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Entrevista com Ema Gonçalves da Associação de Surdos da Ilha de São Miguel, Açores
por porsinal     
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Terça-feira, 16 de Abril de 2013 às 17:06:35
Comunidade surda na região exige “informação para todos” e lança críticas à inexistência de um comunicador de Língua Gestual na RTP Açores. Entrada no mercado de trabalho é o principal dilema da vida dos jovens surdos nos Açores. “Não conseguem aceder nem a formação profissional, devido à ausência de respostas formativas para pessoas com necessidades especiais”, denuncia Ema Gonçalves da Associação de Surdos da Ilha de São Miguel.

Há quantos anos existe a Associação de Surdos da Ilha de São Miguel?
No próximo dia 24 de Junho de 2013, a ASISM (Associação de Surdos da Ilha de S. Miguel) irá comemorar o seu 20º aniversário.

Quais os objectivos da associação?
Os principais objectivos são: a defesa e promoção dos interesses sócio-profissionais, educacionais, culturais e morais das pessoas surdas, e de todos os seus associados e suas famílias; criar estruturas de apoio ao surdo e implementar medidas de integração social; fomentar o ensino especial e difundir a Língua Gestual Portuguesa (LGP); desenvolver na Região Autónoma dos Açores, em articulação com organizações congéneres e entidades públicas, nacionais ou comunitárias, acções de prevenção, tratamento e rastreio da surdez; organizar serviços e desenvolver acções, no sentido de facultar aos próprios sócios e aos surdos em geral, todas as formas de apoio e informação destinados à resolução dos problemas gerais e da comunicação entre as pessoas surdas e ouvintes.

Que apoios tem a Associação para a prossecução dos seus objectivos?
A ASISM tem um acordo de cooperação para o funcionamento com o IDSA. Tem igualmente apoios da Direcção Regional da Solidariedade e Segurança Social, da Direcção Regional da Juventude, entre outros departamentos do Governo Regional, dependendo das áreas de projecto a que se propõe fazer.

A Associação tenta orientar a família do surdo?
Sim. Sempre que possível tentamos trazer a família para a nossa comunidade, a fim de a conhecer e compreender, tendo em conta a intervenção que a ASISM faz ao surdo, desde a infância à idade adulta.

Existe algum factor genético para a surdez ou podemos ficar surdos em resultado de algum acidente, alguma queda ou por tomar medicamentos mal administrados?
A surdez tanto pode ser de origem genética, como em resultado de acidentes, e mesmo de medicamentos mal administrados, e outras complicações da mãe durante a gravidez.

Que actividades a associação desenvolve para apoiar essas pessoas? Dá formação em LGP?
Começando pela última pergunta, a ASISM, desde a sua fundação, promove formação em LGP a pessoas ouvintes. As pessoas surdas, agora adultos, dominam a LGP, sendo essa a sua primeira língua. Para esta população adulta, a ASISM, para além de disponibilizar um serviço de tradução/interpretação de LGP através de duas intérpretes que tem nos seus quadros, e onde intervém em todas as situações do dia-a-dia da pessoa surda, promove espaços de formação/sensibilização de diversos temas, permitindo um melhor conhecimento do mundo que nos rodeia, por um lado, e desenvolvimento de competências sociais e pessoais por outro. No caso das crianças e jovens surdas, estas aprendem a LGP na escola, que em São Miguel é a EBI de Arrifes, a escola de referência para a educação de surdos, que pressupõe um ensino baseado no bilinguismo (LGP/LP). Ainda para as crianças e jovens, a ASISM implementou recentemente um projecto, denominado de CASE–Centro de Actividades Sócio-Educativas que funciona como um centro de actividades, onde as nossas crianças e jovens surdas frequentam, complementando, assim, as actividades escolares.

É difícil aprender LGP?
(risos) Aparentemente até pode parecer difícil, mas não é! A Língua Gestual Portuguesa é uma língua como as outras. Tem gramática e vocabulário próprio. Há pessoas que têm mais facilidade em aprender outras línguas, outras nem por isso, e a LGP posiciona-se exactamente nesse patamar.

