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Maria do Céu Gomes
Maria do Céu Gomes
Professora
Português L2: Como melhorar a literacia dos alunos surdos?
Inserido Quarta-feira, 05 de Junho de 2013
Autor: Maria do Céu Gomes
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Um dos grandes problemas que afeta a educação de surdos é, sem sombra de dúvidas, o seu baixo nível de proficiência em Português. Onde estará o cerne do problema? Como poderemos combatê-lo? Será apenas uma questão pedagógica ou também uma questão política?

Como o próprio nome indica, o Português é considerado a segunda língua dos alunos surdos, isto é, uma língua que eles adquirem mais tarde, supostamente depois da primeira língua já estar adquirida.

Este é o primeiro grande problema. De facto, muitos alunos surdos ainda não possuem um conhecimento sólido e estruturado da língua gestual. O direito de opção parental permite que muitos pais ainda escolham a via oralista, o que nega às crianças surdas o acesso à educação na sua primeira língua, um direito que está consignado na Constituição da República Portuguesa.

Enquanto professora de Português L2 numa Escola de Referência para a Educação Bilingue, deparei-me muitas vezes com alunos surdos que não compreendiam os enunciados gestuais que lhes eram dirigidos. A ausência de exposição à língua gestual em idade precoce, o prolongamento no tempo de opções educativas desajustadas ou erráticas, a fraca caracterização do modelo educativo bilingue anteriormente vigente na lei, a idade de escolarização tardia num número ainda significativo de casos, a progressão na escolaridade por razões de idade e sem correspondência com as aquisições efectivamente consolidadas, são factores que, isolada ou conjuntamente, concorreram para a presente situação em que coexistem alunos com níveis muito díspares de conhecimentos da Língua Gestual Portuguesa e do Português escrito, em casos extremos, com ausência de qualquer língua estruturada.

Como é que um professor identifica se um aluno domina ou não a língua gestual? Este é o segundo grande problema. Só o consegue fazer se também ele tiver esse conhecimento. Isto remete-nos para a questão da formação de professores e para a importância da estabilidade das equipas educativas. Uma escola de referência não pode ter professores sem experiência a lecionar alunos surdos, não pode ter professores que investem na sua formação e que, ao fim de um, dois, três ou mais anos, se vão embora, para trabalhar com alunos ouvintes. Todo o seu saber, formação e experiência é desperdiçado para se recomeçar do zero. Os alunos acabam por ser os mais prejudicados com esta situação. Importa lembrar que o professor de Português L2 não necessita apenas de conhecer a LGP, tem também que saber utilizar metodologias adequadas para trabalhar com estes alunos. Um professor que sempre trabalhou no ensino regular e que, de repente, é colocado a trabalhar com alunos surdos não está a par da especificidade dos alunos surdos. Não basta ter um intérprete a seu lado, para que o problema seja solucionado.

Assegurar a qualidade dos projetos pedagógicos das escolas de referência depende, pois, de opções políticas coerentes. Por um lado, é necessário adoptar uma estratégia concertada e a longo prazo que vise garantir o acesso de todos os alunos à LGP. Por outro lado, é fundamental apostar na formação de professores e na criação de instrumentos nos concursos, que permitam assegurar a estabilidade e a continuidade das equipas educativas.

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