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Surdolímpicos, a história por contar - Heróis do Silêncio
por porsinal     
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Sexta-feira, 04 de Outubro de 2013 às 03:32:18
Três portugueses ganharam, em agosto, medalhas nos Jogos Olímpicos para surdos, disputados em Sófia. Bom pretexto para conhecer uma comunidade autónoma, com cultura própria, que organiza competições desde o início do século XX.

No ano passado, um miúdo norte-americano surdo, de quatro anos, chamado Anthony Smith, recusou-se a ir à escola com o aparelho auditivo. Razão: Anthony é fã dos super-heróis da Marvel, e alega que os super-heróis não usam "ouvidos azuis". Numa iniciativa Inspirada, a sua mãe pediu ajuda ... à Marvel. A missão passou para um ... português. Nelson Ribeiro criou assim o Blue Ear, um super-herói surdo, que usa aparelho.

Agora, o imaginário infantil de um surdo também já pode integrar o seu super-herói. Na verdade, o que mais há nesta história da surdez são super-heróis, como ainda recentemente se verificou nos Jogos Surdolímpicos, que se disputaram em Sófia, na Bulgária.

Se o criador do Blue Ear é um português, outros super-heróis representaram os surdos portugueses em Sófia, com destaque para Hugo Passos, agora já tetracampeão surdolímpico de luta greco-romana, uma verdadeira personagem da lenda do desporto português. Ao lado de Hugo Passos, estavam a Judoca Joana Santos (medalha de prata), o lutador de taekwondo Hélder Gomes (medalha de bronze) e ainda mais dez atletas, em várias modalidades.

Em janeiro de 2011, numa entrevista ao site Mundo da luta Olímpica, Hugo Passos anunciava a sua missão de super-herói: "Gostava de terminar a minha carreira com mais um titulo surdolímpico, para me poder juntar ao atleta Carlos Lopes, que conquistou quatro medalhas de ouro nos Jogos Paralfmpicos." Em Sófia, Hugo Passos cumpriu a missão: tem agora quatro medalhas de ouro e uma de bronze, a que se juntam vários títulos europeus e mundiais, assim como um domínio total a nível nacional. Aos 33 anos, é um dos melhores de sempre, e até já participou nos Jogos Olímpicos, entre atletas sem deficiências, em Atenas 2004, obtendo o 24º lugar.

Hugo Passos é apenas um dos exemplos da forma como os surdos ganharam gradualmente o seu lugar, de uma forma bastante independente, numa sociedade que ainda atualmente não deixa de olhar de lado todos os deficientes. O desporto é também apenas um dos setores que dão visibilidade a essa independência e capacidade de afirmação de uma comunidade que ganhou forças e união a partir de muitos problemas.

Espírito de independência

Tudo começou em 1924, com a primeira edição destas olimpíadas para surdos. Na altura, ficaram conhecidos como Jogos Internacionais Silenciosos, e com esta designação ficaram até 1965. Entre 1966 e 1999, o nome mudou para Jogos Mundiais Silenciosos, e só desde 2000 passou a falar-se em Surdolimpíadas.

Designações à parte, a competição em si é a segunda mais antiga no mundo do desporto. Em 1924, teve lugar em Paris a primeira edição, com a participação de 145 atletas, em representação de nove países europeus, com provas de sete modalidades: atletismo, ciclismo, saltos ornamentais, futebol, tiro, natação e ténis. A versão de inverno destes Jogos apenas teve lugar, pela primeira vez, em 1949, em Seefeld (Áustria), com 33 atletas de cinco países.

Desde esse início, há quase 90 anos, a grande competição desportiva para atletas surdos tem vindo sempre a crescer em participações (4000 em Taipé 2009, 5000 em Sófia 2013). O curioso, contudo, é a independência que a comunidade surda manteve, com a especificidade de organizar umas olimpíadas só para esta deficiência em particular. Os Jogos são da responsabilidade do ICSD (Comité Internacional de Desportos para Surdos), que só foi reconhecido pelo Comité Olímpico Internacional (COI) em 1955; não integrando o Comité Paralimpico Internacional (CPI), o ICSD conseguiu manter um estatuto independente, aceite por todas as partes envolvidas (COI, CPI e ICSD) em 1966. Hoje, considera-se a necessidade de haver umas olimpíadas específicas para surdos por duas razões principais: pelo número de participantes e pelo fator comunicação: a comunidade surda tem uma língua própria, que não é fácil de ser entendida a não por aqueles que a tenham aprendido. Essa língua própria também levou à criação de uma cultura surda, que existe, de facto.