Como funciona a compra dos aparelhos auditivos? São muito caros? Ou são disponibilizados pelo sistema de saúde?
Os aparelhos auditivos são extremamente caros. O modo como estes funcionam não sabemos responder com precisão, mas o que sabemos é que actualmente não existe qualquer comparticipação do sistema de saúde.

Que dificuldades se apresentam aos jovens surdos da região?
O maior problema, e que nos vamos deparando diariamente aqui na instituição, é a alta taxa de desemprego nos jovens surdos. Estes jovens saem das escolas com baixa escolaridade e com fracos conhecimentos académicos, e nada preparados para o mercado de trabalho. Aqueles que saem do sistema de ensino com o 9º de escolaridade, com imensas expectativas, de dia para dia vão caindo por terra. Não conseguem aceder ao mercado de trabalho, nem a formação profissional, pela ausência de respostas formativas para pessoas com necessidades especiais.

Como está o mundo preparado para essas pessoas?
O mundo não está preparado! A única e principal necessidade da pessoa surda é a comunicação, e as pessoas, por mais informadas que vão estando, nunca estão preparadas para comunicar com a pessoa surda.

Podia-se fazer mais e melhor ao colocar permanentemente um comunicador de LGP nos principais canais de televisão?
Sem dúvida! Ter LGP no meio de comunicação social que é “rei” - a televisão -, permite-nos aceder à informação em tempo real/útil. Na RTP-Açores, há quase um ano que não existe informação destinada à nossa comunidade. Algo que aconteceu durante quase 12 anos, de um dia para o outro, deixou de haver. A título de exemplo, eu vejo noticiários traduzidos emitidos pela RTP 1 e 2 (únicos com LGP nas notícias), e notícias sobre os Açores são raras, e quando as há, os interpretes não dominam as expressões próprias da nossa região. Sim, na LGP também existem regionalismos!

O que pode ser feito para alterar essa situação?
Continuar a insistir para que retomem a informação com LGP. Queremos informação para todos.

A Associação tem números das pessoas com surdez na região?
Pelos Censos de 2001, existem 1.238 indivíduos com deficiência auditiva nos Açores, dos quais, 270 com surdez profunda. Associados surdos da ASISM são, sensivelmente, 80 e basicamente todos da ilha de S. Miguel.

Sabendo da necessidade de investir na formação dos educadores, quais as competências necessárias para um bom profissional de educação?
O domínio e a fluência na LGP é fundamental, bem como o respeito pelas questões culturais e identitárias da comunidade surda.

Como se comportam os pais diante da necessidade desse acompanhamento para o melhor desenvolvimento dos seus filhos?
Normalmente, os pais procuram informar-se de todas as alternativas possíveis, procurando informação médica, procurando informar-se junto dos nossos serviços, e nós tentamos sempre dar o nosso melhor. Mas a última decisão cabe sempre aos pais. Umas vezes vão ao encontro das nossas expectativas, outras vezes nem por isso…

Qual o conselho que deixa aos pais que estão a enfrentar esse desafio sem uma oportunidade de ter um profissional para orientar os seus filhos?
Hoje em dia, felizmente, em qualquer lugar onde estejamos conseguimos aceder a informação. Recebemos na ASISM pessoas de outras ilhas, que quando vêm às consultas da especialidade no Hospital de Ponta Delgada, não deixam de nos visitar e pedir aconselhamento. Posso, no entanto, referir que o primeiro passo que os pais devem dar é aprender a LGP para poderem comunicar com os seus filhos, e que o desenvolvimento da LGP não os impede de desenvolver a capacidade de oralizar, nem é impeditivo para que essa criança cresça da mesma forma como as outras, somente não acede de forma natural ao mundo que as rodeia, e esse mundo tem de lhes ser dado.

