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Isabel Sofia Correia
Isabel Sofia Correia
Professora e Investigadora
Escrever bilingue: ver o mundo a duas mãos
Inserido Terça-feira, 28 de Maio de 2013
Autor: Isabel Sofia Correia
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Ler bilingue, como já aflorei anteriormente, é fundamental para formar cidadãos e cidadãs conscientes e íntegros, para além de, evidentemente, preservar a identidade e cultura surdas. As histórias em português e em língua gestual são janelas para vermos o mundo, o nosso e o do outro e, felizmente, cada vez mais se multiplicam as obras, no campo da literatura para a infância, que permitem a todos ler livros.

Já destaquei o excelente trabalho da Marta Morgado, mas é também de salientar a existência de obras acessíveis que, além da língua gestual, têm outros sistemas de comunicação, como o braille e os símbolos pictográficos. Trata-se da colecção 4 leituras (http://www.editoracercica.com/4-leituras) de várias autoras, que nos brindam com histórias simples, mas com qualidade e com um imenso potencial didático, sendo mais do que aconselhável o seu uso nas aulas de português e de língua gestual portuguesa. A partir delas, os alunos podem adquirir conceitos - algo fundamental para o desenvolvimento psicossocial da criança - basilares, como os horários, os antónimos e, também, para além da gramática da língua, perceberem a importância da comunicação entre todos, como vemos no Dom Leão e Dona Catatua ou como é fundamental a alegria, narrada no Um pé de Vento. Cabe igualmente mencionar o excelente e terno livro de Josélia Neves, O Menino dos Dedos Tristes. Não se trata apenas de traduzir uma história, mas essa obra, magnificamente ilustrada pela artista Tânia Bailão Lopes, é exemplo de uma perfeita fusão entre várias formas de expressar o pensamento e de o escrever.

E chegámos à escrita. Ora escrever LGP é possível. O signwriting, um sistema de escrita para as línguas gestuais, criado por Vallerie Sutton já nos anos 80 comprova-o. E já é possível consultar dicionários de Línguas Gestuais onde este sistema é usado, refiro-me ao dicionário de LG Catalã de Ramon Ferrerons Ruiz e o de Libras dirigido por Fernando Capovilla. Se navegarmos na net, cada vez mais vemos sessões online de formação em signwriting, organização de cursos, palestras. Cada vez mais caminhamos para deixar de considerar as línguas gestuais ágrafas. Este sistema respeita a organização estrutural e estruturante da língua, organizando-se em torno do gesto/palavra e reproduzindo, com a fidelidade possível da escrita, os diversos parâmetros do gesto: configuração, orientação, localização, expressão e movimento. O signwriting tenta conservar as diversas especificidades da produção gestual existindo vários sinais que distinguem um gesto bi-manual, o tipo de movimento agregado à configuração, entre outros. Todavia, como escrever não é apenas representar palavras, o signwriting possui sinais que materializam as frases gestuais. É, assim, uma escrita que se quer o mais transparente possível, respeitando a visualidade do signo gestual.

Todavia, em Portugal, apenas temos conhecimento das investigações de Helder Duarte, Jorge Pinto e Rafaela Silva, sendo que as desta última já tiveram como resultado uma tese de mestrado em signwritng. Assim, escrever bilingue ainda não é uma realidade para a comunidade surda portuguesa. Os estudos empíricos e a observação demonstram que a criança surda tem necessidade de ter um sistema escrito para organizar o pensamento e esse sistema tem de plasmar a sua língua natural, não deve ser uma reprodução de um idioma outro, como é a escrita alfabética do português. Porém, os surdos parecem ainda temer o papel. Será pela repressão que lhes exerce a escrita, aquela que durante anos lhes impuseram? Será porque temem que o signwriting lhes roubará a imagem em movimento do gesto? Aquele gesto que durante anos foi proibido para forçar a oralidade, puxando violentamente a palavra. Talvez seja. Talvez tenhamos de esperar e ir dando pequenos passos, para daqui a uns tempos, este artigo estar acessível numa escrita bilingue que, o que fará, não é forçar, nem apagar o gesto, mas afirmar o estatuto digno que ele merece.

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