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Comunicar ciência com as mãos. O difícil acesso dos surdos ao saber científico
por porsinal     
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Quinta-feira, 04 de Outubro de 2012 às 03:17:53
As pessoas surdas não acompanham os avanços científicos porque a língua gestual que usam não inclui termos adequados para isso. Mesmo o ensino de ciências para essas pessoas é dificultado pelo problema. Essa situação começa a mudar com um projeto que envolve alunos brasileiros surdos e que está a desenvolver glossários de novos gestos para facilitar a educação em ciência e o acesso dessas pessoas às informações científicas. Um artigo da revista Ciência Hoje, aqui transcrito, descreve esse projeto.

Seria possível conceituar certos aspectos da ciência se faltasse uma língua para isso? Uma linguagem científica só se desenvolveria num ambiente cultural do qual a ciência fizesse parte? Essas perguntas estão associadas a uma questão importante, por muito tempo negligenciada: o acesso dos surdos ao conhecimento científico e a inclusão desse saber nas línguas gestuais utilizadas por esses indivíduos.

Nossa experiência com jovens surdos no Rio de Janeiro sugere que os surdos, isolados dos avanços científicos por falta de informação, não desenvolveram gestos para esses conceitos, na maioria das vezes abstratos. Criou-se, portanto, um círculo vicioso: os gesos não existem, os professores têm dificuldade em ensinar ciência, os intérpretes de gestos têm dificuldade em conceituar e os surdos são cada vez mais excluídos cientificamente.

O desenvolvimento de uma língua resulta da necessidade de comunicação. Isso é verdadeiro para qualquer língua: oral, escrita ou gestual. O nosso trabalho demonstrou que, ao vivenciar experiêcias e práticas envolvendo conceitos científicos, alunos surdos, professores e intérpretes desenvolveram gestos para termos científicos ou tecnológicos que favoreceram a interação entre os alunos e facilitaram a aquisição e a compreensão desses conceitos. Após testes entre outros alunos surdos, os novos gestos aceites foram documentados e serão disponibilizados à comunidade surda, em fascículos temáticos, formando um glossário científico em biociências.

Origens e contestações

Muitas pessoas ignoram que existem diferentes línguas gestuais. Além disso, estas são muitas vezes confundidas com mímica, ou são consideradas ‘linguagens’ e não línguas com estrutura linguística própria. Outros acreditam que a língua gestual é a língua local soletrada em gestos. Então, o que é essa língua? Como surgiu? Onde é utilizada? Por que não é universal? Qual a origem das línguas gestuais?

A comunicação gestual é um processo absolutamente natural. Crianças, antes de aprender a falar, comunicam-se apontando, fazendo gestos e modificando a expressão facial. Uma língua, porém, é mais que isso: ela tem uma organização linguística, e isso só foi constatado nas línguas gestuais há cerca de 50 anos, pelo norte-americano William Stokoe Jr. (1919-2000), em estudo sobre a língua de sinais americana (ASL).

Qualquer língua é essencial não apenas para a comunicação interpessoal, mas também para permitir a organização do pensamento. Na Antiguidade, acreditava-se que as pessoas só aprendiam por meio da palavra ouvida, o que excluía os surdos. Essa noção só seria contestada na Idade Média. No século 15, por exemplo, o humanista holandês Rudophus Agricola (1444-1485) afirmou, num livro, que uma pessoa surda poderia expressar seus pensamentos por escrito. Nessa época, porém, poucas pessoas eram letradas e sabiam ler e escrever.

Cerca de 100 anos depois, esse livro chegou às mãos do médico e matemático italiano Girolamo Cardano (1501-1576), que tinha um filho surdo. Para ele, o uso de palavras não era indispensável para compreender as ideias, mas era necessária uma língua e por isso os surdos deveriam aprender a ler e a escrever. Não se falava ainda em língua gestual. Esta teria sido inventada no século 17 pelo monge espanhol Juan Pablo de Bonet (c.1573-1633). Ele escreveu o livro Redução das letras e arte para ensinar a falar aos mudos e criou um alfabeto manual, semelhante ao atual alfabeto das línguas gestuais espanhola, francesa, americana e brasileira – o da língua britânica de sinais é bastante diferente. Ainda assim, o uso desse alfabeto exigia aprender a soletrar e, portanto, saber ler e escrever em determinada língua.

