porsinal  
ArtigosCategoriasArtigos Científicos
Joana Morêdo Pereira
Joana Morêdo Pereira
Int.LGP/Investigador
Amor Surdo: realidade cultural? O papel da Língua Gestual Portuguesa e da Cultura Surda no comportamento afectivo de 10 jovens Surdos
0
Publicado em 2008
Castro-Caldas, A. & Ferreira Martins, F. (eds). Cadernos da Saúde, Nº2, Vol. I:191-197. Instituto de Ciências da Saúde, Universidade Católica Portuguesa. Lisboa, Portugal
Joana Morêdo Pereira
  Artigo disponível em versão PDF para utilizadores registados
Resumo

A cultura Surda, conceito que abarca a visão que os membros das comunidades linguísticas minoritárias Surdas detêm de si mesmos e do mundo, é um conceito recente na comunidade científica internacional. Em Portugal ainda se perspectiva muito a surdez na sua dimensão biológica, por meio de uma concepção patológica baseada na ausência ou diminuição do sentido da audição. Esta não corresponde à visão que as pessoas Surdas têm de si próprias. Este trabalho apresenta a pessoa Surda como um indívíduo que se concebe a si mesmo como experienciando uma existência positiva, com uma língua e cultura destacadas das da maioria populacional. O papel do amor nas vidas humanas é o de tecer laços afectivos entre os indivíduos, construindo redes relacionais que se tornam no tecido cultural e social em que vivemos. Neste estudo qualitativo analisa-se o papel que a Língua Gestual Portuguesa (LGP) e a cultura Surda têm no florescimento das relações de amor que ocorrem na vida de 10 jovens Surdos e o modo como os sujeitos pensam a amizade e o amor romântico. A informação recolhida através de inquéritos por questionário aos participantes revela que, na escolha de potenciais amigos ou parceiros românticos, uma atitude de abertura para com a diversidade e de respeito para com a cultura Surda, os seus valores e língua é, para eles, determinante.

Introdução

As sociedades humanas compreendem cada vez mais uma miscelânea de membros que acarretam consigo tradições culturais díspares. Urge colocar em marcha um movimento de literacia cultural que torne mais flexíveis as fronteiras da mente dos indivíduos, predispondo-os a uma abertura face a realidades culturais diferentes da sua (Hall, 1976).

A vida diária de uma pessoa ouvinte não lhe dá acesso ao que significa ser-se Surdo. 1 Como parte de uma maioria populacional que se expressa numa língua oral, veiculada pela vibração do ar, em sequências sonoras que formam significados, a pessoa ouvinte constrói uma ideia de que ser-se Surdo é viver uma vida como a sua, mas sem som (Ladd, 2003). É uma ideia que a aterroriza, pois a ausência de som privá-la-ia da comunicação estruturada e do contacto com o outro, algo que traria isolamento e infelicidade. Porém, as pessoas Surdas “afinal não vivem a mais negra solidão, estão ‘bem, obrigado’” (Cabral, 2005), coabitam mundos culturais onde se gestua a mesma língua, onde se partilham vivências, onde se sentem livres do constante tumulto de comunicar num mundo ouvinte que funciona de um modo diferente do seu, onde se sentem em casa, felizes. As línguas gestuais utilizadas nas comunidades Surdas variam de país para país, e os “Surdos, em muitas das comunidades do mundo ocidental, postulam que as suas línguas gestuais retêm e reflectem o seu modo de vida, as suas perspectivas e o seu modo de pensar e conceber a realidade” (Pereira, 2008:9). De facto, “each language reflects a unique world-view and culture complex, mirroring the manner in which a speech community has resolved its problems in dealing with the world and has formulated its thinking, its system of philosophy and understanding of the world around it” (Wurm, 2001:13).

