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Amílcar José Morais
por porsinal     
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Terça-feira, 02 de Outubro de 2018 às 01:33:13
"Sou surdo e os surdos vivem à margem da sociedade. Não me sinto integrado. Diversidade é só um nome bonito, mas, na realidade, a diferença divide-nos sempre."

Quando se nasce sem audição, aprende-se sobre a vibração das coisas do mundo. O movimento produz vibração, e esta proporciona descoberta, aprendizagem e alegria, e pode ser luz avisadora. Ser parte de uma minoria numa sociedade parcamente consciente e avessa à diversidade é árduo, mas a dificuldade também aguça o engenho. Amílcar José Morais nasceu surdo, numa família surda com a qual adquiriu a primeira língua: Língua Gestual Portuguesa (LGP); a esposa e o filho são ouvintes e bilingues, e ensinar LGP é a sua missão – o seu meritório contributo para uma sociedade mais esclarecida e empenhada em construir equidade.

O que é, para ti, o silêncio?
Para mim, o silêncio é uma coisa boa. Sou cidadão surdo, nasci surdo. Também os meus pais e irmã mais velha são surdos. Vivo sem música e sem o som da televisão, dos automóveis, do computador e do telemóvel. O som está sempre desligado. A sociedade pensa que a comunidade surda é silenciosa, mas falar LGP faz barulho, das mãos, por exemplo, a palma, o toque no peito, etc. Os surdos, por si, não ouvem os sons, não sabem o que é barulho, mas os ouvintes avisaram-nos, disseram-nos que existiam sons. A cidade é barulhenta – em Lisboa, os moradores queixam-se do barulho (podemos propor que os surdos vivam na cidade e os ouvintes, no campo!). Observo a cidade, sei que o movimento (de carros, pessoas, lojas, bares, supermercados) emite som, produz barulho; no campo, tudo parece parado, sem movimento, e entendo o que é o silêncio.

E o ruído?
Para mim, o ruído chama-se vibração (sente-se dentro do corpo). Música muito alta, sirenes dos bombeiros, da polícia, ambulâncias, ou os elétricos a passar provocam uma vibração que sinto e percebo o que é o ruído. Para nós, surdos, é um dos cinco sentidos: em vez da audição, temos a vibração.

Sentes que a diversidade é valorizada ou apenas tolerada (ou nem isso)?
Sou surdo e os surdos vivem à margem da sociedade. Não me sinto integrado. Diversidade é só um nome bonito, mas, na realidade, a diferença divide-nos sempre. O Estado coloca-nos um rótulo muito forte. A comunidade surda é uma minoria no que respeita à língua e à cultura, mas o Estado coloca-nos no saco das pessoas com deficiência – prefere agregar (e negligenciar) tudo o que é, por si, considerado “diferente”, tornando-nos em cidadãos esquecidos. Continua a haver muita segregação, por exemplo, a comunidade negra é relegada para bairros desvalorizados, a comunidade cigana recebe pensões sem necessitar de trabalhar, não comento a situação das pessoas cegas, mas fiquei surpreendido ao saber que existem cada vez menos. Contrariamente, tem-se verificado um aumento de pessoas surdas (e celebramos esse facto!). Ainda assim, sentimos que não somos valorizados pela sociedade nem pelo Estado porque não somos verdadeiramente compreendidos. Uma sociedade sem diversidade é uma sociedade pobre.

O que vês, quando olhas para a nossa sociedade dita moderna?
A modernidade continua a ser conservadora (ou mesmo retrógrada). Penso que os jovens constituem a chamada sociedade moderna e, por isso, espero que tenham a mente mais aberta, que seja promovido um diálogo mais pacífico relativamente à diversidade, que haja mais paciência. Um ponto que considero especialmente importante é o combate à corrupção e ao branqueamento de capitais (nomeadamente, a fraude fiscal): se houver mais justiça e mais democracia, creio que a sociedade mudará realmente.

Como surgiu a vontade de ensinar Língua Gestual Portuguesa (LGP)?
Primeiro, sonhava em trabalhar na Assembleia da República, contudo, sempre encontrei muitas barreiras. Depois, decidi ser professor de LGP porque me disseram que tinha jeito para ensinar. Fiz a minha formação, licenciei-me e trabalho, há mais de quinze anos, em várias instituições. Neste momento, estou também a trabalhar na minha dissertação de mestrado em Sociologia. Orgulho-me de ter conseguido "empurrar" dez jovens surdos para o ensino superior. É por isso que leciono – para capacitar jovens surdos a estudar e a enfrentar o preconceito (ainda muito presente em todo o tipo de instituições).

