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Ana Rocha de Sousa duplamente premiada no Festival de Cinema de Veneza
por porsinal     
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Sábado, 12 de Setembro de 2020 às 15:17:47
A realizadora portuguesa foi distinguida no festival italiano pelo filme "Listen", arrecadando um prémio superior a 84 mil euros

A realizadora portuguesa Ana Rocha de Sousa venceu o prémio Leão do Futuro, de primeira obra, e o prémio especial do júri Horizontes no Festival de Cinema de Veneza, em Itália, pela longa-metragem Listen.

De acordo com o festival italiano, Listen foi distinguido com o prémio Leão do Futuro - Luigi De Laurentiis, no valor de 100 mil dólares (84,4 mil euros), e Ana Rocha de Sousa recebeu ainda o prémio especial do júri da secção competitiva Horizontes.

A realizadora portuguesa afirmou à agência Lusa que os prémios conquistados no Festival de Cinema de Veneza, Itália, com a primeira longa-metragem significam que "valeu a pena a luta" para estar atrás das câmaras.

"Nunca pensei, nunca pensei. Para mim é indescritível. (...) Existem sempre momentos em que podemos estar sozinhos em casa a pensar 'eu podia fazer tanta coisa, se calhar não vou conseguir'. O importante é não desistir, eu estive para desistir, mas não desistam, independentemente de quais forem as adversidades", disse a realizadora à Lusa, a partir de Veneza.

Listen é a primeira longa-metragem da atriz e realizadora Ana Rocha de Sousa e a narrativa inspira-se em factos reais. É um drama familiar de uma família portuguesa emigrada no Reino Unido, a quem os serviços sociais lhe retiram os três filhos menores, por suspeita de maus tratos.

Em entrevista à agência Lusa dias antes da estreia mundial do filme em Veneza, a realizadora recuava a 2016 para falar da criação deste filme, depois de ter vivido e estudado em Londres, de ter sido mãe e de ter tomado conhecimento de casos de emigrantes que viveram aquele drama, retratado em Listen.

"Não é de todo um filme contra ninguém em específico, mas pretende levantar questões; se não haverá outras formas de salvaguardar o superior interesse destas crianças e destas famílias para lá da adoção. (...) A grande dificuldade do tema são algumas definições demasiado subjetivas em termos legais que tornam o sistema [social] muito falível", contou.

Sobre a presença em Veneza, Ana Rocha de Sousa recordou a importância do festival: "Estar em Veneza trouxe muito visibilidade ao filme. Existirá um 'antes de Veneza' e um 'depois de Veneza'. Sou absolutamente grata ao facto de Veneza ter coragem de seguir e, de uma forma adaptada e nova, não deixar cair as coisas".

Quando diz que esteve quase para desistir do cinema, Ana Rocha de Sousa conta que aconteceu antes de fazer Listen, numa altura em que, em 2014, o seu percurso e currículo foram questionados dentro setor, por integrar as listas de júris dos concursos do Instituto do Cinema e Audiovisual.

"Estava a tentar retomar a minha vida e nessa altura saíram algumas coisas muito contra mim e eu sentia-as como sendo profundamente injustas. (...) Eu compreendo, é mais fácil as pessoas julgarem-nos pelo que aparentamos do que por aquilo que somos exatamente", explicou.

Atualmente, Ana Rocha de Sousa prepara uma nova longa-metragem e considera que os prémios em Veneza são "um grande incentivo poder continuar e não parar".

"Listen" tem coprodução luso-britânica, foi rodado nos arredores de Londres com elenco português e inglês, encabeçado por Lúcia Moniz, Ruben Garcia e Sophia Myles. Chegará aos cinemas portugueses em 2021.

O filme da realizadora portuguesa foi distinguido com o prémio Bisato d'Oro de melhor realização e o prémio Sorriso Diverso Venezia, pela "abordagem às questões sociais", ambos galardões paralelos do festival.

O secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Media, Nuno Artur Silva, felicitou a realizadora pelos prémios no Festival de Cinema de Veneza, sublinhando que "é uma revelação absoluta mesmo para Portugal".

"É um prémio muito importante e sobretudo muito auspicioso, é um prémio de futuro e, para uma primeira obra, este sinal num importante festival é muito animador. É um prémio para ela e para a equipa, mas é também uma forma de reconhecimento do cinema português e numa situação de coprodução. É uma revelação absoluta mesmo para Portugal", afirmou Nuno Artur Silva à agência Lusa.

Nuno Artur Silva sublinhou a "boa surpresa" de todos aqueles prémios serem atribuídos a uma primeira obra, de uma realizadora que descreveu como uma "corredora".

"O que é muito animador é que é numa primeira obra e é uma corredora, ela corre com uma produtora, com a Bando À Parte, nem sequer é uma pessoa do circuito habitual dos realizadores de cinema, tem essa alegre, essa novidade. Há boa surpresa, quando menos esperamos temos boas notícias", afirmou.

Também o produtor português Rodrigo Areias considerou este sábado "absolutamente incrível e fora do normal" a atribuição de quatro prémios pelo Festival de Cinema de Veneza à realizadora Ana Rocha de Sousa, pela longa-metragem "Listen".

"Para uma realizadora que faz um primeiro filme e ganhar um grande prémio, o prémio especial do júri é um privilégio grande, como é óbvio. Estes prémios todos juntos acaba por ser uma coisa absolutamente incrível. Ganha dois 'leões' oficiais e dois prémios paralelos", afirmou o produtor à agência Lusa.

Rodrigo Areias recordou este sábado à Lusa que decidiu produzir o filme por causa do argumento e "pela energia" da realizadora, e partiram depois à procura de financiamento e coprodução internacional no Reino Unido, onde Ana Rocha de Sousa estudou cinema.

"Por isso, na carreira de alguém que está a fazer uma primeira obra, [o reconhecimento de Veneza] marca claramente o percurso que ela irá fazer, sem dúvida nenhuma", disse o produtor português.

Ana Rocha de Sousa, 41 anos, entrou no cinema pela porta da representação, sobretudo em ficção televisiva, como "Riscos", "A Raia dos Medos", "Morangos com Açúcar" e "Jura", e passou para o outro lado da câmara a realizar curtas-metragens. Atualmente prepara uma nova longa-metragem.

Listen tinha sido selecionado para a secção competitiva Horizontes do festival, na qual estava também a curta-metragem "The Shift", de Laura Carreira.

Nesta secção, o prémio de melhor curta foi para "Entre tú y milagros", de Mariana Saffon.

A 77.ª edição do Festival de Cinema de Veneza foi apresentada como um dos primeiros eventos internacionais a decorrer nos moldes tradicionais em tempos de pandemia da covid-19, depois de meses de paralisação da atividade cinematográfica, que levou muitos festivais a decidirem pelo adiamento, cancelamento ou exibição online.

Fonte: Expresso

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