Enquadramento do tema

Cultura e cultura Surda

A ideia de cultura Surda surge na literatura com Stokoe, cujo trabalho no domínio da linguística menciona a existência de uma realidade cultural Surda (Stokoe et al., 1965) e, nas décadas que se seguem, vários autores (Schlesinger e Meadow, 1971; Baker e Cokely, 1980) referem a surdez como uma condição que extravasa o biológico e compreende uma pertença a uma comunidade que utiliza uma língua gestual, tem padrões maritais endogâmicos e uma história comum (in Ladd, 2003). Padden (1980, in Ladd, 2003) publica a primeira definição para o conceito de cultura Surda como uma “realidade feita de comportamentos aprendidos imersos numa língua específica e valores específicos” (Pereira, 2008:41) à qual Kannapel (1992, in Ladd, 2003) acrescenta que “as percepções (introspecções) conduzem à construção dos valores e das normas, sendo todos estes baseados em experiências compartilhadas e comuns” (Pereira, 2008).

O termo cultura Surda tem vindo a ser utilizado academicamente com uma conotação fortemente taxonómica, como uma amálgama de traços e comportamentos Surdos que se apresentam em contraste com traços e comportamentos ouvintes. Porém, para se alcançar uma definição mais complexa deste conceito urge investir em linhas de investigação que se foquem na cultura Surda per se, explorando os finos detalhes do seu dinamismo interno (Ladd, 2003).

A cultura foi sempre um objecto de estudo difícil. Especialistas de diferentes áreas do conhecimento oferecem soluções de definição que se versam em distintos parâmetros: aglomerados de traços culturais, aspectos históricos e sociais, valores, relações psicológicas entre o indivíduo e a sua comunidade, estrutura da comunidade e símbolos. Com uma tão grande multiplicidade de abordagens torna-se complicado chegar a um consenso. De facto, já em 1962, Krueber e Kluckhonn haviam identificado 164 definições para o termo ‘cultura’.

No entanto, e fazendo um apanhado global de algumas das dimensões que constam da abrangência semântica do termo, podemos dizer que cultura é um evento exclusivo da humanidade, um todo complexo, adquirido e partilhado pelos membros de um dado grupo, transmitido de geração em geração, permitindo uma adaptação do grupo às condicionantes externas ao mesmo. Compreende a existência de padrões comportamentais definidos, veiculados por símbolos; é a teoria que os membros do grupo têm quanto às regras que regem o funcionamento da sua comunidade e às ideias dessa comunidade sobre o mundo. Cultura é a percepção que um grupo tem de si mesmo e das suas perspectivas quanto ao futuro, é um produto de uma rede relacional, permitindo a estruturação de identidades e ilustrando uma visão do mundo específica, cujos significados são espelhados e transportados pela língua e comportamentos não verbais dos membros do grupo (Ladd, 2003; Hall, 1959, 1976, 2006; Maxwell-McCaw et al., 2000).

Cultura Surda e Comunidade Surda

Podemos enquadrar a cultura Surda em todas estas instâncias. De facto, as pessoas Surdas relacionam-se entre si e partilham a experiência comum de serem Surdos, bem como uma história comum. A transmissão cultural sucede, de uma geração para a seguinte, embora apenas em cerca de 5% a 10% dos casos aconteça dentro de uma mesma família, nos reduzidos casos em que crianças Surdas nascem em famílias de pais Surdos (Kyle e Woll, 1985). Para as restantes 90% a 95% das crianças Surdas, filhas de pais ouvintes, a cultura Surda é-lhes transmitida por via das Escolas de Surdos e organizações da comunidade Surda, tais como associações e eventos (Ladd, 2003). A comunidade Surda vive rodeada pela maioria ouvinte, pelo que certos traços culturais Surdos terão surgido como forma de adaptação à comunidade maioritária envolvente. “A cultura Surda reage às características das culturas ouvintes definindo, por contraste e necessidade, as suas próprias características” (Pereira, 2008: 43). O oralismo, sistema criado pela comunidade ouvinte, cuja intenção foi a eliminação das línguas gestuais e a imposição da oralidade como única forma de comunicação para a pessoa Surda, levou a mudanças profundas na comunidade Surda, sentimentos de revolta e rejeição para com a maioria ouvinte, que ainda hoje podemos observar em conversa com uma pessoa Surda de meia-idade ou mais velha. Sendo culturas que vivem ‘paredes meias’, a cultura ouvinte e a cultura Surda absorvem aspectos uma da outra e reagem, redefinindo-se continuamente (Ladd, 2003). A alta prioridade dada pelas comunidades Surdas à concepção de futuros alternativos está patente nas numerosas acções que as suas organizações encabeçam de forma a divulgar e a manter o seu estatuto de minorias culturais e linguísticas; almejando contrariar a concepção simplista imposta pelo modelo médico, que apenas observa a diferença auditiva, abstraindo-se da intensa vivência comum, em comunidade, em tradições, arte e valores. Tudo isto é veiculado pela LGP e traduz-se na modelação de uma identidade específica nas pessoas culturalmente Surdas.

