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Douglas Ridoff, o homem que usa a língua gestual para fazer Slams de poesia nos Estados Unidos
por porsinal     
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Terça-feira, 20 de Junho de 2017 às 01:55:15
Douglas Ridloff começou a compor poesia em ASL (American Sign Language) quando era adolescente, depois de um conhecido poeta de ASL, Peter Cook, visitar a sua escola.

Dez anos depois, Ridloff ainda pouco tinha feito no campo da poesia Slam (espécie de competição de poesias que teve início nos anos 80 nos Estados Unidos) para além de algumas atividades casuais. Mas depois um amigo convidou-o para um encontro informal com colegas da faculdade, onde a ASL era usada para responder a desafios e deixas.

No começo, não estava interessado”, disse Ridloff. “Naquela época, apenas fazia poesia ASL e contava histórias por diversão em festas e reuniões ao ar livre. O anfitrião, que também era meu amigo, arrastou-me para o ASL Slam nas primeiras vezes, e eu ficava sentado no bar a conversar com outras pessoas e a assistir a algumas performances e experiências no palco”.

Ao longo do tempo, Ridloff começou a apresentar-se como substituto nas performances. Pouco a pouco, começou a prestar mais atenção na abordagem do anfitrião em relação ao ofício e passou a incorporar isso nas suas próprias apresentações.

‘Boom'”, disse Ridloff. “Senti-me em casa”.

Isso foi em 2005, quando o agora mensal encontro chamado ASL Slam foi fundado. O evento foi coorganizado pelos poetas de ASL Bob Arnold e Jason Norman no Bowery Poetry Club, na cidade de Nova York, onde ainda é realizado. A diferença é que, agora, Ridloff é o anfitrião.

Ridloff diz que o ASL Slam é composto principalmente por artistas da comunidade de pessoas com deficiência auditiva, incluindo surdos nativos como ele. Isso marca uma mudança significativa dos primeiros anos do programa, quando os estudantes de ASL e outros que usam gestos, mas não são surdos, formavam a maioria dos participantes.

Os participantes também tendem a ser pessoas que se comunicam por gestos, porque Ridloff prefere que seu trabalho não seja traduzido para inglês.

A beleza está perdida”, disse. “Pense na música. Se uma canção tiver a sua letra removida, mas a melodia for mantida, o sentimento ainda está lá, mas algo se perdeu. Ou se a melodia é removida, mas a letra se mantém, às vezes a canção já não faz mais sentido”.

O evento saiu em turné por Michigan e Austin, nos Estados Unidos, e também pela França. No começo do ano, o ASL Slam visitou Cuba para trabalhar de perto com membros da comunidade surda que estão interessados em expressão criativa.

Foi incrível ver quão rápido aprenderam e criaram algo novo para o público”, disse Ridloff. “Eles estão cerca de 50 anos atrasados na alfabetização da língua gestual. Assim como os carros”.

Enquanto isso, Ridloff agora apresenta-se regularmente em Nova York, num meio que, segundo ele, tem benefícios e nuances que a poesia da palavra falada não tem.

Os poetas ASL podem criar um poema ou história completa usando uma forma da mão para representar uma infinidade de conceitos”, disse. Na ASL, explicou Ridloff, uma única forma da mão pode significar uma palavra diferente, dependendo de onde o movimento é colocado. A forma da mão para “galo”, por exemplo, é a mesma que a forma para “carro”.

Talvez se possam comparar rimas ou aliterações com esse conceito, mas é algo simplesmente não experimentado no inglês falado”, disse Ridloff.

Pessoas que se comunicam por gestos — incluindo poetas de ASL, como Ridloff — também usam expressões faciais e outros “marcadores não manuais” para comunicar o equivalente ao volume ou inflexão. Uma inclinação da cabeça, aceno ou sacudida proporcionarão o contexto tonal para as palavras que são sinalizadas, marcando a diferença entre uma afirmação declarativa ou uma pergunta. Sobrancelhas levantadas indicam perguntas; movimentos dos lábios indicam superlativos.

Isto, diz Ridloff, contribui para a natureza “esférica” ou não linear da poesia ASL. “O inglês falado também pode ser não linear, mas o que não pode fazer é exemplificar três ou quatro coisas ao mesmo tempo”, disse Ridloff.

Por isso, para ele, o que começou como um passatempo evoluiu para sua própria forma única de arte.

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