Os gestos que representam palavras (tornando desnecessário soletrar) provavelmente evoluíram de forma independente em vários locais. No século 18, duas iniciativas importantes ocorreram. O escocês Thomas Braidwood (1715-1806) criou em 1760, em Edimburgo, a primeira escola para surdos, recebendo surdos de famílias abonadas de várias regiões, que traziam os próprios gestos. Em 1771, o abade francês Charles Michel de L’Epée (1712-1789) fundou uma escola para surdos, e os alunos tinham diversas origens e traziam e trocavam diferentes gestos. Com base neles, o abade L’Epée elaborou uma língua gestual. De sua iniciativa nasceu a língua francesa de sinais, exportada depois para os Estados Unidos, onde deu origem à ASL, e para o Brasil, onde gerou língua brasileira de sinais, a Libras. Essas línguas, é claro, sofreram modificações e adições desde então.

O uso da língua gestual pelos surdos enfrentou contestações. Um crítico famoso foi o médico suíço Johann C. Amman (1724-1811), que, em 1770, defendeu o oralismo, segundo o qual a língua falada, e não a gestual, deveria ser empregada na educação dos surdos. Para Amman, o uso da língua gestual afetava a aprendizagem de leitura labial e devia ser abandonada. Ele também defendia o uso, pelos surdos, da língua oral na conversação. O oralismo ganhou força na Europa, tanto que o Segundo Congresso Internacional sobre Educação do Surdo, realizado em Milão (Itália), em 1880, decretou o abandono do uso de gestos na educação.

Somente a partir do trabalho de Stokoe, provando que a ASL tinha gramática, vocabulário, estrutura e sintaxe, como outras línguas, os gestos voltaram a ser aceites como método de comunicação e educação de surdos. A Suécia foi o primeiro país a reconhecer oficialmente, em 1981, a Língua de Sinais Sueca (SSL) como a primeira língua dos seus cidadãos surdos. No entanto, embora as línguas gestuais tenham sido oficializadas, aos poucos, como em Portugal (1997), Alemanha (2002), Brasil (2002), Inglaterra (2003) e França (2005), somente em julho de 2010 o 21o Congresso Internacional para a Educação de Surdos (ICED) rejeitou formalmente o Congresso de Milão. Apesar disso, a Língua de Sinais Italiana (LIS) não é reconhecida até hoje.

A Língua Brasileira de Sinais não se baseia na língua portuguesa escrita e é diferente da Língua Gestual Portuguesa (LGP). Essa última originou-se no século 18, a partir do trabalho do educador luso-francês Jacob Rodrigues Pereira (1715-1780), que escreveu o primeiro tratado científico sobre surdos, Observações sobre os surdos-mudos, em 1762. Já a Libras baseia-se na Língua de Sinais Francesa (LSF) e chegou ao Brasil na década de 1850, trazida pelo francês – ele próprio surdo – Ernest Huet (1822-?), juntamente com o plano de criar um estabelecimento para surdos no país, o Imperial Instituto de Surdos-Mudos (hoje, Instituto Nacional para Educação de Surdos), fundado em 1856 pelo imperador D. Pedro II.

Um exemplo interessante do desenvolvimento de uma língua gestual ocorreu recentemente na Nicarágua. Antes da década de 1970, os surdos nicaraguenses – em número pequeno – estavam espalhados pelo país, mas, com a adoção de uma política de inserção no processo educativo, eles foram reunidos em uma escola da capital, Manágua. Mesmo sem aprender espanhol escrito ou a fazer leitura labial, as crianças passaram a comunicar-se entre si, na escola e no autocarro escolar, usando gestos. Também começaram a definir e padronizar esses gestos, que ensinavam aos novos alunos surdos. Assim, espontaneamente, as próprias crianças surdas começaram a criar regras gramaticais e a sistematizar a língua nicaraguense de sinais. Essa experiência evidenciou que crianças com menos de 10 anos não só aprendiam a língua, mas, ao interagir com outras crianças, eram as principais responsáveis pela sua sistematização e consolidação.