Foquemo-nos na questão das línguas humanas veicularem a cultura na qual estão inseridas. Turner (1990) argumenta que uma língua diferente suporta a existência de uma visão do mundo diferente e, portanto, no caso da comunidade Surda, as línguas gestuais são prova viva da realidade cultural Surda. Trata-se de sistemas altamente complexos, estruturados e ricos em significado cultural, línguas completas, organizadas numa modalidade vísuo-espacial, isto é, utilizando a luz como canal de comunicação. A língua gestual chega até à pessoa Surda de diferentes maneiras, variando com o trajecto de vida que a pessoa percorre, trajecto esse que define a aquisição linguística do indivíduo. As pessoas Surdas podem ser monolingues em língua gestual, bilingues com um domínio maior da língua oral do seu país do que da língua gestual nacional, ou ainda bilingues com um domínio maior da língua gestual nacional do que da língua oral do seu país (Lane et al., 1996).

A cultura Surda cabe, assim sendo, no conceito de cultura real embora possua determinadas características que a distinguem das restantes culturas humanas. O seu estatuto não geográfico e diaspórico, a transmissão cultural reduzida em ambiente familiar, as ideias erróneas ainda largamente difundidas nas sociedades ouvintes, levam às dificuldades de aceitação que o termo tem enfrentado. Concepciona-se ainda o sujeito Surdo como um ser isolado, munido de um defeito, desprovido de língua e, portanto, cognitivamente incompleto.

Para além destas questões, existe ainda a ausência do desenvolvimento cultural involuntário em todos os membros da comunidade Surda. Nas definições convencionais de cultura surge a ideia de que o processo individual de socialização e de aculturação começa aquando do nascimento (Ladd, 2003). O que acontece com as pessoas Surdas filhas de pais ouvintes é que o acesso e sentimento de identificação com uma cultura Surda ocorre mais tarde na vida e não é totalmente involuntário; os sujeitos vivem uma realidade mais próxima do biculturalismo, procurando relacionar-se e manter a sua fidelidade para com a cultura Surda enquanto tentam manter um estado harmonioso como membros da sociedade ouvinte em que vivem, modelando neste processo a sua identidade (Maxwell-McCaw et al., 2000).

Uma minoria cultural é um grupo de pessoas menor em número do que a restante população de um determinado estado, cujos membros têm características étnicas, linguísticas ou religiosas que contrastam com as da maioria envolvente e que, como grupo, tende a salvaguardar e proteger a sua identidade social e os traços culturais que a definem (Skutnabb-Kangas e Philipson, 1994). Os membros de uma minoria cultural crescem e desenvolvem-se de modo separado dos da maioria populacional.

As culturas Surdas enquadram-se na definição de minoria cultural, pois é possível encontrar todos os traços supracitados nas comunidades Surdas. Tratam-se, na verdade, de grupos menores cujo dinamismo se processa no seio de culturas maioritárias ouvintes; são compostos por sujeitos que procuram proteger as línguas gestuais que utilizam e a identidade Surda da qual têm orgulho; crescem e evoluem separadamente da maioria ouvinte através das comunidades que se formam em escolas de Surdos, e através da própria língua gestual com que se comunicam. Como línguas de aquisição e acesso natural para a pessoa Surda, constituem sistemas nos quais se criam, movimentam e desenvolvem valores distintos dos de uma maioria que utiliza línguas que, no seu registo oral, não estão inteiramente disponíveis ao indivíduo Surdo (Ladd, 2003).

