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Ronaldo Manasss
Ronaldo Manasss
Professor/Investigador
O surdo e a religio: limites e possibilidades
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Publicado em 2016
Capitulo da tese de doutorado - Ecos do Silncio: culturas e trajetrias de surdos em Macap.
Ronaldo Manasss
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Resumo

Este trabalho constitui um excerto da tese de doutorado intitulada “Ecos do Silêncio: culturas e trajetórias de surdos de Macapá”. Considerando que uma das experiências estruturantes da humanidade é a religiosa, em todas as sociedades há ou houve algum tipo de celebração e reverência ao sagrado. Este artigo tem como objetivo elucidar e refletir sobre as construções conceituais dos surdos nas suas práticas religiosas, enfocando as relações com o místico. A análise lança mão das trajetórias de vida dos surdos a partir de entrevistas e visitas às igrejas das cidades de Macapá e Santana, bem como aos terreiros de Candomblé. Nos eventos da Igreja Protestante e católica foi constatado, na pesquisa da tese, que nesses templos, os indivíduos surdos assumem uma posição de coadjuvantes, ficam num espaço delimitado e à parte, convivem somente com outros surdos ou com ouvintes que sabem a língua de sinais. Não participam efetivamente das cerimônias. Conclui-se que a religião ainda é uma grande incógnita para os surdos, mesmo nas em que eles recebem certa atenção, são muitas as performances e, na maioria das vezes, o surdo não as compreende. A atitude de indiferença vista em vários momentos na trajetória de surdos na religião demonstra o quanto esta população ainda é estigmatizada. Nos terreiros de candomblé ainda existe apenas uma possibilidade de inserção do surdo, pois não se encontrou nenhum registro de surdos frequentando estas casas, mas apenas o interesse deles em conhecer a religiosidade afro.

Introdução

Uma das grandes questões existenciais da vida humana é a religião, em todas as sociedades há ou houve algum tipo de celebração religiosa, alguma adoração ao sagrado, místico, a alguma força sobrenatural. Gaarder et al (2001:8) elucidam uma questão interessante, quando trazem situações que são recorrentes em qualquer sociedade, dizendo que cada pessoa tem sua visão sobre a vida, entretanto, esta não é exatamente a questão, mas o que se coloca como pano de fundo, pois, até que ponto esta visão é realmente produto do pensar individual, da reflexão de cada indivíduo, ou do ato de externalizar as inferências e convicções de outrem?

Pensando nestas questões, tentaremos aqui elucidar e refletir sobre quais conceitos os surdos constroem sobre a religião, como veem este processo, que para o senso comum, é místico e sobrenatural, pois até alguns meses atrás, eu mesmo acreditava que surdos só frequentavam as igrejas por conta da presença de intérpretes e que estes acabavam por determinar a qual denominação religiosa os surdos estariam vinculados, daí se tem historicamente a presença de surdos na Igreja Católica, Presbiteriana, Assembleia de Deus e Batista, isto me referindo ao Amapá.

Por ser então uma reflexão sobre o acesso do surdo à religião, aos processos religiosos, em se tratando de Brasil, um país vasto em todas as concepções que se possa imaginar, e evidentemente, na religião, não seria diferente. Teremos de acessar outro conceito sociológico, o de 2 campo religioso. Para tanto, bebemos na literatura clássica de Bourdieu (2002), uma vez que aqui não refletiremos acerca de uma possibilidade religiosa, mas sim de três: catolicismo, protestantismo e candomblecismo, reafirmando bem a cena religiosa contemporânea brasileira. Este último, particularmente, criado em solo brasileiro, de acordo com Prandi (2005).

Há outra questão também importante a se dizer sobre esta pesquisa. Sabe-se que nenhum Comitê de Ética permitiria permanecer numa pesquisa os nomes verdadeiros dos interlocutores, entretanto, por falar sobre surdos, sujeitos historicamente estigmatizados, e por muito tempo invisibilizados, resolvemos, em comum acordo com eles, e até por um pedido destes, usar seus nomes verdadeiros em toda a pesquisa, mas com um recurso diferente: para cada interlocutor surdo, criamos um cartoon, apresentando-os com o sinal de cada um deles.

O sinal a que nos referimos é uma característica da comunidade surda, um artefato visual dos surdos. Sempre que uma pessoa entra na comunidade de surdos, ela é apresentada normalmente como qualquer outra pessoa, entretanto, os surdos, no mesmo momento, criam para ela uma forma mais simplificada de se apresentar. Uma vez que a Libras não é uma língua alfabética, seria muito complicado, para qualquer pessoa, sempre que fosse se apresentar ou apresentar alguém, ter que usar a datilologia, ou seja, como se fosse em língua portuguesa, soletrar o nome da pessoa ou do lugar a que se está fazendo referência no ato comunicativo.

Como por exemplo, se eu não tivesse meu sinal em Libras, e precisasse me apresentar a um ou mais surdos teria que dizer meu nome: R - O - N - A - L - D - O. Por isso, para evitar um trabalho maior e dinamizar a comunicação, os surdos, ao conhecerem uma pessoa, perguntam o nome dela, esta usa a datilologia para dizer seu nome, eles, por sua vez, olham atentamente, buscando alguma característica marcante no corpo da pessoa, e então criam o sinal, que geralmente é a junção da primeira letra do nome da pessoa, a alguma característica dela. E esta é uma característica da comunidade surda amapaense, não podendo ser usada como parâmetro para outros grupos de surdos.

Para iniciar nossa reflexão, é importante pensar no conceito de religião. Este processo tão místico, que envolve os indivíduos e se confunde com a história do mundo. Para isto, é preciso recorrer aos clássicos da sociologia como Durkheim (1996), este afirma que precisamos entender o que é religião, até para que não se confunda um sistema de ideias, e assim chamemos de religião, quando na verdade não é.
Durkheim (1996) ainda nos adverte a apagar qualquer ideia pré-concebida, sobre o que seja religião, mas também diz que os homens foram obrigados a criar um conceito sobre ela, mesmo antes da ciência da religião poder fazer suas reflexões, o que nos indica que é uma reflexão muito antiga.

De acordo com Durkheim (1996), crentes ou incrédulos, em algum momento da vida são levados a criar juízo de valor sobre o que lhes rodeia, seja juízo de valor a partir da ciência, ou, muitas vezes, advindo dos processos religiosos em que estejam imbuídos, gerando, algumas vezes, atitudes de intolerância. Mesmo o Brasil tendo sua cena religiosa tão diversa e plural, estes processos de intolerância religiosa já chegaram aqui, quando se tem notícia das várias invasões, por exemplo, feita por cristãos, a casas de umbanda e candomblé.

