá o exemplo da Bélgica e da Holanda, onde o Estado tem tradutores para que os cidadãos possam tratar de assuntos pessoais. “Ainda há muito a fazer”, diz. “Mas já foi pior”, conclui Isabel Correia.

Fonte: Publico

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