"Algo que sempre foi difícil de perceber para quem está fora da comunidade surda é que os surdos não se veem a si mesmos como deficientes, mas como diferentes. O facto de termos comunicação baseada em línguas gestuais e estas variarem de uma localização geográfica para outra confere à comunidade surda uma cultura própria. Esta cultura, e a inerente forma diferenciada de ver o mundo, leva a que os surdos procurem organizar, dentro da sua comunidade, eventos específicos só deles", explica Rui Pinheiro, chefe da missão portuguesa aos Jogos Surdolímpicos de Sófia.

O outro Coubertin

Não foi fácil chegar aqui. Durante muito tempo na história da humanidade, os surdos foram considerados atrasados, deficientes mentais, pessoas diminuídas sem capacidade para se afirmar, inúteis para a sociedade. Era um pouco esse o panorama que se vivia quando nasceu em França, em 1884, Eugene Rubens-Aicais, que viria a tornar-se no "Pierre Coubertin dos surdos". Ele próprio surdo, Rubens-Aicais estudou na Saint-Hyppolyte-du-Fort, uma instituição protestante onde começou a interessar-se pelo desporto e criou, em 1889 (aos cinco anos de idade!) um clube de ciclismo para surdos. Em 1911, este clube passou a ser de vários desportos, e o seu exemplo arrastou outros clubes, angariando atletas surdos.

Nem todos tinham boa capacidade organizativa, pelo que Rubens-Aicais propôs uma federação de desportos para surdos, o que viria a ser concretizado em 1918. Assim cresceu a ideia da formação de um Comité Internacional de Desportos para Surdos, concretizada em 1924 {Inicialmente como Comité Internacional dos Desportos Silenciosos), a seguir à realização dos Jogos Internacionais Silenciosos, com Rubens·Aicais como primeiro presidente. O "Coubertin dos surdos" morreu, pobre, em 1963, mas o seu legado é hoje uma realidade.

A disputa da primeira competição internacional possibilitou, nos diversos países, a abertura do debate sobre os direitos e as condições dos surdos. Este debate ainda hoje está aberto, e os surdos continuam a considerar-se alvos, muitas vezes, de discriminação. Só muito recentemente as diversas línguas gestuais foram sendo reconhecidas oficialmente. Em 1985, houve uma tentativa para integrar o movimento surdolímpico no paralímpico, mas não resultou, queixando-se os surdos de perda de autonomia e redução de fundos. A discussão a este respeito está aberta, e há quem defenda a reintegração, a começar pela demonstração de uma modalidade para surdos nos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, em 2016.

Falta de liderança

Em Portugal, o desporto praticado por surdos tem evoluído irregularmente, com altos e baixos, embora a participação nos Surdolímpicos, sob a égide do Comité Paralímpico Português, seja de indiscutível sucesso. Em seis edições (desde 1993, também em Sófia), o saldo de onze medalhas ( cinco de ouro, três de prata e três de bronze), e um total de 65 atletas, deve considerar-se bom.

"Já tivemos para estes Surdolfmpicos de 2013 um contrato assinado com o estado português, tivemos muito mais projeção nos media do que alguma vez tivemos ... Nunca os atletas surdos foram tão bem apoiados em Jogos Surdolímpicos. Algumas coisas faltam, como a existência de um contrato-programa de preparação surdolímpica, que apoie os atletas com bolsas, mas para lá caminhamos", conta Rui Pinheiro.

O chefe da missão portuguesa, também ele surdo, preocupa-se, contudo, com a dinâmica dentro da própria comunidade: "Já tivemos anos em que se organizavam muitos eventos, mas há muito tempo que nada se organiza, por falta de verbas e de voluntários. Podia deitar as culpas para a crise, mas acredito que também existe uma crise no lado da liderança: vejo hoje em dia poucos lideres surdos. Os jovens surdos precisam de olhar para os mais velhos e pensar: "É isto que eu quero ser quando for grande!" Se não existirem surdos que vinguem na sociedade, os jovens irão optar por outros modelos, e estes outros modelos não incluirão, por exemplo, candidatar-se à direção da LPDS."

A LPDS {Liga Portuguesa de Desporto para Surdos) tem por função promover as competições nacionais. Membro fundador do Comité Paralímpico, a LPDS é uma ANDD (Associação Nacional de Desporto para Deficientes). As ANDD estão colocadas sob a égide da Federação Portuguesa de Desporto para Deficientes (FPDD), a qual faz a ligação com o estado, sendo responsável pela distribuição de subsídios.

