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Joana Morêdo Pereira
Joana Morêdo Pereira
Int.LGP/Investigador
Cultura Surda - a bandeira de um povo dentro de outro
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Publicado em 2012
Castro-Caldas, A. & Ferreira Martins, F. (eds). Cadernos da Saúde, Nº2, Vol. IV: 65-70. Instituto de Ciências da Saúde, Universidade Católica Portuguesa. Lisboa, Portugal
Joana Morêdo Pereira
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Resumo

Desconstruir a representação da pessoa Surda como indivíduo inacabado, inferior e incapacitado pela falta da audição permite apresentar ao público ouvinte uma realidade totalmente inversa, rica e surpreendente. Afinal, a pessoa Surda com “S” maiúsculo é alguém com um sentido de pertença a uma comunidade minoritária, orgulhoso falante de uma língua que se move no espaço e desenha ideias, opiniões e sentires que nos chegam pelos olhos. Afinal, os espaços onde estes indivíduos se movem detêm valores e padrões comportamentais próprios - a cultura Surda, a bandeira que a comunidade Surda empunha na constante luta pelo acesso à igualdade de direitos. Apresentamos a fundo os resultados deste estudo qualitativo, onde se analisa o papel da Língua Gestual Portuguesa (LGP) e da cultura Surda na forma como se iniciam as relações de amor, campo fértil para manifestações linguísticas e culturais. Inquirimos 10 jovens Surdos sobre o modo como pensam a amizade e o amor romântico e os dados recolhidos revelaram posições de soberbo interesse quanto à escolha de amigos ou parceiros românticos. O requisito máximo é uma atitude de abertura para com a diversidade e de respeito para com a cultura Surda, os seus valores e língua.

Desconstruindo a imagem de pessoa incompleta - Construindo a de membro de uma minoria cultural

Perspectivar a pessoa Surda 1 como um indivíduo detentor de uma identidade cultural que se destaca da das pessoas ouvintes é algo a que ainda não estamos habituados em Portugal.

Em esferas tão diversas como a Saúde, a Educação e os Média encontramos conceitos “a sublinhado” nos textos que tecemos na comunicação diária, instituídos pelo hábito mas não forçosamente correctos. Lemos nos lábios, nas folhas dos jornais e nos ecrãs uma imagem da pessoa Surda como um ser isolado, diminuído pela ausência ou menor eficácia de um dos seus sentidos, impossibilitado de aceder ao uso das suas plenas capacidades cognitivas e intelectuais (Higgins, 1980). Tudo isto surge motivado pela ligação que julgamos existir entre a palavra oral e o desenvolvimento pleno do cidadão.

Mas a crença de que a linguagem humana existe apenas na modalidade oral é falsa (Stokoe, Casterline e Croneberg, 1965; Gleitman, 1996). A pessoa Surda não é linguisticamente muda (Lane, 1992). O requisito básico para acedermos à concretização das potencialidades humanas, para a construção diária de estruturas cognitivas que albergam a representação da informação que retiramos do mundo e que alimentam o intelecto humano, o pensamento, a emoção e cognição humana é a presença de uma língua estruturada (Castro Caldas, 2000; Luria, 1987; Vigotsky, 1996). E os Surdos têm-na. A língua gestual de cada país é um instrumento através do qual se dão nomes às coisas, se dão nomes a nós mesmos, se perspectivam passados e futuros, e se ganha um sentido de direcção na nossa existência.

Assim sendo, a pessoa Surda que tem nas mãos esta “língua rainha 2” tem ao seu alcance não só a plena concretização das suas potencialidades humanas mas também o fazer parte de uma intrincada rede relacional tecida por uma comunicação gestual.

Nas palavras de um dos participantes deste estudo, a Língua Gestual Portuguesa (LGP) “é a base de todos os relacionamentos (Surdos). Da nossa língua nasce uma maneira de pensamento cultural e essa cultura é também uma maneira de partilharmos os nossos ideais, um lugar onde criamos empatia uns com os outros”.