No Brasil, a Libras, como acontece com outras línguas gestuais e com línguas orais, apresenta variações nas diferentes regiões do país, e depende da cultura de cada local para construir as suas expressões ou regionalismos. Por ser uma língua viva, apresenta renovação e evolução constantes, e novos termos são adicionados com o passar do tempo. Todas as línguas mudam, evoluem e adaptam-se de acordo com a necessidade do meio e de quem a utiliza.

A ciência e os surdos

A comunidade surda tem vivido quase sempre à margem do desenvolvimento científico-tecnológico. Isso ocorre porque, ao contrário do que se supõe, os surdos brasileiros têm um enorme problema com a língua portuguesa escrita, já que esta apresenta diferenças em relação à língua sinalizada. A dificuldade com a língua escrita nacional já foi descrita em vários países, inclusive na Suécia e nos Estados Unidos. Esse analfabetismo funcional, aliado à surdez, faz com que os deficientes auditivos não absorvam muitas informações divulgadas pelos meios de comunicação. Trabalho envolvendo jovens surdos do Rio de Janeiro, realizado por Roberta Savedra Schiaffino na Universidade Federal do Rio de Janeiro, mostra como grande parcela dessa informação chega truncada e muitas vezes errada para as pessoas que não ouvem.

Grande parte dessa desinformação da comunidade surda poderia ser suprida no ensino formal. No entanto, também no sistema de ensino, o desencontro entre a Libras e a língua portuguesa impede que os surdos aprofundem e consolidem o que deveriam aprender em livros-textos. Esse problema é ainda mais grave quando consideramos que vivemos numa sociedade tecnológica, na qual os avanços científicos deveriam ser ao menos parcialmente compreendidos por todos.

O ensino de ciências inclui uma série de conceitos abstratos, enquanto a cultura dos surdos é calcada na realidade. Assim, como adaptar os conceitos e transmitir esse conhecimento em Libras?

A primeira surpresa foi verificar que a Libras é muito pobre em termos científicos e tecnológicos, o que deixa os surdos à margem desse conhecimento. Isso ficou claro quando perguntamos a professores de alunos surdos quais as dificuldades que encontravam no ensino de ciências. Grande parte desses professores não é fluente em Libras, e muitos não têm conhecimento algum, utilizando intérpretes/tradutores de Libras. Os intérpretes educacionais, no entanto, não são especialistas, e precisam ‘traduzir’ informações de várias áreas distintas.

Todos os intérpretes entrevistados na nossa pesquisa revelaram que atuam em todas as disciplinas, do ensino fundamental ao superior, mas a escolaridade da grande maioria vai apenas até o ensino médio. Portanto, como esperado, os intérpretes afirmam enfrentar dificuldades para interpretar ciências, em especial devido à falta de gestos específicos para termos científicos e à falta de conhecimento na área.

Diante desse cenário, foram oferecidos, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), cursos experimentais de uma semana, envolvendo temas científicos, para alunos surdos do nível médio. O curso dá aos alunos a oportunidade de criar experiências que respondam às suas indagações, com acompanhamento de monitores treinados, não para dar respostas, mas para estimular o pensamento independente. Os alunos surdos que se destacam nos cursos também fazem estágios no laboratório. Foi desenvolvido, além disso, um curso de extensão diário, com duração de um ano, que busca cobrir todas as biociências, de forma experimental, numa sucessão de módulos temáticos, sob a coordenação de Flávio Eduardo Pinto-Silva. Por serem práticas, todas essas atividades envolvem o que o surdo tem de melhor: a acuidade visual e a capacidade de raciocinar e concluir com base em pistas visuais.