Consideras que o teu contributo como professor de LGP, tanto de pessoas surdas como ouvintes, é reconhecido?
O meu contributo assume duas formas distintas: leciono para crianças e jovens surdos numa perspetiva cultural e de construção de identidade, disseminando a língua reconhecida pela comunidade surda; e para ouvintes, sendo que, neste caso, a minha principal função é a de sensibilizar e divulgar a cultura surda. Não sei se os surdos e ouvintes estão interessados em aprender comigo ou não. Uso sempre uma metodologia adequada a cada um dos dois mundos. O meu sonho é que ambos se unam e construam, juntos, uma mudança na política tendo em vista, também, a melhoria da qualidade de vida das pessoas surdas.

Tendo em conta uma maior aproximação entre pessoas surdas e ouvintes, não seria útil alargar a oferta de ensino de LGP ao público em geral e incluir aulas de LGP no currículo das escolas públicas do país? Por que não acontece?
Já defini, há muito tempo, a lei para a criação do ensino bilingue para alunos surdos e ouvintes (e esta foi reconhecida), mas o Estado nada fez, nem determinou uma escola piloto, nada. Fiz a proposta ao Bloco de Esquerda (BE) e o parlamento aprovou… vamos ver o que acontecerá agora. Na minha opinião, a LGP deve ser ensinada em todas as escolas, universidades, empresas, setores do Estado, etc. No entanto, a responsabilidade do ensino desta língua terá de ser sempre de um docente surdo de LGP, uma vez que esta é a sua língua nativa (e, portanto, estará a par da sua evolução linguística) e também por poder, legitimamente, representar a comunidade surda.

Foi a falta de representação das pessoas surdas que te levou a envolveres-te ativamente na política?
Sim. Sou aderente do BE, sou a favor da ideologia deste partido porque favorece e protege as minorias, e eu pertenço a uma delas. Represento a comunidade surda no BE e propus vários projetos relativos aos direitos e deveres das pessoas surdas e utilizadoras de LGP (ouvintes formados em LGP) para uma melhoria das acessibilidades em geral. Fui convidado para ser o terceiro deputado bloquista da Assembleia Municipal de Sintra, não fui escolhido, mas poderei substituir qualquer um dos outros dois deputados, caso seja necessário.

Consideras a comunidade surda unida? Existe solidariedade entre pares?
A pergunta não tem uma resposta fácil e inclui duas palavras que não coexistem na comunidade surda: solidariedade e unida. A maioria das pessoas surdas prefere não se envolver demasiado na sociedade, não querem ter preocupações e tentam viver uma “vida normal” (porque sentem a proteção da família, que as sustenta), mas essa forma de estar não contribui para a autonomia, integração e bem-estar futuro destas pessoas. As elites têm uma consciência muito boa, mas não querem colaborar com os outros (e são pequenas). Os dirigentes das associações e da federação dividem-se. Nas redes sociais, existem críticas frequentes entre grupos e, consequentemente, uma grande desconfiança no que se refere ao poder, portanto, não conseguimos ser uma comunidade unida. Futuramente, será necessário capacitar, através de formação específica, todas as pessoas para combater esta divisão dentro da comunidade surda.

A comunidade surda sente-se integrada na sociedade, ou tende a manter-se fechada e porquê?
A origem do problema é a educação segregada, aprovada pelo Congresso Internacional de Educação de Surdos, em Milão, em 1880, que eliminou o ensino da Língua Gestual, alterando o modelo da comunidade surda, nomeadamente, colocando professores, dirigentes de escolas e outros profissionais ouvintes em funções, e não empregando qualquer pessoa surda. A partir desse momento, deu-se aquilo a que chamamos de “colonização dos ouvintes”, já que estes obrigavam os surdos a falar (usando a expressão oral). A segregação foi, assim, ganhando maiores dimensões devido à ignorância, ao abuso na comunicação, à discriminação e à repressão de que os surdos sempre foram alvo. Não tínhamos – e ainda não temos – liberdade para ser como somos. Toda esta violência levou a que os surdos se encerrassem no seu “mundo” porque a autoconfiança se foi fragilizando, porque se sentiam (e sentem muitas vezes) inferiorizados. Então, não, a comunidade surda não se sente integrada na sociedade.

Verifica-se, hoje em dia, uma maior acessibilidade aos vários campos da sociedade?
A acessibilidade mudou um milímetro. Ainda falta muita coisa, mas, graças à tecnologia, tem-se verificado uma rápida evolução. No entanto, por exemplo, nos telejornais, as notícias são transmitidas muito depressa e a tradução para LGP está confinada àquela janelinha... e os surdos desistem de ver; os elevadores têm informação em braille, mas não em LGP; nos serviços públicos e privados, é muito difícil contactar o/a intérprete de LGP; mas depois, há subsídios: Prestação Social para a Inclusão. O Estado alega que o equipamento de acessibilidade para a comunidade surda é caro, mas paga este subsídio. Será uma boa solução para o Estado, mas para nós, surdos, não é seguramente. A sociedade ainda não é acessível a todos os cidadãos.

És otimista?
Sim. Nunca desisto da luta, por isso, sou otimista.

Fonte: O que fizeste hoje para mudar o mundo?

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