Se nos dedicarmos a analisar as diferentes concepções de cultura existentes na literatura das Ciências Sociais, da Antropologia, da Psicologia e de muitas outras áreas do saber que procuram explanar o que abarca este conceito, conseguimos retirar uma súmula que contém o que é mais ou menos transversal a todas elas. Cultura é um evento exclusivamente humano. É um todo complexo, constituído por padrões comportamentais definidos, pela teoria dos membros de um grupo acerca do seu lugar no mundo, pela percepção que esse grupo tem de si mesmo e das suas perspectivas futuras. Tudo isto brota da existência de uma rede relacional, proporcionada por uma comunicação estruturada, comum, carregada de simbolismos que espelham todos estes conteúdos.

A língua e as teias de relações humanas que unem os membros de uma dada comunidade são, assim sendo, produtores de cultura. As comunidades Surdas em todo o mundo, e a comunidade Surda Portuguesa, preenchem os requisitos desta definição e, para além disto, os seus membros advogam que detêm, de facto, um modo de vida do qual se orgulham, rico em história e significado. De acordo com Ladd (2003), “se as pessoas Surdas dizem que têm uma cultura, estão a referir-se ao sistema de crenças que detêm, o que é em si mesmo prova suficiente para a existência de tal conceito 3” (Ladd, 2003: 253).

Como já defendido em Pereira (2008b), as comunidades Surdas encerram uma cultura própria e são menores em número do que a maioria populacional do país onde vivem. As experiências dos seus membros incluem um baixo estatuto de poder, o que motiva uma luta constante para atingir um acesso à informação e à vida social e política em igualdade de oportunidades com os seus pares ouvintes. Trata-se de comunidades que se desenvolvem separadamente das comunidades maioritárias por meio dos espaços físicos e linguísticos que as caracterizam, desenvolvendo uma visão do mundo moldada por uma existência visual e pela língua que utilizam (Turner, 1990). São portanto, tal como os Nativos Americanos, minorias culturais.

A minoria cultural Surda “encaixa” nos parâmetros basilares que sustentam os conceitos de “minoria” e de “cultura”, mas é também caracterizada por outros que a diferenciam das demais culturas humanas.

As pessoas Surdas estimam os seus espaços em comunidade, partilham a experiência de serem Surdos e de terem uma história cultural em comum, celebram-na por meio de efemérides, eventos culturais, desportivos e políticos, lutando em conjunto por um futuro alternativo que desejam alcançar. No entanto, conceitos como a transmissão cultural, a etnicidade e o desenvolvimento cultural, parte das definições convencionais de cultura, não se aplicam por inteiro à cultura Surda.

A transmissão cultural não se efectua dentro de uma mesma família. Cerca de 90 a 95% das crianças Surdas nascem em famílias ouvintes, pelo que instituições como as Associações de Surdos e as Escolas de Surdos têm um papel fulcral na transmissão de valores e padrões comportamentais ao longo das diferentes gerações. A etnicidade é um conceito considerado quase gémeo do de cultura, e implica a pertença a um grupo com características somáticas, culturais e linguísticas em comum (Universal, 1995). Nos membros da cultura Surda é frequente que pais e filhos não pertençam ao mesmo grupo cultural pois apenas cerca de 5% das crianças são filhas de pais surdos (Kyle e Woll, 1985), ou seja, o parâmetro biológico não se inclui na definição. Por último, há a questão do desenvolvimento cultural involuntário, ou seja, a asserção de que o desenvolvimento cultural começa inequivocamente aquando do nascimento. Para muitas pessoas Surdas a identificação e consequente imersão na cultura Surda ocorre num período mais tardio da sua vida. O acesso a esta cultura não está disponível logo no início da vida e o factor escolha desempenha um papel no processo, o que colide com o pressuposto tradicional.

Existem ainda outros traços que distinguem a cultura Surda das demais culturas humanas, como o facto de ser uma cultura apátrida, ageográfica, ter características diaspóricas e possuir poucas construções materiais (Ladd, 2003).