Nos idos de 1912, no Estado de Alagoas houve a chamada “operação 3 Xango”, que consistiu na invasão, e destruição de casas de culto afro, fiéis foram agredidos física e moralmente segundo Rafael (2004); também se sabe do episódio que ficou amplamente conhecido, do pastor evangélico que pisoteou e quebrou uma imagem de uma santa católica durante um programa de televisão.

Ao estudar, refletir sobre a religião, é preciso compreender como esta constitui sua estrutura, por assim dizer. Como se dá uma Missa, na Igreja Católica, ou um Culto, na Igreja Assembleia de Deus, ou uma 4 Obrigação, no candomblé. Ao citarmos estas três possibilidades, estamos acessando conceitos que Durkheim (1996) nos chamou atenção ao falar da religião. O autor afirma que é preciso nos desprendermos de qualquer conceituação geral sobre as religiões. É preciso entendê-las concretamente, verificando e descobrindo suas intercessões, suas semelhanças. Pois a religião só pode ser definida, seja ela qual for, a partir de suas características, que se encontram em toda parte onde houver religião (DURKHEIM, 1996).
Neste contexto, historicamente no Brasil, isto a partir do início do século XX, os surdos têm sido “acolhidos”, fizemos a marcação porque a partir de uma análise mais sociológica e antropológica deste processo de acolhimento, se verifica ainda a produção de diferenças entre os surdos e os ouvintes nas instituições religiosas e, por assim ser, mesmo produzindo e reforçando diferenças, a religião mostra sua importância para com os surdos.

Durkheim (1996) evidencia que ao refletirmos sobre religião, não temos o direito de excluir uma em detrimento de outra, pois não há elementos lógicos para se fazer tal exclusão. Ademais, para aquele que vê na religião, uma manifestação da atividade humana, todas as religiões são instrutivas, sem exceção. Daí então trazermos a baila, a cena religiosa brasileira, em pelo menos três possibilidades, quando se fala de sujeitos surdos, pois aqui não se olhará para o que chamamos deficiência, e sim para o indivíduo, dotado de inteligência e com reais chances de realizar seu culto ao sagrado, seja ele qual for.

Gaarder et al (2001:13) dizem que não há como compreender uma questão de política internacional sem antes entender o fator religioso. Se assim é, passaremos a construir as análises de idas de surdos a algumas instituições religiosas de Macapá, Santana e, no caso do Candomblé, em Belém - PA, esta, como uma tentativa fortuita de conhecer a experiência do surdo nas religiões que estão fora de um padrão normativo social e aceitável, que são os terreiros, ou casas de Axé.

Sendo assim, as questões aqui levantadas inicialmente, sobre o que vem a ser religião, e mais, o que é esta para o surdo? São questões que nos suscitam reflexões, à medida que a sociologia tem vasta literatura, debruçada sobre tal objeto. Entretanto, não há tanta experiência quando se fala da cena religiosa para os surdos, sujeitos há muito tempo estigmatizados socialmente, por sua condição, e que é tão somente comunicativa.

A este respeito é preciso aprofundarmos um pouco mais, pois em Goffman (1988), estigma faz referência a uma marca indelével, por muitas vezes construída socialmente a um sujeito. A partir das expectativas que se criam dentro de um grupo, a respeito de um individuo, ao entrarmos em contato com este, e quando este não atende as expectativas que foram pré-estabelecidas no grupo, naturalmente, tende-se a estigmatiza-lo, diminuindo-o frente aos demais interlocutores do grupo a que pertença.

Com os surdos é bem presente este processo de estigmatização, pois são indivíduos que não falam nem escutam. É evidente que não falam como os demais sujeitos, mas falam, todavia, para a sociedade majoritária, de pessoas que falam e escutam com autonomia, este é um traço distintivo e inferiorizante para o surdo. Logo, como em sua maioria nascem em lares em que geralmente são os únicos nesta condição, sua primeira experiência em grupo, na primeira instituição social — a família, é estigmatizante, pois não cumprem o papel esperado, de falar e ouvir, por seus pais, irmãos e outros parentes.

Para evidenciar melhor esta questão traremos uma alegoria dos surdos nas igrejas e nos Terreiros visitados. Acompanhamos por alguns meses, um grupo de surdos de uma igreja protestante em Santana-AP. Em média, quinze (15) surdos fazem parte de um projeto de mais ou menos dez (10) anos. Ainda acompanhamos outro grupo de surdos na Igreja Católica, em média 10 (dez) pessoas surdas, que frequentam somente as missas de domingo à noite, pois nesta há a interpretação em Libras. E por fim, o terceiro grupo, de dois jovens professores, que demonstraram interesse na afro religião, o candomblé.

1. Cleonice e sua prática religiosa

Cleonice nasceu surda, filha de pais ouvintes, é uma das interlocutoras desta pesquisa. Ao falar da igreja, relatou que começou a frequentar a Igreja Assembleia em Santana, porque soube que lá participavam muitos surdos, na época tinha quatorze (14) anos, havia chegado do interior do Pará com quase nenhum contato com surdos, sabia pouco de Libras, o pouco que sabia, aprendera na escola, pois, antes, sua comunicação era por meio de palavras soltas em português. Como em sua casa ninguém sabia Libras, ela se esforçava em aprender algumas palavras para escrever e mostrar a seus pais e irmãos o que tentava dizer, então, foi para a igreja com o intuito de aprender mais a Libras, pois soube que surdos frequentavam e havia uma intérprete que traduzia tudo o que o pastor falava nos cultos. Desde então, começou a perguntar a intérprete o que significa isto e aquilo, mostrando os sinais que esta fazia e ela desconhecia. Mas foi, por várias vezes, repreendida pela intérprete, que dizia: “não posso ficar te ensinando Libras aqui, pois tenho que interpretar o que o pastor fala”. Então combinaram de chegar mais cedo aos domingos pela manhã, antes da escola dominical, para que pudessem estudar Libras. A intérprete ensinava os sinais e os significados, e Cleonice anotava suas dúvidas, para perguntar no domingo seguinte.

Com o passar do tempo, Cleonice aprendeu bastante, se apropriou da língua, e em dado dia, foi convidada pela intérprete a divulgar o projeto da Missão em Libras que a igreja na época preparava. Ela pensou: “mas eu sei pouco, não tenho como divulgar, chamar mais surdos, tenho medo”. Mesmo assim, ela começou a convidar outros surdos. O projeto foi crescendo e hoje já completam onze (11) anos que a igreja dispõe de intérpretes nos cultos e celebrações importantes.