Os primeiros registos sobre a LGP datam do final do século XV (Almeida, 2007) e as expressões culturais Surdas que, à semelhança do que sucede noutras comunidades Surdas do mundo ocidental, se manifestam em áreas como a pintura, o humor, a poesia ou o desporto Surdos, existem devido à forte interacção que existe entre as pessoas Surdas (Ladd, 2003), interacção essa que é em parte possibilitada pela comunicação em língua gestual.

Relações de Amor

O amor é um dos tipos de interacção que ocorre entre os membros de uma comunidade. Faz parte de um leque de emoções que são próprias dos seres humanos e que os ajuda a sobreviver enquanto espécie. As emoções organizam o conhecimento que temos do mundo porque nos permitem dar um certo valor a objectos, pessoas ou experiências (Pinto, 2005). O amor é um conjunto de sentimentos positivos para com o outro, uma realidade universal, que acontece a qualquer ser humano, independentemente do seu berço cultural e tem uma base biológica (Quirk, 2006). Não obstante, a cultura desempenha um papel na definição dos comportamentos que os indivíduos adoptam (Gleitman, 1986) em qualquer situação da vida, bem como no amor. O comportamento humano na esfera do amor sofre transformações ao longo do tempo, que geram alterações nas estruturas sociais. A título de exemplo temos a alteração no estatuto laboral da mulher, o aumento no número de divórcios e uma divisão de tarefas mais equilibrada no lar do casal (Amâncio e Wall, 2004; Torres, 2000).

O amor pode ser de diferentes tipos, entre os quais encontramos a amizade e o amor romântico; impede o isolamento dos indívíduos, reduzindo a vulnerabilidade dos mesmos e dando propensão à continuidade da espécie (Quirk, 2006). As pessoas tendem a definir uma amizade de qualidade como uma mistura de componentes como a confiança, a honestidade, o respeito, a compreensão e aceitação do outro (Rabin, 1996). Para a escolha de um parceiro, seja este para fins de amizade ou amor romântico, dispomos de critérios pessoais mas também de base cultural. As pessoas tendem a escolher alguém com quem se sintam mais como elas próprias, ou ainda, como a melhor versão de si mesmas que desejam alcançar (Alberoni, 2003). O amor é a mais completa resposta para o problema da existência humana e os seres humanos desejam envolver-se numa relação de proximidade com o outro, como modo de partilharem quem são e acederem aos traços que definem o outro, transformando-se repetidamente (Fromm, 2002).

A amizade e o amor romântico estão interligados pois para que o último seja bem sucedido, deverá existir de base uma amizade sólida (Greeley, 1991; McGinnis, 1979) e o processo através do qual uma pessoa se aproxima de outra nestes dois tipos de amor não difere muito (Morrow, 2000).

As línguas têm um papel determinante aquando do florescimento de uma nova relação, pois capturar a atenção do outro, expressando pensamentos e partilhando percursos pessoais, envolve muita utilização dos sistemas linguísticos (Alberoni, 2003). Por outro lado, o modo como fazemos uso da língua diz muito acerca de quem somos ao nosso interlocutor, sobre o nosso percurso, nível intelectual e personalidade. Os signos são um instrumento de medição para avaliar um potencial parceiro (Quirk, 2006) e saber falar ‘apropriadamente’ - respeitando as normas definidas pela cultura - é importante na construção de relacionamentos de sucesso (Stevens, 1997).

Assim sendo cultura, linguagem e amor são conceitos que se influenciam mutuamente nas sociedades humanas e as comunidades Surdas não são excepção.