O Amor Surdo - manifestação cultural de uma minoria

Uma das esferas que compõe as culturas humanas é, precisamente, a dos relacionamentos afectivos que brotam das redes interaccionais. Quisemos estudar a forma como se estabelecem laços afectivos de amor romântico e de amizade num grupo de 10 jovens Surdos portugueses, de modo a explorar o papel da cultura Surda e da sua língua neste processo.

Tratou-se de um estudo de carácter qualitativo, interpretativo, no âmbito de actuação das Ciências Sociais, com vista a trazer aos olhos dos leitores ouvintes detalhes que ilustrassem o modo de Ser Surdo.

Após uma entrevista exploratória com um líder da comunidade Surda Portuguesa, foram elaborados inquéritos por questionário de acordo com várias temáticas delineadas pelas perguntas de investigação do estudo, tendo sido aplicados a dois grupos de jovens Surdos distintos: 5 participantes filhos de pais Surdos e 5 participantes filhos de pais ouvintes. Esta distribuição de informantes justifica-se pela existência destas duas realidades na comunidade em estudo, pelo que quisemos representá-las ambas na descrição dos dados recolhidos. Os jovens inquiridos tinham entre 20 e 35 anos de idade e todos são membros activos da comunidade Surda Portuguesa, pessoas que se empenham na causa Surda, sendo visível a sua participação em eventos e instituições de Surdos.

Os questionários foram respondidos em Língua Gestual Portuguesa ou Língua Portuguesa, de acordo com a preferência dos participantes e os resultados obtidos apresentamo-los seguidamente, organizados de acordo com as referidas temáticas supra citadas.

De!nição de Amor

De entre as respostas dos nossos participantes encontramos o Amor caracterizado como um sentimento universal, uma necessidade comum a todos os seres humanos, que uma vez preenchida nos faz sentir bem e que protege a existência humana pois garante a continuidade da espécie. Uma relação de Amor, seja ela de amizade ou amor romântico, é vista como a partilha de quem somos, das nossas vidas com outro ser humano, uma díade na qual a confiança, a honestidade e a clareza da comunicação por meio da utilização de uma língua comum permitem que nos transformemos em alguém melhor, cujo percurso conta com o apoio do seu par.

O Amor é descrito por alguns jovens como uma realidade que tem o poder de unir os povos. A profunda partilha de quem somos enquanto grupo, acompanhada pelo respeito mútuo pelas diferenças poderia minorar os conflitos humanos. Trata-se de uma diversidade de sentimentos positivos, que podemos dirigir à humanidade no seu todo, aos membros das nossas famílias, aos amigos, a nós mesmos e à comunidade Surda. Este último “tipo” de Amor não respeita barreiras políticas nem geográficas e é descrito como um sentimento que abarca as comunidades Surdas nacionais e internacionais, unindo as pessoas Surdas num género de nação imaginária que se estende além fronteiras e que se reflecte num sentimento de solidariedade para com as pessoas Surdas cujas vidas carecem de qualidade.

A função do Amor na vida das pessoas Surdas

O Amor para as pessoas Surdas, na opinião dos nossos inquiridos, é essencial para as suas vidas porque liga as pessoas entre si e previne o isolamento, traz o contacto humano e um consequente maior conhecimento sobre o mundo e o outro. Isto é particularmente importante para um membro da comunidade Surda, pois a sua vida é passada grandemente em contextos de isolamento linguístico. Na vida laboral quotidiana, muitas pessoas Surdas vêem-se deparadas com um permanente esforço para entender e ser entendidas na comunidade ouvinte.

Dizem também os inquiridos que o Amor tem a função de trazer a felicidade, e que um relacionamento de Amor deverá trazer aos intervenientes respeito, aceitação e compreensão de quem são, quer como indivíduos quer como membros da minoria cultural e linguística Surda. Enfatiza-se o valor e o respeito pela diversidade, valor profundamente relacionado com pertença a uma comunidade minoritária que luta pela igualdade de direitos.