Contudo, chamou atenção para uma questão, disse que a igreja é muito acomodada, não se preocupam em interagir conosco, parece que, porque têm intérpretes, a responsabilidade em transmitir o que acontece nos cultos é só deles, e os demais membros da igreja não interagem e não se interessam em aprender Libras, então o grupo de surdos fica sempre separado e em contato somente com os intérpretes e com os próprios surdos, algumas pessoas até demonstram medo em se aproximar dos surdos, como se não vissem a importância em aprender Libras.

Durkheim (1996) evidencia que a religião é um exercício para explicar tudo aquilo que foge à ciência, uma especulação do que não se pode responder com base científica, ou seja, o mistério. Entretanto, o próprio Durkheim (1996) diz que para algumas religiões, o cristianismo, por exemplo, o mistério deixou de ter tanta importância.

Neste contexto cabe a indagação de como os surdos que frequentam a igreja citada acima enxergam a religião? De fato, apreendem pelo mesmo viés que os demais fiéis, olhando para a religião como algo tido como a explicação, ou tentativa desta, para aquilo que a ciência não consegue responder, se de acordo com o relato, as interações entre surdos e demais fiéis são em certa medida veladas, diríamos até obscuras?

Neste sentido, entender a religião não é nem de longe, um exercício simplista, pelo contrário, a complexidade da matéria requer aprofundamento teórico, de tempo e dedicação. Entretanto, o tempo em que pudemos dispor para as reflexões fora exíguo. Mesmo assim, pudemos perceber o quão complexa é a teia de relações construídas dentro da igreja, entre os surdos e os demais fiéis.

A partir do relato, também é possível refletir sobre outra questão que ficou bem evidente. A de que o surdo ainda é um Outsider dentro da igreja. Elias (2000), ao mencionar este conceito, tratava de sujeitos que, por serem de fora de um grupo de estabelecidos, tinham dificuldade de acessar os espaços, e se colocar como integrantes do grupo social vigente. As barreiras construídas pelo grupo de estabelecidos eram inúmeras, levando os surdos a usar recursos como a fofoca para descaracterizar, e impedir a entrada dos estranhos.
No relato de Cleonice, não se percebe a fofoca, mas fica clara a falta de abertura e de reconhecimento dos surdos como de fato integrantes da cena religiosa local. A barreira neste caso é mais invisível, comunicacional, entretanto, muito forte ao se pensar no tempo em que a igreja recebe surdos e até em alguns momentos se regozija disso. Percebe-se ainda um traço limitador e de que os surdos são outsiders, tentando ultrapassar a barreira invisível da comunicação, e da interação social.

Neste contexto, é importante refletirmos sobre outra questão. Weber (2004) relacionou o protestantismo ao capitalismo. E mesmo hoje, século XXI, ao visitarmos a referida igreja que Cleonice frequenta, foi possível visualizar o modo como os surdos se vestiam ao participarem dos cultos, sempre com roupas muito bem escolhidas, passadas, as mulheres de saias longas, modelos esporte fino. De fato um habitus, mas, no caso dos surdos, uma performance inconsciente, pois ao questionarmos o porque de usarem aquelas roupas, diziam: “porque disseram para usar assim”, “Vir a igreja Louvar ao Senhor devemos vir assim, Deus merece o melhor” (fala de Cleonice em sua entrevista).

Weber (2004) aponta para a constante relação, não por acaso, de empresários protestantes, que evidentemente construíram uma imagem de prosperidade, a partir dos bens que possuem, de boas roupas, veículos novos, possibilidades de viagens, enfim. Consumismo e capitalismo muito bem imbricados.

E os surdos, ao frequentarem a igreja são levados a agirem da mesma maneira, sem qualquer questionamento. Primeiro pela comunicação estar sempre comprometida, pois, em quase todas as cerimônias, nos cultos, somente os intérpretes interagiam com estes. E tanto quanto os outros fiéis há um processo de dominação de seus líderes, que os instruem a não questionar suas determinações.

Fica evidente mais uma vez o processo estigmatizador, aquele descrito por Goffman (1988), que os surdos enfrentam desde os seus lares, até a igreja que frequentam. O discurso parece de proteção, todavia, há nitidamente uma tentativa de cerceamento, por meio do viés protecionista.

1.1 A experiência do Surdo na Igreja Católica.

Seguindo a construção de trajetórias de surdos e a religião, passaremos a falar de outro grupo, que frequenta a Igreja Católica de Macapá, a Catedral da cidade, localizada no centro da cidade, tem uma imponência arquitetônica e certa influência histórica na cidade. A catedral de São José, localizada na Rua São José é uma construção bem recente, dos idos dos anos 2000 na capital Macapá.

O grupo de surdos que frequenta as missas é de aproximadamente dez (10) surdos. As missas são rezadas da mesma maneira, sem nenhuma mudança do ponto de vista canônico da igreja católica. A exceção é a presença de uma intérprete que faz a interpretação de todas as missas. O grupo de surdos passou a frequentar as missas a partir da presença de Gabriel, surdo muito conhecido na comunidade local, tem seu pai como um dos diáconos da igreja, o que lhe proporcionou um acesso maior as missas. E a partir dele, outros surdos passaram a frequentar as missas até criarem um projeto voltado para os surdos, chamado de pastoral dos surdos. No ano de 2014, um grande evento foi feito pela igreja para celebrar os 10 anos desta pastoral.

Foi realizada a 1ª Missa em Libras, com a presença de um padre surdo, vindo de Goiânia especialmente para rezar a missa. Vários surdos, até de outras religiões, prestigiaram a missa. Uma vez que se tratava um padre surdo ministrando, a comunidade surda do Amapá se mobilizou para que o maior número de surdos participasse. O evento foi organizado pela Diocese de Macapá, mas a frente estava o Gabriel, professor surdo e interlocutor desta pesquisa.

Em Silva (2012) encontramos uma herança histórica entre a igreja católica e os surdos. O autor relata a presença de pelo menos 7 congregações no Brasil que atuaram na educação e catequese de surdos, inclusive sendo as pioneiras para a criação de alguns Institutos de Educação para Surdos. São elas: Congregação das Irmãs de Nossa Senhora do Calvário, Missionários Gualandianos da Pequena Missão para Surdos, Congregação Irmãs Salesianas dos Sagrados Corações, Congregação Sociedade das Filhas do Coração de Maria, Congregação das Irmãs Franciscanas de Nossa Senhora Aparecida, Associação das Obras Pavonianas de Assistência e Congregação Filhas da Providência para Crianças Surdas, todas advindas da Europa, foram determinantes para a criação de escolas para surdos no século XX (SILVA, 2012).