Método

Natureza e Objectivos

O presente estudo teve como principais objectivos conhecer o modo como na Comunidade Surda Portuguesa os jovens se relacionam entre si, explorando as circunstâncias em que as relações de amor e amizade se iniciam para um grupo de 10 jovens, de modo a compreender a forma como os valores culturais Surdos e a LGP se manifestam no florescimento destes relacionamentos.

Tratou-se de uma investigação qualitativa de carácter etnográfico na qual se utilizou como instrumento metodológico de recolha de dados o inquérito por questionário. Este foi construido tendo como base sete perguntas de investigação focalizadas em matérias como a definição de amor, a sua função na vida dos Surdos, os papéis de género, os critérios de selecção de um potencial amigo ou parceiro romântico, os espaços em que estas relações se iniciam, a importância da LGP no processo e os pontos de vista dos informantes acerca das relações Surdo/Surdo e Surdo/ouvinte.

De forma a construir um instrumento de recolha de dados eficaz, foi conduzida uma entrevista exploratória a um líder Surdo, reconhecido como tal pela comunidade Surda, cujo testemunho influiu na escolha dos tópicos a constar do questionário. A autora dispôs também do acompanhamento por parte de um grupo de líderes Surdos com conhecimento profundo da cultura Surda e da LGP, essencial para colmatar lacunas provenientes do estatuto ouvinte da investigadora.

O inquérito por questionário foi construído em Língua Portuguesa mas traduzido para LGP aquando da sua aplicação aos participantes, em sessões individuais. Da sua estrutura constaram questões fechadas, questões de escala e questões abertas. Não é usual a inclusão de questões abertas na estrutura de inquéritos por questionário. Porém, a escassa literatura que existe acerca do tema em estudo impossibilitou o estabelecimento de categorias de resposta para questões fechadas e, consequentemente, optou-se por registar de forma livre os testemunhos dos participantes. Do questionário constaram três partes: Informação Pessoal, Língua e Pertença Cultural e Relações de Amor. As respostas dadas foram classificadas, para efeitos de análise, em Perguntas de Caracterização do Participante e Perguntas de Experiência Relacional, tendo as primeiras fornecido informação detalhada acerca do grupo de sujeitos e as segundas fornecido dados para resposta às questões de investigação do estudo.

Participantes e Recolha de Dados

Foram convidados 10 jovens Surdos, de idades compreendidas entre os 22 e os 32 anos, 5 do sexo feminino e 5 do sexo masculino. Procurou-se obter um grupo heterogéneo a diversos níveis: proveniência de diferentes meios sócio-económicos, trajectos pessoais díspares, diferentes estatutos relacionais (com ou sem relação de amor romântico, com ou sem amigos/parceiros românticos ouvintes), formas de aquisição e utilização linguística (LGP, Língua Portuguesa e idiomas estrangeiros orais ou gestuais).

Como critérios de selecção estiveram uma alta fluência em LGP, um carácter dinâmico e interventivo na comunidade Surda Portuguesa, e o estatuto de sócios do Centro de Jovens Surdos, em Lisboa. Todos os sujeitos habitam a área metropolitana da Grande Lisboa. Dos 10 participantes, 5 são filhos de pais Surdos e 5 filhos de pais ouvintes.

O inquérito por questionário foi aplicado em cenários informais, na área da Grande Lisboa, que variaram de acordo com a disponibilidade do participante. A duração de cada sessão foi aproximadamente de 2 horas e meia.

Os dados obtidos foram analisados de acordo com o tipo de questão de que provinham: escolha múltipla, escala ou aberta. Nos primeiros dois casos as respostas foram contabilizadas e interpretadas e no terceiro os textos produzidos pelos participantes foram sujeitos a análise de conteúdo, mais especificamente análise temática.

Resultados

Devido à natureza qualitativa desta investigação, os resultados obtidos são apenas aplicáveis ao grupo de participantes estudado e não são generalizáveis à totalidade dos jovens Surdos Portugueses ou à comunidade Surda Portuguesa.