Opiniões sobre os papéis de género

Homens e mulheres são descritos como seres diferentes uns dos outros em termos do seu comportamento, forma de estar e actividades que desenvolvem. Revelam-se aqui crenças generalizadas quanto às diferenças de género, algumas vezes baseadas em experiências pessoais, outras influenciadas por preconceitos ainda vigentes na sociedade portuguesa. Porém, foi também enfatizado que as diferenças individuais são muito importantes, pelo que não devemos incorrer em generalizações exacerbadas.

Os papéis de género foram descritos como algo que muda através do tempo e alguns informantes opinam que a juventude Surda Portuguesa tem uma atitude mais flexível e pautada por parâmetros mais igualitários do que as gerações mais antigas.

Circunstâncias para a amizade e o Amor romântico

Os espaços físicos da comunidade Surda (Escolas, associações de Surdos e eventos Surdos) surgem aqui identificados como locais que proporcionam o convívio e o estabelecimento de novos laços afectivos, constituindo as circunstâncias em que os participantes encontraram a maioria das pessoas com as quais se dão actualmente. As instituições Surdas possibilitam o acesso à cultura Surda bem como à formação de redes relacionais e têm a mais particular importância para as pessoas Surdas filhas de pais ouvintes. Esta questão surge nos nossos resultados, que demonstram que os participantes filhos de pais ouvintes encontraram, de facto, a maioria dos seus actuais amigos em associações e eventos da comunidade Surda.

Critérios quanto à selecção de pares

Os nossos informantes referiram traços comummente mencionados aquando da discussão daquilo que constituirá um parceiro romântico ou amigo dito “ideal”, citando a inteligência, o humor e a ternura como critérios de selecção. Surge nos nossos resultados, porém, um critério adicional, muito próprio do estatuto de membro da comunidade Surda. Um potencial amigo ou namorado/a terá de revelar interesse na comunidade Surda Portuguesa, será alguém que seja preferencialmente um gestuante fluente e esteja disposto a conhecer a comunidade “por dentro”. Estes dois últimos critérios são considerados mais importantes do que a idade ou o estatuto social.

Importância da Língua Gestual Portuguesa

A LGP é o elo que permite uma comunicação eficaz nas relações entre duas pessoas Surdas, fornecendo o acesso à identidade Surda e à cultura Surda, bem como à informação em geral. Numa relação entre uma pessoa Surda e uma pessoa Ouvinte, a LGP permite uma troca de ideias sem barreiras, seja directamente ou por meio da utilização de intérpretes; desempenha uma função pedagógica pois é usada no ensino de LGP a ouvintes; e assume um papel na sensibilização e formação cívica dos cidadãos pois permite que os membros da comunidade Surda possam educar a maioria ouvinte, contrariando e progressivamente eliminando velhos preconceitos.

Pares Surdos ou pares ouvintes?

Quando questionados acerca destes dois tipos de relações, os nossos informantes frisam que quer a nível da comunicação quer a nível dos sentimentos envolvidos em ambas as díades, relações entre duas pessoas Surdas e relações entre uma pessoa Surda e outra ouvinte representam realidades muito diferentes.

Os relacionamentos entre duas pessoas Surdas são caracterizados como experiências ricas e profundas, envolvidas numa cultura e numa língua comuns que permitem uma comunicação mais transparente entre as pessoas envolvidas. Os relacionamentos entre uma pessoa Surda e uma pessoa ouvinte são considerados realidades mais leves e frágeis, onde as diferenças, tanto na língua como na cultura, podem conduzir à existência de barreiras na comunicação e a mal entendidos. Porém, os informantes mencionam também que estes relacionamentos poderão ter hipótese de funcionar a um nível mais profundo se a pessoa ouvinte se envolver na comunidade Surda, nas suas tradições e língua. Mais uma vez, destaca-se aqui a questão da abertura à diversidade e do respeito pela minoria cultural Surda.