A pastoral em Macapá, chamada Pastoral em Libras, tem um trabalho pioneiro, que se iniciou com o pai de Gabriel. Por ter um filho surdo, ele se preocupou em dar acessibilidade para que ele pudesse acompanhar as missas e programações da paróquia que frequentava. Hoje, a diocese de Macapá tem um grupo com uma média de 15 surdos, entre adultos e jovens que frequentam assiduamente as missas aos domingos. Contam com a presença de dois intérpretes que se revezam na interpretação das liturgias dominicais. É importante dizer que mesmo com o trabalho que a diocese faz com os surdos, não se percebe mudanças na liturgia, esta segue religiosamente a descrição e a ritualística da Igreja Católica, inclusive as pessoas que participam dos momentos de leitura ou de cânticos são somente ouvintes. Não há uma mudança evidente na realização da missa, a exceção é a presença dos intérpretes fazendo a tradução de tudo que é falado durante a liturgia.

A cena religiosa evidenciada aqui, nos faz refletir por meio do conceito de ser católico, que nos aparenta ser um dos fatores preponderantes no relato. De fato o fiel católico a exemplo do que afirmou Neris (2008), este, diferente do fiel protestante, pode o ser sem de fato fazer parte. O que ficou evidente no relato. Os surdos estão ali, compondo a cena religiosa, mas de fato não necessariamente fazem parte do contexto.

Figura: interpretação da missa
Fonte: acervo de pesquisa Ronaldo Manassés

Analisando a figura acima, é possível ver ao fundo o grupo de pessoas ouvintes, conversando separadamente do grupo de surdos. Mesmo a igreja tendo um largo espaço de tempo realizando as missas com a presença de intérpretes e pessoas surdas. Ainda se vê a nítida separação entre os dois grupos e a falta de entrosamento, com rara exceção evidentemente, mas o envolvimento natural que se espera com a presença dos surdos, de fato ainda não ocorreu.

É importante dizer que nos eventos realizados pela igreja, fomentados pelo Gabriel e outros surdos, é que se vê a presença de surdos como atores partícipes da liturgia, fazendo as leituras em alguns momentos, com auxílio das intérpretes que traduzem o que os surdos estão sinalizando, já que as pessoas em sua maioria não sabem a língua de sinais.

Em outro grande momento da igreja católica no norte do Brasil, a festa do Círio de Nazaré, que é uma das maiores manifestações religiosas do norte amazônico, festejada em Belém e também em Macapá, houve uma mudança com a presença de intérpretes nas missas, eles participam no início do percurso, durante a procissão e ao final na missa de encerramento. E na fala dos surdos que participaram como o Gabriel, eles dizem: “foi uma benção o círio com intérpretes este ano”.

Seria então a partir do conceito de campo religioso dado por Bourdieu (2002) uma maneira de dominação e legitimação de um grupo sobre outro, neste caso, o grupo dos que ouvem, se sobrepõe ao dos que não ouvem, uma vez que não fazem as mudanças necessárias para que estes de fato participem da liturgia da igreja.

Ainda no ano de 2014, houve na mesma igreja um casamento de surdos, ao mencionar desta maneira, me parece categorizar os surdos como diferentes, mas é preciso dada a relevância com que o evento foi tratado a época. Seria um casamento comum como os demais, isto se os noivos não fossem surdos, pois para a celebração fora chamado um intérprete que também era seminarista, para que realizasse a cerimônia. Os detalhes foram acertados como ocorre em qualquer matrimônio, dia e hora combinados, muitos surdos foram convidados, uma vez que os noivos faziam parte da comunidade surda, e é comum em seus eventos a participação maciça de seus integrantes, e neste caso, independe a religião a qual faziam parte, o que importava é que surdos estariam casando, logo a participação de todos era muito importante.

No dia combinado, todos na igreja esperando a entrada da noiva como tradicionalmente ocorrem nos matrimônios católicos, uma surpresa havia sido preparada para os noivos. Sem que soubessem, Gabriel contatou o padre surdo que já tinha vindo á Macapá quando houve a comemoração do aniversário da Pastoral em Libras, e no momento em que os noivos já estavam a postos no altar para dar inicio a cerimônia, o seminarista interprete assim o fez. Começou a cerimônia dando um recado do padre surdo, em que este lamentava não poder ter ido ao casamento dos dois, e então pediu que estes olhassem para a porta da igreja e que lá teriam uma surpresa. Quando assim olharam, entra o padre surdo, a noiva muito emocionada, chorou e os noivos abraçaram o padre, este, sorrindo, deu inicio ao matrimônio.

Além da beleza do momento, a sequência dos dias é que foi inusitado, pois a imprensa local fez a cobertura do evento. Nos jornais locais, no dia seguinte, não se falava em outra coisa, “o casamento dos surdos” e que contou com a presença de um padre também surdo. A este respeito trazemos a fala de Josy, interlocutora da pesquisa:

não quis ir ao casamento, porque estavam fazendo parecer uma coisa de outro mundo. Todo mundo casa, surdos também casam, oras. Por que precisa imprensa, monte de gente para ver, como se não fosse uma coisa natural casar? Eu sou surda, já casei, descasei, isso é normal na vida de qualquer pessoa.

Mesmo sendo ainda uma relação pontual e não o esperado para o acesso de surdos aos templos religiosos há um grupo em uma igreja que tem furado a barreira do preconceito e da 5 estigmatização. O que deveria ser uma constante em qualquer templo religioso, fosse da igreja católica ou de qualquer outra religião. Ainda assim, é possível se fazer as inferências de que a realidade no campo religioso começa a mudar para os surdos amapaenses.

No tocante à igreja católica, parece ser ainda um processo em construção, por isso, ainda não é clara a intenção de facilitação de acesso comunicacional para os surdos, e sim para as demais pessoas que frequentam a igreja, uma vez que nenhuma mudança pontual na liturgia da igreja se percebeu ao longo do tempo em que o projeto de evangelização de surdos já tem.