O amor surge definido como um fim a atingir na vida dos participantes, a maioria dos quais consideram que encontrar uma ‘alma gémea’ na vida amorosa é dos principais objectivos nas suas vidas. Trata-se de uma colecção de sentimentos positivos de carácter universal, que tem o poder de mudar as malhas sociais, pois a sua presença leva à ausência de conflito entre os seres humanos. São identificados vários tipos de amor como o amor pela família, pelas crianças, a amizade e o amor romântico. Surge porém uma tipologia própria dos membros das comunidades Surdas: O Amor pelos Surdos nacional e internacionalmente, o sentimento de irmandande, de povo à escala mundial, que os membros destas comunidades têm uns para com os outros.

O amor é descrito como tendo a função de prevenir o isolamento e trazer felicidade na vida das pessoas Surdas; é dito que nos faz crescer e evoluir pois é através dele que partilhamos quem somos com os outros e dos outros recebemos conhecimento novo; traz consigo a possibilidade de continuidade da espécie humana; e uma comunicação eficaz é referida como essencial a relações de sucesso.

Os papéis de género são identificados pelo grupo como sendo diferentes, sendo mencionadas características e ideais tradicionais relativos ao comportamento de homens e mulheres. Alguns participantes mencionam pensar que as diferenças são mais acentuadas em indivíduos idosos do que por entre os jovens Surdos da sua geração.

De todas as hipóteses de locais e circunstâncias para encontrar novos parceiros na amizade e no amor romântico constantes do inquérito por questionário efectuado, o grupo selecciona apena duas: Associações de Surdos/ Eventos Surdos e Escolas. São estes, de facto, os locais nos quais aglomerados da comunidade Surda existem e onde as relações se tecem numa língua e cultura comuns.

Os participantes do estudo enumeram uma série de critérios para a escolha de potenciais parceiros na amizade e no amor romântico, critérios esses baseados nas suas preferências pessoais como o humor, a criatividade ou a inteligência. No entanto, é revelada uma preferência por gestuantes fluentes ou pessoas com uma atitude Surda, ou seja, com conhecimento da cultura Surda ou, pelo menos, com abertura e interesse acerca do mundo dos Surdos.

A Língua Gestual Portuguesa é identificada como muito importante no estabelecimento de uma comunicação com pessoas Surdas ou ouvintes, é descrita como a ‘língua rainha’ da comunidade Surda, dotada de uma riqueza incomensurável para os participantes. É através dela que se torna possível educar a comunidade ouvinte com o objectivo de deitar por terra velhos preconceitos para com os Surdos, e renovar a concepção da pessoa Surda para uma imagem de um indivíduo completo, com uma língua e cultura próprias, um membro de uma ‘nação imaginada’ (Anderson, 1983) sem pátria geográfica mas com um património linguístico e histórico único. Para estes membros da comunidade Surda a LGP permite ainda o precioso acesso à informação sobre a sociedade em geral, e crianças e jovens acedem a uma identidade e cultura minoritária via esta língua vísuo-espacial.

Quando questionados acerca dos seus pontos de vista quanto a relações de amizade e amor romântico entre duas pessoas Surdas e entre uma pessoa Surda e uma pessoa ouvinte, as respostas obtidas permitem a elaboração de um perfil válido para o grupo quanto à natureza destes dois tipos de relacionamentos. É dito que as relações, sejam elas de amizade ou amor romântico, entre dois membros da cultura Surda tendem a ser mais profundas devido à existência de uma língua e cultura comuns, ao invés do que tende a suceder em relacionamentos entre um membro do Mundo Surdo e outro do Mundo Ouvinte. Aqui, as relações tendem a ser mais superficiais devido à questão da barreira linguística e cultural que se ergue entre os dois intervenientes na relação. Não obstante, alguns participantes mencionam que, mesmo assim, qualquer uma destas relações pode alcançar o sucesso independentemente da origem cultural dos membros da díade. Desde que a pessoa ouvinte revele interesse para com a cultura Surda e demonstre respeito para com a herança histórica e linguística dos Surdos, envolvendo-se na comunidade Surda, ‘tudo é possível’.