Conte um pouco como foi sua infância, adolescência e juventude...
Aos 6 anos, por causa de uma meningite, fiquei surda. Nessa altura, nem eu nem a minha família tínhamos noção do que realmente se estava a passar porque continuava a falar (oralmente). Algum tempo depois, e como estava na idade escolar, é que se foram apercebendo que estava surda. Como na ilha do Pico, ilha onde nasci, não havia “escolas especiais”, vim para S. Miguel, para o antigo Centro de Educação Especial dos Açores. Tal como eu, muitas outras crianças vinham de todas as ilhas para o Centro, para recebermos o 4º ano de escolaridade e “preparar-nos para a vida” através de formação profissional em diferentes áreas, tal como tapeçaria, costura, cozinha, etc. Eu, tal como os outros surdos que vinham das “ilhas”, vivíamos em regime de internato e só íamos a casa nas férias do Natal, Páscoa e Verão. Os que eram de mais perto, tinham a possibilidade de passar o fim-de-semana em casa. Ao contrário dos dias de hoje, era nesta, e noutras escolas e institutos de surdos onde vivíamos internamente, que se construíam os verdadeiros pilares das comunidades surdas. O sentimento de pertença, identidade e de união eram únicos, sentimentos que ainda hoje nos marcam.

Quais foram as principais dificuldades ao longo do crescimento?
Nos primeiros tempos não tinha propriamente a noção do mundo em que vivia. Conhecia o meio onde nasci, que era o meio familiar, e depois o mundo/universo dos surdos que viviam no centro de educação especial. Conforme fui crescendo fui percebendo que havia outras coisas/outro mundo para mim desconhecido, e aí sim comecei a sentir as barreiras que a sociedade me impunha. Para além da barreira da comunicação, a barreira da mentalidade, pois tratavam-me como uma incompetente. Sentia-me inadaptada, mas não me acostumei a isso e procurei sempre, umas vezes com maior facilidade, outras vezes com grandes dificuldades, conseguir ultrapassá-las.

Como define o mundo dos surdos?
Mundo surdo, ou comunidade surda, pode ser definido como um grupo de pessoas que partilham uma cultura e um conjunto de comportamentos, que possuem sua própria língua, valores, regras e tradições.

Quando foi que aprendeu LGP?
Aprendi a LGP propriamente dita aos 22 anos. No tempo em que passei no centro de educação especial, a língua gestual era proibida, por isso o ensino era através do oralismo. Apesar disso, eu e todas as outras crianças surdas comunicávamos através de mímica e em códigos próprios que só nós é que entendíamos. Anos mais tarde, o ensino da língua gestual foi introduzido, mas através da ASL (AmericanSignLanguage)/ Língua Gestual Americana. Só em 1989, depois de ir para o continente português, fiz uma formação em LGP. Quando regressei fui trabalhar para o ex-centro de educação especial, pois este tinha-se tornado na Escola de Educação Especial de Ponta Delgada. Foi desde aí que se começou a ensinar a LGP.

O que a motivou a trabalhar na associação?
Eu fui uma das sócias fundadoras da ASISM, e fui presidente durante 14 anos. Durante os meus mandatos tentei da melhor forma criar estruturas de apoio à comunidade, nomeadamente a criação de postos de trabalho na ASISM, com Intérpretes de LGP, e mais recentemente com a Psicóloga e Animadora Cultural. São estes técnicos que fazem com que consigamos percorrer a caminhada da nossa luta diária para promover o bem-estar psíquico e social da nossa comunidade surda.
Além de membro da direcção da ASISM, sou também professora de LGP e desempenho funções de Assistente Técnica de educação na EBI de Arrifes.

O que faz para se divertir?
Adoro viajar e conviver com os meus amigos surdos e ouvintes. Também navego muito na internet para estar sempre actualizada no que diz respeito ao universo dos surdos.

Quais são seus planos para o futuro?
Agora que alcancei um antigo sonho que foi o de me licenciar, o próximo passo é o mestrado.

É uma pessoa feliz?
Sim, sou uma pessoa feliz! Olhando para trás no tempo, jamais me imaginei onde estou hoje, no que consegui alcançar. É certo que muitas outras coisas ficaram por fazer, e outras tantas que ainda as irei realizar… por isso, sim, sou uma pessoa feliz.

Fonte: Diário dos Açores (texto por Sílvia Aguiar)

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