Neris (2002) pontua que há uma alquimia religiosa, em que o campo religioso, não só cumpre uma função de atendimento as demandas religiosas, como também atende questões ideológicas. Seria então uma legitimação do que os próprios surdos chamam de ouvintismo. Quando ouvintes se sobrepõem aos surdos, e estes vivem uma subalternidade social, mesmo no campo religioso.

Os eventos em que estes têm participação efetiva ainda são pontuais, como os descritos aqui, a missa em Libras, o casamento com a presença de um padre surdo, ou ainda os intérpretes no círio de Nazaré. Mesmo assim, o restante do calendário religioso continua intocável, sendo realizado com os intérpretes nas missas e os surdos sentados nos bancos sem uma participação e interação com os demais frequentadores.

2. A Experiência no Candomblé

Esta seção começa com um relato que, no início desta pesquisa, era impensável para nós, pois sempre acreditamos que surdos frequentavam somente igrejas. Evidente que era uma visão muito deturpada, não só do surdo, como também da própria religiosidade afro-brasileira, primeiro, por total desconhecimento meu sobre a religiosidade, e segundo, porque não pensava em pesquisar no campo religioso, esta foi uma questão que surgiu no próprio campo.

Como bem disse Durkheim (1996), não se pode pensar em religião impregnado de nossos conceitos e ideias preconcebidas, afinal, fomos obrigados a criar conceitos sobre religião, que estão longe de serem verdadeiros.

Sendo assim, a questão se apresentou durante o campo: dois surdos, um rapaz, Hegon, e uma moça, Josy, ambos professores universitários, durante uma conversa informal na casa de um amigo, nos falaram do interesse em conhecer o candomblé e o espiritismo, pois têm muita curiosidade em saber o que são “essas coisas”, como ocorrem e o que significam.

O interesse se deu em virtude de virem, na casa que estávamos, algumas imagens num altar, começaram a perguntar o que era, pois era diferente dos santos católicos. O professor, dono da casa, foi explicando e eu tentando traduzir para Libras, com alguma dificuldade, porque até este dia não sabia da existência de sinais para expressões do candomblé, pois em sua maioria, estão em 6 Iorubá, e isto ainda acentuou mais o interesse deles em conhecer a religião de matriz Africana – candomblé. Por fim, combinaram de ir a uma festa no terreiro que o professor frequenta, pois é adepto do candomblé, para conhecerem um pouco da religião. O que não ocorreu por falta de tempo dos professores, deixando mais pertinente suas indagações sobre a religião.

Mas o que é o Candomblé? Faremos aqui uma pequena digressão no texto para tentar dirimir esta dúvida, levando em consideração que para a grande maioria da população, as religiões de matriz africana são uma grande incógnita. Para tanto, bebemos nos escritos de Prandi (1991), e de acordo com ele, o candomblé é uma criação genuinamente brasileira, a partir de uma herança Iorubá, que é liderada por um homem ou mulher e que tem autoridade máxima sobre todos que pertencem ao grupo. Este ou esta líder rende culto a um Orixá, que será o Orixá fundador daquela comunidade religiosa, a qual todos da casa, indistintamente deverão também reverenciar. Para este Orixá é que será levantado um templo principal, a casa de Axé ou terreiro e para os demais Orixás cultuados na casa, serão construídos templos secundários, chamados quartos ou casas de santo.

A hierarquia da casa é a mesma dos Iorubás, ou seja, os mais jovens reverenciam os mais velhos, aos quais deverão prostrar-se diante dos seus pés, como faziam os filhos iourubanos. Diferentes dos povos africanos, esta linhagem e reverência não é mais consanguínea, e sim descoberta pelo Ifá (deus da adivinhação), dada ao pai ou mãe de santo da casa, que por meio do jogo de búzios descobre a qual Orixá o novo adepto é filho ou filha.

Ainda de acordo com Prandi (1991), por volta do século XIX é que os negros puderam agregar-se e ter mais interação entre si. Vindos de várias regiões do continente africano, tais como Nagôs ou Iorubás, das cidades de Oió, Lagos, Queto, Ijexá e Egbá, além dos povos Fons, aqui chamados Jejes, principalmente os Mahis e Daomeanos, recriaram não só a religiosidade desses lugares, mas também traços culturais africanos, sendo considerada hoje talvez a mais bem acabada reconstituição cultural da África, preservada até os dias de hoje, o candomblé.

Refletindo a partir destas afirmações, logo uma nos chama atenção: se é uma religião inclusiva, hipoteticamente deve receber pessoas com deficiência, surdos especificamente, e a cada evento que participávamos e nos aprofundávamos na religião, sempre que tinha oportunidade, perguntava pelos surdos, já pensando em ser mais uma possibilidade destes interagirem com a sociedade, o que não ocorreu. Visitando terreiros em Fortaleza, Belém e Macapá, não encontramos nenhuma referência da presença de surdos frequentando a religião.

Após a digressão sobre o que seria o candomblé, voltemos à reunião que estávamos na casa dos nossos amigos. Josy imaginou que candomblé fosse igual ao espiritismo, sinalizando inclusive algumas situações de rituais que ela já tinha experiência. Como Ronaldo é intérprete, tentou explicar a diferença entre as duas religiões, mas pela falta de mais experiência na religião, tanto nossa quanto de Josy, este não pode dar muitos exemplos reforçadores para a explicação e, por assim ser, faltam sinais, pois o surdo, ao acessar qualquer ambiente, naturalmente vai criando sinais, num processo de nominação das coisas e pessoas do ambiente.

Entretanto, buscamos algumas respostas sobre a vivência de surdos em algumas casas de Axé de Macapá. Em três casas visitadas, nenhuma delas apontou conhecer algum frequentador ou surdo adepto da religião. Por isso resolvemos, a partir de um convite de um Babalorixá, visitar sua casa de Axé em Santa Bárbara-PA.

Pensando então em como dar mais acesso comunicacional aos surdos, Resolvemos escrever um projeto de pesquisa, em parceria com a professora Josy Vitoria, e do professor Hegon Favacho, também surdo, que entrou na pesquisa por meio da religião, pois estão muito interessados em conhecer a afro religiosidade, como já dito anteriormente, para que além de visitar, pudéssemos criar sinais em Libras para o Candomblé Nação 7 Jeje Savalú, pois a casa em Santa Bárbara-PA é desta nação. Logo, os rituais e nomes de orixás, por exemplo, são diferentes, necessitando então de adequação linguística, criação de sinais específicos.