Conclusões

Relativamente ao papel da LGP no florescimento das relações de amizade e amor romântico para os jovens Surdos, registou-se uma grande variedade de dados obtidos. Para os membros deste grupo, a fluência em LGP parece não ser um requisito obrigatório no outro para a existência de relacionamentos destes tipos. Alguns informantes requerem, principalmente, respeito pela sua cultura e identidade diferentes.

Os resultados desta pesquisa surgem pontuados por referências a alguns valores da cultura Surda, mencionados na esfera do amor romântico e da amizade: uma comunicação clara e eficaz, a valorização da LGP, a importância do acesso à informação, a compreensão e o respeito para com a experiência e a língua Surdas, e a abertura à diversidade.

Os participantes deste estudo enfatizam que uma atitude de abertura para com as suas necessidades enquanto pessoas Surdas, que incluem a LGP e a cultura Surda, é preferível nos indivíduos com quem estabelecem laços de amizade e de amor romântico.

Conclui-se que “o conhecimento sobre a cultura Surda e possivelmente o conhecimento de LGP, dependendo da preferência da pessoa Surda, da sua personalidade e estatuto de língua (bilingue ou monolingue), parecem de facto aproximar as comunidades ouvinte e Surda, permitindo um intercâmbio mútuo de informação e, com ele, uma compreensão mútua mais profunda das diferenças e semelhanças entre pessoas Surdas e ouvintes” (Pereira, 2008: 137).

Seria importante complementar as introspecções fornecidas pelo presente estudo através da criação de linhas de investigação orientadas para a exploração dos diversos tipos de amor na comunidade Surda Portuguesa. De certo trariam à luz conhecimento relevante e aplicável na vida das pessoas Surdas, em domínios como a Educação, as famílias, a vida laboral e a própria vida associativa nestas comunidades. Um olhar atento quanto às restantes esferas culturais que integram a cultura Surda dar-nos-ia uma noção cada vez mais completa e detalhada das texturas, sentires e crenças de que esta minoria cultural é composta, contribuindo para um conhecimento cada vez maior do seu dinamismo interno, enquanto culturas perscrutadas per se, ao olho clínico da ciência humana.

Estudar a comunidade Surda Portuguesa, bem como as restantes comunidades Surdas do mundo, não é apenas produzir conhecimento acerca das culturas humanas, é contribuir para a sensibilização das sociedades ouvintes e, consequentemente, para uma melhoria na qualidade de vida das pessoas Surdas.

Mantenhamos em mente que olhar para a diversidade não se trata de olhar o outro, focando a nossa atenção no que ele/a não tem quando comparado a nós mesmos; olhar para a diversidade significa colocarmos um desafio a nós próprios: o de aprender uma nova perspectiva e mudarmos para, assim sendo, crescer como seres humanos.

Notas

1 O termo “Surdo” é usado neste estudo como um conceito que descreve uma realidade linguístico-cultural, a de ser-se membro de um grupo minoritário com a sua própria língua e cultura: a comunidade Surda. Difere do termo “surdo”, que apenas se refere a uma realidade auditiva e biológica (Ladd, 2003).

Bibliografia

1. Alberoni, F. (2003). O mistério do enamoramento . Bertrand Editora. Lisboa. Portugal.

2. Almeida, M. J. (2007). A criança surda e o desenvolvimento da literacia. Dissertação de Mestrado apresentada à Universidade de Aveiro/Escola Superior de Educação de Setúbal. Portugal.

3. Amâncio, L; Wall, K. (2004). Família e papéis de género: Alguns dados do Family and Gender Survey (ISSP). Em: VIII Congresso Luso-Afro-Brasileiro de Ciências Sociais . Universidade de Coimbra.
Coimbra, Portugal.

4. Anderson, B. (1983). Imagined Communities . Verso. Londres, Reino Unido.

5. Cabral, E. (2005). Dar ouvidos aos Surdos. Velhos olhares e novas formas de os escutar. Em: O. Coelho (ed.), Perscrutar e Escutar a Surdez . Edições Afrontamento. Lisboa. Portugal.