Os nossos resultados sobre os pontos de vista dos sujeitos acerca das relações entre duas pessoas Surdas e entre uma pessoa Surda e outra ouvinte sugerem que alguns participantes confiarão mais nas pessoas Surdas do que nas pessoas ouvintes, porque os primeiros são parte da sua comunidade e dos seus círculos relacionais mais próximos. Isto poderá ter a ver com o facto da maioria das pessoas gestuantes serem Surdos. Considerando que a comunicação flui naturalmente com gestuantes, permitindo a troca de informação e a existência de confiança, estes jovens Surdos associam possivelmente sentimentos de confiança a outras pessoas Surdas. Não obstante, isto não exclui a ideia de que, para algumas pessoas Surdas, exista um elevado nível de confiança quando se relacionam com pessoas gestuantes ouvintes.

Na opinião dos inquiridos, estes dois tipos de relações são no entanto similares em termos da definição de amor. Em ambos existem sentimentos recíprocos de afeição, apoio e compreensão e as pessoas aproximam-se umas das outras porque se identificam entre si. Os resultados do nosso estudo revelam também que, apesar das diferenças apontadas quanto à natureza em geral nas díades monoculturais (Surdo/Surdo) ou biculturais (Surdo/ouvinte), quando se trata de verdadeiras e duradouras amizades e relações de amor romântico, as pessoas têm a capacidade de conseguirem adaptar-se umas às outras: ouvintes a Surdos e Surdos a ouvintes. Um participante refere ainda que um dos grandes desafios de uma relação bicultural são os círculos de amizade do amigo/cônjuge. É crucial que cada pessoa garanta que o outro se sinta à vontade, num clima de respeito para com a sua identidade cultural, quando na presença de grupos de pessoas Surdas ou ouvintes.

Conclusões - cultura e língua no Amor

Podemos constatar que, ao abordar a temática das relações de amor romântico e amizade, surgem na voz dos participantes deste estudo muitas referências à cultura Surda e à influência da LGP no processo de relacionamento.

A cultura Surda, como outras culturas humanas, compreende padrões comportamentais e define o que os membros de um grupo valorizam mais. Os nossos resultados mostram alguns valores definidos pela literatura da especialidade como valores Surdos: a comunicação clara e eficaz, o acesso à informação, a compreensão e o respeito para com a experiência e a língua Surdas, e a abertura à diversidade.

Apesar da reduzida abrangência deste estudo, concluímos que a cultura Surda tem possivelmente um papel no início das relações de amizade e de amor romântico. Existe uma forma de amor que estes jovens nutrem para com a sua comunidade e para com os Surdos como grupo mundial, baseado num entendimento “na pele e na alma” que surge da partilha de uma experiência vivida em comum - o modo de ‘ser-se Surdo’.

A língua gestual, em particular a Língua Gestual Portuguesa, fornece às pessoas Surdas Portuguesas um sistema claro e estruturado de comunicação. É uma língua que não só reflecte a cultura Surda, mas que também desempenha um papel fulcral no despontar e manutenção de relações. Trata-se de um critério de escolha de potenciais amigos ou amantes para alguns dos nossos inquiridos, sendo retratada como um factor coadjuvante para o sucesso destas relações.

Porém, houve algumas discrepâncias quanto ao papel da LGP nas respostas obtidas, o que poderá indicar que, para alguns membros da comunidade Surda Portuguesa, embora uma atitude de respeito para com quem são, com a sua identidade cultural e com a diversidade sejam exigidas, o conhecimento da LGP não é essencial aquando da formação de novos laços relacionais. Encontrámos um padrão mais coeso a respeito de uma atitude aberta da outra pessoa para com a cultura Surda do que a respeito da fluência em língua gestual per se. Os participantes partilham muitas das atitudes das pessoas ouvintes quanto aos relacionamentos de amor, revelando interesses e preocupações básicos, comuns a qualquer ser humano. Porém, estes jovens frisam que uma atitude aberta para com as suas necessidades como pessoas Surdas, que incluem a LGP e a cultura Surda, é preferível nas pessoas com quem formam estes laços.