Passamos uma semana, imersos na casa de Axé. Ronaldo e mais dois integrantes do grupo de pesquisa, a professora Josy e Hegon não puderam ir. A casa estava em obrigação, e como toda casa que assim está, inicia-se o culto ao primeiro orixá — Exú, para que ele abra os caminhos, pois este, para os adeptos do candomblé, é o orixá mensageiro, aquele que leva os pedidos aos outros orixás, por isso, em toda obrigação, ele deve ser o primeiro a ser cultuado.

Ao chegarmos a casa, fomos apresentados a todos que lá estavam e nosso acesso foi permitido pelo Pai Omineram, que nos apresentou a todas as autoridades, pois, no candomblé, assim como em outras religiões, existe uma hierarquização, são Ogans, Ekedes, mães e pais de santo que lá estavam.

Inicialmente, nossa presença foi tida com muita curiosidade por alguns, mas logo na primeira conversa com o sacerdote maior da casa, vindo de Salvador-BA, para conduzir a obrigação, tive a grata satisfação dele se colocar à disposição para dialogar. Perguntou-nos sobre a pesquisa, do que se tratava, fui explicando e ele, muito empolgado, logo disse: “precisamos muito disso meu filho, a nação Jeje Savalú não tem quase nenhum registro escrito e muito está se perdendo”. Foi nos falando dos Orixás que são cultuados na casa e fomos mostrando os sinais em Libras que já existem para alguns, por conta do glossário criado pela pesquisa da Bahia sobre o candomblé Ketu, que é outra nação, outro modo de cultuar os orixás, mas que representa uma equivalência.

E a cada sinal que íamos fazendo, todos que estavam na mesa ouvindo a conversa, pediram logo para que nós ensinássemos, para que pudessem aprender o sinal em Libras de seu orixá, pois, no candomblé, cada pessoa tem uma relação muito íntima com seu deus, seu orixá. Existe inclusive o arquétipo para cada um deles, em que dá características de personalidade e que de acordo com o orixá que a pessoa carrega, muitas características pessoais são explicadas.

Voltamos a Macapá e marcamos uma reunião do grupo de pesquisa para então sistematizar os sinais criados, a partir das filmagens feitas e das fotografias. Ainda contamos com a presença do Pai Omineram, o pai responsável pela casa em Santa Bárbara, para que pudesse dirimir as dúvidas que porventura surgiriam quando da criação dos sinais. Assim criamos alguns sinais como pai de santo, mãe de santo, filho de santo, pai ogan e mãe ekedj. Os sinais, depois de criados, foram filmados para fazer o registro, e posteriormente apresentados a comunidade acadêmica e a comunidade surda amapaense.

Josy diz que mesmo nunca tendo participado de uma obrigação, de nada do candomblé, pensa ser muito importante criar sinais em libras, pois o surdo certamente irá a um terreiro se souber que lá falam sua língua. “O surdo precisa conhecer o universo de possibilidades de religiões, além de conhecer, respeitar cada uma delas. Mas isso só será possível se existirem sinais em Libras. Não tem como o surdo conhecer sem isso. E o surdo tem vontade, mas não vai porque sabe que mesmo sendo religião, as pessoas desconhecem a língua de sinais. E quanto mais sinais tivermos, os termos para reconhecer e entender como cada religião é, poderemos difundir isso no Brasil. Por isso meu interesse no projeto de criação de sinais para o candomblé, eu quero conhecer a religião e difundir esta possibilidade para outros surdos”. (entrevista Josy Vitoria em julho de 2016)

Assim, no dia 25 de janeiro deste ano, 2017, o grupo de pesquisa realizou uma mesa redonda com o tema: A Afro religião e o preconceito racial, e após uma palestra, o grupo apresentou os sinais criados a comunidade acadêmica, alunos do Curso Letras Libras da Unifap e convidados. Após a apresentação, os alunos fizeram algumas perguntas para tirar suas dúvidas acerca dos sinais, as quais foram respondidas pelo professor integrante do grupo e que esteve na visita a casa de Axé em Santa Bárbara-PA. O projeto de criação de sinais ainda continua com uma previsão de mais 3 anos de pesquisa. Uma vez que, para a Nação Jeje Savalú, a qual a casa visitada pertence, não há nenhuma referencia a língua de sinais ou a presença de surdos frequentando. E ao final da pesquisa, o grupo pretende sistematizar um
glossário de sinais, registrá-los, e então divulgar a comunidade surda amapaense e brasileira.

Sendo assim, ao que parece, religião ainda é uma grande incógnita para os surdos. Mesmo nas que estes recebem certa atenção, ainda assim são muitas performances e que na maioria das vezes, o surdo não compreende. A mudança é necessária, a atitude de indiferença vista em vários momentos da trajetória de surdos na religião demonstra o quanto esta população ainda é estigmatizada, pois mesmo o candomblé sendo uma religião tida como aética, inclusiva por admitir em seus adeptos, pessoas incomuns, as chamadas minorias, pessoas muito pobres, com baixa escolarização, homossexuais, estes últimos muito bem aceitos na religião e que em outras religiões seria um tanto quanto difícil de ocorrer sem uma possiblidade de mudança radical de comportamento.

Considerações Finais

Os primeiros questionamentos dos surdos ao irem a uma igreja são: “tem intérprete?”, “quem vai interpretar na igreja?”. Estes seriam então, antes de qualquer acepção ou construção de sentidos do surdo pelo que seja religião, culto religioso, o motivador de estes irem às igrejas.

Neste contexto, nos termos de Goffman (1988), os surdos são estigmatizados inclusive ao tentar acessar uma religião, uma vez que diferente dos ouvintes, não têm a possibilidade de acessar a todos os ambientes, para então, por sua vontade, dizer a qual religião quer ser adepto e seguir, o que demonstra o grande abismo social em que estas pessoas ainda são obrigadas a viver.

Nos parece que a acepção de Durkeim (1996) acerca da religião, aquela que tende a responder as questões existências, e que a ciência não consegue responder, para os surdos, não funciona da mesma maneira. Ainda são nitidamente, não só cerceados de sua escolha, como também excluídos de uma possibilidade de interação social que está a livre escolha de qualquer pessoa, a escolha de uma religião.
Ainda nesta direção, a partir da reflexão acima, cabe outra discussão que acaba sendo associada à questão do estigma da surdez na sociedade, a discussão dos outsiders, em Norbert Elias (2000). Este, fala como uma pequena comunidade vê aqueles que são estranhos ao seu convívio social, como os trata, inclusive a partir da “fofoca”, criando pré-conceitos sobre estes, deturpando suas imagens para que não consigam se encaixar no convívio da comunidade.