6. Fromm, E. (2002). A arte de amar . Pergaminho. Cascais. Portugal.

7. Gleitman, H. (1986). Psicologia . Fundação Calouste Gulbenkian. 3ª Edição. Lisboa. Portugal.

8. Greeley, A.; Durkin, M. (2002). The Book of love . Tom Doherty & Associates. Nova Iorque. EUA.

9. Hall, E. (1959). The silent language . Premier Books. Nova Iorque. EUA.

10. Hall, E. (1976). Beyond culture . Anchor/Doubleday. Nova Iorque. EUA.

11. Hall, E. (2006). The power of hidden differences. Acedido em: 11, Junho, 2007, em: http://www.lcc.gatech.edu/~herrington/classes/6320f01/hall.html.

12. Kyle, J. e Woll, B. (1985). Sign Language . The study of deaf people and their language . Cambridge University Press. Cambridge. Reino Unido.

13. Ladd, P. (2003). Understanding Deaf culture: In Search of Deafhood. 1ª Edição. Multilingual Matters Ltd. Clevedon. Reino Unido.

14. Lane, H., Hofmeister, R. e Bahan, B. (1996). A journey into the Deaf-World . Dawn Sign Press. San Diego, Califórnia. EUA.

15. Maxwell-McCaw, D., Leigh, I. e Marcus, A. (2000). Social identity in Deaf culture: A comparison of ideologies. Em: Culture and Language Coloquium. Washington DC, 2002, Gallaudet University. EUA.

16. McGinnis, A. (1979). The Friendship factor . Augsburg Publishing House. Minneapolis, EUA.

17. Morrow, L. (2000). The Warmth of Friendship in a Cold Season. Time Magazine. Acedido em: 25, Outubro, 2007, em: http://www.time.com/time/nation/article/0,8599,92984,00.html

18. Pereira, J. (2008). Demonstrações de amor: Estudo do papel da Língua Gestual Portugues e da cultura Surda no comportamento afectivo de 10 jovens Surdos. Dissertação de Mestrado apresentada à Universidade Católica Portuguesa, Instituto de Ciências da Saúde. Lisboa, Portugal.

19. Pinto, F. (2005). Os (Des) Afectos da Inteligência… O Possível Diálogo entre Cognição e Afectividade. Publicatio UEPG - Ciências Humanas, Ciências Sociais Aplicadas, Linguístic a, Vol. 13:7-12. Brasil.

20. Quirk, J. (2006). Os espermatozóides são dos homens, os óvulos são das mulheres. DIFEL, S. A. Lisboa, Portugal.

21. Rabin, C. (1996). Equal Partners- good friends: empowering couples through therapy . Routledge, Londres. Reino Unido.

22. Schlesinger, H.; Meadow, K. (1971). Sound and Sign . University of California Press. Berkeley, CA. EUA.

23. Skutnabb-Kangas, T. e Phillipson, R. (1994). Linguistic human rights, past and present. In: T. Skutnabb-Kangas e R. Phillipson (eds.). Linguistic human rights. Overcoming linguistic discrimination.
Mouton de Gruyter. Berlim e Nova Iorque. EUA.

24. Stevens, J. (1997). Best friends: how to grow a friend. Acedido em: 7, Novembro, 2007, em: http://www.cyberparent.com/friendship/growdirectory.htm

25. Stokoe, W., Casterline, D. e Croneberg C. (1965). A dictionary of American Sign Language on linguistic principles. Gallaudet College Press. Washington DC. EUA.

26. Wurm, S. (2001). Atlas of the world’s languages in danger of disappearing . 2ª Edição. UNESCO Publishing. Paris.

27. Torres, A. (2000). Amor e sociologia: da estranheza ao reencontro. Em: IV Congresso de Sociologia - Painel temático Lugares e expressões dos afectos. Portugal.

28. Turner, G. (1990). British cultural studies . Unwin Hyman. Londres, Reino Unido.

Comentários