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Ana Raquel Oliveira Lima
Ana Raquel Oliveira Lima
Intérprete de Língua Gestual Portuguesa
O intérprete também cora. E quando sentimos as bochechas vermelhas?
Inserido Sábado, 12 de Julho de 2014
Autor: Ana Raquel Oliveira Lima
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Este texto resulta da minha experiência enquanto intérprete apaixonadíssima pela profissão que iniciei após uma licenciatura e da dificuldade que fui sentindo em ser um bocadinho máquina quando sou tão pessoa! Retrata também a dificuldade do intérprete em não mostrar a sua parte mais sensível e humana no exercício da profissão.

Muitos se questionam o que farão aquelas pessoas que estão no quadradinho do canto da Tv, ou até mesmo para quem se dirigem. É nesse formato que a maioria das pessoas contactam a primeira vez com a profissão do Intérprete de Língua Gestual. Somos profissionais que fazemos a ponte de comunicação entre pessoas surdas e ouvintes, em diferentes contextos, saúde, educação, justiça, religião, televisão etc. Atuamos em todas as situações onde seja necessária comunicação entre as duas comunidades utilizando uma língua oral e a Língua Gestual Portuguesa (LGP). A LGP encontra-se consagrada na Constituição da República no artigo 74º, nº 2, alínea h), desde 1997; pode ler-se que a LGP é “(…) instrumento de acesso à educação e igualdade de oportunidades”, assim como a profissão do intérprete no artigo 2º da Lei 89/99 de 5 de Julho.

O intérprete rege-se por um código de ética que lhe é incutido durante o seu percurso de formação e é treinado para não emitir opinião, ser imparcial, fiel ao discuro, ou seja, ser invisível. Mas a própria condição humana nem sempre permite sê-lo. Quando nos tornamos intérpretes já detemos a nossa personalidade, os nossos valores e até mesmo as nossas opiniões, claro que podemos e devemos limar-nos e adaptar-nos a esta exigente profissão de forma a seguirmos o mais respeitosamente o nosso código de ética mas nem sempre é fácil.

Tal como iniciei o texto, nas licenciaturas, onde muitos de nós iniciam o seu percurso no mundo do silêncio, não é possível ensinarem-nos a não corar. Há comportamentos do Ser humano que, por serem inatas, ninguém nos pode ensinar a ser diferentes/modificar. De facto corar é uma delas e que por vezes nos atraiçoa enquanto damos “às mãozinhas” ou até mesmo quando damos voz aos gestos que não são nossos.

Dizer eu quando o assunto em nada nos toca mas em tudo nos embaraça não é fácil e, por vezes, temos de dar voz a palavrões ou a respostas menos coerentes, inclusive a tremendos disparates. Aí entra em funcionamento uma das nossas faculdades humanas, o pensamento, que, nos nanossegundos antecedentes a dar voz aos gestos do emissor, nos obriga a rever mentalmente por inúmeras vezes aquilo que vimos. Será que entendi bem? É isto mesmo? E agora? Pois, e nos momentos seguintes sou eu, intérprete, a dizer eu que não sou eu mas sim ele/a a dizer.

E quando o tema mexe com as emoções desta terceira pessoa que não é ele/a mas sou eu? Porque o tema por vezes é sensível ou até mesmo porque suscita pensamentos/sentimentos dificilmente controláveis. Aí, o sangue irriga e… o intérprete cora. E quando o embaraço do orador perante a presença do ILGP desencadeia piada? Aí, o intérprete também cora!

O intérprete não só cora como sente. Porque sentir faz parte de todos, e mesmo nós que temos sonares em vez de ouvidos e olhos, motores em vez de braços e que frequentemente temos a unidade de controlo prestes a rebentar, a bateria em “low level” durante horas infinitas. Esses robots, que somos nós… também coram e sentem! Sentimos aquilo que nos é explicitamente negado pelo código de ética. O intérprete não pode expôr os seus sentimentos nem preferências, a imparcialidade assim o exige, mas nós também somos pessoas! E mesmo em trabalho, também nós sorrimos, mesmo que só para o coração.

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