Há um movimento muito forte dentro de grupos estabelecidos como o descrito por Elias (2000), no sentido de preservar seu espaço e, sobretudo, impedir que pessoas estranhas a este convívio entrem e também conquistem seu espaço, sendo reconhecidas como parte do grupo e é a partir da diferença que estas estratégias se acentuam. No caso de surdos, estes são notadamente impedidos pelos não surdos, os estabelecidos, de acessarem seu grupo, seus bens culturais, a vida social como um todo, uma vez que não dão acesso comunicacional a estes.

É comum em processos religiosos, na igreja Protestante, e na Católica em que presenciamos as mesmas atitudes. Os surdos são coadjuvantes em todos os eventos, ficam num espaço delimitado, à parte, convivem somente com outros surdos ou com ouvintes que sabem língua de sinais. Não participam efetivamente das cerimônias. Isto indo de encontro ao peso histórico na educação de surdos que as igrejas protestantes e católicas têm, os rituais dentro da Assembleia em Santana-AP e na Catedral católica em Macapá, não mudam. Seguem uma sequência, até dogmática, estipulada e organizada pelos pastores, e no caso da igreja católica, dos padres e bispo de Macapá, líderes, que determinam qual a dinâmica que o culto e a missa terá.

Em um dos domingos na igreja protestante, o grupo de surdos ensaiava uma música, com os outros jovens da igreja. Pode soar estranho dizer que surdos estavam ensaiando música, entretanto, se dava da seguinte maneira: Um dos intérpretes se posiciona a frente do grupo e, à medida que a música é tocada, este vai traduzindo para Libras e os surdos vão repetindo. Por isso, alguns surdos não gostam desse tipo de apresentação, pois de fato não sentem a música, tornam-se muito mais elementos de embelezamento no conjunto da apresentação para os ouvintes que estiverem assistindo, uma vez que não acompanham a melodia, os sons, acompanham a tradução da música feita pelo intérprete, e se esta não incorporar elementos metafóricos, expressões corporais profundas para então dar significância ao surdo, a interpretação será sem sucesso e trará ao surdo o mesmo efeito que traz para aqueles que, além de ver os movimentos das mãos do intérprete, também escutam os sons da música.

Em trinta e seis domingos acompanhando os cultos desta igreja. Sempre se seguiu esta dinâmica, com algumas exceções na programação. Existem três intérpretes para acompanhar o grupo de surdos, que se revezam na interpretação de todo o culto. “Ainda que outros já passaram, mas depois de aprender a tradução e ganhar fluência em Libras, não se envolveram mais no trabalho da igreja, pois não há remuneração, aqui só fica quem tem amor pelo trabalho.” (fala do intérprete da igreja).

Participando do culto e nos domingos que estivemos observando, não percebemos nenhuma participação do grupo de surdos, como há do grupo de adolescentes, de senhoras, e testemunhos de pessoas que visitam a igreja. A exceção de um domingo em que o preletor da noite repetiu por varias vezes uma frase, “missões eu faço parte”, e pedia para que a igreja repetisse. Em dado momento, ele olhou para o intérprete e pediu que o grupo de surdos ficasse de pé e sinalizasse a frase em Libras. Em seguida, o intérprete foi até o púlpito da igreja e ensinou a todos como dizer a frase em Libras e depois pediu que fizessem, assim o fizeram e depois, equivocadamente, todos aplaudiram, como se os surdos pudessem ouvir as palmas. Para a comunidade surda, as palmas devem ser com as mãos para o alto, espalmadas, com o movimento de rotação do punho em seu próprio eixo.

Sendo assim, em nenhum momento do culto houve qualquer atividade em que os surdos apresentassem algo à assembleia. Pelo contrario, em vários domingos se repetia a mesma cena — Sempre que algum dos grupos mencionados se dirigia à frente para fazer sua apresentação, às pessoas tomavam conta de todo o espaço, inclusive ficando em frente os surdos, impossibilitando estes visualizarem a interpretação. Em um desses domingos, uma moça surda sinalizou para nós dizendo: “sempre fazem isso, falta de respeito com os surdos”. Apontando para o grupo que estava à frente apresentando uma música.

No candomblé, estas interações ainda podem ser uma possiblidade a ser aberta, um mundo a ser descoberto, pois nenhuma das casas visitadas pensou, ou pensa em pessoas que usam outra língua que não seja oral. E diferente das igrejas, que já contam com a presença de surdos, os terreiros
ainda não pensaram nesta possibilidade, ou ainda não receberam em suas casas, pessoas surdas interessadas em aderir à religião, mesmo porque, diferente das religiões cristãs, nas pentecostais, por exemplo, não há uma divulgação do candomblé, não há busca por novos fiéis, e talvez seja uma das razões para ainda não existirem surdos frequentando os terreiros, mas que de fato é uma questão que precisa de mais aprofundamento.

Entretanto, há que se mencionar a boa vontade de alguns líderes (pais e mães de santo) em permitir a entrada de pesquisadores nos terreiros, com a possibilidade de criação de sinais em Libras, não só para difusão da religião afro, (fala do pai de santo), que tanto quanto os surdos, sofre estigmatização, preconceito e rechaçamento por outras denominações religiosas, sobretudo, neopentecostais, mas também para que viabilize mais uma possibilidade de interação e inserção social aos surdos na religião.

Sendo assim, a cena religiosa para o surdo, o campo religioso descrito por Bourdieu (2002), cumpre bem o papel determinista e ideológico, não só das questões religiosas, mas também de poder entre o grupo dos que ouvem, e assim têm autonomia, e o grupo dos que não ouvem, logo, cerceados de autonomia.

Neste sentido, há que se pensar sobre um processo que eminentemente deveria ser de inclusão, pois é baseado no amor ao próximo, ao fomento de sentimentos benéficos aos seus adeptos, aos seus fiéis, mas que ao refletir sobre a presença de surdos, ainda demonstra grande exclusão e apagamento social. Assim como na família, os processos religiosos ainda não são pensados para a inclusão dos surdos como pessoas com uma identidade linguística diferente, própria, mas sim como deficientes. Sendo assim, os têm como uma pessoa inferior, incapaz e que eternamente precisará de auxílio porque não alcançará sua autonomia.

