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Maria do Céu Gomes
Maria do Céu Gomes
Professora
A importância da formação inicial de professores
Inserido Terça-feira, 18 de Março de 2014
Autor: Maria do Céu Gomes
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Quem trabalha com alunos surdos ou com outros alunos com necessidades educativas especiais sente o hiato existente entre o ensino regular e a educação especial. Estamos sempre perante a dicotomia dos “uns” e dos “outros” e a confrontar-nos com docentes que não se assumem como professores de todos.

A produção académica tem dado, desde há várias décadas, uma grande ênfase à temática da inclusão e de práticas promotoras de uma igualdade de oportunidades e a escola tem, de facto, evoluído nesse campo. No entanto, há resistências que persistem e que impedem a plena concretização de uma escola que vá ao encontro das necessidades e interesses de todos.

Há docentes que se consideram só professores de uns, pelo facto de não terem tido uma formação inicial relativamente aos outros. No seu entender, cabe aos professores de educação especial saber língua gestual, conhecer as metodologias adequadas ao trabalho com os alunos, conhecer as especificidades de cada problemática. Consideram estes professores que lhes cabe saber apenas sobre a sua área de formação (Geografia, História, Matemática, etc.) e preparar os alunos para os testes e provas finais. Não têm tempo para se preocuparem com outras questões, que consideram não ser do seu campo. E ainda que frequentem ações de formação ou que articulem com o professor de educação especial, nunca interiorizam as orientações que lhes são dadas. Quando se dirigem para as salas de aula, as práticas continuam as mesmas de sempre.

É óbvio que não podemos generalizar. Há professores do ensino regular com bastante sensibilidade relativamente aos alunos com necessidades educativas especiais e que prestam um serviço extraordinário às suas escolas. Considero, no entanto, que continuam a ser exceções.

Por vezes, sinto-me desmotivada quando explico a um professor que um aluno não pode progredir com determinada metodologia e este me responde que é a sua metodologia e o aluno tem de se adaptar. Entristece-me ver a contínua penalização de alunos com base em objetivos que estes não conseguem alcançar. É um pouco estranho que, em pleno século XXI, ainda nos confrontemos com este tipo de situações. Porque será?

A verdade é que os cursos de formação inicial de professores continuam a não contemplar unidades curriculares na área das necessidades educativas especiais. A tónica continua a ser colocada nos conteúdos ao invés de ser colocada no aluno, quando é esse o ideal que se preconiza nos discursos académicos.

Existe, assim, ao nível do ensino superior e politécnico um grande desfasamento entre o que se anuncia e o que se faz. Esta é uma formação basilar que não pode continuar ausente dos planos curriculares da formação inicial de professores e ser remetida para pós-graduações posteriores.

O aluno tem o direito a ver respeitada a sua diferença e a ter a mesma igualdade de oportunidades, não apenas pontualmente, mas sempre e em qualquer nível de escolaridade.

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