Implante milagroso

Os atletas surdos não puderam, em Sófia, usar os seus aparelhos auditivos durante as competições. Em competição, não é permitido o uso do aparelho auditivo, nem a parte exterior dos implantes cocleares, no caso dos implantados. Ao contrário dos paralímpicos, não há separação por classes de deficiência, e a única restrição para participarem é que tenham uma perda de pelo menos 55dB no melhor ouvido. "dB" (decibel) é uma medida relativa de intensidade do som, a partir da qual se classifica o grau de surdez. Assim, considera-se surdez ligeira uma perda auditiva de 21 a 40 dB; surdez moderada de 1º grau, perda de 41 a 55 dB; de 2º grau, perda de 56 a 70 dB; surdez severa de 1º grau, perda de 71 a 8o dB; de 2º grau, perda de 81 a 90 dB; surdez profunda de 1º grau, perda auditiva de 91 a 100 dB; de 2º grau, perda de 101 a 110 dB; de 3º grau, perda de 111 a 119 dB; a surdez total (cofose) é definida como a perda média de 120 dB.

Atualmente, a tecnologia já permite alguns "milagres", até aos surdos profundos: muitos deles podem ouvir, hoje em dia, graças aos implantes cocleares. Hoje bastante disseminados, os implantes tornaram muitos surdos em ''ouvintes", criando alguma polémica no selo da comunidade, na qual há quem defenda a surdez como característica de um coletivo com identidade e cultura próprias.

Na verdade, toda a caminhada tecnológica foi uma luta contra o silêncio, sobretudo a partir de 18oo, quando Alessandro Volta inventou a pilha eletrolítica; o físico italiano experimentou ligar uma bateria a duas varinhas que introduziu nos ouvidos e, ao ligar o circuito, sentiu um "abalo na cabeça", seguido do barulho de uma sopa a ferver. Foi a primeira estimulação elétrica do ouvido. Seguiram-se trompas e cornetas acústicas e as primeiras próteses auditivas, até que, em 1901, Ferdinand Alt inventou a prótese auditiva elétrica, baseada na tecnologia do telefone. A partir daí, foi uma rápida caminhada até ao mundo dos sons: vibrador de condução óssea (1923), vibrador mastoideu (1932), próteses retroauriculares (1952), próteses intracanal (1959), com circuito integrado (1964), com microfone direcional (1969), e digital (1987). Atualmente, e além dos já referidos implantes cocleares, que entraram em uso em 1984, há próteses digitais muito evoluldas, que permitem a eliminação do feedback e maior qualidade do som.

Casos famosos

A história está cheia de casos de pessoas com deficiências auditivas mais ou menos profundas que não se deixaram, no entanto, limitar nas suas vidas.

Jonathan Swift (1667- 1745) - O autor inglês de As Vitagens de Gulliver sofreu de deficiência auditiva desde criança, sttuação que e manteve até ao final da vida.

Francisco de Goya (1746-1828) - O pintor espanhol ficou totalmente surdo em 1792, ao contrair uma doença grave e desconhecida, numa viagem à Andaluzia.

Ludwigvan Beethoven (1770-1827) - O compositor alemão começou a ensurdecer aos 26 anos, e a sua perda de audição acentuou- se gradualmente, até ao final da vida. Ao mesmo tempo, isolou-se cada vez mais, sofrendo de depressão.

Thomas A. Edison (1847-1931) - Considerado o maior inventor de todos os tempos, este norte-americano teve diversos problemas na origem da sua surdez. Confessava não ouvir o canto de um pássaro desde o 13 anos.

Koustantin Tsiolkovsky (1857-1935) - O cientista russo, considerado o "pai da astronáutica", ficou surdo ainda criança, devido a escarlatina; sem oportunidades de educação, aprendeu por si só, e foi das primeiras pessoas a abordar seriamente a ciência dos foguetes e da exploração do espaço.

Hellen Keller (1880-1968) - Nascida em 1880, ficou cega, surda e muda devido a uma febre que contraiu aos 18 meses. A forma como se afirmou socialmente tomou-a um exemplo, um símbolo que hoje permanece, em escolas para cegos e surdos.

Howard Hughes (1905-1976) - Produtor cinematográfico norte--americano, era urdo de um dos ouvidos, uma situação integrada num problema mais lato, que o médicos haveriam de descrever como transtorno obsessivo-compulsivo.

Marlee Matlin (nascida em 1965) - A atriz norte-americana ficou surda aos 18 meses, em consequência de uma doença denominada "exantema súbito". Ganhou um Óscar de melhor atriz principal pela sua interpretação no filme Filho de um Deus Menor, a primeira vez que um surdo conseguiu tal distinção.

Fonte: Super Interessante

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