Então concluo este artigo com a seguinte indagação: se a outras pessoas, que oralizam e escutam é dado o livre arbítrio na escolha de sua religião, por que os surdos não podem escolher aquela que melhor o satisfaz como indivíduo? E esta não é uma conclusão nossa, mas dos surdos interlocutores desta pesquisa quando dizem: os intérpretes sempre são ou católicos ou protestantes, logo, temos que ir a estes lugares, porque é onde têm intérpretes (fala do Gabriel, comentando sobre religião). Implicitamente estão dizendo que são obrigados a irem a estes locais e não por uma questão de escolha, como é dada a outras pessoas, ou ainda a possibilidade consciente de não seguir nenhuma religião.

Ao que parece e ficou evidente na pesquisa, é que mesmo numa questão que para outras pessoas é aprazível, uma possiblidade de socialização, de muita interação, solidificação e criação de laços entre pessoas, para os surdos ainda é uma escolha que vem de outrem, o chamado ouvintismo, uma vez que, são estes os não surdos, intérpretes, pais ou outros familiares que escolhem pela pessoa surda sua religião.

Notas

2 A teoria dos campos (talvez melhor definida como “teoria dos campos do poder”), por consequência, não constitui uma teoria geral e universal, como seu emprego indistinto poderia supor, mas uma teoria regional; bem regional do mundo social. Como consequência, a teoria dos campos constitui uma maneira de responder a uma série de problemas científicos, servindo como uma espécie de fermento a imaginação sociológica, mas pode se tornar, em seu momento, um obstáculo para o conhecimento do mundo social. Com efeito, é preciso desconfiar que o campo seja uma concepção relativamente esquelética, que não nos faz ver outra coisa senão espaços de posições, estratégias dos agentes em luta, relações de força (de dominação) e estruturas desiguais de distribuição dos capitais específicos NERI, 2008.
3 Não está mais referido a um passado genealógico, 'consanguíneo, que identifica e legitima cada tronco familiar, como na África, mas liga espiritualmente cada membro da religião, independente de sua origem étnica, a um dos antepassados que formam o panteão das divindades cultuadas em solo brasileiro: os orixás Exu, Ogum, Oxóssi, Ossaim, Omulu, Nanã, Oxumarê, Euá, Xangô, Obá, Iansã, Oxum, Logum Edé, Iemanjá, Oxaguiã, Oxalá. O candomblé, que é brasileiro, ensina que cada ser humano descende de um desses deuses, independentemente de sua origem familiar, étnica, racial ou geográfica. Os orixás são agora divindades universais (PRANDI,2005).
4 A ideia de obrigação, no candomblé, é sempre associada à obrigação ritual, ou seja, à relação entre o deus e seu filho iniciado para o seu culto. Nessa relação, a mãe ou o pai-de-santo é o único intermediador, pois só ele conhece a fórmula de lidar com o orixá da pessoa, orixá que ele “fez”, quando se trata do pai da iniciação original, ou orixá que ele “consertou”, quando se trata de filho ou filha anteriormente iniciada em outra casa. A ideia de dever é sempre referida à divindade, nunca ao outro, ao grupo, à sociedade envolvente. Ou seja, a ideia de obrigação, dever, dívida, pagamento, código de conduta, diz sempre de algo que se realiza no espaço sagrado do terreiro, no culto. No candomblé, o culto é todo organizado em torno de sacrifícios rituais e muitas vezes pessoais, como consequência PRANDI,1991.
5 Um estigma é então, um tipo especial de relação entre atributo e estereótipo, embora eu proponha a modificação desse conceito, em parte porque há importantes atributos que em quase toda a nossa sociedade levam ao descrédito. O termo estigma e seus sinônimos ocultam uma dupla perspectiva: Assume o estigmatizado que a sua característica distintiva já é conhecida ou é imediatamente evidente ou então que ela não é nem conhecida pelos presentes e nem imediatamente perceptível por eles? No primeiro caso, está-se lidando com a condição do desacreditado, no segundo com a do desacreditável. Esta é uma diferença importante, mesmo que um indivíduo estigmatizado em particular tenha, provavelmente, experimentado ambas as situações (GOFFMAN 1988).
6 Os iorubás tradicionais são polígínicos,_com família extensa e habitam residências coletivas formadas de quartos e apartamentos contíguos, os compounds. Cultuam Orixás particulares para cada família, cidade e região (Fadipe, 1970). O chefe mora com a esposa principal e os filhos dela nos aposentos principais; as demais esposas moram com seus filhos, habitando, cada uma, quartos separados. As áreas comuns são reservadas para cozinhar, lazer, trabalho artesanal e armazenamento. A família cultua o orixá do chefe masculino, divindade ancestral que ele herda patrilinearmente, e que é o orixá principal de todos os filhos. Cada esposa cultua também o orixá da família de seu pai, que é o segundo orixá de seus filhos. Assim, os irmãos devem culto ao orixá do pai, que é o mesmo para todos, e ao orixá da mãe, que pode ser diferente de acordo com a herança materna. Como os iorubás creem descender de seus orixás, a origem de cada indivíduo não é necessariamente a mesma. Um compound é, portanto, uma reunião de diferentes cultos, cada um com seus mitos, tabus e cerimônias (PRANDI,2005).
7 São chamados sudaneses os povos situados nas regiões que hoje vão da Etiópia ao Chade e do sul do Egito a Uganda, mais o norte da Tanzânia. Seu subgrupo denominado sudanês central é formado por diversas etnias que abasteceram de escravos o Brasil, sobretudo os povos localizados na região do Golfo da Guiné, povos que no Brasil conhecemos pelos nomes genéricos de nagôs ou iorubás (mas que compreendem vários grupos de língua e cultura iorubá de diferentes cidades e regiões), os fons ou jejes (que congregam os daomenaos e os mahis, entre outros), os haussás, famosos, mesmo na Bahia, por sua civilização islamizada, e outros grupos que tiveram importância menor ou nenhuma na formação de nossa cultura, como os grúncis, tapas, mandingos, fantis, achantis e outros não significativos para nossa história. Para enfatizar a especificidade de cada uma dessas culturas ou subculturas, talvez seja suficiente lembrar que duas das cidades iorubás ocupam papel especial na memória da cultura religiosa que se reproduziu no Brasil: Oió, a cidade de Xangô, e Queto, a cidade de Oxóssi, além de Abeocutá, centro de culto a Iemanjá, e Ilexá, a capital da sub-etnia ijexá, de onde são provenientes os cultos a Oxum e Logum Edé. O candomblé jeje-nagô da Bahia, o batuque do Rio Grande do Sul, o tambor-de-mina do Maranhão e o xangô de Pernambuco são heranças brasileiras desses povos (PRANDI, 1991).

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