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Pedro Oliveira
Pedro Oliveira
Intérprete de Língua Gestual Portuguesa
Será que tudo é interpretável ou traduzível?
Inserido Quarta-feira, 11 de Dezembro de 2019
Autor: Pedro Oliveira
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Nos dias de hoje tem-se vindo a assistir a uma divergência de opiniões no que concerne a possibilidade e/ou o dever de interpretar poesia e músicas. Que tipo de interpretação é que devemos realizar, uma interpretação literal ou será uma interpretação realizada com base numa preparação prévia feita pelo profissional onde este aplica técnicas de interpretação e procura equivalentes linguísticos e culturas?

Quando se fala de interpretação ou tradução o tema é discutível e sensível. Comecemos por definir o que é um intérprete: o intérprete é um profissional que atua como intermediário entre duas pessoas que não falam a mesma língua, ele tem como função ser a ponte de comunicação entre os dois locutores. Por sua vez, o tradutor é igualmente um profissional em que a finalidade do seu trabalho é igual à do intérprete, a diferença destes dois profissionais pode ser perspetivada da seguinte forma: o tradutor trabalha com um material de suporte, ou seja, este pode ver e rever a sua tradução as vezes que forem necessárias, enquanto que o intérprete trabalha sempre no momento. Quando nos referimos às Línguas de Sinais existem dois tipos de interpretação, a simultânea em que o orador fala/gestua e o profissional realiza o seu trabalho simultaneamente, e também, existe, a interpretação consecutiva em que o locutor vai fazendo pausas propositadas e cronometradas ao longo do seu discurso, e nessas pausas o intérprete passa a mensagem que foi retendo para a língua-alvo.

Podemos achar que nem tudo é traduzível ou interpretável, na verdade a possibilidade de interpretação/tradução depende do profissional, há profissionais que não traduzem ou interpretam músicas ou, até mesmo, poesia. Há profissionais que o preferem fazer mas de uma forma literal, e, ainda, existe os que acreditam que é possível traduzir ou interpretar tudo. Se observarmos e refletirmos sobre estes profissionais, de uma forma geral, nem todos se sentem confortáveis nos vários contextos em que atuam. Assim, poderá ser esta a razão que os leva a dizer que nem tudo é interpretável ou traduzível?

Voltemos ao exemplo das músicas e da poesia, nem todos nós usamos as mesmas técnicas de interpretação ou tradução, assim como não existe uma única tradução/interpretação possível. Temos também de analisar as situações, por exemplo, um profissional que tenha de interpretar uma música ou um poema no momento, sem qualquer tipo de preparação prévia, sem antes ter tido acesso à letra da música ou ao poema é perfeitamente compreensível que este se recuse a realizar a interpretação dos mesmos, no entanto, há quem o aceite e o faça, exatamente nas mesmas condições, só que opta por fazer uma interpretação literal, ou seja, faz corresponder a cada palavra um conceito, sempre que possível, ou amplifica, ou omite, recursos linguísticos possíveis na interpretação. Vamos supor a mesma situação, mas neste caso o profissional teve acesso prévio à letra da música bem como ao poema, aqui podemos vir a ter três situações distintas. Temos os que se recusam a fazer a interpretação por não se sentirem confortáveis ou simplesmente porque acham que não se deve interpretar poesia nem músicas. Também existe os que realizam a interpretação/tradução, mas de uma forma literal por acharem que é o melhor para que o público-alvo perceba a mensagem. E, por fim, teremos os que vão realizar uma “verdadeira” interpretação, ou seja, fazem esta interpretação com base na tradução que preparam em casa, como procurar o significado dos conceitos que não conhecem, verem as várias hipóteses de interpretação para a letra da música ou do poema, de modo a perceber qual é que a mais adequada, e tendendo para quase decorar o discurso, semi- decorada. Nesta última situação iremos ter uma interpretação que é realizada com base na tradução. E é aqui que muitas opiniões se dividem.

Do meu ponto de vista, na última situação estamo-nos a referir a uma tradaptação, e não a uma tradução ou interpretação, isto porque o profissional intuitivamente vai ter que fazer adaptações para que a mensagem de origem seja percebida pelo público-alvo. Adaptações que podem ser de significado, ou seja, ter que explicar o significado de algum conceito, a sua perspetiva e interpretação do texto vai influenciar as escolhas linguísticas feitas na sua tradução/interpretação, adaptar os jogos fonéticos que possam existir para a visualidade, no caso da poesia, por exemplo, nem sempre é possível seguir o esquema de rima que está presente no texto de origem, no entanto há mecanismos linguísticos e de linguagem poética especifica de uma língua visual que permitem que se materialize a riqueza estética. Sempre que a tradaptação é filmada o profissional acaba por transmitir a sua entoação durante no vídeo, uma vez que a entoação á algo pessoal, uma forma de contornar esta questão será recorrer ao sistema de escrita das Línguas de Sinais, o SignWritng, assim o leitor pode ler o poema com a entoação que deseja. Se formos analisar ao pormenor todas as traduções que são feitas em línguas orais de músicas ou de poesia, será que nas traduções não-literais se encontram equivalentes linguísticos verdadeiros? Será que se consegue manter o mesmo esquema de rima?

Estas tradaptações requerem tempo para pesquisa de informação, como por exemplo, perceber as caraterísticas da escrita do autor, conhecer um pouco da história de vida do autor, o porquê de ter escrito o que escreveu e em que altura, tentar perceber qual era o seu estado de espírito quando escreveu o poema ou a letra da música. Eu acredito que o tradutor ou o intérprete que aceite realizar um trabalho desta natureza, tem de ter a capacidade de ser um “tradaptautor”, ou seja, fundir culturas e expressões linguísticas distintas com vox do autor e colocar-se no seu lugar, se fizer isto, acredito que tenhamos no final um produto de qualidade. Respondendo à questão inicial, apesar das opiniões serem diversas é possível traduzir e interpretar tudo, as línguas gestuais não estão aquém das línguas orais. E acredito que quando os tradutores de línguas orais começaram a traduzir poemas de umas línguas para as outras, estas mesmas questões se tenham levantado e duvido que nos dias de hoje existam tradutores de línguas orais que acham que um poema, neste caso mais a poesia, não deva ser traduzível, pois irá perder essência, mas só perde riqueza se a tradução não for realizada com as devidas técnicas. Tradaptar para uma língua visual é em essência multiculturalismo e a codificação linguística em arte.

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