Uma “atitude Surda” sobrepõe-se ao estatuto auditivo de um potencial par, revelando-se numa capacidade de entendimento da natureza visual e cultural da pessoa Surda. Há um factor determinante quando se decide se uma pessoa é membro da comunidade Surda ou não: a chamada ‘surdez de atitude’. Esta significa que, se alguém se identifica como parte da comunidade Surda, e se os outros elementos da comunidade o aceitam como parte dessa comunidade, então o seu estatuto de membro é confirmado (Ladd, 2003).

Em conclusão, o conhecimento sobre a cultura Surda e possivelmente o conhecimento da LGP, dependendo da preferência da pessoa Surda, da sua personalidade e estatuto de língua (bilingue ou monolingue), parecem de facto aproximar as comunidades ouvinte e Surda, permitindo um intercâmbio mútuo de informação e, com ele, uma compreensão mais profunda das diferenças e semelhanças entre pessoas Surdas e ouvintes.

Este estudo sobre o amor pretendeu ser um primeiro passo na exploração da cultura Surda em Portugal. Para completar e enriquecer esta nova área do conhecimento - Os Estudos Surdos - recomenda-se a elaboração de estudos mais abrangentes dentro deste tema, bem como outros que versem sobre outras áreas culturais desta minoria, tais como: a arte Surda, a narração de histórias por Surdos, eventos Surdos e a vida associativa Surda. Há ainda muito terreno a desbravar para que obtenhamos uma perspectiva mais clara da forma como as pessoas Surdas se autoperspectivam, mas trata-se de um trilho valioso, que vale a pena presentes e futuros investigadores percorrerem. Por meio dele poderão ser criadas as estruturas sociais necessárias a uma qualidade de vida que se coadune com os objectivos da minoria Surda, enquanto cultura, enquanto prova viva da diversidade. Esperamos que este trabalho tenha contribuído para trazer à esfera pública Portuguesa o conhecimento etnológico que já por outras nações se produz quanto à perspectiva linguístico-cultural do chamado “Deaf Way”, o modo de ser-se Surdo. Cremos ter contribuído para abrir caminho a uma mudança de atitudes, em que se confine a concepção defectológica da surdez aos domínios da saúde, divulgando-se em todas as outras a concepção da pessoa Surda como ser completo, em toda a sua existência, como um cidadão de valor que pode e tem o direito de contribuir, enriquecendo a sociedade Portuguesa com mais uma língua, mais uma cultura, mais uma mão cheia de experiências acerca do que é ser-se Humano.

Notas

1 A utilização da terminologia “Surdo” ao invés de “surdo” prende-se com a definição de James Woodward (1972). “Surdo” descreve uma realidade social, a de ser-se membro de um grupo minoritário com a sua própria língua e cultura: a comunidade Surda.
2 Expressão usada por um dos participantes deste estudo.
3 Tradução da autora.

Bibliografia

1. Castro -Caldas, A. (2000). A herança de Franz Joseph Gall. Lisboa: McGraw -Hill.

2. Gleitman, H. (1986). Psicologia. (3.ª ed). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

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6. Lane, H. (1992). A Máscara da benevolência. Lisboa: Instituto Piaget.

7. Luria, A. (1987). Pensamento e Linguagem. Lisboa: Artes Médicas.

8. Pereira, J. (2008a). Demonstrações de amor: Estudo do papel da Língua Gestual Portuguesa e da cultura Surda no comportamento afectivo de 10 jovens Surdos. Dissertação de Mestrado apresentada à Universidade Católica Portuguesa, Instituto de Ciências da Saúde, Lisboa, Portugal.

9. Pereira, J. (2008b). Amor Surdo: Realidade Cultural? O papel da Língua Gestual Portuguesa e da cultura Surda no comportamento afectivo de 10 jovens Surdos. In Castro-Caldas, A. & Ferreira Martins, F. (Eds). Cadernos da Saúde, (Nº2, Vol. I: 191-197). Instituto de Ciências da Saúde, Universidade Católica Portuguesa.

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11. Turner, G. (1990). British cultural studies. London: Unwin Hyman.

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14. Woodward, J. (1972). Implications for sociolinguistics research among the Deaf. Sign Language Studies, I, 1 -7.

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