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Lak Lobato
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A importância de abordar a diversidade. Porque falar sobre deficiência auditiva não se resume a falar apenas sobre a língua gestual?
Inserido Segunda-feira, 28 de Julho de 2014
Autor: Lak Lobato
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Se a deficiência auditiva pode ser de nascença ou adquirida, se pode acontecer em qualquer fase da vida, se pode ser consequência de condições genéticas ou sequela de doenças e acidentes, que tal falar sobre surdez levando em conta a diversidade?

Olá a todos. O meu nome é Lak Lobato, sou brasileira, tenho 37 anos e desde há 5 que escrevo um blog chamado "Desculpe, não ouvi!", que recentemente virou livro homónimo.

Perdi a audição aos 10 anos de idade, por sequela de caxumba (também chamada de papeira ou parotidite), perda bilateral e profunda. No entanto, tive uma incrível habilidade para fazer leitura labial o que me permitiu a perfeita comunicação durante toda a vida, até fazer o implante coclear, 25 anos depois. Perfeita, porque me permitiu estudar até à universidade, trabalhar, relacionar-me, viajar sem necessidade de outra forma de comunicação que não a verbal, inclusive porque eu sempre falei oralmente, já que aos 10 anos, já tinha aprendido a falar.

Na época em que perdi a audição, os médicos não souberam aconselhar convenientemente o que minha família deveria fazer. Os meus pais até cogitaram em me colocar numa escola especial para surdos, mas a própria escola recusou a minha matrícula, alegando que o meu nível de interação me permitiria estudar na escola regular. E, realmente, não tive grandes dificuldades e não precisei de nada além da boa vontade dos professores.

Se meu caso é raro? Isso não importa, o que importa é que não é o único e, portanto, pessoas como eu não devem ser obrigadas a substituir a sua forma de comunicação, se elas, tal como eu, se conseguirem adaptar bem à leitura labial (que pode ou não ser amparada por próteses e implantes auditivos). Assim como os utilizadores da língua gestual não deveriam ser forçosamente obrigados a falar ou terem o seu direito de usar a Língua Gestual Portuguesa negado.

A deficiência auditiva não tem uma única maneira de se manifestar. Ela pode ser congénita ou adquirida. Pode ser leve, moderada, severa, profunda ou total.

Quando adquirida, pode manifestar-se em qualquer idade. Pode ser consequência de doença ou acidente. Pode ser gradual ou repentina. E pode ser que a pessoa consiga continuar a comunicar através da leitura labial e da fala. Ou pode ser que ela tenha imediata identificação com a língua gestual.

Seja qual for a forma em que a surdez se tenha manifestado na vida da pessoa, é imprescindível que a sua individualidade seja respeitada. Que ela tenha acesso a uma forma de comunicação que a integre ao meio. Que ela use a língua que achar melhor e mais confortável.

O problema é que pouca gente sabe disso. Os media não têm muito interesse em falar sobre deficiência e, quando falam, limitam-se a uma cobertura rasa e recheada de estereótipos, como se a simples abordagem minimamente mais completa fosse desinteressante ou preocupante.

Por isso, há 5 anos, criei o meu blog para tentar esclarecer que existe diversidade dentro da deficiência auditiva. Somos um grupo com a mesma deficiência sensorial, mas a forma de lidar com essa condição depende de diversos fatores.
Com um resultado gradual e em conjunto com outros blogs, cada vez mais essa diversidade vem sendo debatida.

É claro que houve resistência. Pessoas falando que "se o mundo souber que um surdo pode falar, não vai querer aprender a língua gestual".

Porém, o que o mundo precisa não é ignorar a existência de um grupo de pessoas, mas ter consciência de que existe diversidade e que uma mesma deficiência pode ser vivida de mais do que uma forma. E que todas as formas de se viver com surdez são válidas, só isso.

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