Criando novos gestos

Nos cursos, os próprios alunos surdos começaram a desenvolver gestos para se comunicar uns com os outros. Esses novos gestos – para descrever aparelhos, fenómenos, órgãos, atividades etc. – surgidos nos cursos, nos grupos de discussão, nos estágios ou em outras atividades, foram percebidos e registados. A seguir, foi formado um grupo de discussão, coordenado por Julia Barral, com surdos, biólogos e intérpretes, para discutir os gestos gerados e a sua definição em Libras. Um aspecto fundamental era verificar a aceitação do novo gesto, observando-se se era usado por outros surdos para descrever a mesma ideia ou se era rejeitado ou simplificado.

Definidos os novos gestos, passou a ser produzido um glossário, dividido em fascículos temáticos. Esses fascículos são filmados, para serem distribuídos em DVD's. Três já foram produzidos: ‘Sangue’, ‘Sistema Imune’ e ‘Célula’. Estão em fase de produção os temas ‘Fertilização’ e ‘Embriogênese’, e estão a ser planeados outros, como ‘Micro-organismos’, ‘Respiração’ e ‘Sistema Endócrino’, para os quais já foram desenvolvidos novos gestos.

Os fascículos já produzidos apresentam gestos para 217 termos científicos, dos quais 194 são novos. Além desses termos, também são apresentados 51 gestos para equipamentos e materiais de laboratório, a maior parte (42) desenvolvida no nosso grupo. O nosso glossário inclui não apenas o gesto para a palavra, mas também um verbete com a definição daquela palavra em português escrito e a sinalização desse verbete em Libras. No final de cada fascículo, um texto em Libras sobre o tema permite contextualizar todas as palavras que aparecem no glossário.

O nosso projeto de criar um glossário de gestos para termos científicos teve início em 2007. Iniciativa semelhante aconteceu na Grã-Bretanha e ficou disponível em 2008 (www.ssc.education.ed.ac.uk/bsl/list.html). Uma das autoras, Rachel O’Neil, disse (em comunicação pessoal) que o conhecimento da língua gestual pelos professores que ensinam os surdos na Grã-Bretanha é muito variável e que poucos têm o nível mínimo considerado necessário pelas organizações de surdos. Também há muito poucos termos específicos para áreas da ciência na Língua Britânica de Sinais (BSL). Nesse cenário, não só os professores têm dificuldade durante as aulas, mas também o uso de intérpretes em exames nacionais é problemático.

No caso do glossário da BSL, a parte de matemática já está pronta. Também estão disponíveis glossários para física, química e biologia, mas ainda estão a ser editados, com a adição de novos gestos. Embora elaborados de forma independente, o glossário em BSL e nosso glossário em Libras utilizaram o mesmo processo. No caso do BSL e no nosso, houve busca dos gestos já existentes e outros foram criados pelo grupo e testados entre os surdos, sendo muitas vezes abandonados ou substituídos por gestos alternativos. Como o nosso, o glossário em BSL traz os gestos dos termos científicos e uma definição destes tanto em BSL quanto em inglês.

Os novos gestos que vêm sendo desenvolvidos devem facilitar a comunicação científica entre surdos e provavelmente o ensino formal de biociências para esse grupo de alunos. A nossa experiência mostra que os alunos surdos têm excepcional capacidade visual e capacidade espacial e detalhista, e que podem descobrir por si mesmos, realizando experiências, respostas para questões bastante complexas. A produção no Brasil de um glossário em biociências, que parte da necessidade sentida pelos próprios alunos, não é uma iniciativa isolada. Projetos semelhantes têm surgido em outros países, em diferentes áreas do conhecimento, sempre com o objetivo de contribuir para uma maior inclusão da comunidade surda na sociedade atual.

Fonte: Ciência Hoje - texto de Julia Barral, Flavio Eduardo Pinto-Silva e Vivian M. Rumjanek

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