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Livro conta história de Heldy, surdocega que se comunica pelo tato
por porsinal     
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Sábado, 29 de Dezembro de 2012 às 05:36:02
Quando tinha pouco mais de um ano de idade, tudo que Heldyeine sabia fazer era chorar e arrastar-se de costas no chão, o que a deixava com falhas no couro cabeludo. Surdocega congénita por causa da rubéola contraída pela mãe na gravidez, a criança parecia isolada.

Pouco a pouco, Heldy foi aprendendo a apanhar objetos, andar, alimentar-se, tomar banho, reconhecer pessoas e emoções, expressar desejos e interagir com o mundo, tudo por meio do toque.

Hoje, aos 21, Heldyeine Soares comunica por Libras (Língua Brasileira de Sinais) tátil - os sinais são feitos nas mãos, que ficam em forma de concha, para que ela os sinta e os interprete.

O seu mundo, feito de gestos que identificavam coisas e pessoas, foi sendo traduzido para a Libras tátil, o que ampliou as suas possibilidades de interação e abstração.

A história da menina acaba de ser publicada no livro "Heldy Meu Nome - Rompendo as barreiras da surdocegueira", escrito pela pedagoga Ana Maria de Barros Silva, impressionada com o desempenho de Heldyeine.

"Essa é uma história de sucesso que não poderia ficar apagada. Surdocegos congénitos como ela tendem a ficar isolados, não têm esse desenvolvimento", diz a autora, que trabalha há 40 anos com a educação de surdocegos.

Grande parte desse sucesso é mérito da professora aposentada Marly Cavalcanti Soares, do Instituto dos Cegos de Fortaleza, que encarou o desafio de ensinar a menina, apesar de ter poucos recursos e do seu desconhecimento sobre a surdocegueira.

O livro só pôde ser escrito graças aos seus detalhados relatórios do progresso de Heldy. Anotava cada conquista, tirava fotos e fazia vídeos, batizados de "Renascer".

Os textos dão uma ideia de como o progresso foi alcançado e comemorado e mostram como Heldy aprendia rápido e dava sinais de que queria mais. Depois de aprender a andar, já recusava a ajuda da professora para subir escadas, como se pedisse mais autonomia.

Ela logo conseguiu identificar as pessoas - reconhecia a professora pelas blusas com botões e tinha um gesto para cada membro da família.

Parceria

Juntamente com Marly, a mãe e as irmãs de Heldy lutaram para que a menina se desenvolvesse dessa forma.

De origem simples, a família de Maracanaú (a 15 km de Fortaleza, CE, Brasil) levava quase duas horas para chegar ao Instituto dos Cegos de Fortaleza de autocarro.

A mãe, Jane, abandonada pelo ex-marido, cuidava sozinha de Heldy e das duas filhas mais velhas. Apesar das dificuldades, insistia na atenção especial à caçula.

"A Heldy é quem ela é hoje graças a Deus, à minha mãe e à tia Marly, que provou que, por amor, é possível tornar uma pessoa capaz como ela fez", conta Heldijane Cidrao, 26, irmã de Heldy.

Heldijane cuida da irmã desde os cinco anos - era chamada pela professora de "pequena grande mãe". Envolveu-se tanto que se casou com o professor de Libras de Heldy, que é surdo, e se tornou intérprete de surdos e surdocegos.

"Esse livro me emociona porque ler é como viver tudo de novo. Quando eu tinha seis anos, a tia Marly me colocou no colo e me disse que, quando eu tivesse sede, Heldy também teria e que eu deveria dar água a ela. Quando estivesse com fome, deveria dar algo de comer a Heldy. Hoje tenho uma filha de seis anos e me imagino fazendo tudo que fiz na idade dela."

Agora, Heldy tem bastante autonomia - a família só não deixa que saia à rua sozinha ou cozinhe. Frequenta o Instituto de Surdos de Fortaleza para aprimorar o seu conhecimento de Libras e faz bijuterias no tempo livre.

Algumas das anotações da professora Marly que estão no livro são dirigidas diretamente a Heldy. O seu sonho era que um dia a menina pudesse ler sua própria história.

Os primeiros capítulos foram enviados à jovem em braile - ela lê, mas não fluentemente - e o livro todo deve ser lançado nesse formato.

Fonte: Folha de São Paulo

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